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sexta-feira, 13 de agosto de 2021

APRESENTO-LHE O MUNDO ATUAL


Se você está aqui nesta página lendo esse texto é porque, de alguma forma, escolheu tomar a pílula vermelha ao invés da azul, oferecida por Morpheus[1]. Nesse caso, seja bem-vindo(a) ao mundo real! 

Uma das primeiras referências ao mundo VUCA está em um artigo de 1992 no Journal of Management Development, intitulado “Developing strategic leadership: The US Army War College experience” (Desenvolvimento de liderança estratégica: a experiência do Colégio de Guerra do Exército dos Estados Unidos [Fonte: Centro de Ensino Empresarial da Fundação Getúlio Vargas - https://blog.ceem.com.br/]).  

Um time de especialistas em comportamento humano, sociedade e tendências financeiras mundiais deu vida ao acróstico[2] VUCA, sigla que em inglês significa VOLATILITY, UNCERTAINTY, COMPLEXITY,  AMBIGUITY; que no português se traduz por: VOLATILIDADE, INCERTEZA, COMPLEXIDADE, AMBIGUIDADE. Essa descrição parece ser tão precisa que se pudesse ser transformada em imagens então, teríamos uma selfie de mundo atual.

Então, vamos lá. Por favor, afivele seu cinto, acomode-se, a previsão da viagem é de 5 minutos de leitura. 

A primeira palavra que compõe o acróstico é volatilidade. O dicionário Houaiss (2020) traz a etimologia: do latim volatìlis,e 'que tem asas, que voa'. Tomada em seu sentido figurado, é subjetivo, que voa como as aves, voa como o tempo, como nas expressões usuais. 

Talvez quem melhor se aprofundou numa amostragem do quão volátil é o mundo das pessoas e das coisas tinha sido o filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman [3], autor da expressão sociedade líquida, para designar uma superestrutura social fluída, fugaz, efêmera, onde nada foi feito para durar, tudo é transitório sejam as relações sociais, sejam as coisas de que tanto nos vangloriamos. Tudo se encaixando perfeitamente num estado liquefeito, flexível, portanto, volátil.

Ao utilizar a ideia de que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, Heráclito de Éfeso (535-475) afirmava que "tudo flui e nada permanece", tudo é um "devir", movimento, mudança, impermanência. O mundo sempre foi uma constância cíclica, mas, as transformações do mundo atual são rápidas, incalculáveis e fluídas. Voláteis, por assim dizer.

A segunda palavra, incerteza. "Incerteza é um termo usado, com diversos significados, em muitos campos, incluindo filosofia, física, estatística, economia e finanças, psicologia. Pode referir-se a uma situação em que não se pode prever exatamente o resultado de uma ação ou o efeito de uma condição"[4].

O mundo atual definido em termos de incerteza implica dizer que experiências passadas, tomadas como referências, fatos históricos, projetos e ideias que funcionaram, já não servem mais como parâmetros, sendo cada vez mais impossível de se estabelecer previsões acerca de cenários locais, regionais e internacionais, não se tendo condições de também se antecipar eventos.

"Com isso, está se tornando quase impossível planejar investimentos, desenvolvimento e crescimento à medida que se torna cada vez mais incerto para onde o trajeto está levando."

A incerteza é fenômeno que atinge não apenas o mundo das macropolíticas estratégicas nem apenas dos conglomerados econômicos, mas também, na própria vida social, nas afetações de influências sociais produzidas pelas grandes mídias que direcionam inteligências manipuladoras de massas que acabam por reforçar novos modelos e comportamentos que convergem para desajustes sociais que vão desconstruindo as antigas bases nas quais se sustentavam as sociedades.

Complexidade é terceira palavra da lista. A complexidade do mundo atual atingiu um patamar de extremada grandeza, fenômeno que especialistas traduzem numa perspectiva de dados.  Wolfgand Fengler afirmou certa vez, que "existem mais dados no mundo do que grãos de areia. O grande desafio é interpretá-los e tirar um sentido deles."

Houve o tempo em que toda a riqueza do mundo, por exemplo, era definida em termo de barris de petróleo, hoje, pode-se afirmar que são os dados. 


____________
[1] MorpheusMorpheus é um personagem fictício da franquia The Matrix. Ele é retratado por Laurence Fishburne, numa trama instigante que realça a natureza de uma guerra entre homens e máquinas, num campo de batalha dual, entre o mundo real e o virtual. A pílula azul, permitia que a pessoa permanecesse no mundo de ilusão no qual jaz a grande maioria; se optasse pela pílula vermelha, despertaria para a verdadeira realidade, um despertar traumático, porém, verdadeiro. Optando viver no mundo virtual, das aparências e sensações, Cyfer, um personagem secundário da trama, que trai seus companheiros e a causa, diz: "a ignorância é uma dádiva...".

[2] Acróstico - De acordo com o Dicionário Houiss, o vocábulo 'acróstico', vem do gr. akrostikhís,ídos 'peças em que as iniciais de cada verso reunidas formam um sentido', prov. por infl. do fr. acrostiche 'id.'

[3] Zygmunt BaumanZygmunt Bauman (1925-2017) foi um sociólogo e filósofo polonês, professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Autor das obras: Modernidade e Holocausto (1989); Modernidade Líquida (1999); Amor Líquido (2003); Tempos Líquidos (2007).


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

PAULO DA CIDADE DE TARSO


Por volta de 750 do calendário Romano, nasceu Saulus[1]· (Sha’ul), em Tarso da Cicília. Era o primeiro século da era Cristã, pois nessa primeira década Jesus já havia nascido em Belém da Judeia. 
De acordo com Ball (2000), a província de Tarso abrangia 120 quilômetros de norte a sul, alongando-se do ocidente para o oriente da Panfília, “indo até as montanhas de Síria”. “Uma cidade não pouco magnífica” (Atos 21.29), já que na estrada ao sul, para Antioquia, ficava a passagem conhecida como Portão da Síria. Todo o trânsito das linhas comerciais ou se processavam pelo mar ou pelas rotas que convergiam pelas estradas montanhosas da Cicília, tendo Tarso como principal ponto, ou melhor, era a maior cidade do Império Romano na Cicília, numa perspectiva geoestratégica, política, cultural e comercial.
Os pais eram da Tribo de Benjamim (Rm 11.1), da classe dos Fariseus[2] (Fil 3.5) e habitavam em Tarso provavelmente em razão da diáspora[3] que espalhou judeus por todas as regiões do domínio romano. O nome Saulus parece ser uma homenagem ao primeiro rei de Israel dessa mesma tribo, Saul. Paulo do grego pavlos[4].
Percebe-se que, de acordo com os escritos neotestamentários Saulo passou a ser chamado apenas de Paulo a partir do capítulo 13:9 de Atos dos Apóstolos. Por ser da cidade de Tarso, era Judeu com cidadania romana. Houve situação em que ele soube muito bem explorar o direito romano em seu favor.
A educação de Paulo parece ter sido uma das mais notáveis, descrita por ele mesmo como a mais rígida (vivi fariseu como a seita mais severa da nossa religião, At. 26. 5). Além de ter absorvido a melhor fase da influência helenística, o jovem foi “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus”,  At. 22.3.  “[...] E, na minha nação, quanto ao judaísmo, avantajava-me a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais.” (Gl. 1.14). Preparado para conduzir-se “irrepreensível, segundo a justiça da lei” (Fil 3.6).
Gamaliel era o mais conceituado mestre da coletividade judaica, mais de uma linha moderadora (At. 5.33); da escola de Hileu. Esse mestre deve ter preparado Paulo para seguir uma visão de mundo mais aberta em comparação as demais vertentes mais rígidas e ortodoxas. Tão preparado a ponto de encontrarmos Paulo discutindo com os estoicos e epicureus. Além do hebraico, língua nativa, Paulo dominava o aramaico, o latim e o grego. Com essas ferramentas podia transitar em qualquer lugar do mundo de então, entendendo e fazendo-se entender[5].
Talvez Paulo tenha sido educado em Tarso até cumprir o bar-mistivá e na idade dos 12 anos tenha ido morar com familiares em Jerusalém onde passou a estudos mais intensivos da lei e das tradições de moshé (Moisés).
Em Jerusalém, suas aulas certamente intercalavam-se, dentre as notícias mais quentes, os alvoroços de multidões causados por um homem galileu, este, que segundo os crédulos, fazia sinais e milagres extraordinários; levando muitos a acreditar ser ele o Messias.
O notável saber do rapaz Paulo fê-lo se destacar na corte principal dos judeus, o Sinédrio, e, de acordo com os primeiros relatos dos Atos dos Apóstolos, já o vemos como uma espécie de juiz com investidura de autoridade para consentir na morte de Estevão, discípulo exatamente do galileu que, inclusive, já havia sido condenado a morte de cruz pelos Romanos, pela sentença de Poncio Pilatos.
Como um autêntico oficial do sinédrio, Paulo agora é descrito no capítulo 9 dos Atos se dirigindo ao sumo sacerdote para pedir-lhe novas investiduras contra os discípulos do galileu. O texto inicia com expressões fortes “Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos [...]”.
O plano era chegar à cidade da Damasco e empreender uma verdadeira caçada a qualquer que professasse fé nos ensinos do galileu. “Caso achasse alguns que eram do Caminho (assim era designado aquela sedição), assim homens, como mulheres, os levassem presos para Jerusalém”, versículo 2.
“Perseguir este Caminho até a morte, prendendo e metendo em cárcere homens e mulheres” (Atos 22. 4).
Naquele dia tudo parecia ser como antes. Um dia comum para diligências e apreensões de seguidores desse tal Caminho. Já estava tudo acertado entre as autoridades de Jerusalém. Paulo, devidamente guarnecido partiu para mais uma missão, estrada afora, rumo à Damasco.
Ao aproximar-se (At. 9.2-5) da cidade, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, tão forte que o fez cair por terra e nisso ouvir uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Paulo atordoado com toda essa situação, incomum, sobrenatural, sem enxergar absolutamente nada em volta de si, perguntou ante a voz inquiridora: “Quem és Senhor”? E em resposta ouviu a sentença: “Eu sou Jesus, a quem me persegues.”
Referência Bibliográfica
BALL, Charles Fergunson. A Vida e a Obra de Paulo. 3º edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2000.
Bíblia Sagrada. Versão ARC; e, NVI; LH. Sociedade Bíblica do Brasil, 2014.
Ramos, José Augusto. Paulo de Tarso – Grego e Romano, Judeu e Cristão. Centro de Estudos Clássicos. Universidade de Coimbra. Portugal: Humanitas Supplementum, 2010.
STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. São Paulo: Templus, 2008.




[1] Saulus era nome dado em homenagem ao primeiro rei de Israel, Saul.
[2] Fariseus: Pharisaios (grego), proveniente de uma palavra aramaica peras (encontrada em Dn 5.28), significando “separar”, devido a um diferente modo de vida em relação ao público geral.
[3] Diáspora significa ‘dispersão’. É termo que se relaciona à dispersão dos Judeus provocada pela rebelião de um certo Judah ben Hezekiah, em 4 a.C., de acordo com José Augusto Ramos et al in Paulo de Tarso, Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra, 2010.
[4] Pavlos (Grego) de acordo com David H. Stern in: Comentário Judaico do Novo Testamento.
[5] O próprio Flavio Josefo, historiador hebreu afirmava que por volta do século I, circulavam em Jerusalém, tanto quanto na corte de Herodes, homens versado na cultura helenística, que dominavam o grego.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

CÍCERO


Marco Túlio Cícero nasceu em Arpino, cidade do Lácio, a 03 de janeiro de 647 da fundação de Roma e 106 antes de Cristo (a.C)[1]. O nome Cícero pertencia à família Túlio de Arpino, da gens plebeia Cláudia, que veio a ser altamente dignificada pelo incomparável orador. A História Romana, antes de Marco Túlio Cícero, só fazia menção de Cláudio Cícero, tribuno da plebe em 454 a.C.

A palavra parece derivar de cicer, “chicharo” ou “grão-de-bico”; provavelmente adotou-a como sobrenome de algum antepassado do orador que se entregara ao cultivo dessa leguminosa, à imitação dos Lêntulos, que tomaram seu nome da lentilha, e dos Fábios, derivado de faba, “fava”.

Tal hipótese é sustentada por Plínio na sua História Natural, XVIII, 3. Plutarco, porém, atribui o sobrenome a um dos indivíduos da família Túlia, que tinha no nariz uma verruga do tamanho de um grão-de-chícharo. Ainda conforme Plutarco, chamava-se Hélvia, sua mãe.

Cícero, em uma de suas obras filosóficas refere-se ao pai, que, retido no campo por motivo de saúde, entregava-se quase que inteiramente ao estudo das letras.

Marco Túlio Cícero pertencia a uma família da ordem equestre, e seu pai, ainda que afastado das lides políticas, mantinha relações com os homens mais notáveis da época.

O orador Licínio Crasso encarregou-se da educação de Marco e de seu irmão Quinto; sob a direção do mestre, Cícero ouviu, em Roma, as lições do poeta Árquias, grego, com o qual estudou os poetas, historiadores e filósofos da antiga Grécia. Cícero não descurou jamais do Latim, e, ainda jovem, começou a compor versos; abandonou, logo, a poesia, para se dedicar, inteiramente à retórica. Para esse abandono contribuiu não só o seu juízo crítico, mas também, em parte, os temas descritivos que escolhera, como Nilus; melhores não foram os seus resultados na poesia didascálica, ou na tradução dos Fenômenos de Arato; escreveu, também, um poema histórico, Marius. O seu Pontius Glaucus, em versos tetrâmetros, ainda que louvado parcimoniosamente pelos coevos, parece ser obra medíocre. O gato pela poesia, porém, jamais abandonou o admirável orador. Bem mais tarde tentou escrever um poema acerca do seu próprio consulado.

Os contemporâneos não pouco zombaram das predileções poéticas de Cícero, e Quintiliano cita um verso ciceroniano notando-lhe a horrível cacofonia (Inst. Or. IX, IV, 41; XI, I,24), verso esse que figura na X Sátira de Juvenal, verso 122:

O fortunatam natam me consule Roman! (Ó Roma afortunada, nascida sob o meu consulado!)

Aos 16 anos Cícero vestiu a toga viril; iniciou-se, a seguir, no estudo das leis e do ritual. Foram seus mestres os dois Cévolas, o áugure e o pontífice; nesses juvenis estudos tanto se distinguiu que logo escreveu um tratado sobre direito civil, segundo o testemunho de Aulo Gélio, obra que não chegou até nós: De Jure Civili in Arte Redigendo (De como fazer do direito civil uma arte), Aulo Gélio, Noctes Atticae, I, 22.

As leis romanas exigiam que todo  cidadão servisse à república, e Cícero não se furtou a essa obrigação. Em 87 a.C. tomou parte na campanha de Sila contra os confederados italianos, servindo sob as ordens do cônsul Pompeu Estrabão. De regresso a Roma, frequentou as aulas de Filão, grego natural de Larissa, cidade da Tessália, e chefe dos Acadêmicos, de Diódoto, o Estóico, e de Molão de Rodes, célebre filósofo e retor.

Com 26 anos iniciou-se Cícero no Foro, pronunciando a eloquente defesa de Quíncio, Pro Quinctio, tendo como adversário o famoso jurisconsulto Hortêncio. Por esse tempo, Crisógono, liberto de Sila, adquiriu por duas mil dracmas os bens de um homem que o ditador havia feito morrer, como proscrito; Róscio, filho e herdeiro do morto, indignado com tamanha desfaçatez, provou que os bens vendidos por tão baixo preço valiam 250 talentos. Sila que se viu convencido de injustiça, irritadíssimo contra Róscio, acusou-o, por instigação do liberto, de parricídio. 

Ninguém ousou defendê-lo, temendo a crueldade de Sila. O jovem Róscio, abandonado de todos, recorreu a Cícero; esse, atendendo aos amigos que lhe suplicavam aceitasse a causa, aproveitando, destarte, o ensejo que se lhe apresentava de entrar na carreira da glória, acedeu em defendê-lo. O sucesso dessa defesa atraiu a admiração geral sobre o novel advogado; mas o temor do ressentimento de Sila fez com que se dirigisse à Grécia, a pretexto de tratar da sua saúde um tanto abalada.

Na verdade, segundo o testemunho de Plutarco e de outros autores contemporâneos, Cícero não gozava de boa saúde; magro e descarnado, sofria do estômago, que tinha tão fraco a ponto de poder alimentar-se somente uma vez ao dia, com alimentos leves e parcos.

Na Grécia, Cícero ouviu as lições de Antíoco, o Ascalonita. Este já afastara da nova Academia e escola de Carnéades de Cirene, e abraçara a maior parte dos dogmas do Pórtico, a doutrina dos estoicos, a escola de Zenão. Cícero amava a filosofia e dedicou-se a ela com o maior entusiasmo, convencido de que um bom orador, antes de tudo, deveria ser bom filósofo. Projetava, segundo consta, renunciar à carreira de advogado e retirar-se para Atenas, a fim de viver uma vida tranquila e sossegada entregue às lucubrações filosóficas. Logo fê-lo esquecer todos os seus planos; esteve, antes, em Rodes e na Ásia, onde frequentou as escolas dos retores Xénocles, de Adramita, Dionísio, de Magnésia, península e província da Tessália, e Menipo, o Cário. Em Rodes, ligou-se estreitamente aos filósofos Apolônio Molão, de Alabanda, e Posidônio, escritor grego nascido na Síria e discípulo de Panécio.

No ano de 77 vemo-lo em Roma, e, nessa mesma época, casava-se com Terência. No ano 75, como questor, esteve na Sicília, passando depois para Siracusa, onde se diz ter descoberto a sepultura de Arquimedes. Por causa da escassez de trigo que afligia Roma, teve que enviar para a capital grandes quantidades daquele cereal, mas procedeu com tanta justiça e tamanha bondade, que conquistou as boas graças de todos os sicilianos.

Célebre ficou sua ação contra Cornélio Verres, ex-pretor da Sicília, que cometera revoltantes excessos. Nessa causa Cícero fez antes a defesa da espoliada Sicília, que ataques hostis ao desavergonhado Verres, que era apoiado por toda a aristocracia. Quinto Cecílio, cúmplice de Verres, foi seu principal contendor; seu principal contender; seu primeiro discurso contra o espoliador foi tão contundente, que o acusado não quis aguardar a sentença; foi condenado, e a fama de Cícero cresceu de vulto.

Edil em 69 e pretor em 68, apoiou calorosamente a votação da lei Manília, que concedia a Pompeu o comando supremo da campanha contra Mitridates, em substituição a Luculo, e que lhe conferia poderes extraordinários. Pompeu era, então, o chefe da oligarquia, e não foi sem repugnância que Cícero abraçou a sua causa, esperando reconciliar o Senado com os cavaleiros por meio de política mais liberal e expansiva. Não resta dúvida que, na sua atitude de apoiar Pompeu, havia muito egoísmo: o desejo de obter os favores do partido dominante e obter, assim, o consulado. Apoiado pela aristocracia, apresentou-se como candidato, juntamente com Catilina, de quem então já se suspeitava de conspirar contra a República, e que cometera incesto com a própria filha e matara um irmão. Não obstante a má fama de Catilina, a ele aliou-se para fazer a campanha eleitoral. Obteve o consulado em 63. Catilina, que não fora tão afortunado, recomeçou a maquinar contra a República. Cícero, que descobrira tais intrigas, fê-las abortar, e, apesar da oposição de César, conseguiu que o Senado o condenasse, bem assim como a seus principais cúmplices. Datam dessa época as imortais Catilinárias, quatro maravilhosas orações, cujo exórdio ameaçador e majestoso da primeira assim começa: Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? (Até quando finalmente, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?).

O Senado e o povo romano conferiram-lhe o título de “pai da pátria, pater patriae”, libertador e novo fundador de Roma.

No seu consulado, lutou Cícero pela elevação da classe dos cavaleiros, convertendo-a em classe intermediária entre os senadores e a plebe.

Os louvores que lhe prodigalizaram e a sua natural vaidade que não perdia ocasião de se por em evidência, atraíram-lhe o despeito e a inveja de muitos, principalmente dos amigos e partidários de Catilina; passaram a chamá-lo “o terceiro rei estrangeiro”. No fim do seu consulado, quando se preparava para pronunciar o discurso que em tais casos ia fazer-se, o tribuno Metelo tomou-lhe a palavra ordenando-lhe que se limitasse a jurar não haver feito nada contra a República. Cícero exclamou: Juro haver salvo a pátria! E a multidão, excitada, a uma só voz, gritou: Juramos que dizes a verdade!

O principal crime que então se imputava a Cícero era o de ter feito executar os cúmplices de Catilina sem processo.

Clódio, patrício de maus costumes e que havia profanado os mistérios da Boa Deusa, fora acusado por Cícero de sacrílego; conseguiu sair absolvido do processo, e buscava ocasião para vingar-se. Tomou gladiadores a soldo, fez-se adotar por uma família plebeia e pode, destarte, tornar-se tribuno da plebe, logrando impor-se aos triúnviros e aos cônsules. Cícero, precavido, comprou outro tribuno,  Nônio, que se deveria opor a todos os atos do seu colega. Clódio, porém, jurou que não pretendia praticar nenhuma ação que pudesse prejudicar Cícero, e este, ingenuamente, consentiu que Nônio abandonasse a oposição; assim o caminho ficou livre para que o sacrílego pudesse agir. Sem tardança, conseguiu Clódio que se aprovasse a lei que considerava culpado todo aquele que houvesse enviado ao suplício um cidadão sem a confirmação da sentença pelo povo. Cícero compreendeu que a lei fora elaborada expressamente para ele; vestiu-se de luto, deixou crescer a barba e suplicou aos amigos que o defendessem. Também o Senado se pôs de luto; os cônsules ordenaram-lhe que voltasse a envergar a púrpura.

2000 cavaleiros, igualmente enlutados, montavam guarda à casa de Cícero, sempre insultados com soezes injúrias pelos sicários de Clódio. Luculo aconselhava-o a lutar à frente dos seus contra o sacrílego; Catão e Hortêncio, mais ponderados e experientes, admoestavam-no a que não imitasse Catilina; César convidou-o a partir em sua companhia para as Gálias, e, não tendo Cícero aceito seu convite, ficou grandemente ressentido; Pompeu abandonando-o à sua própria sorte, retirando-se para sua casa de campo, pagando, dessa maneira, com a mais crua ingratidão o apoio que o tribuno sempre lhe prestara. Cícero viu-se sozinho e desamparado, ainda que verdadeiras multidões o lamentassem; mas nada podiam fazer por ele. Clódio, da tribuna, acusou-o; o orador não teve outra alternativa senão a de exilar-se voluntariamente.

A cidade de Hipônio fechou-lhe as portas; a Sicília igualmente o rechaçou, e finalmente, um Brundísio, cidade e porto da Calábria, no sul da Itália, atual Brindes, o acolheu Lênio Flaco; mas, não se julgando suficientemente seguro, dirigiu-se para a Mísia, província da Ásia Menor, encontrando em Diráquio, atual Durazzo, cordial acolhida. Com o fito de permanecer mais perto da Pátria, dirigiu-se Tessália, onde chorou de desespero; não se suicidou unicamente por receio de ser a sua memória esquecida dos homens. Naquela oportunidade lembrou-lhe o oráculo de Delfos, que, quando da sua estada em Atenas, fora consultar: “Se quiseres a maior glória, hás de seguir não a opinião do povo mas a tua própria natureza”.

João Batista Nunes é psicólogo e acadêmico de Direito.




[1] Texto de acordo com a tradução remida do Latim de Tassilo Orpheu Spalding, in: Clássicos Cultrix, 1964.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A PRISÃO SEM MUROS DO PRAZER


Um rapaz, filho de pais ricos e influentes na área empresarial, cedo começou a se relacionar com mulheres. De acordo com seu próprio relato, ele experimentou tudo o que se possa imaginar como formas de prazer com suas parceiras, que eram variadíssimas. 

Logo de início experimentou a fase da ostentação, orgulhava-se de sua virilidade e poder desfilar com mulheres de todos os tipos e para todos os gostos, até chegar ao ponto de sentir um verdadeiro desprazer com o público feminino. Nada mais o atraia nelas, estava saturado e sua mente agora buscava experiências mais excitantes.

Migrou para o bissexualismo. Passou a gostar das experiências homossexuais. Mas sua mente, logo o induzia a buscar novas formas de prazer. Ele já era consumidor frequente de energéticos, passou a apreciar bebidas variadas. Aceitou as primeiras experiências com a maconha. O que para ele foi o máximo. 

Depois disso, a cocaína o levou a fantásticas experiências jamais sentidas. Foi o êxtase completo. Tão forte e envolvente que nada mais interessava senão o prazer das nights. Até o desprazer sexual de outrora havia voltado e ele agora estava com todo o vigor. 

Não se dava conta das vezes em que já não pensava mais em se alimentar. Nem se lembrava da última vez em que sentou com a família para almoçar ou jantar. Estava virando um zumbir. Às vezes ria com aquela situação, outras vezes chorava se olhando no espero e percebendo que, estranhamente, estava num caminho sem volta. 

Grandes reviravoltas, desacertos, desencontros, desalentos, desalinhos, desafetos, ilusão e pesar tornaram-se frequentes. Desacreditado e só, recusando-se quaisquer aproximações dos seus familiares, viu-se acordando no meu da chuva, embrulhado com papel de jornal junto com pessoas totalmente estranhas ao seu convívio numa das grandes pontes da cidade. 

Mas, até ali, naquela situação de completa desgraça e desumanidade, ainda assim a busca por algo mais que lhe proporcionasse prazer lhe perseguia. Ele ainda tinha algum dinheiro, mínimo que fosse para comprar do estranho sentado ao seu lado na calçada gélida, uma pedra de crack. Todo o procedimento prático veio gratuitamente. 

Foi então que ele experimentou o prazer mais imediato de sua vida. Algo tão forte e maravilhoso que o levou ao ápice de tudo que já havia experimentado antes. Era incrível. Tão acessível e... Três meses depois, sentado num banco da praça, depois de um certo tempo fixando o olhar vazio para lugar nenhum, perceberam as pessoas que passavam por ali, tratar-se de um indigente que houvera morrido com os olhos abertos. 

A busca crescente e desordenada pelo prazer pode construir uma prisão sem muros. É o prazer compulsivo que se instaura tornando senhor do comportamento, gerando crises de ansiedade incontroláveis e devastadoras, tanto na área do relacionamento sexual como nas drogas ou associadas. Só que o prazer excessivo tem seu preço alto, começando pelo consumo de energia mental e física constantes. 

O corpo não consegue acompanhar o ritmo frenético e vai sedendo por falta de reposição energética dos sais e minerais. Vai-se criando uma condição de enfraquecimento comprometedor das funções vitais fundamentais até a pessoa se tornar um zumbi, uma espécie de morto-vivo que teme a luz do sol. Para acabar de vez com esse estado, o corpo sede ao chamado da morte e pára de funcionar como um desligamento de uma máquina. 

Mas quão terrível não seria se a morte deixasse de cumprir seu papel? Essa indagação me leva a refletir sobre o romance escrito pelo dramaturgo Orcar Wilde, intitulado The Picture of Dorian Gray (1890).

Na obra, o autor tematiza de forma filosófica e provocativa o lado terrível da maldição de não-morrer. A personagem, Dorian Gray não podia fitar o próprio retrato, o que provocaria sua velhice acumulada por séculos. Sua juventude duradoura dependia desse distanciamento. 

O retrato de corpo inteiro em óleo de Basil Hallward, um artista que está impressionado e encantado com a beleza de Dorian é pintado com perfeição impressionante; acreditando que a beleza de Dorian é responsável pela nova modalidade em sua arte como pintor. 

Através de Basil, Dorian conhece Lorde Henry Wotton, e ele logo se encanta com a visão de mundo hedonista do aristocrata: que a beleza e a satisfação sensual são as únicas coisas que valem a pena perseguir na vida.

Imagine um homem, com aspecto jovial e bonito viver tanto tempo que assiste a morte sucessiva de inúmeras mulheres que amou, pelo fato de tudo em seu redor envelhecer, o tempo passando para elas e ele prisioneiro de si mesmo. O repetir dos mesmos estímulos, por mais que se tente a todo custo variar, ou avançar em direção a novos desejos, tudo perde a graça e o remédio mais eficaz que é a morte física, comum a todos os mortais, é-lhe negado.

A suma de tudo é que o melhor da vida pode ser satisfatoriamente experienciado, sendo uma dádiva o real aproveitamento dos momentos prazerosos pelos quais passamos e haveremos de passar; mas tudo com seu devido equilíbrio, pois quem não é senhor de seus impulsos inevitavelmente está fadado a uma prisão sem muros, preso e condenado pelo que lhe impulsiona a sempre buscar na mesma proporção com que se esvazia e se empobrece.

O autor
João Batista Nunes
Psicólogo Organizacional, Pós-graduando em 
Gestão de Recursos Humanos e Acadêmico de Direito.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

APOLO E DAFNE


Apolo era considerado um ás da pontaria*, desde que abatera a serpente Tifão, a fera que perseguia sua mãe, Latona, quando era inda um deus pequeno. Um dia caminhava pela estrada que margeava um grande bosque, quando se encontrou com Cupido.

O jovem deus filho de Vênus, estava treinando sua pontaria, solitariamente, em cima de uma pedra.

Sem ser notado, Apolo parou para observar a postura do jovem. Com um dos pés escorado sobre uma saliência da rocha, o deus do amor procurava ganhar o máximo de equilíbrio para assestar com perfeição sua pontaria. Seu braço esticado, que segurava o arco, era firme sem ser demasiado musculoso; o outro, encolhido, segurando a flecha, tinha o cotovelo apontado para suas costelas, enrijecendo o seu bíceps; todo o conjunto, desde o porte até a dignidade dos gestos, demonstrava grande elegância, e mesmo os músculos das pernas pareciam distendidos, como a corda presa às duas extremidades do arco.

Apolo não conseguiu deixar de sentir uma certa inveja diante da graça do seu involuntário rival. Não podendo mais se conter, saiu das sombras e revelou ao deus do amor a sua presença.

- Olá jovem arqueiro! Treinando novamente sua pontaria? - disse Apolo, pondo um indisfarçável tom de ironia na voz.

- Sim! - disse o Cupido, sem virar o rosto para o outro. - Quer treinar um pouco, também?

Apolo, imaginando que o outro debochava dele, reagiu com inesperada rudeza:

- Ora moleque! E quem vai me ensinar alguma coisa? Você?

Cupido, guardando suas setas, já se preparava para se retirar, quando Apolo o provocou novamente:

- Vamos, treine, treine sempre. garotinho, e um dia chegará a meus pés. Disse o deus solar, com um riso de aberto de triunfo.

Cupido, no entanto, revoltado, com a presunção do deus, sacou de sua aljava duas flechas: uma de ouro e outra de chumbo. Seu plano era acertar em cheio o peito de Apolo, com a primeira flecha. 

- Vamos provar agora um pouco de minha má pontaria! Disse o deus do amor mirando o coração de Apolo.  

Num segundo a seta partiu, assobiando ao vento e indo cravar-se no alvo com perfeita exatidão. Apolo, sem perceber o que o atingira no peito - pois as flechas do deus do amor tornam-se invisíveis assim que atingem suas vítimas - ,sentou-se ao solo, abatido por um langor nunca antes sentido.

Mas o Cupido ainda não estava satisfeito. Por isso, enxergando Dafne, a filha do rio que se banhava no rio Peneu, mirou no coração a segundo flecha, a da ponta de chumbo, e a disparou. Enquanto a primeira seta provocava o amor, esta endereçada a Dafne, provocava a repulsa. Assim, o Cupido dava início sua vingança.

- Divirta-se, agora! - Disse o Cupido, sumindo-se no céu com seu arco. Apolo, após recuperar suas forças, ergueu-se e entrou no bosque, como que impelido por alguma atração irresistível. Tão logo atravessou as primeiras árvores, seus olhas caíram sobre uma bela ninfa, que secava os cabelos, torcendo-os delicadamente com as mãos.

- Se são belos assim em desalinho, como não serão arrumados? - Perguntou ele, já dominado pelo amor.

A ninfa, escutando a voz, voltou-se para o lugar de onde partira. Assustada ao ver que aquele homem de louros cabelos a observava atentamente, juntou suas vestes e saiu correndo, mata adentro. Apolo, num salto, ergueu-se também.

- Espere, maravilhosa ninfa! Quero falar com você.

Nunca em sua vida Dafne havia sentido tamanha repulsa por alguém como sentira naquele ocasião pelo majestoso deus solar. O pior e mais feio dos faunos não lhe parecia no momento mais odioso do que aquele homem que a perseguia com fúria.

Afaste-se de mim! - Gritava Dafne, enojada. Apolo, acostumado a ser perseguido por todas as mulheres, via-se agora repelido de forma tão definitiva.

- Por que foge assim de mim, ninfa encantadora? - dizia sem compreender. Sem saber como agir diante de uma situação  tão inusitada, o desnorteado deus pôs-se a falar de si, de sua beleza tão elogiada por todos, de seus dotes, suas glórias, seus tributos e as infinitas vantagens que Dafne teria em juntar-se a ele, o mais cobiçado dos deuses. Mas o mais belo dos deuses desconhecia um pouco a mentalidade feminina, senão teria falado mais da bela deusa em vez de falar de si próprio.

Ao perceber que a corrida desenfreada da jovem acabaria por deixá-la extenuada, o deus gritou:

- Espere, diminua o seu passo que diminuirei também o meu! A ninfa reconhecendo a gentileza de seu perseguidor, diminuiu um pouco seu ritmo.

Apolo, no entanto, que diante da diminuição da distância vira aumentar os encantos da sua amada, acelerou involuntariamente o seu passo, renovando o terror na amedrontada Dafne.

- Mas que canalha!!! - Indignou-se a ninfa, tomando novo impulso para a corrida, mas já estava exausta e não era páreo para Apolo, o deus do astro que jamais se cansa de percorrer o Universo, todos os dias.

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*Apolo: Também chamado de Febo (Brilhante), na mitologia grego era considerado um deus da juventude e da luz. Filho de Zeus e da titã Latona. Tinha uma irmã chamada Ártemes, conhecida pelos romanos como Diana, a deusa da caça. Reza a lenda que Apolo e sua irmã nasceram na ilha de Delos onde sua mãe se refugiou para se esconder de Hera, a esposa de Zeus. Apolo era considerado um arqueiro de grande habilidade. Apenas com um ano de idade seguiu a serpente Piton que era inimiga de sua mãe e a matou com flechadas.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O PENSAMENTO ESTRATÉGICO

O pensamento ou pensar é um processo cognitivo primário e complexo, objeto de estudo de vários filósofos, fisiologistas e psicólogos ganhando força no século XIX, mas sempre mantendo um olhar no passado histórico. Ao longo da história, filósofos, matemáticos, biólogos e outros pesquisadores se interessaram pelas capacidades mentais que os seres humanos possuem. Platão e Aristóteles, por exemplo, já teorizavam sobre o pensamento e a memória, partindo de sua base empírica. Portanto, um longo caminho se processou para que hoje tivéssemos, dentro ainda de grandes limitações, uma compreensão razoável sobre o pensamento, esse processo mental tão importante para nossas vidas, em todos os sentidos e aplicações.

  


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A VIDA SEGUE SEU RUMO...


...COMO AS ÁGUAS DE UM RIO.



Ano novo, novas expectativas, novos sonhos, novas metas e por ai em diante. De tudo que se possa dizer sobre esse maravilhoso espetáculo da vida a suma é: deixe as águas do rio seguir seu curso. Essa filosofia só poderia ter sua origem na orientalidade, isto justificada na própria maneira como indivíduos de determinada parte do mundo já se desenvolve numa cultura da observação.

Observam eles o que nós, dessa parte do mundo, insistimos em não ver, ou pelo menos somos tardios. Nos estressamos facilmente com coisas bobas, perdemos a paciência cada vez mais com situações triviais, normalmente contornadas se não fora nossa pressa em resolve-las na base do imediatismo.

Nunca tivemos tantas facilidades tecnológicas, e tantas distâncias minimizadas, pelo avanço tecnológico iremos muito mais além, só não podemos nos esquecer nossa condição humana, da nossa transitoriedade, de nossa passagem fugaz e por isso mesmo precisamos reaprender aspectos que nos tornaríamos mais felizes se nos detivéssemos mais para observar a simplicidade objetiva daquilo que está ao redor de cada um de nós. E, nesse aspecto, a observação contemplativa da riqueza imensa que representa um dia de vida, quaisquer outros aspectos perdem a condição de primazia.

Não foi por acaso que o maior mestre de todos os tempos que já andou entre nós afirmou tentando sanar, curar-nos dessa tendência neurotizante provocada pelo imediatismo das coisas, afirmando que as muitas preocupações não poderão acrescentes nenhum fio de cabelo à nossa cabeça.

Ele que andou e cumpriu sua missão em perfeita harmonia com o cosmos, com as leis estabelecidas pelo Autor do Universo tinha a nítida compreensão da existência de uma sistema tão complexo que rege todas as coisas animadas e inanimadas que, subtendo-as a leis as quais não podemos mudar.

Um sistema que não dispensa uma única espécie animal ou vegetal, unindo num todo a coexistência para manutenção desse equilíbrio de forças que são responsáveis pela renovação cíclica da vida seja na terra, nos mares no ar, tudo gira em torno desse dinamismo e as coisas mais simples do mundo são exatamente as mais necessárias nesse intrincado movimento, de tal modo que a nossa alma humana não tem muito tempo disponível para se deleitar com tantas maravilhas postas a nosso dispor, quanto mais se nos apegarmos a superficialidade estéril das coisas.

Portanto, desligue um pouco a televisão, saia com amigos, visite àquele (a) que você há muito tempo não vê, caminhe pela praia, sentido as areias por entre os dedos dos pés, contemple às árvores, as plantas, as flores, o azul do céu, o nascente do sol. Chore sem receio nem vergonha, sorria, ame, perdoe, esqueça as mágoas, renove-se, deixe as águas do rio seguir seu curso e a vida, seu rumo.