Mostrando postagens com marcador Paraíba. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paraíba. Mostrar todas as postagens

sábado, 8 de julho de 2023

A MEMÓRIA SOCIAL DAS MARIAS LAVADEIRAS E ENGOMADEIRAS DO JEREMIAS

 


Sim, era comum serem vistas lavadeiras e engomadeiras de roupas até nas calçadas das frentes das casas nos idos de 1980 no bairro do Jeremias em Campina Grande, Paraíba. Nessa época, o governador era Tarcísio de Miranda Burity e Ronaldo Cunha Lima vencia as eleições de 1982 como o prefeito mais bem votado daquele pleito.

O bairro, situado na zona norte da cidade, limite entre os bairros da Palmeira, Monte Santo e Araxá, era formado em sua maioria por famílias de baixa renda, gente muito simples e pobre, prevalecendo o analfabetismo e a desqualificação profissional. 

Em tempos de chuvas, era possível ver verdadeiras cachoeiras que deslizavam ladeiras abaixo com acúmulos de lamas que desaguavam no bueiro na parte de baixo do Jeremias, herança dos governos anteriores. Enivaldo Ribeiro, prefeito anterior, ainda fez uma enorme escadaria de cima a baixo, mas a estrutura foi levada por completo no início do inverno.

Naquele instante de tempo, o Jeremias acumulava homens e mulheres trabalhadoras envolvendo todas as ocupações tradicionais que podiam render algum dinheiro para a feira do mês. Nesse ponto, o ônibus da Cabral era lotado aos sábados de gente dividindo espaço com suas cestas vindas da Feira Central. 

As ocupações eram diversas. Pedreiros, ajudantes, pintores, oficineiros, chapeados (homens que descarregavam cargas de caminhões nos armazéns), mecânicos, costureiras, cozinheiras, empregadas domésticas (hoje, designadas como cuidadoras, secretárias do lar), vigias, parteiras, vendedores, prestanistas, padeiros, carvoeiros, comerciantes e assim por diante. 

Mas dentre todas essas, destacavam-se a de lavadeira e engomadeira de roupas. Mulheres que ajudavam a renda da família trabalhando em casas de gente grã-fina, geralmente em distâncias que davam para ser percorridas diariamente a pé como o bairro do Monte Santo e o Alto Branco.

Essas mulheres costumavam ajustar o ganho por semana ou quinzenal. Elas pegavam um lençol e faziam uma grande trouxa de roupas que traziam com a ajuda de uma rodilha de cabeça para equilibrar o fardo. Uma vez em casa, esbaforida, descansava para preparar o almoço, e depois, começar no tanque improvisado no quintal, onde a roupa trazida já aguardava.

Era utilizado um aditivo para embranquecer determinadas peças, chamado de anil. Um quadradinho azul que servia também para tornar mais coloridas as roupas de estampa e cores específicas.

Depois de lavadas, as roupas eram colocadas, umas para quarar e outras para enxugar nos varais que davam voltas no quintal e na frente das casas. Tudo bem feito, com modéstia e zelo. 

Depois que todas as roupas estavam enxutas. Eram colocadas num cesto. Dai, começava outro processo: o de engomar. Uma bacia pequena com água e um pouco de goma era esperada ao canto da mesa. Lá fora, no quintal, no fogareiro de cimento, o fogo já com uma quantidade de carvão em brasas, pronto para abastecer o reservatório do ferro de engomar. Tratava-se de uma peça rudimentar, que se abria para acomodar as brasas de carvão. 

Com um pequeno lenço, com a delicadeza de gestos, a mulher ia trabalhando peça por peça, dando a devida atenção a cada detalhe e organizando uma após outra, bem dispostas, engomadas e cheirosas o que iria formar envolto no lençol o todo completo de seu trabalho.

Havia, inescapavelmente, os dramas de histórias tristes envolvendo mulheres que viviam com homens alcoólatras e violentos. Desses que sempre estavam recebendo a visita punitiva do comissário de polícia do bairro. Eram vidas amarguradas que trabalhavam muitas vezes para garantir o sustento da família. Mulheres sofridas, de semblantes decaídos, marcados pelos pesares da vida, mas sempre determinadas em suas ocupações.

E assim a lida se firmava ao longo dos anos com elas trazendo seus fardos, rua a cima, rua abaixo, em passos firmes e feições silentes. 

João B Nunes

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A MENTE EM TERMOS DE ID, EGO E SUPEREGO




Imagine um terreno que seja preciso dimensionar seu espaço para ter um detalhamento, a partir do qual o conhecimento mais pormenorizado seja possível. Topografia, delimitação dos espaços é uma das principais tarefas do agrimensor, o profissional habilitado para medir e estabelecer limites das terras.

Os estudos do médico austríaco Sigmund Freud (1856-1959), fundador da psicanálise, análise profunda da psique, apresentaram uma estrutura topográfica da mente.

Topograficamente, a psicanálise considera o aparelho mental como um instrumento composto, esforçando-se por determinar em quais pontos dele ocorrem os vários processos mentais.

De acordo com os pontos de vista psicanalíticos mais recentes, o aparelho mental compõe-se de um ‘id‘, que é o repositório dos impulsos instintuais, de um ‘ego‘, que é a parte mais superficial do id e aquela que foi modificada pela influência do mundo externo, e de um ‘superego‘, que se desenvolve do id, domina-o e representa as inibições do instinto que são características do homem.

As três polaridades da mente estão ligadas umas às outras de várias maneiras altamente significativas. Existe uma situação psíquica primordial na qual duas delas coincidem. Originalmente, no próprio começo da vida mental, o ego é catexizado com os instintos, sendo, até certo ponto, capaz de satisfazê-los em si mesmo. Denominamos essa condição de ‘narcisismo’, e essa forma de obter satisfação, de ‘auto-erótica’.

Nessa ocasião, o mundo externo não é catexizado com interesse (num sentido geral), sendo indiferente aos propósitos de satisfação. Durante esse período, portanto, o sujeito do ego coincide com o que é agradável, e o mundo externo, com o que é indiferente (ou possivelmente desagradável, como sendo uma fonte de estimulação).

Em comparação, proposta por Freud, o cavaleiro, o ego, não está apenas (pode-se dizer) furiosamente empenhado em manter as rédeas de seu cavalo teimoso, o id, como ainda é forçado, ao mesmo tempo, a lutar com uma nuvem de abelhas bravas, o superego, enxameando sobre ele. 

Mas, essa é uma discussão que vem rendendo desde Freud, muitos aprofundamentos que demonstram o universo de estímulos, impulsos, instintos que fazem parte do funcionamento mental de cada um de nós, negados ou aceitos, reconhecidos ou ignorados, eles estão lá num conflito constante por espaços que molda a nossa realidade psicossocial. 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

UM CONVITE À REFLEXÃO


Muito horando em contribuir mais uma vez como compartilhador de saberes tão oportunos como a temática abordada. Grato a equipe gestora e todos os professores participantes!

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

TREINAMENTO DE PESSOAL DE CAMPO - ELEIÇÕES 2020


O trabalho na majoritária me colocou em contato com candidatos a vereador de Campina Grande-PB, e dentro de cronograma apertado tive a oportunidade de ministrar treinamento de pessoal de campo seguindo o seguinte plano de curso breve: 1) Medidas Sanitárias frente aos protocolos de prevenção a convid-19; 2) Limites prudenciais legais (ilícitos eleitorais, fundamentos legais da propaganda eleitoral e Lei das Inelegibilidades - Condutas vedadas). 

quinta-feira, 19 de março de 2020

EM TEMPOS DE CONFINAMENTO É PRECISO CUIDAR DO EMOCIONAL



O ser humano por definição é um ser social, que nasce, cresce, desenvolve-se e morrer no meio social, pertencendo a uma sociedade, tribo, clã e família. 

Esse momento de apreensão vivenciado  em todo o mundo em face de uma pandemia que pode se alastrar e ceifar a vida de milhares de pessoas, as autoridades recomendam, outras até decretam sob pena de multa e prisão, o recolhimento das pessoas em seus domicílios, e nesse ponto, tem-se várias situações que devem ser consideradas em relação às pessoas em si.

É preciso ter cuidado com o emocional da pessoa nessa fase de isolamento. 

De acordo com o psicanalista Marcos Wagner e a psicóloga Karoline Paiva, durante períodos de isolamento, o mal estar psicológico pode se instalar, fragilizando nossa capacidade de adaptação e reação ao estresse do confinamento, produzindo respostas fisiológicas e emocionais que podem impactar nosso sistema imunológico e a condição de equilíbrio mental para enfrentamento de situações adversas.

Procure assistir noticiários apenas uma vez ao dia. Geralmente a edição da manhã é capaz consolidar tudo o que precisamos saber para ficarmos atualizados.

Evite pensamentos vitimista. Não caia na armadilha da hiperinformação e no excesso angustiante de informações falsas ou exageradas. Essas ações podem te levar a um estado mental de constante alerta, prejudicando o relaxamento e capacidade de discernimento.

Evite a solidão como sinônimo de abandono. A solitude é um estado desejável de privacidade que permite a reflexão e a subjetivação pessoal, mas a solidão pode produzir tristeza em excesso e potencializar traços depressivos inerentes a cada pessoa.

Utilize toda tecnologia disponível para manter-se conectado com a vida e com pessoas que você estima. Una-se aos seus familiares e amigos, promovendo boas conversas por meio de videochamadas, telefonemas ou mensagens.

Evite cultivar pensamentos pessimistas e sofrimento por antecipação. 

Quando estamos amargurados, nosso mundo interior fica embrutecido e nossas reações e comportamentos podem se revelar de forma destrutiva, ferindo aqueles que estão à nossa volta e nos impedindo de enxergar soluções. Isso ocorre porque mecanismos de autodefesa reprimidos se eclodem e podemos passar a agir de forma agressiva.

Lembre-se: Você tem condições de pensar diferente a fim de aliviar as dores produzidas pelo momento atual. Permita-se.

Se o ócio não for criativo, pode conduzir a um estado de letargia existencial. Encontre nas atividades manuais e nas atividades físicas que possam ser executadas em casa um meio para aliviar desconfortos e para preencher o tempo.


João Batista Nunes da Silva

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

EU E O MEU EGO



Não há ninguém mais íntimo do que o nosso ego. Ele está ali onde ninguém mais além de nós podemos situá-lo. Ele bem que poderia ser nosso melhor amigo. Até certo ponto ele até se esforça para ser, afinal, se quase sempre nos comportamos de modo a supervalorizarmos traços pessoais, conquistas, sucesso etc. e etc. tem seu toque especial.

Ryan Holiday em sua obra O Ego é seu inimigo – como dominar seu pior adversário é uma excelente leitura para quem ainda não se deu conta da existência e atuação desse ente em suas vidas.

Para o autor, em qualquer momento da vida, as pessoas se encontram em um de três estágios. Estamos aspirando a algo, tentando abrir uma brecha no universo. Alcançamos o sucesso, talvez um pouco, talvez muito. Ou fracassamos, recente ou continuamente. A maioria de nós se encontra em fluxo nesses três estados, aspiramos até alcançarmos o sucesso, temos sucesso até fracassarmos ou até aspirarmos a mais, e depois que fracassamos podemos começar a aspirar a ou alcançar o sucesso outra vez.

O ego é o inimigo a cada passo do caminho. De certo modo, ele é o inimigo da construção, da manutenção e da recuperação.

A proposta do autor em relação ao que pode ser feito para estarmos um passo à frente dos ataques de nosso próprio ego é esquematizada numa estrutura que, segundo ele, poderá nos ajudar a ser: humildes em nossas aspirações; generosos em nossos sucessos; e, resilientes em nossos fracassos.

Isso não quer dizer que você não seja único e que não tenha nada de incrível com que contribuir em sua breve passagem por este planeta. Não quer dizer que não haja espaço para ultrapassar limites criativos, inventar, sentir-se inspirado ou ter mudanças e inovações verdadeiramente ambiciosas como meta. Pelo contrário: para fazermos essas coisas da melhor maneira e corrermos tais riscos, precisamos de equilíbrio. Como observou o quaker William Penn: “Construções que se encontram tão expostas às intempéries precisam de uma boa fundação.”

Pense nisso.

João B. Nunes          
joaobnunespb@hotmail.com

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

DONA JARINA


Os idos eram os longínquos anos 1980. O Bairro do Jeremias nasceu já no estigma da dependência. Há muito tempo, passava o velho Jeremias cobrando uma espécie de taxa pelo uso do terreno no qual estavam construídas as casas de um misto de gente, maioria trabalhadora, metidas nas múltiplas formas de subemprego. Essas visitas que ocorriam aos domingos pela manhã ao final de cada mês foram levadas adiante pela viúva muito depois da morte do velho.

Ali na XV de Novembro, uma ladeira acentuada, a Rua Conde de Monte Cristo (chamada pelos populares simplesmente de "A Conde Monte Cristo) representava um dos acessos ao bairro. E no pé da ladeira morava Dona Jarina.

Um negra com cabelos que já apontavam o avançar da idade. Sem qualquer escolaridade dedicou sua vida a trabalhar como babá, lavadeira, arrumadora das casas das madames do Alto Branco, um bairro onde morava a classe mais representativa das boas posses de Campina Grande.  

Jarina inventou de entrar na lei dos crentes e passou a frequentar uma igreja da Assembleia de Deus, mais acima, na Rua São Cosme. 

A nega Jarina era uma criatura de coração largo. Obesa, pés inchados, sempre reclamando de dores nos quartos. Morava em casa própria. Uma casinha  no sopé da ladeira, dessas de cuminheira baixa. Um portão pequeno  e apenas um  passo adentro separava a rua  da porta. Na sala,  hábitos simples. Um tamborete de madeira com tinta desgastada. Uma cortina de chita com aquelas rosas estampadas. Um retrato antigo de um  casal que já se foi. 

Um  rádio ABC de revestimento plástico,  e com o seletor quebrado, mas a nega asseverava que era nele que ela não perdia o programa Dramas da Cidade com Clóvis de Melo. Muito do que se ouvia, tinha haver com  fatos aqui e ali envolvendo a pobre gente do Jeremias.

Das quenturas próprias das mulheres sem ômi e a desoladora solidão, Dona Jarina não teve outra alternativa senão arranjar um tal de João, vigia de Grupo Escolar, que tinha um filho meio abestado. 

No início tudo foi uma maravilha só. João se mudou para a casa de Dona Jarina. Ele andava com um revolver calibre 22 e um cacetete, desses com um cordão que envolvia o pulso. 

Para falar de um tipo étnico, João era a perfeita mistura de negro mais índio, mais sertanejo, mais caririzeiro, uma evolução de guenzo com o coice da jumenta. Era feio, em síntese. Mas isso não define o caráter de ninguém! Poderia ser um exemplar trabalhador, cumpridor de seus deveres e um excelente companheiro para sua nega, nesse amor recém arranjado.

Quando a energia da libido caiu na rotina do fogo morto, João logo passou de mal educado para ríspido, gritalhão. Passou a se comunicar através de bofetadas e ponta-pés. Pobre Jarina! Recebia coronhadas na cabeça. Aparecia na igreja aos prantos, narrando as grosserias de João.

A vida relativamente tranquila de Dona Jarina foi se tornando um verdadeiro inferno até que um dia a vizinhança trouxe a notícia: acararam de matar João na base do tiro e da facada, ali mesmo, numa distância de uns 200 metros.

Ninguém sabe se aquele choro da viúva era de tristeza pela cena trágica (de longe, o corpo de um miserável estendido no chão) ou se lá no fundo era a carta de alforria que acenava novos ares de liberdade de um jugo opressor.

O tempo passou, Dona Jarina já velha e dorida dos quartos e aquele lenço que sempre trazia na cabeça e a solidão se somaram para lhe afrouxar alguns parafusos do juízo. A última cena era Jarina indo em direção onde morava galego Vavá, cantarolando em gesto de marcha, no meio da chuva: "marcha soldado cabeça de papel quem não marchar direito vai preso no quartel..."

Autor
João Batista Nunes 



sábado, 3 de novembro de 2018

UM HOMEM A SER ESTUDADO



A oportuna observação de um de meus professores numa aula da disciplina Direitos Humanos sobre a figura de Epitácio Pessoa, natural de Umbuzeiro, Estado da Paraíba me chamou a atenção.

Dize-nos Marganida Contarelli que Epitácio Pessoa tem uma singular importância no âmbito da história do Direito Internacional brasileiro, em face do anteprojeto de Código por ele elaborado. 

Nascido em Umbuzeiro no ano de 1865, teve parte da sua formação no Estado de Pernambuco. Órfão de pai e mãe aos oito anos de idade, veio para o Recife e sob a orientação do seu tio o Barão de Lucena, estudou no Ginásio Pernambucano, em 1874. Matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife em 1882 e fez, segundo narra Clóvis Beviláqua, em sua obra sobre a História daquela Casa do Direito, "um dos cursos mais brilhantes de que houve tradição da Faculdade, obtendo distinção em todos os anos", bacharelando-se em 1886.

Em Pernambuco, chegou a ser Promotor de Justiça nas Comarcas de Bom Jardim e do Cabo de Santo Agostinho. Com a proclamação da República foi secretário do Governo da Paraíba ingressando deste então na Política do Estado.

Em 1891, foi nomeado catedrático da Faculdade de Direito do Recife, no curso de Notariado. Representou a Paraíba como Deputado na Assembleia Constituinte para a elaboração da primeira Carta Constitucional Republicana (1890/1891), tornando-se, em 1898, o Ministro da Justiça no Governo Campos Sales.

"Logo se empenhou em realizar a velha promessa do governo brasileiro de dotar o pais com um Código Civil, e para tamanha empreitada", convocou, em 1899, o também professor da Faculdade de Direito do Recife, Clóvis Bevilágua, para a redação do projeto. Nomeou a Comissão que o devia rever, sob sua presidência, e acompanhou com interesse as discussões na Câmara. Muito mais tarde, já em 1915, quando o projeto volta ao Senado, sendo designado para redigir o parecer, o que fez com a superioridade de sempre. O Código Civil foi largamente fruto do seu pensamento e recebeu dele expressiva contribuição, não podendo se dissociar o seu nome de um dos mais notáveis monumentos da História do Direito pátrio.

Nomeado em 1902 para o Supremo Tribunal Federal, com 36 anos, exerceu brilhantemente a magistratura até 1912, constando nos registros do Supremo que "nunca foi vencido como relator de um feito, fato talvez único na história da corte."

Antes de adentrar na apreciação do Projeto de Código de Direito Internacional Público, ressalto outros trabalhos de Epitácio Pessoa que não passa despercebido daqueles que estudam a vida e a obra de tão ilustre brasileiro. O estudo sobre "Terrenos de Marinha" publicado pela Imprensa Nacional em 1904 e pela Revista de Direito, vol. XIII, "A fronteira oriental do Amazonas", em 1917, os Pareceres e discursos entre 1917 e 1918.

Na 3ª Conferência Internacional realizada no Rio de Janeiro, em 1906, foi delegado do Brasil na Comissão de Jurisconsultos encarregada da codificação de Jurisconsultos encarregada da codificação do Direito Internacional, dando continuidade aos trabalhos apresentados em Conferência anterior, ocorrida no México, por um pernambucano, também professor da Faculdade de Direito do Recife, José Hygino Duarte Pereira, que falecera durante a referida Conferência.

O "Projeto de Código de Direito Internacional Público", elaborado por Epitácio Pessoa, foi publicado pela Imprensa Nacional em 1911, é uma obra de grande valor jurídico, com antecipações na visão das relações internacionais que surpreendem o estudioso e permanece, em muitos aspectos, ainda atual, mesmo sendo uma obra escrita há mais de cem anos, de profundas transformações como foi o século XX. O Projeto foi considerado por Levi Carneiro como síntese da melhor doutrina sobre esse difícil ramo da ciência jurídica. 

Epitácio Pessoa, patrimônio da Paraíba, é o filho mais ilustre desta terra; cada paraibano que lhe conhece o desempenho público sabe que esse nome será sempre memorável. Os anais de dois Reinados e várias Repúblicas, de que se compõe a história do Brasil desde a Independência até os nossos dias, só apresentam um homem suscetível de medir-se com Epitácio Pessoa, em ação e pensamento, ao serviço das grandes causas nacionais: é Rui Barbosa. Epitácio, defensor da Justiça; Rui, defensor da liberdade. Eis como os caracterizou Laurita Pessoa Raja Gabaglia e José Octávio, aquela biógrafa do pai, este, autor de seu perfil parlamentar, estampado em publicação da Câmara dos Deputados.

Epitácio e Rui frequentaram todas as tribunas. Ambos gigantes, ambos exceções de culminância no apreço e devoção ao interesse público, à salvaguarda das liberdades, à genuína conservação dos valores. 

Ambos ainda jurisconsultos. Rui, o erudito, o humanista, o prosador vernáculo, constrói com a palavra uma obra de arte; é o esteta das ideias. Epitácio, por sua vez, com a lógica e a razão desenvolve em seus escritos jurídicos o raciocínio da legalidade; serve ao Pais e à Constituição com a honradez de uma vocação republicana.

As ferramentas dialéticas de análise aos fatos, ele as emprega para levantar um edifício argumentativo cuja visão e clareza e sentido da realidade nos deslumbram, ao mesmo passo que comovem e persuadem.

Fé, mestria, senhorio são traços sempre vistos ao lado dos que expõem a verdade. Sem eles não há legítima eloquência. Compôs Epitácio seu discurso político, invariavelmente isento de sutilezas, sofistarias, paralogismos, malabarismos, ambiguidades. Tais vícios se enredam tão somente entre aqueles a quem falece a convicção íntima da causa, o domínio absoluto da ideia, a confiança inabalável pertinente à retidão das proposições e dos juízos exarados. Não era este o caso de Epitácio.

_____________
Saiba mais sobre Epitácio Pessoa: https://www.youtube.com/watch?v=rwb0K2pIhXA

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

BAIRRO DO JEREMIAS: UM COMÍCIO NO PÉ DA LADEIRA


O Bairro do Jeremias em Campina Grande, interior do Estado da Paraíba, por volta do ano de 1980, era ao lado dos bairros de José Pinheiro, Centenário e Liberdade palcos tradicionais dos comícios políticos. Dois locais eram estratégicos. Tinha candidato que preferia fazer seu comício no alto do Jeremias. No começo da Rua Santo Agostinho, ou Simão Bolivar, esquina com a XV de Novembro (principal acesso Centro/Bairro, vindo pelo Bairro da Palmeira), ou no baixo Jeremias. Neste caso, o caminhão ficava na esquina da Rua Francisco Borges da Costa (Rua do Homem Mocego) com a Simão Bolivar, mirando a expansão da Feirinha do Jeremias. O som podia ecoar até à Vila dos Teimosos, de modo que,  quem estivesse hospitalizado no Hospital da FAP, poderia ouvir perfeitamente toda a programação. 

Nessa última opção de local, o caminhão ficava num declive, ligeiramente inclinado, no pé da ladeira.

A gente sofrida composta de trabalhadores assalariados na sua maioria, estudantes, idosos, mulheres e crianças se concentravam na Feirinha esperando a chegada dos candidatos. Não importava se, de repente, a noite fosse tomada por uma leve neblina, e o chuvisco reforçasse aquele friozinho de batida de dentes. Mesmo assim o povo não arredava o pé, do pé da ladeira onde geralmente ficava o caminhão dos candidatos.

Cada candidato tinha seu representante no bairro. Ivan Cabral, um antigo líder comunitário durante muito tempo apoiou Zé Maranhão. Depois, passou a apoiar Ronaldo Cunha Lima. Depois passou a representar Walter Brito. Celinha assume posição de líder e passa a apoiar Ronaldo Cunha Lima. 

Enivaldo Ribeiro, apoiado por Laura de Chico Venâncio. Doutor Damião, por outro comunitário com seu potencial mobilizador  e assim por diante.

O grande atrativo eram os shows com artistas do momento ou da nostalgia romântica. Cantores como João Gonçalves com suas músicas de duplo sentido, Marinêz e os Três do Nordeste com o autêntico forró representavam verdadeiras festas ao ar livre. De início, cantores e bandas de pequena monta, depois, lá por volta das 22h começavam os discursos dos candidatos. Depois, começava o arrasta pé que se estendia das 23h às 0 horas. E o povo lá, firme na diversão. No meio desse fuá, as crianças faziam a festa na disputa por quem juntava mais santinho de candidatos. Eles diziam as mocinhas que distribuiam entre o povo, "tem santinho, aí?"  

O povão gostava também de ouvir os discursos inflamados dos candidatos. Tinha sempre um bêbado ou uma bêbada, ou os dois abraçados dançando juntos e fazendo prezepadas lá na frente do caminhão ou do trio elétrico de Walter Brito. 

Eles gostavam de ouvir Enivaldo Ribeiro, Dr. Damião, Zé Maranhão com aquela tranquilidade que é a sua marca, garantindo que iria lutar pelo "ricurso" necessário para mais saúde, moradia, segurança e tudo mais. 

Entretanto, a emoção era generalizada quando Ronaldo começava a discursar, intercalando aqui e ali com a prosa e a rima. Tinha gente que gritava e aplaudia, as mais atiradas esbravejavam: "Ronaldo, coisa linda!!!"

O resultado desses comícios quase sempre surtia seus efeitos. Dos prosélitos que acorriam para essas agromerações muitos se tornaram grandes defensores das figuras mais emblemáticas da política. Com tais não tinha negociação. O voto era certo em cada pleito, por décadas.


João B Nunes
Formado em Psicologia e Acadêmico de Direito

Memoria Social

1) A Difusora de Laura 
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2011/11/difusora-de-laura.html

2) Ritinha Parteira
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2014/03/ritinha-parteira.html

3) O Cego Zé Maurício
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2013/02/o-cego-ze-mauricio.html

4) A Bodega de Seu Garrincha
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2012/01/bodega-de-seu-garrincha.html

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

CRISTIANO LAURITZEN E A CAMPINA DE OUTRORA


























Senhor Ministro[1], Vossa Excelência não se envergonha, como paulista brasileiro, que um estrangeiro, conquanto brasileiro naturalizado, venha de tão longe, do fundo de um lugarejo perdido nos sertões do Brasil, advogar perante o governo do país, a realização de um benefício de suas economias de pequeno comerciante, e ainda tenha o desprazer de arrostar com o desdém manifesto de um órgão do poder público?

A história rica, fértil e interminável de Campina Grande é a saga dos heróis de legendas, dos forasteiros leais que em tempos de outrora defenderam bravamente as melhores causas, lutando nas grandes batalhas em diversos campos e áreas por esta terra que os acolheu. Aqui eu destaco apenas alguns lampejos da vida e trajetória de um forasteiro ilustre, um homem que deixou sua longínqua cidade Jurlândia  na Dinamarca e depois de percorrer todo o Nordeste brasileiro escolhe Campina Grande para ser seu lar pelo resto da vida.

Quais os verdadeiros motivos que o fizeram deixar sua terra natal ainda hoje é uma incógnita. 
O fato é que, em chegando à Campina, Cristiano vindo do Recife onde se dedicava à venda de joias e compra de ouro, instruído, demonstrou que tinha sangue nas veias para lutar pelas melhores causas da Rainha da Borborema, e que mais tarde, o tempo provou, que ele tinha altivez e honra para se sobrepor a política local que, à época, já se mostrava reificada na mediocridade coronelista.

Com efeito, como muito bem destacado por Evaldo Gonçalves de Queiroz, Campina sempre teve o dom de ser uma cidade cosmopolita. Por aqui desfizeram as malas alemães, árabes, libaneses, dinamarqueses, portugueses, franceses, chineses, holandeses, sírios, japoneses, entre tantos outros, e se destacaram no comércio, na educação, saúde, religião e política. Contribuíram, juntamente com as famílias mais tradicionais da terra, para que se tornasse uma cidade destacada dentre as demais do Estado, pela inventividade e visão progressista.

Quem viveu os tempos de outrora em Campina sabia muito bem que este lugar evoluído a partir do ponto de encontro de tropeiros, tinha todos os indicadores para jamais vir a ser uma cidade, de fato. Não tinha o essencial elemento em torno do qual se enraíza as gentes: a água. Nem sequer fontes alternativas que pudesse sinalizar vantagem de se morar. Não existia expectativa senão a transitoriedade do local, nada mais. Porém, Campina nunca se rendeu a limitações por mais sérias que se mostrassem.

Sinval Odorico de Moura, Bacharel Formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Academia de Olinda, Oficial da Imperial Rosa, e Presidente da Província da Paraíba do Norte: Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembleia Legislativa Provincial resolveu, e eu sanciono a Lei seguinte:
Art. Único – A Vila de Campina Grande fica elevada a categoria de cidade, conservando a mesma denominação, e revogadas as disposições em contrário.
Mando, portanto a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da presente Resolução pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém. O Secretário desta Província a faça imprimir, publicar e correr.
Palácio do Governo da Paraíba, em 11 de outubro de 1864. 


Lauritzen, aqui, instalado, constitui família, desenvolveu seu comércio. Competência profissional, inclinação para a vida pública, um gentleman devotado às causas da cidade. Um exemplo de disponibilidade, espírito público, probo em suas ações. É descrito como um abnegado servidor de Campina. Elpídio de Almeida ao dar valiosa contribuição sobre a História de Campina dedicou espaço ao registro do desempenho de Cristiano Lauritzen, fazendo-lhe justiça, assim como tantos outros historiadores fiéis aos fatos mais destacados de sua evolução.
Aos 36 anos, o mancebo se casou com uma das filhas dos homens mais influentes de Campina Grande.  O sogro além de grande comerciante era também importante político, Presidente da Câmara Municipal. 

Conforme exposto por Evaldo Gonçalves, em 1885 recebia das mãos do Juiz Antônio da Trindade Meira Henriques a presidência do Partido Conservador.

Ainda de acordo com Gonçalves, com o advento da República, mereceu do primeiro Presidente, Venâncio Neiva, a confiança da escolha para membro e Presidente do Conselho de Intendência, novo órgão republicano que substituía as antigas Câmaras Municipais e que acumulavam as funções executiva e legislativa, na pessoa de seu Presidente e de dois outros membros.

Esse seu primeiro mandato durou apenas dois anos, ou seja, até 1892, tendo sido destituído pelos liberais campinenses, em face da renúncia do Marechal Deodoro da Fonseca e sua substituição pelo Marechal Floriano Peixoto. O Presidente Venâncio Neiva ficou solidário com o Proclamador da República e, por essa razão, perdeu a Presidência do Estado, levando consigo todos os seus amigos, inclusive Cristiano Lauritzen.

Nesse curto período de dois anos de administração, o campinense Cristiano Lauritzen realizou muito pela cidade. Conseguiu economizar recursos para a construção do prédio, onde iria funcionar o Ginásio Alfredo Dantas; assegurou a compra do relógio da Matriz, hoje Catedral de Campina Grande e fez uma viagem ao Rio de Janeiro para cuidar, junto aos poderes da República, da extensão da linha de ferro até à cidade que governava, como Presidente do Conselho de Intendência. Foi eleito Deputado Estadual constituinte para a elaboração da nossa primeira Constituição Paraibana, ocupando todos os espaços na vida político-administrativa campinense.

Em 1903, com seus próprios recursos pessoais e sem ser detentor de mandatos, viajou ao Rio de Janeiro, em busca de solução para a ferrovia, que deveria ligar Itabaiana à Campina Grande. Conseguiu uma audiência com o então Ministro da Viação da República; surpreendendo a todos com sua sinceridade diante da aparente insensibilidade do Ministro.
Perdão, o Sr. não me compreendeu. O Governo não se descura dos problemas que afetam a economia do país, dentro das possibilidades orçamentárias, mormente se tratando de intercomunicação ferroviária nos Estados, cujas vantagens não teríamos a inépcia de obscurecer. Posso assegurar-lhe que a secretaria, que eu tenho a honra de dirigir é a primeira a reconhecer a utilidade do que o Sr. pleiteia e, como lhe cumpre tomará as iniciativas que preliminarmente se impõem. Da sinceridade dos seus sentimentos e propósitos o Sr. pode voltar seguro à sua terra.

A cena terminou com o forte aperto de mão e palavras de aplausos do General Almeida Barreto, que disse a Cristiano Lauritzen, logo após terem deixado o Gabinete do Ministro: Você falou “rosado” ao General, só assim aquele “penedo” se mexia.”
O Jornal do Comércio, pela mão do jornalista Artur Aquiles, destacou a dedicação de Cristiano à Campina:

Inteligente, arguto, tenaz e abnegado ás próprias ideias, o distinto homem não olha a sacrifícios nem se poupa a incômodos, sempre que é preciso agir em prol do engrandecimento, não diremos de toda a Paraíba, mas da próspera comarca de Campina Grande e, sobreuto, da respectiva cidade onde, há longos anos, firmou residência, constituiu família e radicou-se definitivamente pela aquisição de invejável abastança.
[...] a sua preocupação, porém, nada tinha de comum com a dos políticos que, do partidarismo, só visam aos proventos pessoais; ao contrário, esquecia por vezes, a própria individualidade, para só saber querer e propugnar pelo engrandecimento material e moral de sua nova e pequena pátria, objetivo que o empolgou e empolga-o ainda como uma obsessão irremovível.


Do Dr. Luiz Nunes, Conselheiro, Escritor e Poeta ilustre, tomamos emprestado este depoimento, em versos:

“Fosse a Quinze de Novembro”,
Os ilustres visitantes,
Como amigos de Lauritzen,
Sentiam-se gratificantes
Com a musical visita,
E não passavam por pedantes.

Irineu Jóffily, se sabe,
Um grande historiador,
Jornalista festejado,
Registrou o seu louvor
A Cristiano Lauritzen,
De quem era opositor.

-Nossas felicitações
Vão, sim, para o cidadão
Porque ninguém, como ele,
Compreende a dimensão
E importância dessa obra
Para a nossa região.

-As grandes dificuldades
Por Lauritzen encontradas,
Esforços desenvolvidos,
Esperanças não frustradas
Traduzem o amor à terra,
Canseiras amenizadas.


João Batista Nunes é psicólogo e acadêmico de Direito.



[1] Registro das palavras de Cristiano Lauritzen (in verbis) ao General Glicério, Ministro da Viação. In: Vultos e Fatos da História, de Hortêncio Ribeiro (s/d). A ocasião tratava-se de uma audiência conseguida não facilmente pelo senador Álvaro Machado e os generais José de Almeida Barreto e João Neiva. A certa altura da conversa, Cristiano havia notado que o Ministro pouco lhe dava atenção, e quando teve que participar do diálogo, o fez de forma desinteressada, desaprovando a ideia da extensão do melhoramento da malha ferroviária de Campina (1880), objeto da reunião, como bem destacado pelo emérito historiador Evaldo Gonçalves de Queiroz em Paraíba: Nomes do Século, vol. 12, União, 2000).


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

DEPUTADO PE. ARISTIDES FERREIRA DA CRUZ



Os idos de 1926 no interior do sertão da Paraíba foram marcantes pelos acontecimentos sociais, políticos e religiosos que se desenrolaram de forma pulsante culminando com um final trágico tendo como protagonista a Coluna Prestes e o assassinato de um grupo de cidadãos da conturbada cidade de Piancó, entre as vítimas do massacre seu principal personagem: o Pe. Aristides.

O cenário era tipicamente cristalizado por flagelos históricos reprodutores de uma dura realidade. O interior do Estado era dominado pelas famílias tradicionais, muitas delas com poderes originados no Brasil Império, com ramificações em vários estrados de influencia política. A seca inclemente castigava de forma assoladora com a estiagem prolongada fazendo a vegetação, a estrada empoeirada e as ondas de calor tremulando sobre as pedras, o conjunto desesperançoso. Por todos os lugares o banditismo imperava, com ameaças constantes entre cangaceiros e cabras sob o comando de coronéis das inúmeras seismarias. Era tempo do Presidente da República Epitácio Pessoa, Presidente da Parahyba João Suassuna, Senador Venâncio Neiva e tantos outros expoentes da cena política.

Na Assembleia Legislativa, não poderia passar despercebido o Deputado Padre Aristides, defensor de Piancó. Muito desse personagem foi narrado por Manoel Otaviano no livro "Os Mártires de Piancó" (editora Teone S.A., 1955).

Padre Aristides Ferreira da Cruz, à época dos grandes conflitos sociais, não era de frequentar a imprensa, porque escrevia mal a lingua vernácula; não era de se preocupar com a prosódia de certos vocábulos e muito menos com a correção de frases. Em Piancó, foi pároco por longos anos de intenso trabalho de restruturação da sede da igreja e reformas nas paróquias locais. Foi amigo da família mais tradicional da região e grande força política do sertão, a família Leite, tendo como chefe o Dr. Felizardo Leite.

Depois de algum tempo, rompeu com os Leites prometendo lutar enquanto houvesse força para destroná-los do poder e apagar-lhes os nomes da história política de Piancó. Travaram-se intensos debates e campanhas políticas as mais baixas e infamantes possíveis de ambos os lados. Ora acusado de manter em sua casa grupos de jovens com os quais fazia verdadeiras orgias, ora acusado de desencaminhar uma moça que mantinha em casa e com a qual tivera uma filha, acabou por fim sendo afastado pela Diocese da Paraíba de seus atividades como pároco.

Sentindo-se injustiçado pelas acusações, revolveu oficializar sua relação com a mulher com quem teve quatro filhos. Ocupou seu primeiro mandato como deputado estadual com grande prestígio e apoio de seus correligionários. Mandava empregar seus seguidores na região de Piancó, perseguia tenazmente seus opositores, afastava delegado, prendia, mandava soltar, intervinha nos despachos e decisões do juiz da cidade formulando as próprias sentenças de acordo com as suas próprias conveniências. Não perdia oportunidades, incutia nas mentes dos que eram alvos de sua propaganda que era preciso e urgente acabar de vez com a "velha política do 'eu posso, eu quero e eu mando', a velha oligarquia dos Leites!" Era precisa tornar Piancó livre!

Em Plenário, todos os dias ocupava a tribuna e, mesmo em mal português, muitas vezes arrancava palmas das galerias, por sua verve ferina e respostas oportunas aos adversários, em apartes queimantes. Atingia-os com a força de argumentos convincentes e de sutilezas lógicas, preciso e incisivo como um perito esgrimista. 

Seu slogan era: "amigo meu não peca", seu princípio: "Para inimigos políticos, justiça; para amigos, favores." Linguagem chã, ao sabor do povo menos entendido, criava por vezes, engraçados neologismos. A sua lógica é que não bambeava. Argumentava com firmeza, convicção e destemor, com o indicador em riste, voz limpa e atroante, com todos os dotes de grande orador. Certa vez, rebatendo apartes de seus opositores, no mais aceso dos debates, afirmou: "Em Piancó há somente dois chefes: eu que superintendo os destinos do velho Município sertanejo e Felizardo Leite, oposicionista, que me combate. Não nego e nunca neguei o seu valor político. Já disse a meus amigos que, si eu morrer primeiro, aceitem a sua orientação e não procurem outro alí, porque não existe. Tudo mais é figura de papelão, como este pobre diabo (e apontava para José Parente, um oposicionista representante dos Leites) que é como prego: tem cabeça, mas não tem juízo!"

Depois dessa, um misto de gargalhadas e protestos tumultuaram a sessão, obrigando o presidente a suspendê-la até o restabelecimento da ordem.

A Coluna Prestes era subdividida em vários destacamentos, duramente combatidos pela campanha propagandista do governo central que reunia forças ao longo das marchas pelos sertões para resistir. As cidades eram esvaziadas e ao mesmo tempo, guarnecidas por misto de defensores o que incluía soldados da Política Militar, jagunços de coronéis, pistoleiros de aluguel, cangaceiros e homens comuns que se armavam para a peleja.

Nesse particular da segurança no "Velho Oeste" do interior da Paraíba, vale destacar os esforços do governo de Solon de Lucena e posteriormente o do Dr. João Suassuna, nos idos da década de 1920.

Registra-se que os revolucionários, talvez, não visavam atacar vila, nem cidade sertaneja, nem o itinerário fazia parte daquele perímetro. Porém, imprevistos circunstanciais os levaram a esse rumo. Descendo de São João do Rio do Peixe, acamparam-se como flanco-guarda-esquerda nas proximidades das duas cidades que pretendiam atacar: Patos e Pombal. 

Enquanto isso, o flanco-guarda-direita descia pelo rio Piancó, atravessaram as serras de Boa Vista, Pedra Ferrada e Pitombeira, alimentando-se de carne de cabras.

A 1º de outubro de 1926, sob o comando do Pe. Aristides, guarneciam a vila de Piancó apenas doze soldados e trinta e dois paizanos, todos relativamente municiados.

sábado, 4 de outubro de 2014

E DEPOIS?


Amanhã (dia 05 de outubro) será o dia tão esperado por uma gama de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com o pleito eleitoral. Uma disputa acirrada, ânimos tensos, stress, corre-corre, um verdadeiro furdunço. E o povo que diz não gostar de nada disso é o primeiro que toma partido; quem afirma detestar político é o pelotão de frente a se envolver.

Mas, eu particularmente vejo com preocupação o esforço de um sem número de pseudos profissionais metidos nos mais variados meios, especialmente os de comunicação (não todos, evidentemente), utilizando-se de todos os artifícios baixos, sem escrúpulos, fanáticos, extremistas, detratores, sobretudo, oportunistas, que buscam fazer carreira maculando imagens de políticos, numa completa irresponsabilidade.

O dinheiro que ganham pode até ser tentador para esse tipo de gente, mas no fim, não é um bom negócio. E eu vou explicar. 

Primeiro, um profissional ético, vencedor, sabe muito bem que aquele que hoje é oposição, amanhã pode ser situação. Se não ganha com este, pelo menos não perde. Outra razão simples, é que, sem saber, desmiolado que é, desce a lenha na reputação de algum candidato, virando propagandista de uma "verdade" cega, iracunda, atirando para todos os lados, mas que, na vida real, esses "ditos inimigos políticos" são os amigos que se encontram em Brasília nos melhores restaurantes e riem dessas situações bobas com enormes gargalhadas. Claro, protagonizada por acéfalos, bobão e babão que se encarna esse tipo de personagem. 

Naturalmente, os profissionais experientes, vividos, que sempre estarão no mercado e dele extrairá o melhor, sabem que o que digo é a mais pura verdade: não vale a pena denegrir, nem xingar, nem jogar lama no nome de ninguém, porque campanhas políticas não existem somente uma vez.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A VEREADORA DA GENTE


Não posso descer a detalhes, mas uma coisa posso afirmar, não se trata de um personagem, não. É gente de carne e osso, que inclusive está vivinha da silva. 

Trata-se da vereadora do povo! Do povo de outrora, de tempos pretéritos! Mas, mesmo assim, do povo!

Maria é o nome da bendita. Uma autêntica mulher do povo, uma vereadora de verdade. Ainda nem amanheceu direito na casa dela, e o cheiro do café já se faz sentir lá fora. Mas, dormir, dentro ou fora de campanha política não é um benefício a que Maria tinha direito. E, ela gostava. Sentia um prazer estranho de ver aquela gente maltrapilha e de todas as cores pintadas pelas vulnerabilidade social. Aqueles rostos sofridos, fitando-a esbugalhados, cheiro de desodorante vencido, guris catarrentos, êita vida duro de parlamentar era a vida de Maria.

Lá fora, sim, no meio da chuva ou se esgueirando perto de um abrigo estava sempre o povo que lhe era fiel. Vieram apertar a mão de Maria e aproveitar para descarregar sobre a edil uma série de pequenos pedidos como remédios, enxoval, ajuda para pagar água, luz, aluguel de cortiço atrasado e tantos outros reclamos que faziam a vida de Maria um verdeiro inferno. E ela gostava daquela rotina.

Maria era convidada para aniversários, batizados, crismas e tantos outros eventos que a pobreza a convidasse para ter o brilho de sua presença. Agora também tem uma coisa: no evento que não era convidada, mesmo assim, ela fazia questão de aparecer.

Se soubesse que um popular ingressou na UTI de um hospital, lá estava Maria chorando com os familiares! As lágrimas e convulsões da ilustre vereadora acabava envolvendo os presentes e tudo se convertia num verdadeiro chororô. 

Certa feita, Maria, sempre solícita, diligente, antenada, como era, jazia na sala de espera com uns dois ou três membros da família de um velhinho moribundo que faltava pouco para dar o último suspiro. O coitado tava todo entubado. Ela procurou, de pronto, saber onde podia fazer uma ligação. Informaram-lhe que era na enfermaria. 

A ligação tinha uma certa urgência e ares de suspense. "Faça-me já um requerimento para entrar na pauta da próxima sessão! Uma moção  de pesar pelo falecimento do INESQUECÍVEL e herói do desenvolvimento de nossa cidade, o senhor Ermenegildo de Sá Oliveira! 

Na sessão plenária, lá estava Maria, toda perfumada com seu contouré inebriante e com aquele batom vermelho que combinava com o vestido de babado, todo chamativo. Um moleque, pediu para que lhe entregasse um bilhete. O teor de logo foi conhecido pelos argutos olhos de Maria: Ilustríssima Vereadora. Sinto informar a Vossa Excelência que o Senhor Ermenegildo acaba de receber alta médica do Hospital e goza de plena saúde. Sem mais para o momento, seu assessor parlamentar. Maria gostava dessas formalidades até quando era dispensável.

Sem delongas, nem rodeios, nem protelações, Maria exclamou: Questão de ordem, senhor presidente!!! Peço a retirada do requerimento Moção de Pesar inscrito nessa pauta, o homem que pensava estar morrendo, recebeu alta e tá gozando de perfeita saúde!

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

SEU GERALDO - O RETRATISTA


De todas as recordações que os mais velhos guardam do Bairro do Jeremias, Área Norte de Campina Grande-PB, além da Difusora de Laura de Chico Venâncio e do Cabaré da Nega Tonha, cantado por Zito Borborema, é sem dúvida os tempos idos do vái-e-vem de Seu Geraldo. 

Seria qualquer "Geraldo", ou mais um dentre tantos comuns moradores senão pelo seu ofício: "tirar retrato" como se dizia à época (1980-90). Com sua máquina fotográfica "Zenite" com flash acoplado.

Aniversário que se preze não era completo se não chamassem Seu Geraldo. Na hora do partir do bolo era um verdadeiro alvoroço, pessoas comprimidas pelos recantos da sala, ansiosas para sair no "retrato". E as expectativas? Depois de quatro a cinco dias, tempo da revelação, Seu Geraldo já trazia todas as fotos num Álbum. 

Disposto, comparecia a enterros, clicando as últimas feições do morto; as missas, nas ocasiões festivas, aos cultos dos crentes, aos terreiros de macumba, enfim, casamentos, batizados,times de futebol de pelada, lá estava Seu Geraldo!

Nesse tempo havia algo de especial em tirar retrato, algo místico, singular. As pessoas se preparavam, usavam a melhor roupa, não poupavam no Contorrer de Alfazema (daqueles verdes e fortes), do olho para cabelos, que tanto conferia brilho como maciez. 

A emoção tomava conta das pessoas, afinal, não era todo dia que se podia tirar retrato! E se porventura não satisfizesse o gosto, a chance estaria por conta do próximo aniversário no qual Seu Geraldo fosse novamente chamado. 

O retratista do Jeremias acompanhou o desabrochar do bairro, registrando através de sua máquina Zenite as caras e feições de tanta gente que se vinha e que se ia num constante movimento da vida. Do retrato preto e branco para compor a Carteira de Trabalho Identidade do cidadão, ou a Carteira de Estudante ao mais chique retrato colorido, tudo se convertia num fascínio indescritível.


domingo, 24 de fevereiro de 2013

O cego Zé Maurício


Um resgate sociohistorico do cotidiano do Bairro do Jeremias 

O velho Zé Maurício era cego de nascença. Morava desde a década de 1970 numa pequena casa com frente recuada na Rua São Benedito no bairro do Jeremias, na cidade de Campina Grande, estado da Paraíba. Casado com uma mulher também cega, eles tiveram filhos e sobreviviam de ajudas de populares principalmente dos crentes da Assembleia de Deus, igreja na qual abraçou a fé.

Quem entrasse naquela casa se deparava com um cenário rustico de feições toscas. A mobília da sala se resumia num resto do que um dia havia sido uma poltrona com o estofado desgastado ao extremo. O piso era de chão batido, uma vassoura no canto da sala, feita com mato rasteiro ainda verde que crescia no quintal. Um móvel velho demarcava a fronteira do quarto separado por uma cortina pano de chita e a cozinha donde emergia pela cuminheira uma fumaça forte vinda da cozinha, onde pedaços de paus alimentavam o fogo para o café de Zé.

Com a morte da esposa, Zé Maurício sofre a terrível dor da separação. Nunca mais iria ter a seu lado, sua companheira. Rude e forte ele prossegue sua jornada. Nos sábados, um moleque, neto seu, o conduzia a passos largos para o mercado central. Ele conduzia às costas um saco de pano. E na volta, o peso dos donativos se acomodava em sua cabeça. 

Aos domingos, a peregrinação era a mesma. Só que mais cedo. Zé Maurício não costumava se atrasar para o compromisso da Escola Dominical da igreja da Rua São Cosme. 

Eloquente, podia discorrer horas a fio sobre sua fé, trazendo sempre uma bíblia com capa de couro desgastada pelo tempo.

Os ônibus sucateados da Viação Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que passavam naquelas ruas esburacadas e empoeiradas do Jeremias (e mais tarde, a empresa Cabral), nunca tiveram o registro desse ilustre cidadão tomando acento, rumando para algum lugar. Ele, curiosamente, preferia percorrer longos trajetos a pé. 

Zé Maurício sofredor, fiel defensor de sua fé, trajando seu terno domingueiro, já no fim de sua vida, deixou uma lição para um esnobe zombador que abastecia seu veículo num posto da Volta de Zé Leal: "- Ei cego! Porquê anda com a bíblia se não a lê?! A resposta veio sem rodeios: " - Está escrito: "Disse Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem sejam cegos!"  (João 9:39).

_______________
Textos Relacionados:
A DIFUSORA DE LAURA
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2011/11/difusora-de-laura.html


A CONQUISTA DO PRÓMORAR
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2012/02/conquista-do-promorar.html

A BODEGA DE SEU GARRINCHA
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2012/01/bodega-de-seu-garrincha.html