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quinta-feira, 25 de setembro de 2025

BURNOUT: Saiba identificar as causas


Não é só excesso de trabalho: falta de reconhecimento, criatividade tolhida e mau relacionamento com os colegas também podem engatilhar uma síndrome de estresse crônico. Entenda de uma vez o que é o burnout – e saiba identificar suas causas.

Herbert J. Freudenberger nasceu em 1926, em Frankfurt, Alemanha. Quando os nazistas ascenderam ao poder, em 1933, sua família conseguiu enviá-lo aos Estados Unidos com um passaporte falso. Por um tempo, o garoto teve que se virar sozinho, nas ruas de Nova York, até encontrar abrigo na casa de um primo mais velho. Suas ótimas notas na escola lhe garantiram uma vaga na Faculdade do Brooklyn, onde cursou psicologia.

A ascensão de Freudenberger foi rápida; depois de graduado, emendou um doutorado na Universidade de Nova York e logo começou a trabalhar na área. No final dos anos 1960, o psicólogo visitou a primeira free clinic (“clínica grátis”) dos Estados Unidos, fundada em São Francisco, do outro lado do país. Esse tipo de consultório atende, gratuitamente, pessoas em situação de vulnerabilidade social, como moradores de rua e usuários de drogas pesadas.

Fascinado pelo conceito, e relembrando a época em que ele mesmo dormia na rua, o psicólogo abriu sua própria free clinic em Nova York, com foco em atender dependentes químicos. Freudenberger conciliava o trabalho voluntário com os atendimentos em seu consultório, que lhe tomavam 10 horas por dia. Mesmo assim, fazia a dupla jornada todas as noites, de segunda a sexta. 

Não demorou para ficar claro que essa rotina não era nada saudável. “Você se esforça muito no trabalho, você sente um total senso de compromisso… até que você finalmente se encontra, como eu, em um estado de completa exaustão”, escreveu o psicólogo. Os outros voluntários da clínica apresentavam os mesmos problemas. Os próprios funcionários procuravam Freudenberger com quadros de “depressão, apatia e agitação”. 

Quem era cuidador acabava virando paciente. Nos anos seguintes, Freudenberger se dedicou a estudar o fenômeno. Mas, antes de tudo, precisava de um nome para esse padrão de sintomas. A solução foi emprestar uma gíria que era usada por seus próprios pacientes para descrever a sensação devastadora que o abuso de drogas deixa: “burnout”, do verbo to burn, 
“queimar”. Em português, significa “esgotamento”. 

Assim como um fósforo que queimou até o final, os dependentes químicos se sentiam exauridos, sem energia alguma, na ressaca dos narcóticos. Como era mais ou menos assim que os profissionais exaustos se descreviam, o psicólogo importou a gíria de rua para o meio acadêmico. Freudenberger então começou a procurar pelo que chamava de “burnout ocupacional”. E onde olhava, encontrava. Médicos, enfermeiros, policiais, professores, bibliotecários – o burnout parecia absoluta￾mente generalizado. “Por que é que nós, como nação, parecemos, tanto coletiva quanto individualmente, estar no meio de um fenômeno que se espalha rapidamente – o burnout?”, escreveu ele em 1980.

Só tem um detalhe. Há 40 anos, o termo ainda era acadêmico. E permaneceu assim por décadas. Falava-se o tempo todo em “estresse”, mas não em algo tão específico quanto o burnout, o esgotamento causado exclusivamente pelo trabalho. Hoje não. O termo cunhado por ele está na ponta da língua de todo mundo. Uma pesquisa da Deloitte descobriu que 77% dos trabalhadores americanos afirmam já ter passado por um quadro de burnout, considerando apenas o emprego atual. 

No começo do ano de 2022, a Organização Mundial da Saúde incluiu oficialmente a Síndrome de Burnout na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), chamando atenção global para o tema.

Se em 1980 o incêndio parecia “estar se espalhando”, hoje, pelo jeito, já tomou a floresta inteira. Mesmo assim, a pergunta que Freudenberger fez sobre o porquê do fenômeno segue sem respostas claras. Nas próximas páginas, vamos examinar as melhores hipóteses.

Conhecendo o inimigo

A ideia de que trabalhar demais causa esgotamento  não tem nada de nova. Muito antes de Freudenberger teorizar o burnout, a medicina já tinha o termo “neurastenia” para descrever quadros de exaustão emocional, muitas vezes ligados a jornadas de trabalho excessivas. 

Acontece que a neurastenia era um termo guarda-chuva, usado para diagnosticar qualquer quadro de cansaço ou tristeza, independentemente da origem do problema. Com Freudenberger, o fenômeno do esgotamento laboral começou a ser esquematizado de forma mais lógica. 

Mas o que sabemos hoje sobre o assunto é em grande parte fruto do trabalho de outra profissional, a psicóloga Christina Maslach, da Universidade da Califórnia. Ela produziu diversos estudos sobre a síndrome, da década de 1970 em diante. E até hoje é a maior autoridade no assunto, uma espécie de Buda do burnout. Sua definição foi usada pela OMS 
nas novas diretrizes que entraram em vigor neste ano. Vamos entendê-la.

“Burnout é uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso”, define a CID-11. A descrição é curta e grossa, mas só dela já dá para tirar conclusões importantes.

A primeira: burnout não é uma doença ou condição médica. É diferente, por exemplo, de um quadro de depressão, que pode ser tratado via medicação e terapia. Trata-se de uma “síndrome”, ou seja, de um conjunto de sintomas. 

A segunda: o burnout é um “fenômeno ocupacional”. Significa que o termo só se aplica a cenários ligados ao trabalho. Não existe burnout, ao menos com essa denominação, em outras áreas da vida. Ele está sempre ligado ao ambiente de trabalho. 
É uma condição ambiental. Para solucioná-la, não basta terapia e medicação, como veremos mais para frente. 

A terceira: o burnout nada mais é do que um quadro de estresse, que, sem resolução por um longo período de tempo, tornou-se crônico. Para entender o que é burnout, então, é preciso compreender primeiro o que é estresse. “O estresse é qualquer situação que requer uma adaptação, seja ela positiva ou negativa. 

Uma promoção no trabalho ou o nascimento de um filho são situações que causam estresse, mas, em geral, são positivas. Uma demissão requer adaptação, e é negativa”, explica Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR). Ou seja: o estresse requer esforço para nos adaptarmos a novas condições do ambiente, sejam elas boas ou ruins. Por isso o burnout não pode ser considerado uma doença. Trata-se de um quadro de estresse permanente. Se o ambiente sempre exige que tenhamos que abrir mão de algo ou gastar energia para resolver algum impasse, ficamos inevitavelmente esgotados. 

Repita isso diariamente por seis meses, mais ou menos, e você terá um quadro crônico – o burnout. A confusão sobre burnout ser ou não uma doença acontece porque sabemos que há toda uma sorte de  problemas de saúde causados pelo estresse: fadiga, dores no corpo, doenças cardiovasculares, depressão. Por isso, o burnout não costuma vir sozinho. E a confusão continua quando os tratamentos para o estresse crônico focam em mitigar os sintomas, não as causas (mais sobre isso já já).

As três faces do burnout “Estresse crônico”, cá entre nós, é um termo amplo demais. Felizmente, a definição não para por aí. O burnout, segundo a professora Maslach e a OMS, sempre apresenta três dimensões: a exaustão, o cinismo e a redução da eficácia profissional. Vamos entender cada uma delas.

A exaustão é, sem dúvida, a característica mais marcante do burnout, a ponto de os dois terem virado quase sinônimos na linguagem coloquial. Aqui, é importante frisar que o cansaço não é necessariamente físico, mas também pode ser mental (ou ambos, o que é mais comum). 

O cinismo é a segunda dimensão do burnout, menos lembrada. A expressão descreve a indiferença, o descaso, que o estressado crônico passa a sentir pelo trabalho. Com o tempo, o problema pode evoluir para um quadro de desprezo completo, até de ódio. O trabalho perde o sentido. E pode gerar repulsa.

Dentro dessa categoria também entra a característica da despersonalização – o trabalhador passa a tratar os colegas e clientes como objetos, não como pessoas. Essa faceta foi observada por Freudenberger nas primeiras descrições de burnout em sua equipe da clínica. 

Os profissionais de saúde começavam a tratar seus pacientes com desdém. Não à toa, as primeiras pesquisas sobre o fenômeno focaram em pessoas que têm ocupações “relacionais” (enfermeiros, professores). É mais simples, afinal, detectar a “despersonalização” nesses casos, em que a essência do dia a dia é lidar com gente.

A terceira e última face do burnout é a redução da eficácia no trabalho. Isso significa que necessariamente um trabalhador com burnout tem sua produtividade afetada. É diferente de um profissional que trabalha até a exaustão, mas é capaz de cumprir tudo de forma satisfatória. E deixa claro que as empresas não têm como fechar os olhos: o burnout é, por definição, ruim para elas também.

Na definição científica, um diagnóstico de Síndrome de Burnout só vai existir se forem detectadas as três características. Dados que se baseiam na autoi￾dentificação do problema – como os 77% citados no começo desta reportagem – provavelmente estão inflados. O próprio termo “burnout”, no sentido de “esgotamento”, remete a cansaço puro. Mas, como a gente viu, é bem pior do que isso. 

As pesquisas mais recentes estimam que cerca de 15% da força de trabalho se encaixa na definição de burnout atualmente. Mas tem um porém. As mesmas pesquisas apontam que apenas 30% das pessoas estão na categoria “engajado” – o perfil ideal de trabalho, que não apresenta nem exaustão, nem cinismo e nem eficácia reduzida.

Isso deixa 55% num limbo. São os profissionais que não estão passando por um burnout, porque não cumprem os três quesitos. Mas tampouco estão bem: apresentam pelo menos uma das facetas da síndrome.

Mais recentemente, a ciência propôs uma nova classificação para incluir toda essa gente. Quem apresenta uma alta exaustão, mas não cinismo ou ineficácia, se encaixa na categoria “sobrecarregado”. 

Alto cinismo caracteriza um perfil “desengajado”, enquanto o sujeito “ineficaz”, como o nome deixa claro, é o de baixa produtividade (seja pela razão que for).

A psicologia ainda não tem um nome para quem apresenta duas das três facetas do fenômeno ao mesmo tempo, embora dê para chamar um quadro assim de “pré-burnout”. Afinal, é difícil permanecer exausto e desprezando o trabalho, por exemplo, sem que isso eventualmente não se traduza numa eficácia diminuída. 

Inimigo à vista

Identificou-se com as três características do burnout? Calma: nada de sair se autodiagnosticando. Para identificar se há mesmo um caso de burnout, é preciso medir a intensidade dos sintomas. E não é simples quantificar algo abstrato, como a parte do cinismo. Mesmo o grau de exaustão não é algo facilmente calculável. 

Christina Maslach pensou nisso quando descreveu a síndrome. Ela criou um protocolo para a mensuração do burnout, o Maslach Burnout Inventory (MBI). Trata-se de um questionário cujo objetivo é identificar as três dimensões da síndrome. Você responde a cada pergunta indicando a intensidade deste ou daquele sentimento. No final, calcula-se uma pontuação. Se ela passar de um certo limite, indica um quadro de burnout.

O primeiro MBI foi desenvol￾vido no fim da década de 1970. Desde então ele vem sendo atualizado e adaptado para profissões específicas. Mas vale lembrar que ele não é uma ferramenta diagnóstica; o MBI foi desenvolvido mais para ser uma ferramenta de pesquisa de psicologia do que para uso em consultório. 

O protocolo pode até indicar que algo está errado, mas, do ponto de vista do indivíduo, a análise mesmo só pode ser feita por um profissional de saúde mental. Isso porque só dá para bater o martelo quando se identifica a fonte do problema - nosso próximo assunto.

Os seis vilões

Até agora, só vimos o que é o estresse crônico de trabalho – e não o que causa a síndrome. É verdade que isso varia de caso a caso. Mas a ciência já encontrou alguns padrões entre casos de burnout. A própria Maslach elencou o que chama de “seis fatores de risco” que elevam a chance de um quadro do tipo. Vamos a eles.

A primeira grande causa do burnout é a mais óbvia: o excesso de trabalho. Não é mimimi. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) calcula que jornadas exaustivas de trabalho contribuem para a morte de 2,8 milhões de pessoas por ano no mundo.

Exatamente por ser a vilã mais clássica, a carga de trabalho excessiva acaba levando a culpa
quase sempre. Nisso, as soluções que empresas procuram contra o burnout costumam se concentrar nessa seara: dias de folga após um período de muita demanda, pausas para mindfulness no meio do expediente, flexibilidade no horário.

Nenhuma dessas medidas é ruim – pelo contrário. Mas não vão resolver todos os problemas. O trabalho em demasia é só uma das possíveis causas de um quadro de burnout; há outras, menos triviais. 

O burnout também pode estar ligado à falta de conexão entre o profissional e o ambiente de trabalho. Se as relações no escritório são quase inexistentes – ou pior, tóxicas –, a síndrome pode aparecer mesmo sem longas horas de trabalho. 

Nesse quesito, entram questões como assédio, bullying e exclusão, que elevam o estresse e tornam a permanência no trabalho insustentável.

O sintoma que dá as caras primeiro nesses casos é o cinismo. O trabalho em si pode até não ser negativo, mas a distância social estraga a experiência. Logo a despersonalização começa a dar as caras – os colegas deixam de ser indivíduos, e se tornam “o chefe tirânico”, “o puxa-saco”, “a chata do RH”.

O terceiro fator de risco para engatilhar o burnout é a chamada “falta de recompensa”. Nesse caso, não é preciso ter horas e horas de trabalho acumuladas; basta a sensação de que o seu trabalho não vale nada para a empresa.

Quando falamos de recompensa, não falamos só em incentivos financeiros, mas também de formas mais subjetivas de reconhecimento, como elogios por parte de um gestor. Estudos sugerem que meros feedbacks positivos aumentam a eficiência de profissionais por dar um empurrãozinho na autoconfiança.¹

A quarta causa do burnout é parecida: o senso de injustiça. Aqui, um trabalhador pode ser prejudicado caso sinta não só que não está sendo reconhecido, mas que os incentivos estão indo para as pessoas erradas por conta do favoritismo dos gestores. É aquela história: ver um incompetente sendo promovido dói mais do que não ganhar uma promoção.

O quinto fator de risco para o burnout é a falta de controle sobre o próprio trabalho. Isto é: você não ter liberdade para fazer suas escolhas ou exercer sua criatividade. Sua função, nesses casos, é meramente reproduzir ordens de cima, sem chance de questioná-las. O gestor, em geral, mantém uma mão de ferro sobre os trabalhadores – algo às vezes 
chamado de microgerenciamento. Nesses casos, o trabalho se torna algo mecânico, repetitivo.

A sexta e última causa é o que Maslach chama de “incompatibilidade de valores” entre o colaborador e a empresa. Em outras palavras, é como se a pessoa sentisse que o trabalho não combina com ela. Pode ser por questões éticas quanto ao modelo de negócios da empresa, por exemplo, que causa um mal-estar na prática de trabalho. Ou porque o trabalhador se considera qualificado demais para a função que exerce. De uma forma ou de outra, você não sente prazer algum no que faz. Um convite para o burnout se instalar.

Nos detalhes

Desde que Maslach publicou sobre as causas do burnout, outros estudos vêm desvendando o fenômeno. Análises feitas em equipes de enfermeiros e professores sugerem que o burnout é contagioso. Isso significa que o problema pode começar isoladamente, em um setor da empresa ou um grupo específico de pessoas, e ele próprio ser o gatilho de um cenário de estresse para outras pessoas. Afinal, se a eficácia de alguém cai, outra pessoa provavelmente vai ficar sobrecarregada para a conta fechar, gerando uma espécie de efeito dominó do estresse.²

Outras pesquisas indicam que até o fator da exaustão pode ser mais complexo. Mesmo trabalhadores com uma jornada padrão e com uma carga considerada ok estão sob risco de desenvolver a síndrome caso não consigam se desconectar do trabalho. Não dá para realmente descansar se é preciso ficar atento ao WhatsApp às dez da noite ou se, nos 
fins de semana, você pode receber uma ligação do chefe a qualquer momento. Seu motor não desliga - aí uma hora a gasolina acaba.

A ciência também começa a desvendar se alguns perfis psicológicos são mais suscetíveis a ceder às pressões ambientais e desenvolver um quadro de burnout. Até agora, a introversão se mostrou um fator de risco.³ Uma hipótese é que introvertidos tendem a esconder mais as críticas e reclamações e acabam internalizando o estresse, até ele se tornar crônico.

Condições precárias também podem transformar uma rotina de trabalho equilibrada em um inferno interminável. Não precisa de muito: um computador que trava a toda hora, um escritório sem ventilação ou uma internet lenta bastam.

Esse problema ficou evidente na pandemia, quando, de repente, quase todo mundo foi forçado a se adaptar para um home office improvisado. Nem todas empresas se empenharam em fornecer as condições necessárias para a transição – computadores, internet, cadeira etc. 

A pandemia, aliás, foi um ponto de virada sem precedentes para a saúde mental. Especialistas já consideram que as consequências da pandemia no bem-estar serão “a próxima pandemia”. Motivo: todo mundo começou a trabalhar mais. Dados da NordVPN, que fornece redes privadas para home office para empresas de diversos países, mostram que o tempo de conexão com o trabalho aumentou em duas horas por dia. Mas a verdade é que mesmo antes da pandemia parecia que todo mundo estava queimando aos poucos. Será que estamos vivendo uma “era do burnout”?

A geração do burnout

Em 2021, uma média de quatro milhões de americanos pediu demissão voluntariamente todos os meses nos EUA. O fenômeno foi tão atípico que ganhou nome: Great Resignation, ou A Grande Resignação. Está acontecendo no Brasil também. Meio milhão de brasileiros pedem demissão a cada mês – um ritmo nunca antes visto.

Numa pesquisa feita nos EUA com gente que pediu demissão recentemente, o burnout aparece como o principal motivo para a decisão, citado por 40%. Sim, autodiagnósticos não servem para grande coisa. Mas, se quase metade citou a síndrome, feliz é 
que não estava. 

Também não significa que pedir as contas seja um passaporte para a alegria, claro. Ao trocar um trabalho fixo por uma vida de autônomo você deixa de ter um chefe, e passa a ter vários, os seus clientes. Problemas que antes dava para dividir com a equipe passam a ser exclusivamente seus. Férias? Esquece. Ou seja: em muitos casos, troca-se uma situação estressante por outra ainda pior. Seis por uma dúzia, não por meia. 

Tem um detalhe. O fenômeno do burnout parece ter um componente geracional. Segundo uma pesquisa da Gallup, que ouviu quase 7,5 mil trabalhadores americanos, 28% dos Millennials (nascidos entre 1981 e 1996) relatam sentir burnout frequentemente, contra 21% das gerações mais velhas. Um outro estudo, da empresa americana de seguros Metlife, descobriu que 42% dos Millennials que ocupam o cargo de gerência relatam cansaço e estresse ligados ao trabalho, enquanto o mesmo só acontece com 27% dos gerentes da Geração X (1965-1980) e 21% dos gerentes Baby Boomers 
(1946- 1964). 

A ideia de que os Millennials são a “geração do burnout” não é um consenso. Afinal, os fatores estressantes sempre existiriam. Talvez o que explique a diferença é o fato de que os jovens falem mais sobre o assunto e busquem ajuda com mais frequência, em vez de enterrar os problemas do dia sob um six pack de cerveja no final do expediente. Isso não é uma ilação vazia. O Instituto Nacional de Abuso de Drogas, dos EUA, detectou o seguinte: em 1980, a taxa de jovens de 18 anos sujeitos a expedientes ainda mais exaustivos, já que muitas vezes contam com mais de um “emprego” para fechar as contas. 

No Google, em 2019, o número de funcionários terceirizados ou com contrato temporário (121 mil) superava o de colaboradores efetivos (102 mil). 

Outra tese no livro de Petersen, mais abstrata, discorre sobre uma mudança no próprio conceito de “trabalho” entre uma geração e outra. Os pais dos Millennials chegavam ao mercado de trabalho com a missão de construir uma vida financeira estável e progredir na carreira. Já os mais jovens foram catequizados a “seguir seus sonhos” até o fim, a buscar no trabalho um significado maior para suas vidas. “A única maneira de fazer um grande trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou o que é isso, continue procurando. Não aceite nada menos”, resumiu Steve Jobs, um desses catequizadores, num célebre discurso na Universidade Stanford, em 2005.

Lindo. O problema é que isso pode ser uma armadilha. Um trabalho ideal, como vimos, exige uma rotina suportável, recompensas constantes e justas, relações saudáveis com os colegas… 

Quando a linha entre o que é trabalho e o que é paixão se cruzam, o Millennial pode começar a aceitar condições questionáveis para seguir fazendo aquilo. E há empresas que fazem uso desse artífice para prender profissionais enquanto fecha os olhos para os problemas. 

Afinal, como você ousa questionar a carga de trabalho ou o salário se é isso que você ama fazer? Cadê sua devoção?

Por outro lado, a posição oficial da OMS deixou claro para o mundo que o burnout é um problema agudo. E a Grande Resignação veio para mostrar: as empresas que quiserem contar com os melhores talentos vão ter de oferecer condições melhores. Mas, se de fato estamos vivendo uma pandemia de burnout, livrar-se dela será uma tarefa complexa. Pandemias sanitárias duram alguns anos. Pandemias culturais atravessam gerações.

_______________
1. Estudo “Well Done! Effects of Positive Feedback on Perceived Self-Efficacy, Flow and Performance 
in a Mental Arithmetic Task”, de 2020;
2. Estudos “Perceived collective burnout: a multilevel explanation of burnout” e “Burnout contagion among intensive care nurses”;
3. Estudo “General self-efficacy modifies the effect of stress on burnout in 
nurses with different personality types”, de 2018.

Contribuíram: Edwiges Parra, psicóloga organizacional especialista em recursos humanos; Juliana Nunes Moreira, doutora em psicologia da saúde pela Universidade de Lausanne (Suíça) e especialista em Síndrome de Burnout; Carol Milters, autora de “Minhas Páginas Matinais: Crônicas da Síndrome de Burnout” e idealizadora da Semana Mundial da conscientização da Síndrome de  Burnout.
 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

VIVENDO UM DIA DE CADA VEZ

 


Já parou para pensar no fato de que aquilo que mais importa para nossas vidas pode estar bem diante de nossos olhos e nós só percebemos quando resolvemos desacelerar um pouco desse ritmo frenético que invadiu nosso cotidiano e nos distanciou do que realmente interessa: viver.

Não estou propondo uma fuga da realidade. Um rompimento abrupto com o real. Mas uma alternativa ao ativismo do cotidiano. Parar um pouco e refletir nas palavras do Mestre da Vida, que afirmou, certa vez, que as nossas muitas preocupações com as coisas da vida não podem alterar o curso das coisas, que devemos viver um dia de cada vez, porque cada dia traz em si o seu próprio mal. Não devemos sofrer por antecipação, entregando-nos à ansiedade. Porque de todas as coisas, afinal, cuida Ele, muito bem, assim como cuida dos lírios do campo e das aves do céu. 

A ansiedade e o cuidado excessivo com as coisas da vida, muitas delas fugazes, passageiras, superficiais, nos impelindo a busca por ideais impostos ao ego, buscando comparações com outras pessoas que julgamos ser felizes pelo estilo de vida que esboçam. Vivemos nos comparando e nos medindo constantemente, deixando escapar por entre os dedos a nossa verdadeira essência. O que realmente interessa para uma vida mais harmoniosa e livre das amarras que nos empobrecem e nos fazem tristes. 

Precisamos retornar às coisas simples, a valorização do que há de mais importante em nossa existência. Precisamos voltar a viver com intensidade, um dia de cada vez.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

SAÚDE & TRABALHO: O OUTRO, O AMBIENTE E O CLIMA



QUE NÓS PASSAMOS A MAIOR PARTE DE NOSSAS VIDAS NO TRABALHO, É INCONTESTÁVEL. QUE TAMBÉM AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS, O AMBIENTE E O CLIMA, DIZEM MUITO ACERCA DO ESTADO DE NOSSA SAÚDE, É OUTRA VERDADE. 

O tempo passa, mas o trabalho continua sendo o locus de realização das pessoas. Com efeito, "o trabalho é uma prática transformadora da realidade que viabiliza a sobrevivência e a realização do ser humano. Por meio do ato e do produto de seu trabalho o ser humano percebe sua vida como um projeto, reconhece sua condição ontológica, materializa e expressa sua dependência e poder sobre a natureza, produzindo os recursos materiais, culturais e institucionais que constituem o seu ambiente, e desenvolve seu padrão de qualidade de vida.¹"

Há três aspectos fundamentais que entram na composição da psicodinâmica do trabalho, a saber: o outro, o ambiente e o clima. A mescla desses fatores se constitui na base para a compreensão do que se passa na vida psíquica, social e de trabalho da pessoa do/a trabalhador/a.

Em grau de importância primeira, situamos o outro. Desde as conversas que irão nos encaminhar para uma possível admissão ao fazer prático do dia a dia do trabalho, começamos e terminados a partir e através do outro. 

No dizer de Monique Augras, "o mundo humano é essencialmente mundo da coexistência. O homem define-se como ser social e o crescimento individual depende, em todos os aspectos do encontro com os demais.²"

Na verdade, embora não reconheçamos, nossa vida a partir do primeiro balbuciar oficializando o requerimento pela porção alimentar básica da primeira hora da manhã, ali, mesmo, no improviso materno do berço, já somos o resultado de uma rede de dependências em relação ao outro. 

E tanto mais nos afastamos do núcleo familiar, tanto mais nos fazemos dependentes de gente que sequer conhecemos e não esbarramos com ela pelos corredores do cotidiano. É a tal da complementariedade que fundamenta a compreensão de si no reconhecimento da coexistência.

Heidegger³ chama a atenção para o fato de que, mesmo sem a presença do outro, o ser no mundo é ser com os outros. Estar só é estar privado do outro, num modo deficiente da coexistência, que constitui uma das estruturas do ser no mundo.



[1] ZANELLE, José Carlos et al. Psicologia, Organizações e Trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2004.

[2] AUGRAS, Monique. O Ser da Compreensão - Fenomenologia da Situação de Psicodiagnóstico. Petrópoles: Vozes, 1986.

[3] Heidegger - Martin Heidegger (1889-1976) foi um filósofo, escritor, professor universitário e reitor alemão. Obra de destaque O Ser e Tempo (1927).

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A MENTE EM TERMOS DE ID, EGO E SUPEREGO




Imagine um terreno que seja preciso dimensionar seu espaço para ter um detalhamento, a partir do qual o conhecimento mais pormenorizado seja possível. Topografia, delimitação dos espaços é uma das principais tarefas do agrimensor, o profissional habilitado para medir e estabelecer limites das terras.

Os estudos do médico austríaco Sigmund Freud (1856-1959), fundador da psicanálise, análise profunda da psique, apresentaram uma estrutura topográfica da mente.

Topograficamente, a psicanálise considera o aparelho mental como um instrumento composto, esforçando-se por determinar em quais pontos dele ocorrem os vários processos mentais.

De acordo com os pontos de vista psicanalíticos mais recentes, o aparelho mental compõe-se de um ‘id‘, que é o repositório dos impulsos instintuais, de um ‘ego‘, que é a parte mais superficial do id e aquela que foi modificada pela influência do mundo externo, e de um ‘superego‘, que se desenvolve do id, domina-o e representa as inibições do instinto que são características do homem.

As três polaridades da mente estão ligadas umas às outras de várias maneiras altamente significativas. Existe uma situação psíquica primordial na qual duas delas coincidem. Originalmente, no próprio começo da vida mental, o ego é catexizado com os instintos, sendo, até certo ponto, capaz de satisfazê-los em si mesmo. Denominamos essa condição de ‘narcisismo’, e essa forma de obter satisfação, de ‘auto-erótica’.

Nessa ocasião, o mundo externo não é catexizado com interesse (num sentido geral), sendo indiferente aos propósitos de satisfação. Durante esse período, portanto, o sujeito do ego coincide com o que é agradável, e o mundo externo, com o que é indiferente (ou possivelmente desagradável, como sendo uma fonte de estimulação).

Em comparação, proposta por Freud, o cavaleiro, o ego, não está apenas (pode-se dizer) furiosamente empenhado em manter as rédeas de seu cavalo teimoso, o id, como ainda é forçado, ao mesmo tempo, a lutar com uma nuvem de abelhas bravas, o superego, enxameando sobre ele. 

Mas, essa é uma discussão que vem rendendo desde Freud, muitos aprofundamentos que demonstram o universo de estímulos, impulsos, instintos que fazem parte do funcionamento mental de cada um de nós, negados ou aceitos, reconhecidos ou ignorados, eles estão lá num conflito constante por espaços que molda a nossa realidade psicossocial. 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

TREINAMENTO DE PESSOAL DE CAMPO - ELEIÇÕES 2020


O trabalho na majoritária me colocou em contato com candidatos a vereador de Campina Grande-PB, e dentro de cronograma apertado tive a oportunidade de ministrar treinamento de pessoal de campo seguindo o seguinte plano de curso breve: 1) Medidas Sanitárias frente aos protocolos de prevenção a convid-19; 2) Limites prudenciais legais (ilícitos eleitorais, fundamentos legais da propaganda eleitoral e Lei das Inelegibilidades - Condutas vedadas). 

quinta-feira, 25 de junho de 2020

TemasPsi: ANSIEDADE


Um convite à reflexão. "Reflexão é a análise sobre um fato, um comportamento, uma situação. Nesse momento podemos rever conceitos, hábitos e costumes. Podemos nos transformar." (Monja Coen)

DEFINIÇÃO 

A ansiedade é definida como “um estado de apreensão intensa, incerteza e medo, resultante da antecipação de um evento ou situação ameaçadora, numa intensidade tal que interrompe o funcionamento normal das funções físicas e psicológicas”.


A ansiedade pode ser uma reação normal a estímulos desestabilizadores ou que possam atemorizar as pessoas. Essa reação pode ocorrer com sintomas psicológicos, como apreensão, desconforto, medos diversos, e também com sintomas físicos, como taquicardia, aumento da frequência respiratória, alterações de pressão arterial entre outras.

A ansiedade surge como alerta em uma situação adversa, que foge do controle do que o nosso cérebro e o nosso corpo entendem como algo que pode prejudicar nossa vida. Ela é uma resposta natural ao medo, que possui uma conotação negativa mais, muitas vezes, pode salvar nosso bem mais precioso e nos livrar de situações que nos trazem malefícios e prejudicam nosso bem-estar.

Algumas pessoas possuem mais propensão à ansiedade do que outras por diversos fatores que envolvem seu histórico de vida, seus relacionamentos, genética e determinados fatores ambientais.

Quando a ansiedade ocorre sem que existam motivos objetivos, reais e proporcionais para isso, dizemos que ela é patológica.

As manifestações patológicas da ansiedade podem ser classificadas do seguinte modo: transtorno de pânico, transtornos fóbicos, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno de estresse agudo, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de ansiedade induzido por substâncias, transtorno de ansiedade devido a uma condição médica geral.

Nos transtornos de ansiedade as pessoas não perdem a capacidade para distinguir o que é real do que é imaginado, mas não conseguem controlar seus sintomas.

Elas reconhecem que o que sentem não é justificável em face do que está acontecendo em suas vidas e muitas vezes não conseguem entender o que acontece com elas. Isso tende a agravar seus sintomas.

Não se sabe ainda com certeza quais são as causas e mecanismos fisiopatológicos da ansiedade, mas já se sabe que fatores biológicos são muito importantes e, em muitos casos, são os principais determinantes dos quadros de sintomas. Contudo, ocorrências da vida e características psicológicas dos indivíduos também podem contribuir de modo significativo. 

O tratamento deve ser adequado a cada caso e em geral inclui tanto o uso de medicamentos como psicoterapia.

Procurar ajuda pode ser mais complexo do que parece. Além de ter que buscar um autoconhecimento e saber reconhecer quando uma coisa não vai bem, a pessoa que sofre de ansiedade ainda pode se deparar com obstáculos impulsionados pela falta de informação de parentes e amigos que o cercam e até do preconceito da sociedade, que vê transtornos psicológicos como uma fragilidade e não entendem que, por trás de tudo isso, existem fatores químicos e biológicos consideráveis.




João Batista Nunes

Acadêmico de Direito/Formado em Psicologia.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

TemasPsi: MOTIVAÇÃO



A palavra “motivação” é derivada do latim motivus e refere-se a “tudo aquilo que pode fazer mover”, “que causa ou determina alguma coisa” ou “o fim ou razão de uma ação”. Desse modo, faz sentido dizer que uma teoria da motivação é uma teoria da ação.

E, como a ação humana é multicausal e contextual, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos, históricos, sociológicos e culturais, as pesquisas sobre motivação passaram a utilizar múltiplos critérios de mensuração, procurando relacionar esse conceito a outros que permitissem a ampliação da compreensão da conduta humana.

Conforme destacado por Zanneli (2019) apud Salanova; Hontangas; Peiró, 1996, p. 216, a motivação como processo psicológico básico pode ser definida como uma ação dirigida a objetivos, sendo autorregulada, biológica ou cognitivamente, persistente no tempo e ativada por um conjunto de necessidades, emoções, valores, metas e expectativas.

O primeiro modelo de classificação divide as teorias da motivação em dois grupos: teorias de conteúdo e de processo. O primeiro explica a motivação humana a partir das necessidades (ou carências), afirmando que a conduta é orientada para sua satisfação.
A preocupação está em apontar os diferentes tipos de necessidades que orientam as ações humanas (Pérez-Ramos, 1990). No segundo grupo, a motivação é compreendida como um processo de tomada de decisão em que estão em jogo as percepções, os objetivos, as expectativas e as metas pessoais.

No segundo modelo de classificação (Thierry, 1994), as teorias de conteúdo são diferenciadas das de processo, mas também é evidenciada outra dimensão de diferenciação entre as teorias da motivação, visto que algumas delas fazem referência ao reforço da conduta e outras, à cognição.

O argumento que justifica a inclusão dessa nova dimensão no modelo de classificação é o de que as teorias, ao discutirem a importância do reforço na motivação, dirigem sua atenção para o que acontece depois da ação ou da conduta (fator externo), ou seja, ao que faz aumentar as chances de ela vir a se repetir (a pessoa continuar motivada a repetir aquela ação).

De modo distinto, as teorias que enfatizam a cognição dirigem a atenção para o que acontece no sistema cognitivo da pessoa (fator interno), ou seja, nas percepções, nas interpretações e nas informações armazenadas, tratadas e recuperadas, conforme a necessidade da pessoa de tomar decisões.

Assim, a motivação seria decorrente não do que acontece depois que a pessoa age (recompensa), mas do que ocorre na sua mente (desejos, intenções e metas) e orienta o que ela irá fazer no futuro.

João Batista Nunes
Acadêmico de Direito/Formado em Psicologia.

domingo, 29 de março de 2020

UMA HISTÓRIA QUE SEMPRE SE REPETE


A história da humanidade passa por uma repaginação toda vez que moléstias se propagam e causam uma drástica experiência na vida e nos modos de viver no planeta. Na Idade Média foi assim em se tratando de um ataque de micro organismos. No século XX, o Vírus Ebola no Continente Africano nos reaviva o drama humano. E, agora, em pleno século XXI mais um lembrete de nossa vulnerabilidade, um vírus que de tão pequeno não podemos ver, causador de tamanha devastação.

Em nosso tempo as promessas da ciência em seus variados campos pareciam nos levar a criar uma consciência completamente desvencilhada do conceito de Deus. Mas, no caos que se anuncia com centenas e milhares de mortes em vários países, o senso religioso é reavivado. 

Parece óbvio que com os melhoramentos técnicos e aprimoramentos nos métodos de cultivo e manutenção da qualidade da produção agropecuária voltados para a sustentabilidade a vida, enfim, poderia seguir seu curso garantindo alimento e qualidade de vida para a maioria das pessoas.

Mas, tudo isso talvez seja eclipsado pela ganância, avareza, orgulho e inveja que acompanha o ser humano desde os primórdios mais longínquos de sua existência. Parece até que os seres humanos são, na verdade, os verdadeiros vírus infectos da terra, pois aonde pôs as mãos não somente modificou a natureza das coisas, mas alterou o DNA da normalidade, do belo, do natural.

Milhões e milhões de vidas ceifadas de 1939 à 1945, em sua grande maioria civis, era a Segunda Guerra Mundial. Calcula-se um total de 85 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial, onde mais de 50 milhões foram civis. 

Com o fim da Guerra, as Nações Unidas dava início aos planos para mitigar a fome e demais consequências desse período. O Estado de Bem-estar social era um deles. Mas o resultado obedecia ao final apenas uma lógica: 80% de tudo que a humanidade produzia era consumido apenas por 2% da população do Planeta. E pouco mais de 13% da produção mundial era consumida pela imensa maioria, numa clara mensagem de uma concentração exorbitante de riquezas e meios de produção nas mãos de uns poucos e pouquíssima distribuição para muitos.

É evidente que esse sistema chegou a exaustão, e os apelos por quebra de paradigmas forçaram gradualmente, mas não representativo ainda, o compartilhamento de bens e serviços. Tudo ainda se mostra nítido de quão perverso e mesquinho é o sistema que regula e tenta harmonizar o modus de vida do ser humano no Planeta.

O ser humano, entretanto, não é um ser abjeto. Ele tem virtudes, embora estejam em um avançado processo de extinção. Vez por outra somos surpreendidos por atos de coragem, amor, empatia, fé, que implicam em mudanças de paradigmas e por isso talvez ainda possamos vir por mais um pouco na Terra.

João B Nunes

quinta-feira, 19 de março de 2020

EM TEMPOS DE CONFINAMENTO É PRECISO CUIDAR DO EMOCIONAL



O ser humano por definição é um ser social, que nasce, cresce, desenvolve-se e morrer no meio social, pertencendo a uma sociedade, tribo, clã e família. 

Esse momento de apreensão vivenciado  em todo o mundo em face de uma pandemia que pode se alastrar e ceifar a vida de milhares de pessoas, as autoridades recomendam, outras até decretam sob pena de multa e prisão, o recolhimento das pessoas em seus domicílios, e nesse ponto, tem-se várias situações que devem ser consideradas em relação às pessoas em si.

É preciso ter cuidado com o emocional da pessoa nessa fase de isolamento. 

De acordo com o psicanalista Marcos Wagner e a psicóloga Karoline Paiva, durante períodos de isolamento, o mal estar psicológico pode se instalar, fragilizando nossa capacidade de adaptação e reação ao estresse do confinamento, produzindo respostas fisiológicas e emocionais que podem impactar nosso sistema imunológico e a condição de equilíbrio mental para enfrentamento de situações adversas.

Procure assistir noticiários apenas uma vez ao dia. Geralmente a edição da manhã é capaz consolidar tudo o que precisamos saber para ficarmos atualizados.

Evite pensamentos vitimista. Não caia na armadilha da hiperinformação e no excesso angustiante de informações falsas ou exageradas. Essas ações podem te levar a um estado mental de constante alerta, prejudicando o relaxamento e capacidade de discernimento.

Evite a solidão como sinônimo de abandono. A solitude é um estado desejável de privacidade que permite a reflexão e a subjetivação pessoal, mas a solidão pode produzir tristeza em excesso e potencializar traços depressivos inerentes a cada pessoa.

Utilize toda tecnologia disponível para manter-se conectado com a vida e com pessoas que você estima. Una-se aos seus familiares e amigos, promovendo boas conversas por meio de videochamadas, telefonemas ou mensagens.

Evite cultivar pensamentos pessimistas e sofrimento por antecipação. 

Quando estamos amargurados, nosso mundo interior fica embrutecido e nossas reações e comportamentos podem se revelar de forma destrutiva, ferindo aqueles que estão à nossa volta e nos impedindo de enxergar soluções. Isso ocorre porque mecanismos de autodefesa reprimidos se eclodem e podemos passar a agir de forma agressiva.

Lembre-se: Você tem condições de pensar diferente a fim de aliviar as dores produzidas pelo momento atual. Permita-se.

Se o ócio não for criativo, pode conduzir a um estado de letargia existencial. Encontre nas atividades manuais e nas atividades físicas que possam ser executadas em casa um meio para aliviar desconfortos e para preencher o tempo.


João Batista Nunes da Silva

sábado, 28 de dezembro de 2019

CADÊ O DINHEIRO QUE TAVA AQUI?



Muito já se escreveu sobre qual seria o futuro do dinheiro tal como o conhecemos, feito de papel moeda. Imagine como será pensar num tempo um pouco mais adiante quão estranho era ter que sair de casa para acessar a conta bancária num terminal de autoatendimento instalado numa farmácia ou outro estabelecimento comercial para sacar algumas notas e saldar alguma dívida ou comprar uma pizza.

Com certeza vamos nos lembrar que a ideia trazida pelos bitcoins e outras criptomoedas parecia coisa restrita a investidores acostumados com as novidades do mundo financeiro, e portanto, familiarizados com as transações tecnológicas.

Talvez iremos rir diante da evolução que chegou à velocidade de mil terabytes e nos domesticou a todos, ajustando-nos ao modus do sistema financeiro 100% virtual, como era a representação simbólica contida naquelas notas de papel moeda que utilizávamos e não nos dávamos conta.

Não tendo que utilizar o papel moeda, de pronto, deixará de existir os bancos e casas de cambio espalhadas pelo mundo inteiro. O tilintar de moedas só será possível nos filmes que retratem aquele tempo passado, mas que não tão pretérito assim.

É provável que passemos a lidar com conceitos de crédito aplicável ao ganho financeiro, e assim, o salário seria computado não mais em termos de valores. Mas, acho que nesse estágio, o mundo estaria muito mais avançado, vencendo as barreiras globais de ajustes tecnológicos.

Desaparecendo o dinheiro do mundo os quartéis de drogas terão dificuldades para se manterem ativos, pois a segurança de trâmites de riquezas nacionais e internacionais estarão mais seguros e facilmente detectáveis. As operações de grande volume de riquezas e seus destinatários estarão na mira de órgãos detectores de crimes contra a economia e, nesta tacada, ilícitos fraudulentos tenderão a enfraquecer estruturas de corrupção em todos os países, deixando-as na rota de extinção.

O Estado, nesse aspecto, nunca deixará de ser intervencionista, porque saberá dizer o quanto determinado cidadão enriqueceu/empobreceu e o tempo decorrido dessa ou daquela mudança de status.

Obras faraónicas não terão mais sentido, nem serviços e produtos deixarão de traduzir o nível de satisfação para o qual foram destinados por falta de recursos ou desvios, pois o domínio virtual de valores não permitirá operações que crie desarmonia entre a concepção do projeto, execução e avaliação.

É bobagem pensar que o cidadão precisará portar um smartphone ou tablete, ou ter um computador por perto, já que, a massificação do sistema de créditos virtual exigirá a implantação de terminais em todos os estabelecimentos comerciais, órgãos públicos e privados, logradouros de grande circulação de públicos.

Num sistema integrado globalmente, não importa se o ladrão seja nativo ou de outro país, por mais longínquo que seja, qualquer operação identifica de onde o dinheiro, digo, o crédito, saiu e para onde foi, se pessoa física ou jurídica.

Desta maneira, o mercado negro que comercializa clandestinamente armas, munições, artefatos explosivos, insumos da biopirataria, artigos de artes de primeira grandeza, sofrerá um profundo golpe.

As camadas de segurança desse sistema de crédito virtual será uma chave-mestra criadora de barreiras que se transmutam variavelmente tornando as operações individuais praticamente inexpugnáveis. Por isso, a dica é para os crackers: mudem de profissão.

Se você entendeu bem este texto, pois, estamos diante da ascensão da Nova Ordem Mundial, que durante muitos tempo se esmerou para dizer que qualquer pensamento neste sentido, seria produto de pensamentos próprios dos adeptos de teorias da conspiração ou daqueles que levam a sério demais o capítulo 13 de apocalipse.

Mas, voltando a grande questão: cadê o dinheiro que estava aqui?! O gato comeu!

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

EU E O MEU EGO



Não há ninguém mais íntimo do que o nosso ego. Ele está ali onde ninguém mais além de nós podemos situá-lo. Ele bem que poderia ser nosso melhor amigo. Até certo ponto ele até se esforça para ser, afinal, se quase sempre nos comportamos de modo a supervalorizarmos traços pessoais, conquistas, sucesso etc. e etc. tem seu toque especial.

Ryan Holiday em sua obra O Ego é seu inimigo – como dominar seu pior adversário é uma excelente leitura para quem ainda não se deu conta da existência e atuação desse ente em suas vidas.

Para o autor, em qualquer momento da vida, as pessoas se encontram em um de três estágios. Estamos aspirando a algo, tentando abrir uma brecha no universo. Alcançamos o sucesso, talvez um pouco, talvez muito. Ou fracassamos, recente ou continuamente. A maioria de nós se encontra em fluxo nesses três estados, aspiramos até alcançarmos o sucesso, temos sucesso até fracassarmos ou até aspirarmos a mais, e depois que fracassamos podemos começar a aspirar a ou alcançar o sucesso outra vez.

O ego é o inimigo a cada passo do caminho. De certo modo, ele é o inimigo da construção, da manutenção e da recuperação.

A proposta do autor em relação ao que pode ser feito para estarmos um passo à frente dos ataques de nosso próprio ego é esquematizada numa estrutura que, segundo ele, poderá nos ajudar a ser: humildes em nossas aspirações; generosos em nossos sucessos; e, resilientes em nossos fracassos.

Isso não quer dizer que você não seja único e que não tenha nada de incrível com que contribuir em sua breve passagem por este planeta. Não quer dizer que não haja espaço para ultrapassar limites criativos, inventar, sentir-se inspirado ou ter mudanças e inovações verdadeiramente ambiciosas como meta. Pelo contrário: para fazermos essas coisas da melhor maneira e corrermos tais riscos, precisamos de equilíbrio. Como observou o quaker William Penn: “Construções que se encontram tão expostas às intempéries precisam de uma boa fundação.”

Pense nisso.

João B. Nunes          
joaobnunespb@hotmail.com

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

A INTELIGÊNCIA PERCEPTUAL DA MULHER


O homem precisava se ausentar por longas distâncias para garantir uma boa caça, enquanto isso, a mulher se dedicava ao plantio de leguminosas e tubérculos que compunham a base alimentar. Não era tarefa fácil para ambos, mas para a mulher parece que a árdua missão exigia mais que se imagina. Ela tinha que cuidar dos filhos, amamentar, mantê-los aquecidos nos períodos de intensos invernos e protegê-los das feras que rondavam sua habitação.

Era preciso desenvolver uma inteligência perceptual que possibilitasse a leitura dos mínimos sinais de perigo. E de sinais a mulher entende. Mais que o homem, a mulher tem uma acuidade visual, olfativa e auditiva capaz de fazer leitura de cenário, ambiente e de pessoas. 

O olhar da mulher é sempre uma leitura, uma análise, logo vem a síntese, uma conclusão, que pode não acerta 100%, mais chega perto. Sentimentos (amor, raiva, agressividade, insatisfação etc.), intensões, comportamentos esboçados, quanto mais experiente nas vivências mais aguçada e assertiva ela se torna. 

Em tempos de acirradas competitividades ler os sinais daquilo que não é verbalizado é, sem dúvidas, uma vantagem a mais. Sinais de perigo, sinais de que deve avançar eu manter a cautela, enfim, sinais que se desdobram em sentidos que dão origem a tantos e tantos outros sentidos exigindo esse dom interpretativo e sensível (quase sensitivo) da mulher.

Os sinais, mesmo aqueles mais sutis, que ninguém mais consegue ver, a mulher os percebe passa a utilizar cada um deles como elementos que darão corpo a intuição. Intuir é algo que qualquer um pode fazer, contudo, como já frisado, a mulher sobressai. 


João Batista Nunes
Formado em psicologia e pós-graduando em GRH.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

O INCONSCIENTE


Esse foi o título inaugural de Sigmund Freud, médico neurologista e criador da escola de pensamento psicanalítico ou a psicanálise. Um tema que era do interesse apenas de estudiosos da filosofia e das ciências psi, psicologia, psicanálise e psiquiatria para adentrar o mundo das ciências sociais aplicadas. Nesse caso, jornalistas, publicitários, gestores sociais e operadores do direito têm demonstrado especial atenção à existência de um mundo de domínio subjetivo, o inconsciente.

A analogia mais utilizada para se obter a dimensão do inconsciente é a do iceberg que no mar torna claro apenas aquele bloco de gelo que pode ser um pequeno monte escondendo a enorme montanha submersa, escondida aos olhos do observador, demonstrando a ideia de que muitos conteúdos que verbalizamos ou exprimimos através dos mais variados gestos encontram respostas emocional e motivacional em nosso inconsciente.  

Em seu Vocabulário da psicanálise, Laplanche e Pontalis afirmam que, “ se fosse preciso concentrar numa palavra a descoberta freudiana, essa palavra seria incontestavelmente a de inconsciente”. Creio que a quase-totalidade dos téoricos em psicanálise concordaria com esta afirmação, embora nem todos concordem quanto à significação, à extensão e aos limites daquilo que entendem por inconsciente.

Uma das maneiras de se começar a falar no inconsciente freudiano pode ser a de se apontar o que ele não é, ou então, a de se marcar a sua diferença com relação àquela concepção de subjetividade dominante até Freud. 


O termo “ inconsciente” , quando empregado antes de Freud, o era de uma forma puramente adjetiva
O Inconsciente 169para designar aquilo que não era consciente, mas jamais para designar um sistema psíquico distinto dos demais e dotado de atividade própria.

A concepção que mais se aproximou da de Freud foi a de Herbart, que mesmo assim não falava de um psiquismo topograficamente dividido em sistemas, mas de ideias que continuavam dinamicamente ativas após terem sido inibidas pelas demais. Qualquer que tenha sido, porém, a noção de inconsciente elaborada antes de Freud, o fato é que ela não designava nada de importante ou de decisivo para a compreensão da subjetividade.

Um outro aspecto importante a ser ressaltado é o da identificação do inconsciente com o caos, o mistério, o inefável, o ilógico etc., e esta identificação ocorreu tanto anteriormente a Freud como no interior do próprio espaço do saber psicanalítico. Até hoje encontramos “descrições” do inconsciente como sendo o lugar da vontade em estado bruto e impermeável a qualquer inteligibilidade.

Aqueles que identificam o inconsciente freudiano com o caótico e o arbitrário devem reler o capítulo VII da Traumdeutung, quando Freud declara enfaticamente que não há nada de arbitrário nos acontecimentos psíquicos, todos eles são determinados. 

Aqueles que identificam o inconsciente freudiano com o caótico e o arbitrário devem reler o capítulo VII da Traumdeutung, quando Freud declara enfaticamente que não há nada de arbitrário nos acontecimentos psíquicos, todos eles são determinados. 

Os fenômenos lacunares são, portanto, indicadores de uma outra ordem, irredutível à ordem consciente e que se insinua nas lacunas e nos silêncios desta última. Essa outra ordem é a do inconsciente, estrutura segunda, e que não é apenas topograficamente distinta da consciência, mas é formalmente diferente desta. O inconsciente não é o mais profundo, nem o mais instintivo, nem o mais tumultuado, nem o menos lógico, mas uma outra estrutura, diferente da consciência, mas igualmente inteligível.

João B Nunes