quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O REGISTRO PICTOGRÁFICO DA GUERRA PELO LADO FEMININO



A mulher sempre esteve presente na história universal das guerras. A literatura registra feitos como os de Cleópatra do Egito, estrategista, erudita e sábia; Penélope de Ulisses.  Joana D’arc foi uma camponesa francesa que comandou parte do exército francês na Guerra dos Cem anos (1337-1453) e se tornou santa e mártir da França; Maria Quitéria foi a primeira mulher a servir oficialmente ao exército brasileiro na Guerra do Paraguai (1864-1870); Boudica foi rainha do povo britânico celta e comandou os icenos contra a dominação romana na Bretanha (ano 60 ou 61 d.C.).



A maioria das mulheres que tiveram participação ativa na Segunda Grande Guerra Mundial tinha, quase sempre, uma história de tristeza, de perda, de sonhos destruídos. O quadro devastador deixado pelos invasores, pelas forças inimigas separavam pessoas queridas não poucas vezes de forma trágica.


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

BAIRRO DO JEREMIAS: UM COMÍCIO NO PÉ DA LADEIRA


O Bairro do Jeremias em Campina Grande, interior do Estado da Paraíba, por volta do ano de 1980, era ao lado dos bairros de José Pinheiro, Centenário e Liberdade palcos tradicionais dos comícios políticos. Dois locais eram estratégicos. Tinha candidato que preferia fazer seu comício no alto do Jeremias. No começo da Rua Santo Agostinho, ou Simão Bolivar, esquina com a XV de Novembro (principal acesso Centro/Bairro, vindo pelo Bairro da Palmeira), ou no baixo Jeremias. Neste caso, o caminhão ficava na esquina da Rua Francisco Borges da Costa (Rua do Homem Mocego) com a Simão Bolivar, mirando a expansão da Feirinha do Jeremias. O som podia ecoar até à Vila dos Teimosos, de modo que,  quem estivesse hospitalizado no Hospital da FAP, poderia ouvir perfeitamente toda a programação. 

Nessa última opção de local, o caminhão ficava num declive, ligeiramente inclinado, no pé da ladeira.

A gente sofrida composta de trabalhadores assalariados na sua maioria, estudantes, idosos, mulheres e crianças se concentravam na Feirinha esperando a chegada dos candidatos. Não importava se, de repente, a noite fosse tomada por uma leve neblina, e o chuvisco reforçasse aquele friozinho de batida de dentes. Mesmo assim o povo não arredava o pé, do pé da ladeira onde geralmente ficava o caminhão dos candidatos.

Cada candidato tinha seu representante no bairro. Ivan Cabral, um antigo líder comunitário durante muito tempo apoiou Zé Maranhão. Depois, passou a apoiar Ronaldo Cunha Lima. Depois passou a representar Walter Brito. Celinha assume posição de líder e passa a apoiar Ronaldo Cunha Lima. 

Enivaldo Ribeiro, apoiado por Laura de Chico Venâncio. Doutor Damião, por outro comunitário com seu potencial mobilizador  e assim por diante.

O grande atrativo eram os shows com artistas do momento ou da nostalgia romântica. Cantores como João Gonçalves com suas músicas de duplo sentido, Marinêz e os Três do Nordeste com o autêntico forró representavam verdadeiras festas ao ar livre. De início, cantores e bandas de pequena monta, depois, lá por volta das 22h começavam os discursos dos candidatos. Depois, começava o arrasta pé que se estendia das 23h às 0 horas. E o povo lá, firme na diversão. No meio desse fuá, as crianças faziam a festa na disputa por quem juntava mais santinho de candidatos. Eles diziam as mocinhas que distribuiam entre o povo, "tem santinho, aí?"  

O povão gostava também de ouvir os discursos inflamados dos candidatos. Tinha sempre um bêbado ou uma bêbada, ou os dois abraçados dançando juntos e fazendo prezepadas lá na frente do caminhão ou do trio elétrico de Walter Brito. 

Eles gostavam de ouvir Enivaldo Ribeiro, Dr. Damião, Zé Maranhão com aquela tranquilidade que é a sua marca, garantindo que iria lutar pelo "ricurso" necessário para mais saúde, moradia, segurança e tudo mais. 

Entretanto, a emoção era generalizada quando Ronaldo começava a discursar, intercalando aqui e ali com a prosa e a rima. Tinha gente que gritava e aplaudia, as mais atiradas esbravejavam: "Ronaldo, coisa linda!!!"

O resultado desses comícios quase sempre surtia seus efeitos. Dos prosélitos que acorriam para essas agromerações muitos se tornaram grandes defensores das figuras mais emblemáticas da política. Com tais não tinha negociação. O voto era certo em cada pleito, por décadas.


João B Nunes
Formado em Psicologia e Acadêmico de Direito

Memoria Social

1) A Difusora de Laura 
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2011/11/difusora-de-laura.html

2) Ritinha Parteira
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2014/03/ritinha-parteira.html

3) O Cego Zé Maurício
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2013/02/o-cego-ze-mauricio.html

4) A Bodega de Seu Garrincha
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2012/01/bodega-de-seu-garrincha.html

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

DE QUEM É A CULPA?



No Título IX do Código Civil "Da Responsabilidade Civil", no artigo 927, encontra-se expresso o seguinte texto: "Aquele que, por alto ilícito (Cf. arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado à repará-lo. Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem." 

Igualmente importante é termos em vista  o que estabelece o artigo 187, a saber: "Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes."

A doutrina deixa claro que, quanto a responsabilidade civil, três são os elementos da responsabilidade: 1) Conduta humana; 2) Nexo de causalidade; e 3) Dano ou prejuízo.

A conduta humana é todo e qualquer comportamento (positivo ou negativo, consciente ou inconsciente, voluntário ou involuntário, causador de dano ou prejuízo a outrem)  praticado por uma pessoa.

Já o nexo de causalidade é o vínculo existente entre o agente e o resultado danoso.  Para que o nexo causal seja identificado, de acordo com a Teria adotada por Gustavo Tepedino e Carlos Roberto Gonçalves, é preciso que ocorra uma relação direta e imediata entre o comportamento e o resultado.

No artigo 403, está normatizado que "ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as perdas só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito  dela direto e imediato, sem prejuízo do disposto na lei processual."

Quanto as espécies, pode-se afirmar que o dano consiste na efetiva violação a um interesse jurídico tutelado, o qual pode ser patrimonial (material - ocorre lesão ao patrimônio de uma pessoa) ou extrapatrimonial (moral). Ainda existe o dano reflexo ou dano ricochete, consistente no dano que atinge pessoa indireta. Gera prejuízo a uma vítima indireta ligada à vítima direta do ato ilícito. Para que haja dano indenizável necessário se faz que exista violação a interesse juridicamente tutelado e que o dano seja certo, não hipotético. 

A culpa atinge a responsabilidade civil subjetiva possuindo duas formas: a primeira se embasa na reprobabilidade social e no "animus agendi"; enquanto que a segunda, enfoca a previsibilidade entre o ato praticado e o resultado obtido.

O elemento subjetivo consiste no animus agendi, o qual se encaixa no pensamento da possibilidade de agente ter agido de forma distinta. O elemento extrínseco, por sua vez, consiste na reprobabilidade exercida pela sociedade sobre a conduta praticada.

Quanto a previsibilidade do resultado, o agente só será responsabilizado pelos resultados previsíveis. 

De acordo com o grau de reprobabilidade a culpa pode ser classificada em grave, leve e levíssima. Grave é a conduta que viola o cuidado objetivo, de forma a ferir gravimente o direito através de erro grosseiro. Leve é a conduta que foi cometida com certo nível de prudência, porém, de maneira faltosa, gerou-se o dano. Levíssima, conduta na qual o ato foi realizado com prudência e diligência, ainda assim, gerando o dano a outrem.

Existem três tipos de culpa: a culpa in vigilando: ato praticado com falta de vigilância do responsável por pessoa ou coisa sob sua responsabilidade; a culpa in eligendo, ato praticado com falta de cuidado na escolha, na "eleição" de seu representante; e, culpa in contraendo, provavelmente do inadimplemento contratual.

Respondendo a pergunta inicial "De quem é a culpa?", concluímos que a culpa é de todo aquele que age [ou deixa de agir] produzindo uma conduta que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, ou imperícia, resulte na violação de direito tutelado, gerando com o ato, o dever de indenizar a pessoa prejudicada. 


                                                                João Batista Nunes da Silva

sábado, 8 de outubro de 2016

LA DEMOCRACIA


Juan Baptist Nuñes


La democracia es un concepto complejo, cuya comprensión exige diferenciar su sentido procedimental de su sentido valorativo. De manera general, entendemos por democracia un sistema de gobierno en el cual los ciudadanos eligen a sus gobernantes obedeciendo la decisión de la mayoría, sin que ello restrinja la participación y derechos de minorías, guiado por valores como la pluralidad de opiniones, la tolerancia y el respeto al Estado de derecho.

Bajo esta concepción, la democracia comprende un arreglo institucional que asegura el sufragio universal para elegir las autoridades que nos representarán dentro de un periodo específico, en un marco de pluralismo político.

La democracia, bajo su sentido procedimental, permite la designación de autoridades y la toma de decisiones, pero sólo puede asegurar la institucionalización de la pugna por el poder político para evitar la violencia (Przeworski, 1997).

En contraste, la democracia adquiere un sentido valorativo cuando le atribuimos expectativas normativas como la igualdad económica o la justicia social. Bajo esta perspectiva, un país con libertades individuales, elecciones regulares, libres e institucionalizadas, con libertad de expresión y asociación, pero con altos niveles de desigualdades y pobreza (como la mayoría de los países en América Latina) no podría considerarse como una “verdadera” democracia.

La definición que equipara la democracia con un grado sustantivo de justicia o de igualdad social puede ser útil como bandera de movilización política, pero no lo es en terminus analíticos, ya que obstaculiza la identificación de variables que, más allá del arreglo institucional, puedan tener una correlación directa con la desigualdad y la pobreza.

Además, la conceptualización de una democracia valorativa lleva a grandes decepciones por parte de la ciudadanía y tiende a despreciar a la democracia existente “haciéndole el juego al autoritarismo” (O’Donell, 2004, p.153).

Ello no significa que los resultados de la democracia no sean importantes, sino que la mejora de las condiciones sociales desde dentro de un sistema democrático no es una variable analítica, es decir, no depende de incluir o no su sentido valorativo dentro de la definición de democracia.

Mejorar el desempeño gubernamental dentro de un régimen democrático requiere de herramientas que posibiliten a los ciudadanos, no sólo elegir a sus representantes, sino también la capacidad de sancionarlos, vigilarlos y exigirles que tomen decisiones de acuerdo a sus necesidades y demandas.



REFERENCIAS

O´DONELL. Delegative Democracy. Journal of Democracy, Vol. 5, Nº. 1. National Endowment for Democracy and The Johns Hopkins University PressJanuary, 1994.

PRZEWORSKI, A. Una defesa de la concepción minimalista de la democracia. México: Revista Mexicana de Sociología/UNAM, 1997.


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

DIDÁTICA: Conteúdo, Objetivos e Método



João Batista Nunes da Silva
Psicólogo e acadêmico de Direito

Se você não sabe aonde está indo, é difícil selecionar meios para chegar.         

                                                                                           Mager.

O processo de transmissão de saberes por parte do professor/facilitador envolve, basicamente, o trabalho de sistematização de três componentes fundamentais: conteúdo, objetivos e método.

Conteúdo. De acordo com os autores que tratam da seleção e organização de conteúdos (Gagne, Teba, Horn, Lafourcade, entre outros), esta é uma tarefa importante na qual o professor deve realizar ao organizar o seu plano de ensino.

Turra el. al. (1975) afirmam que embora os autores assumam posições diferenciadas quanto ao modelo de educação, percebe-se um ponto comum: "a importância da seleção e organização criteriosa dos conteúdos a serem trabalhados com o grupo de alunos."

Prosseguem os autores mostrando que o conteúdo é uma parte integrante da matéria-prima; é o que está contido em um campo de conhecimento. Envolve informações, dados, fatos, conceitos, princípios e generalizações acumulados pela experiência do homem, em relação a um âmbito o setor da vida humana (...) Os bens culturais, quando adaptados, elaborados e organizados pedagogicamente, compõem os conteúdos programáticos. Estes constituem a fonte de onde o professor seleciona o conjunto de informações que trabalhará com seus alunos.

Martins (1989), por sua vez, destaca que a seleção e organização de conteúdos não é tarefa rápida ou fácil. "Exige muito conhecimento do assunto e do grupo de alunos, além do embasamento seguro em termos da estrutura da disciplina."

Objetivos. Toda ação humana tem em vista um objetivo, explícito ou não. A capacidade de concepção do resultado a ser produzido, antes de sua concretização material, é uma faculdade essencialmente humana. É a partir da concepção do objetivo na sua mente que o homem tem condições de acionar os meios adequados para atingi-lo. Esse aspecto é fundamental no processo da atividade humana, já que permite deter o controle sobre o processo e o produto  do seu trabalho. 


A determinação dos objetivos do ensino é considerada elemento fundamental no processo de planejamento da prática educativa e assumem diferentes formas de elaboração tornando-se o parâmetro que regula a entrada e a saída do processo de ensino, segundo o enfoque sistêmico da instrução.


Existe a necessidade de definição clara do que se pretende com o ensino, considerando dois princípios fundamentais: os domínios cognitivo, afetivo, psicomotor e o nível de especificação (geral e específico).


A formulação de objetivos educacionais importa em escolha consciente por parte da equipe de professores, fundamentada em experiências anteriores e auxiliada pelas ponderações sobre diversos tipos de dados. A seleção final e a ordenação dos objetivos tornam-se ainda uma questão de aplicação dos princípios da teoria da aprendizagem e da filosofia de educação que o grupo docente aceita.


Método. A metodologia didática é a sistematização do ensino, constituída por métodos e técnicas de que se vale o professor para efetivar a sua intervenção no comportamento do educando, orientando-lhe a aprendizagem.


O método constitui o elemento unificador e sistematizador do processo de ensino, determinando o tipo de relação a ser estabelecida entre professor e alunos, conforme a orientação filosófica que o fundamenta; tal orientação envolve uma concepção de homem e de mundo, respondendo, em última análise, a um ponto de vista da classe.




REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

MARTINS, Pura Lúcia Oliver. Didática Teórica, Didática Prática-Para Além do Confronto. São Paulo: Edições Loyola, 1989.


TURRA, C.M. Godoy et. al. Planejamento de Ensino e Avaliação. Porto Alegre: PUC/EMMA, 1975.




sábado, 13 de fevereiro de 2016

NA ERA DO RÁDIO: CAUBY PEIXOTO E ÂNGELA MARIA



"Se o Criador viesse de novo ao mundo, 
não falaria. como Jeová, 
do alto de uma nuvem, 
ou como Júpiter, do corpo medonho
 de um trovão: falaria ao microfone!" 
(Berilo Neves, escritor)


Nos anos de 1940-50 o rádio era a grande janela para o mundo: trazia para quase todos os lares as últimas notícias; moldava a opinião pública; vendia produtos, lançava modas; e alimentava os sonhos dos ouvintes com a voz de atores e atrizes, astros e estrelas. Esse "reino de encanto de sonhos e informação" coroava "reis e rainhas".

Quando a voz tinha um rei como Francisco Alves e tantos outros notáveis: "Meu companheiro dileto/Violão, és meu afeto/És minha consolação/ De tanto roçar meu peito/Tens hoje o timbre perfeito/ Da voz do meu coração".

Tempos de Cauby Peixoto e Ângela Maria, a querida do Sapoti

"Conceição, eu me lembro muito bem,/ Vivia no morro a sonhar/ Com coisas que o morro não tem..." Canção de Jair Amorim e Dunga, vozes inconfundível daquele cantor de bigodinho que a interpretava era a de Cauby Peixoto, que entre 1954 e 1959, foi o cantor mais popular do Brasil. Com qualidades que justificam esse título.

Nascido em 1935, provinha de uma família de músicos. Seu pai era violinista, sua mãe tocava bandolim, e um de seus tios era pianista e homem de rádio. Mas seu parente mais famoso era o sambista Ciro Monteiro. Cauby começou a cantar num programa de calouros da Rádio Tupi, no Rio, por volta de 1951. Três anos depois era celebridade, fazendo sucesso com o fox Blue Gardenia.

Mais tarde vieram Conceição (1956), Nono Mandamento (1957), Prece de Amor (1958) e muitas outras. Segundo alguns, seu rápido êxito se devia não apenas a suas inegáveis qualidades de cantor, mas também ao tipo de publicidade que o cercava. Seu empresário, Di Veras, contratava mocinhas para que desmaiassem "de emoção" à simples passagem do cantor. Seguindo o modelo norte-americano (foi assim que Frank Sinatra virou ídolo), Di Veras fazia confeccionar para Cauby ternos apenas alinhavados, que as fãs "rasgavam com furor", em cenas documentadas por fotógrafos de aluguel. No fim dos anos, 50, Cauby excursionou pelos Estados Unidos, usando o nome de Ron Coby, e gravou Maracangalha, de Caymmi, com o título de I Go.

Quanto a Ângela Maria, era a mais que preferida "Rainha do Rádio" em 1954, tendo começado a carreira em 1947, apresentando-se em programas de calouros como a "Hora do Pato", de Jorge Cúri, na Nacional. Seu verdadeiro nome é Abelim Maria da Cunha, mas a cantora usava então o pseudônimo de Marina da Cunha para que os pais, muito religiosos, não soubessem de sua atividade.

De origem humilde, Abelim trabalhava nessa época numa fábrica de tecidos. Em 1951 já com o nome artístico de Ângela Maria, cantava num clube noturno carioca, o Dancing Avenida, quando foi "descoberta" por Erasmo Silva e Gilberto Martins. Este último levou-a para a Rádio Mayrink Veiga, da qual era diretor. Na Mayrink, Ângela assinou contrato e passou a cantar regularmente, estourando imediatamente em todas as paradas. Foi a cantora mais popular dos anos 50 e recebeu de Getúlio Vargas o apelido de "Sapoti, por sua cor e sua voz, doces como o sapoti". Seus maiores sucessos foram Vida de Bailarina (Américo Seixas e Chocolate) e Lábios de Mel (J. Vilaça e Nage).

A atmosfera do Pós-guerra (1945) influencio o modus de viver do brasileiro. Tudo parecia pairar sobre os ditamos culturais dos americanos e isto é visto nas artes e na produção musical popularizada e retratada através da modelagem. Os ritmos do Tio Sam encontrava espaço do morro as mansões burguesas do Rio e de São Paulo, e por fim, em todo o país.

João B Nunes
Psicologo, teológo e acadêmico de Direito

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

SOLILÓQUIO

Essa é minha sala. O oitavo ano do primeiro grau no Colégio Anésio Leão, o Estadual da Palmeira (Campina Grande, Paraíba). Próximo à mezinha da professora é aonde me assento todos os dias. Ao meu lado Valéria (filha de um dono de mercearia no bairro do Monte Santo). Uma menina mais alta que eu, magra, esguia... Estudiosa. Ela costumava falar com uma força de expressão que exigia olhos nos olhos. Para mim era tarefa penosa já que fitando seu rosto vez por outra sua saliva expelida dos lábios vinha direto para os meus olhos.

Lá no fundão tá a galera bagunceira. Eu não os condeno. Já fui um deles por algum tempo, do tipo engraçadinho. Eles gostavam de mim. Admiravam meu talento de desenhista. Uns rabiscos que fazia e, vez por outra, deixava na redação do Diário da Borborema para ser publicado. Às vezes ficavam me perguntando o que havia de errado comigo. Por que eu não conseguia namorar uma daquelas moças como os carinhas do fundão as conquistavam tão facilmente. Mas vamos deixar a conversa para depois da aula, porque já vem a professora Neuzinha, “de Geografia Geral”.

Neuzinha aparentava ter seus 42 anos, magra, aproximadamente 1,70m de altura. Voz rouca, agravada pelo vício do cigarro (mas no perímetro do colégio, nunca a vi fumar. Ética). Severa. Fazia a exposição da aula com uma precisão própria dos mestres. Exigente. “Um aluno meu só passa de ano de mostrar competência.” Essa palavra ainda não tinha ouvido com essa facilidade sonora. Agora já familiarizado, concluo que Neuzinha era a própria competência. Morava só, num apartamento na Rua Barão do Abiauí, no Centro, onde também era sindica, com todos os rigores que o cargo impõe. Sua roupa, eu e a maioria da classe sempre achávamos extravagantes. Cores fortes, uso e abuso de babados, completando o manequim, uma maquiagem pesada numa tentativa inútil de esconder os traços bem acentuados de seu rosto.

 Neuzinha era um misto de dureza e ternura. Interrompia a aula muitas vezes para falar sobre sua vida sofrida no Sertão. Falava do pai, reticenciosa. Demonstrava orgulho da bravura do sertanejo do naipe de “meu pai” – dizia ele, com uma lágrima rebrilhando nos olhos.

Dentre os livros que a gente recebia do Governo do Estado (Excelentes livros), estava o de Geografia Geral. Sistemática, Neuzinha sabia dividi-lo bem certinho para o ano letivo.

Eu ficava em casa folheando apenas para ver as imagens ilustrativas. Quando menos me dava conta, já havia lido os primeiros capítulos. Os dias foram passando, os prazos se cumprindo, e a primeira e segunda prova revelou que a turma não estava em sintonia com Neuzinha. A maioria da classe estava com o rendimento abaixo das expectativas da professora. “Bruxa! Pavão! Magrela!” Murmuravam os colegas pelos corredores, sem nunca ousar se dirigir à professora.

Qualquer apelo dos colegas era em vão. Neuzinha ministrava uma aula com toda a maestria e experiência de seus anos de sala de aula e não aceitava flexibilizar o nível do ensino.
O resultado foi que a classe inteira foi para recuperação! E Neuzinha tratou de desenganar quem já estivesse perdido: não adianta chorar! Eu só passo quem estuda e mostra o que aprendeu na prova, e pronto!!!
O assunto da prova final era todo o Continente Africano, com seus aspectos políticos, sociais, culturais, e, claro, geográficos. Coincidentemente eu e a colega Valéria fomos para a final por conta de cinco décimos!  E tínhamos apenas três dias para estudar todo o assunto. Saímos do Colégio indignados. Uma atmosfera pesada atingiu em cheio o pessoal do fundão. Tinha gente que nem atingindo a nota máxima poderia passar de ano. A maior parte daquelas moças e rapazes tão festeiros parou com a algazarra e pesaram a encarar essa nova realidade.

No caminho de casa, pude notar que Valéria não conseguia conter as lágrimas e, em soluços dizia para mim (desta vez quase que cuspindo nos meus olhos) que iria mostrar a “essa professora” o quanto ela estava enganada e que não éramos cachorros para ser tratado de forma tão ríspida!

-João! Eu vou... Eu provar pra essa professora... Vou começar a estudar assim que chegar em casa!
-Eu também vou estudar seriamente, você vai ver! Respondi tentando comungar com aquele sentimento de “perda” que parecia irreparável para os brios da colega.

Separamos-nos como de costume na rua que dava para casa e ela se foi atordoada com seus pensamentos em brasa.

Sexta, sábado, domingo, segunda à tarde, já estávamos de volta à cena da prova. Minhas mãos suadas de nervoso. Dedos tamborilando sobre a carteira. A professora Neuzinha, com um lenço multicolorido amarrado naqueles cabelos cacheados passou por mim distribuindo a prova. A hora da verdade – pensei.

Os colegas foram saindo um por um e depositando suas provas sob o olhar severo da professora que observava atentamente a turma do fundão. Valéria também saiu. O aspecto de seu semblante era como um êxtase. Parecia envolvida numa alegria que não dava para esconder um sorriso de satisfação.

Quando eu terminei a prova, entreguei a professora e ao sai no corredor já não havia mais nenhum colega. Retornei para casa já sentindo a falta do corre-corre diário das aulas, da presença de cada um de minha turma.

Na quinta-feira à tarde, vim ao colégio para ver o resultado final. Percebi que meus colegas começavam a chegar e se juntar com os que já por lá estavam. Dirigi-me para o pátio da escola onde estavam afixadas as folhas com as respectivas turmas. Fui procurando nome por nome e quando me deparai com o meu, suspirei aliviado, escondendo um sorriso de felicidade. Minha vontade era de sair pulando de alegria! Passei de ano!

O tempo também passou, e hoje me vieram essas lembranças. Puxa vida, Valéria se casou, foi ser mãe, abandonou os estudos para nunca mais voltar, pelo menos este pareceu ser o intento do esposo.

A professora Neuzinha nunca mais a vi. Gostaria de poder me encontrar com ela para lhe dar um abraço forte e agradecer-lhe imensamente por tudo! A turma do fundão se fragmentou. Aquelas meninas lindas e atraentes que desejei namorar se envolveram com drogas e  prostituição. Um colega foi morto pela polícia, numa dessas madrugadas tensas de tiroteio no bairro do Jeremias. Outro que ficava admirando meus desenhos, enlouqueceu completamente devido ao uso de variadas drogas. Não chegaram a terminar os estudos do primeiro grau.


Quanto a mim, sou um milagre de Deus.


João Batista Nunes 
Psicólogo, Teólogo e Acadêmico de Direito.