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sexta-feira, 12 de junho de 2020

Memorias do Jeremias



Eu devia ter seis para sete anos e morava na segunda casa emparelhada que vazia esquina na rua São Cosme com a a Santo Agostinho, era a parte alta do bairro. Éramos sete. Papai, trabalhava numa oficina que ficava às margens do Açude Velho como lanterneiro. Ele era bom no que fazia: recuperava lataria de carro amaçado e soldava no maçarico com cilindro alimentado por pedras de carboreto. 

Mamãe trabalhava como merendeira no bairro do Alto Branco num grupo escolar. Depois passou a trabalhar no Grupo Padre Emídio Viana Correia no próprio, a escola ficava na parte baixa. Meu irmão Paulo era o mais velho. Ele sofria do que só muito depois viemos a saber: autista num grau bastante acentuado. Minha irmã Eliane nasceu com Síndrome de Down com retardo mental expressivo. E meus dois irmãos gêmeos Isaías e Isaac, em grau decrescente de idades, formavam a família. 

Não tínhamos televisão, apenas um rádio tão antigo que funcionava com válvulas que acendiam por dentro e o programa policial 'Dramas da Cidade' com o apresentador Clóvis de Melo sempre fazia menção de fatos que envolvia alguém do bairro. A gente sempre ouvia na hora do almoço.

Frequentávamos a igreja da Assembleia de Deus que era em frente da casa onde morávamos. 

A rua tinha uma feição irregular marcada por acúmulos de matos esparsos seguindo a linha de esgotos enegrecidos que corriam a céu aberto. A situação ficava mais agravada quando começava o período das chuvas. 

Com a lama barrenta escorregadia era frequente ver um pobre bêbado que tinha uma deformação nos pés e por isso andava com dificuldades, Marcolino - Pé de Quenga, vivia caindo aqui e acolá, quando saia da mercearia de Seu Gilberto e Dona Marizete (Estes, tinham um casal de filhos, brancos meio agalegados, que se casaram com gente da Igreja Universal e foram ser obreiros), com uma garrafa de cachaça na mão, gritando e dizendo impropérios e amaldiçoando as pessoas que de suas casas ficavam se escondendo e chamando-o pelo seu apelido. 

Outra criatura que dava dó era Salambaia. Ela tinha problemas mentais e era alcoólatra. Magra, cabelo do tipo power black, às vezes com roupas rasgadas e com as partes íntimas a mostra, ela vagava rua acima rua abaixo, deixando as crianças amedrontadas. 

A casa que formava um conjunto com a outra, de propriedade de Seu Meireles, um velho rico que morava numa casa bonita na rua Quintino Bocaiuva, no sentido quartel do Exército/Presídio do Monte Santo, tinha um portão de acesso comum, uma escadaria de três degraus que dava para a rua São Cosme. Portas frente com frente. Um pequeno espaço que separava as duas formando uma área onde tinha plantas ornamentais bem cuidadas por mamãe e pela vizinha, cada qual em seus limites.

Do lado esquerdo havia um terreno com algumas bananeiras, parecendo ser o quintal de um senhor que conhecíamos apenas de vista. Ele tinha um filho que sempre o acompanhava para o trabalho, uma loja de revestimento de bancos de automóveis. Parecia ser um homem respeitável do tipo de casa-para-o-trabalho. O filho desde cedo era envolvido com o movimento satanista do bairro. 

Ele era meio estranho e com tendências ao isolamento. Descobri seu envolvimento mais tarde ao receber uma carta de São Paulo dirigida à ele com um teor doutrinador e umas fitas de evocação ao demônio.

Esse rapaz tinha três irmãs. Cabelos pretos e longos, brancas. Lembro-me que certa vez, estávamos numa espécie de janelinha que dava para o quintal deles, interagindo com elas, e a mais velha pediu para que mostrássemos as genitálias e logo após elas mostrariam a delas. 

Movido pela curiosidade não necessariamente ligada à libido, após a demonstração de nossa parte, a mais velha mostrou rapidamente a dela. Deu risadas pela descoberta pueril e foi-se embora com as outras. 

Tudo que visualizei com um olhar investigador de criança foi por entre a saia jeans com o fleche semiaberto, um amontoado coberto com cabelos pretos escuros, e elas se foram para nunca mais trocar esse tipo de informação visual.

Vivemos nessa casa alugada por dez anos, por dentro tinha uma sala pouco espaçosa, ao lado do quarto do casal, e mais dois quartos, um corredor que dava para a cozinha e no final um banheiro. O quintal era pequeno com uma pequena porta que saia para a parte externa do espaço comum  que dava para o portão.

Quem morava na outra casa que ficava de esquina, emparelhada com a nossa era Seu Antonio e Dona Celina. Era um senhor calmo, de bigode barbeado fino, calvo, estatura de 1,65 mais ou menos. Eles pardos e filhos negros. Um filho mais velho e casado que sempre almoça por lá, era representante comercial do Café Aurora e dirigia uma caminhoneta baú com os produtos Aurora. A moça, de idade intermediária era Corrinha, ou Côla. Uma negra de cabelo encaracolado, sem namorado e com andar um pouco estranho, sisuda, observadora. O rapaz, negro de cabelo liso, também, com essas mesmas feições. 

Era uma família aparentemente normal. Se diziam religiosos, mas nós não identificamos traço algum de que eles fossem praticantes de algum credo. 

Eles gostavam de churrascos, cervejas, não demonstravam ter dificuldades financeiras como meus pais. Tinham televisão preto e branco com uma tela de plástico que acoplava ao aparelho e a imagem ficava parecendo colorida.

Talvez eles não se sentissem muito a vontade com a gente porque eramos crianças barulhentas e costumavam subir no tanque de água acima do banheiro e tomávamos banho como se estive numa piscina. Claro, sem o conhecimento nem consentimento de nossos pais.

Ao cabo dos dez anos, Seu Meireles, dono das duas casas, pôs fim ao aluguel pedindo que meus pais procurassem outra casa para alugar.

Nossos vizinhos permaneceram na mesma casa de esquina. Depois de uns três ou quatro anos, estávamos saindo da mesma igreja defronte as casas, quando vimos uma viatura da polícia cumprindo um mandada de prisão naquela casa. 

Não sabemos o que aconteceu, mas um soldado saiu do interior da casa conduzindo algemado o pacato Seu Antônio. E Dona Celina com os demais membros da família em polvorosa diante daquela situação.

João Batista Nunes
Acadêmico de Direito/Formado em Psicologia.


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Ritinha Parteira
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A Difusora de Laura
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quarta-feira, 17 de julho de 2019

A CHEGADA DO CIRCO NO JEREMIAS



O Bairro do Jeremias em Campina Grande possuía, à época, uma população de quase 11 mil habitantes, ruas íngremes, ladeiras esburacadas, paisagens monocromáticas, mães e meninos barrigudos a observar o acontecer de cada dia, a prestanista Dona Severina passando com suas bacias, panelas de pressão, jogos de lenções e penicos de plástico, tudo em suáveis prestações no cartão (literalmente um cartão róseo de papelão onde se notava a quitação das quinzenas), a carvoaria de Seu Pretim dava uma ideia que o tempo tinha se esquecido de passar naquela região da cidade. 

A missa dos domingos, as novenas, os cultos na igreja dos crentes, a difusora de Laura de Chico Venâncio e o jogo no campo do Galícia era o que se tinha como agenda familiar. Se bem, que em certos dias, o arrasta pé do forró da SAB (Sociedade de Amigos do Bairro) era o máximo. 
Mas aqui e acolá uma moça era desencaminhada por algum sujeito sem compromisso, o forró acabava com um corre-corre, o fi de Seu Chico Cangula enfiou a faca no buxo de um cabra que se estrebuchava no chão do salão. No final, não tinha quem dissesse quem foi ou quem não foi o autor do crime.

Para a molecada a coisa mudava de feição sempre que aparecia um parque de diversão com aquelas mesmas opções de sempre sendo que parecia ser uma novidade. Seu Jorge da Palmeira, pai de Miguel tinha um. Com tiro ao alvo, com chumbinhos que ninguém acertava, com o lança argolas com direito a vários brindes, o carrossel com os cavalinhos pintados de cores diferentes e a roda gigante que dava aquele friozão na barriga cada vez que parava no alto. Para quem ia prevenido no bolso, tinha a barraca da maçã do amor (aquelas caramelizadas), a barraca das roletas de cana, a barraca da batatinha frita, feita com aquele óleo reutilizado de tantas e tantas outras frituras, e o homem do carrinho de pipoca. 

Dava para se ver que poucas pessoas com seus filhos realmente usufruíam daquelas opções de lazer e entretenimento. Não importava, assim mesmo o parque se enchia de gente miúda achando o máximo simplesmente em estar transitando por aquele espaço tão colorido e iluminado por aquelas fios intercalando as lâmpadas que ao longe dava a ideia de um lugar aonde a diversão não teria fim. 

Ali era o lugar onde não apenas a gurizada deixava fruir alegrias como os próprios adultos, pais, mães e tios não se continham e a pretexto de acompanharem as crianças esbanjavam emoções há muito represadas.
Quando menos se dava fé, o parque já não estava lá, apenas o espaço vazio dentro daquela imagem que compunha a feirinha do bairro.

O bairro era outra vez sacudido com as trombetas difusoras da velha Chevrolet anunciadas, na voz do palhaço, que o Circo acabara de chegar para alegria de todas as crianças. Confeitos arremessados ao ar para o atropelo alvoraçado de um grupo de crianças que vinham correndo atrás do carro. eram o mote da chamada às atrações “inéditas” prometidas para a “grande estreia!!!”

Enquanto o palhaço no calor intenso da manhã ensolarada descia e subia as ladeiras do bairro, o fumaceiro do cano de escape de um motor já vencido pelo desgaste criava uma espécie de névoa tóxica que se misturava as cabeças da gurizada teimosa em seguir aquele carro.

O Circo era aquela estrutura mediana, coberta com uma lona amarela e azul, com algumas estrelas brancas espalhadas no alto. Rodeado por grades de ferro que davam para duas bilheterias borboletas giratórias, um ônibus onde se alojavam os artistas e demais trabalhadores, dois carros de pequeno porte, um caminhão já sofrido, e o espetacular ônibus da “Monga”, a mulher que se transformava em gorila. 

Tudo aquilo gerava uma atmosfera de mistério. A pintura do ônibus apresentava uma mulher mal desenhada, de biquíni, e perto dela a imagem de um gorila com ares de violenta ameaça. E um letreiro bem destacado: “Monga”, no espaço a baixo, em letras menores, a “Mulher Gorila.” 

Muita gente que não podia pagar o ingresso se assustava somente com os grunhidos emitidos naquele ônibus do medo. As crianças chegavam a ter pesadelos com aquelas imagens que se formavam na mente. No clímax do espetáculo, o Gorila que agora já não tinha mais nenhuma mínima expressão do humano que ainda pouca esboçava um rosto feminino, sacodia a grade que o separava do pequeno público e tentava se sair furioso em direção as pessoas, mais um ou dois sustos uma cortina preta de uma lado e do outro vermelha fechava a parte que separava os dois ambientes dentro do velho ônibus.

Na parte do picadeiro, dentro do circo propriamente, as brincadeiras de palhaços tomava conta. Eram números simplórios e repetitivos que arrancavam sorrisos e aplausos da plateia, geralmente com atuações de situações atrapalhadas, revides, deita e rola, performances de gesticulações e malabarismos davam o tom da parte inicial da noite de estreia. 

Depois vinha o mágico com seus truques mirabolantes, nada de mulher que era cerrada ou que desaparecia, nem coelho na cartola. Era tudo muito simples como retirar das mangas da camisa uma série de lenços coloridos, uma pequena exibição pirotécnica restrita ao espaço de uma pequena bancada, para fazer sumir um objeto e convidar alguém da plateia (já treinado para tal, sem ninguém saber, é claro!) e esse mesmo objeto aparecer em seu bolso.

O trapézio era um dos pontos máximos. Uma mulher de biquíni revestido com lantejoulas brilhantes executava algumas manobras que iam atingindo um grau de dificuldade e prendia os olhares da plateia nas piruetas que dava. Em sequencia, a corda bamba e a perícia de uma artista com seu bastão, indo e vindo encenando ao longo do trajeto algum movimento que desse a ideia de que iria cair naquele momento.

Não havia animais, como poderia ter pelo menos um leão aposentado daqueles que são vendidos dos circos de grande porte. No caso desses circos que vão de bairro a bairro, o custo de manutenção comprometeria a subsistência dos trabalhadores. Afinal, ser artista circense em dias como aqueles não era fácil nem rendia dinheiro. Os que se dão a promover o sorriso de uma plateia geralmente tende a percorrer um caminho de desafios permeado muitas vezes de tristezas e dissabores.

Nos últimos dias do circo no bairro, aquele mesmo carro passava chamando a população para a despedida do “grande circo” e por isso os ingressos custariam a metade do preço normal, ninguém podia faltar! Desta vez nem tinha o lançar dos bombons muito menos o alvoroço das crianças, apenas os gritos do anunciador.

As últimas noites eram lotadas, o que muitos não sabiam era que as apresentações também eram pela metade. Contudo, o prazer de viver um ambiente diferente de entretenimento para tantos expectadores valia a pena.

Por João B Nunes
Formado em psicologia e acadêmico de direito.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

DONA JARINA


Os idos eram os longínquos anos 1980. O Bairro do Jeremias nasceu já no estigma da dependência. Há muito tempo, passava o velho Jeremias cobrando uma espécie de taxa pelo uso do terreno no qual estavam construídas as casas de um misto de gente, maioria trabalhadora, metidas nas múltiplas formas de subemprego. Essas visitas que ocorriam aos domingos pela manhã ao final de cada mês foram levadas adiante pela viúva muito depois da morte do velho.

Ali na XV de Novembro, uma ladeira acentuada, a Rua Conde de Monte Cristo (chamada pelos populares simplesmente de "A Conde Monte Cristo) representava um dos acessos ao bairro. E no pé da ladeira morava Dona Jarina.

Um negra com cabelos que já apontavam o avançar da idade. Sem qualquer escolaridade dedicou sua vida a trabalhar como babá, lavadeira, arrumadora das casas das madames do Alto Branco, um bairro onde morava a classe mais representativa das boas posses de Campina Grande.  

Jarina inventou de entrar na lei dos crentes e passou a frequentar uma igreja da Assembleia de Deus, mais acima, na Rua São Cosme. 

A nega Jarina era uma criatura de coração largo. Obesa, pés inchados, sempre reclamando de dores nos quartos. Morava em casa própria. Uma casinha  no sopé da ladeira, dessas de cuminheira baixa. Um portão pequeno  e apenas um  passo adentro separava a rua  da porta. Na sala,  hábitos simples. Um tamborete de madeira com tinta desgastada. Uma cortina de chita com aquelas rosas estampadas. Um retrato antigo de um  casal que já se foi. 

Um  rádio ABC de revestimento plástico,  e com o seletor quebrado, mas a nega asseverava que era nele que ela não perdia o programa Dramas da Cidade com Clóvis de Melo. Muito do que se ouvia, tinha haver com  fatos aqui e ali envolvendo a pobre gente do Jeremias.

Das quenturas próprias das mulheres sem ômi e a desoladora solidão, Dona Jarina não teve outra alternativa senão arranjar um tal de João, vigia de Grupo Escolar, que tinha um filho meio abestado. 

No início tudo foi uma maravilha só. João se mudou para a casa de Dona Jarina. Ele andava com um revolver calibre 22 e um cacetete, desses com um cordão que envolvia o pulso. 

Para falar de um tipo étnico, João era a perfeita mistura de negro mais índio, mais sertanejo, mais caririzeiro, uma evolução de guenzo com o coice da jumenta. Era feio, em síntese. Mas isso não define o caráter de ninguém! Poderia ser um exemplar trabalhador, cumpridor de seus deveres e um excelente companheiro para sua nega, nesse amor recém arranjado.

Quando a energia da libido caiu na rotina do fogo morto, João logo passou de mal educado para ríspido, gritalhão. Passou a se comunicar através de bofetadas e ponta-pés. Pobre Jarina! Recebia coronhadas na cabeça. Aparecia na igreja aos prantos, narrando as grosserias de João.

A vida relativamente tranquila de Dona Jarina foi se tornando um verdadeiro inferno até que um dia a vizinhança trouxe a notícia: acararam de matar João na base do tiro e da facada, ali mesmo, numa distância de uns 200 metros.

Ninguém sabe se aquele choro da viúva era de tristeza pela cena trágica (de longe, o corpo de um miserável estendido no chão) ou se lá no fundo era a carta de alforria que acenava novos ares de liberdade de um jugo opressor.

O tempo passou, Dona Jarina já velha e dorida dos quartos e aquele lenço que sempre trazia na cabeça e a solidão se somaram para lhe afrouxar alguns parafusos do juízo. A última cena era Jarina indo em direção onde morava galego Vavá, cantarolando em gesto de marcha, no meio da chuva: "marcha soldado cabeça de papel quem não marchar direito vai preso no quartel..."

Autor
João Batista Nunes 



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

BAIRRO DO JEREMIAS: UM COMÍCIO NO PÉ DA LADEIRA


O Bairro do Jeremias em Campina Grande, interior do Estado da Paraíba, por volta do ano de 1980, era ao lado dos bairros de José Pinheiro, Centenário e Liberdade palcos tradicionais dos comícios políticos. Dois locais eram estratégicos. Tinha candidato que preferia fazer seu comício no alto do Jeremias. No começo da Rua Santo Agostinho, ou Simão Bolivar, esquina com a XV de Novembro (principal acesso Centro/Bairro, vindo pelo Bairro da Palmeira), ou no baixo Jeremias. Neste caso, o caminhão ficava na esquina da Rua Francisco Borges da Costa (Rua do Homem Mocego) com a Simão Bolivar, mirando a expansão da Feirinha do Jeremias. O som podia ecoar até à Vila dos Teimosos, de modo que,  quem estivesse hospitalizado no Hospital da FAP, poderia ouvir perfeitamente toda a programação. 

Nessa última opção de local, o caminhão ficava num declive, ligeiramente inclinado, no pé da ladeira.

A gente sofrida composta de trabalhadores assalariados na sua maioria, estudantes, idosos, mulheres e crianças se concentravam na Feirinha esperando a chegada dos candidatos. Não importava se, de repente, a noite fosse tomada por uma leve neblina, e o chuvisco reforçasse aquele friozinho de batida de dentes. Mesmo assim o povo não arredava o pé, do pé da ladeira onde geralmente ficava o caminhão dos candidatos.

Cada candidato tinha seu representante no bairro. Ivan Cabral, um antigo líder comunitário durante muito tempo apoiou Zé Maranhão. Depois, passou a apoiar Ronaldo Cunha Lima. Depois passou a representar Walter Brito. Celinha assume posição de líder e passa a apoiar Ronaldo Cunha Lima. 

Enivaldo Ribeiro, apoiado por Laura de Chico Venâncio. Doutor Damião, por outro comunitário com seu potencial mobilizador  e assim por diante.

O grande atrativo eram os shows com artistas do momento ou da nostalgia romântica. Cantores como João Gonçalves com suas músicas de duplo sentido, Marinêz e os Três do Nordeste com o autêntico forró representavam verdadeiras festas ao ar livre. De início, cantores e bandas de pequena monta, depois, lá por volta das 22h começavam os discursos dos candidatos. Depois, começava o arrasta pé que se estendia das 23h às 0 horas. E o povo lá, firme na diversão. No meio desse fuá, as crianças faziam a festa na disputa por quem juntava mais santinho de candidatos. Eles diziam as mocinhas que distribuiam entre o povo, "tem santinho, aí?"  

O povão gostava também de ouvir os discursos inflamados dos candidatos. Tinha sempre um bêbado ou uma bêbada, ou os dois abraçados dançando juntos e fazendo prezepadas lá na frente do caminhão ou do trio elétrico de Walter Brito. 

Eles gostavam de ouvir Enivaldo Ribeiro, Dr. Damião, Zé Maranhão com aquela tranquilidade que é a sua marca, garantindo que iria lutar pelo "ricurso" necessário para mais saúde, moradia, segurança e tudo mais. 

Entretanto, a emoção era generalizada quando Ronaldo começava a discursar, intercalando aqui e ali com a prosa e a rima. Tinha gente que gritava e aplaudia, as mais atiradas esbravejavam: "Ronaldo, coisa linda!!!"

O resultado desses comícios quase sempre surtia seus efeitos. Dos prosélitos que acorriam para essas agromerações muitos se tornaram grandes defensores das figuras mais emblemáticas da política. Com tais não tinha negociação. O voto era certo em cada pleito, por décadas.


João B Nunes
Formado em Psicologia e Acadêmico de Direito

Memoria Social

1) A Difusora de Laura 
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2011/11/difusora-de-laura.html

2) Ritinha Parteira
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2014/03/ritinha-parteira.html

3) O Cego Zé Maurício
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2013/02/o-cego-ze-mauricio.html

4) A Bodega de Seu Garrincha
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2012/01/bodega-de-seu-garrincha.html

sábado, 18 de outubro de 2014

ZEZIM


Zezim foi um galego, meio loiro, que morava no Bairro do Jeremias, no alto da Rua São Gonçalo em época não muito distante da nossa. Seus pais passavam o dia consumindo cachaça na bodega mais próxima o que ganhavam durante à noite. Eram catadores de lixo. A casa deles era bastante precária, a começar pelo acesso, uma escadaria íngreme, de barro escorregadio. 

Era uma vida dura, cheia de lamúria e de soluços pelos vãos da casa, suspiros das lembranças de outrora no Rio de Janeiro, donde a mãe teria vindo e aqui, juntou-se com o homem que se tornou padastro de Zezim.

Dava para se vê que aquele sujeito não poderia ser o pai de Zezim. Embora pacato, econômico nas palavras até quando estava ébrio, não tinha nada que se pudesse compará a ambos. Zezim tinha de 15 para 16 anos mas era um rapagão, de compleição física avantajada. Não bebia nem fumava. Nunca deu uma tragada de maconha nem roubou. 

Era esse rapaz um analfabeto na absoluta acepção do termo. Não sabendo ler nem escrever, trabalhava desde cedo como engraxate. 

Podia-se concluir que daquela familiar nuclear, era impossível uma convivência harmônica entre os três entes. Não pela pobreza das condições, mas sim pela ambiência conflitante que fazia o rapaz murmurar seu desejo de retornar para o "Ri-de-janeiro", donde nunca deveria ter saído.

Não sucumbia mentalmente por conta do trabalho. De segunda à sábado, engraxante; nos domingos, pelos bares, tanto de Campina quanto de João Pessoa, tocaiante de carros. Nas tardes que se dava ao prazer de ir ao Colégio Estadual da Paraíba, para na última esquina, aguardar uma estudante que se impressionou com seu porte, para tentar convencê-la ao namoro, era um momento sublime.

Se a coisa estivesse difícil e lhe faltasse recursos suficientes para o almoço ou jantar, recorria ao Restaurante Universitário da UEPB, na Av. Getúlio Vargas. O pagamento é claro: tinha que engraxar os sapatos dos cozinheiros, velhos fregueses dessa jovem batalhador.


Vangloriava-se de ter conhecido as belas praias de Natal, João Pessoa, Recife, mas queria mesmo era poder voltar para o Rio.

Zezim é um excelente exemplo de ingenuidade. Aliás, de uma ingenuidade que nunca morreu em determinadas pessoas, não importando o tempo em que elas vivam. 

Voltou, meio que de repente, para o Rio. Poucos meses depois retorna diferente. Lá conhecera uma mulher com quem manteve um breve romance. Ela, portadora do HIV, faleceu. Ele, retornou para seu lar no Jeremias, na sua velha cidade, Campina Grande. Cá, foi de pronto internado no Hospital Universitário. 

Qualquer conhecido que vagasse pelos corredores daquele hospital, naquela ala "específica" e o encontrasse ali, acompanhado de sua mãe, escondendo as lágrimas era dito: Zezim está com pneumonia, coisa passageira. Logo estará de volta ao trabalho! Que nada! Zezim estava entrando na fase terminal, vencido pela AIDS.

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RITINHA PARTEIRA

A DIFUSORA DE LAURA

segunda-feira, 3 de março de 2014

RITINHA PARTEIRA


Lá pelos idos de 1980, no alto do Jeremias¹, Rua São Cosme, morava Dona Ritinha, viúva. Mãe de Genaro e Madalena. Ritinha podia ser considerada também, mãe de inúmeros filhos. Ela era parteira, daquelas tradicionais, com apurado olho clínico e vasta experiência em trazer à luz, a qualquer hora que fossem requisitados seus serviços.

Madalena teve dois filhos, De Assis e Edjane. O primeiro deu para ladrão e assaltante, cujas recorrências eram conhecidas pelo Comissário de Polícia do Bairro, Sargento Joca; Já Edjane, desencaminhou-se com um velho enxerido, torneiro mecânico daquelas oficinas perto do Quartel do Exército, que lhe pagava algumas moedas para apalpa-la nas partes íntimas. Depois, passou a ganhar algum dinheiro a mais como rapariga. 

Tanto Madalena, enfermeira, quanto Edjane, sua filha e neta de Dona Ritinha, foram morar definitivamente no Rio de Janeiro, deixando para trás, De Assis, preso da Cadeia de Monte Santo².

Dona Ritinha, já com cabelos brancos, entrou para lei dos crentes. Podia-se encontrá-la na igrejinha da Assembleia de Deus, distante apenas três casas de onde morava.

Sempre que saia de casa era comum transeuntes de todas as cores, aqui e acolá, cumprimentarem-na com a expressão: "Benção, mãe!"

Eram os "filhos e filhas" de Dona Ritinha. 

Quando em altas horas da madrugada um moleque trazia o recado de urgência (não tinha celular, nem telefone público, daqueles azuis da Telpa, com fichinhas cinzas) em relação à Dona Ritinha era sempre caso de mulher prenha³ em vias de parir4. Ao que, de presto, era atendido. 

Ao chegar, com dificuldades pelo péssimo estado das ruas esburacadas e lamacentas do Jeremias (à época), com pouca ou nenhuma iluminação à noite, passava a examinar a barriguda aflita. "-Fique calma, mulher! Esse menino só vai nascer amanhã pela tardinha!" 

Tal como Dona Ritinha previra, acontecia! E logo era trazido ao mundo dos viventes mais um ser inocente para ser moldado pelo meio que o envolvia.

Dona Ritinha morreu já bastante velha e cansada de seus dias, numa casa onde morava com seu filho Genaro, na Rua Isabel Cristina Barbosa Dias, Conjunto Promorar, Bairro do Jeremias. Quanto aos serviços de parteiras, nessa mesma localidade, as gestantes, nas necessidades urgentes da gravidez, apelam logo para o SAMU e Maternidade Dr. Elpídio de Almeida.

Sobre: De acordo com o DATASUS, no Brasil são realizados, em média, 41 mil partos domiciliares por parteiras tradicionais, principalmente nas Regiões Norte e Nordeste. Elas estão desaparecendo aos poucos, sem sucessoras, mas ainda são bastante ativas nas áreas mais remotas e inacessíveis.   


João B Nunes
Psicólogo e Acadêmico do Curso de Direito

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¹ Bairro do Jeremias, Zona Norte da cidade de Campina Grande, Estado da Paraíba. Bairro periférico, com histórico de vulnerabilidade social. O terceiro bairro mais antigo da cidade, originado a partir da ocupação de terrenos (década de 1920, mais ou menos) de um sítio pertencente ao Sr. Jeremias, que morava no principal acesso, à época, Rua XV de Novembro. Todos os domingos, pela manhã, no final de cada mês, a viúva de Seu Jeremias, passava pelas casas cobrando o "foro", um tipo de imposto do tempo Imperial que os herdeiros de terras praticavam em relação aos ocupantes;
² Bairro do Monte Santo, Zona Norte, limite com o Jeremias;
³ Mulher prenhe ou prenha era expressão de uso corrente em muitos dos interiores nordestinos para dizer que tal mulher estava grávida;
4 Parir: Dar à luz/parturiente.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

SEU GERALDO - O RETRATISTA


De todas as recordações que os mais velhos guardam do Bairro do Jeremias, Área Norte de Campina Grande-PB, além da Difusora de Laura de Chico Venâncio e do Cabaré da Nega Tonha, cantado por Zito Borborema, é sem dúvida os tempos idos do vái-e-vem de Seu Geraldo. 

Seria qualquer "Geraldo", ou mais um dentre tantos comuns moradores senão pelo seu ofício: "tirar retrato" como se dizia à época (1980-90). Com sua máquina fotográfica "Zenite" com flash acoplado.

Aniversário que se preze não era completo se não chamassem Seu Geraldo. Na hora do partir do bolo era um verdadeiro alvoroço, pessoas comprimidas pelos recantos da sala, ansiosas para sair no "retrato". E as expectativas? Depois de quatro a cinco dias, tempo da revelação, Seu Geraldo já trazia todas as fotos num Álbum. 

Disposto, comparecia a enterros, clicando as últimas feições do morto; as missas, nas ocasiões festivas, aos cultos dos crentes, aos terreiros de macumba, enfim, casamentos, batizados,times de futebol de pelada, lá estava Seu Geraldo!

Nesse tempo havia algo de especial em tirar retrato, algo místico, singular. As pessoas se preparavam, usavam a melhor roupa, não poupavam no Contorrer de Alfazema (daqueles verdes e fortes), do olho para cabelos, que tanto conferia brilho como maciez. 

A emoção tomava conta das pessoas, afinal, não era todo dia que se podia tirar retrato! E se porventura não satisfizesse o gosto, a chance estaria por conta do próximo aniversário no qual Seu Geraldo fosse novamente chamado. 

O retratista do Jeremias acompanhou o desabrochar do bairro, registrando através de sua máquina Zenite as caras e feições de tanta gente que se vinha e que se ia num constante movimento da vida. Do retrato preto e branco para compor a Carteira de Trabalho Identidade do cidadão, ou a Carteira de Estudante ao mais chique retrato colorido, tudo se convertia num fascínio indescritível.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A CONQUISTA DO PROMORAR

No tempo em que o prefeito de Campina era Enivaldo Ribeiro foi que se deu a invasão do Promorar. Um conjunto que foi construido entre o bairro do Jeremias e o Araxá. As casas novinhas em folha. As portas pintadas umas de verde, outras de cinza, telhados e madeiramento tinino de novo, estavam lá, no alto, esperando o momento em que a pobreza em multidão se mobilizasse e se apropriasse de vez cada um de uma casa.

Chamar a polícia para quê? Para repelir trabalhadores com suas familias? Dona Pretinha com uma penca de filhos, o menorzinho catarrento em seus braços! Nada disso! Lá vem o representante do bairro, o senhor Ivan Cabral, andando sempre com sua pasta de plástico debaixo do braço, com uns papeis estranhos dentro, atraindo para si centenas de olhares indagadores, famintos por respostas, afinal, sabiam que estavam alí na iminência de saírem da mesma forma que ousaram entrar.

Noite à dentro, sem energia elétrica, sem água ligada, um murmúrio de pessoas andando em todas as direções, sem muros delimitadores, gente de todo tipo carregando suas bugigangas. Era couchão velho, trouxas de roupas, panelas e pratos, tudo misturados dentro de caixa de papelão. Ninguém conseguia dormir naquelas condições. A verdade é que o clima de incerteza, somado a rumores que corriam entre o povo de que a polícia iria despejar a todos pela manhã tornavam a situação angustiante.

- Ouçam todos, por favor! Bradou Ivan Cabral diante dos ânimos exaltados.
- Já falei com o prefeito e o secretário Fulano de Tal e eles me disseram que ninguém saisse de sua casa, ninguém será despejado!

Nesse momento a gritaria tomou conta daquele lugar e o povo começou a se sentir mais à vontade para cuidar de suas novas propriedades.

Seu José, que vendeu a casa para Dona Socorro, que comprou a chave de seu José com o dinheiro da venda de uma porca, a "Ritinha Rônqui-rônqui", logo se arrependeu de tê-la vendido. Com a mala à mão, pôs-se a dizer que não queria mais aquele dinheiro e que a venda estava desfeita. Dona Socorro, que não engolia desaforo calada disse que fez o negócio foi com um homem não com um cachorro! O negócia estava mantido e pronto!

Seu Genário, que também se apossou da casa logo em frente também confirmou que o negócio tava feito e ponto final!

E assim, os dias passaram. Nas madrugadas frias, lá para as quatro da manhã, a fila de gente com lata na mão se formava para pegar água na casa de Seu Alaim, perto do Posto de Saúde. O único que se dignava a acudir aquela gente sofrida num momento tão difícil! A CAGEPA instalou água nas casas, depois a CELB, luz e assim a cidadania foi se aproximando mais daquela gente. Essa é a história da conquista do Promorar.