Um rapaz, filho de pais ricos e influentes na área empresarial, cedo começou a se relacionar com mulheres. De acordo com seu próprio relato, ele experimentou tudo o que se possa imaginar como formas de prazer com suas parceiras, que eram variadíssimas.
A busca crescente e desordenada pelo prazer pode construir uma prisão sem muros. É o prazer compulsivo que se instaura tornando senhor do comportamento, gerando crises de ansiedade incontroláveis e devastadoras, tanto na área do relacionamento sexual como nas drogas ou associadas. Só que o prazer excessivo tem seu preço alto, começando pelo consumo de energia mental e física constantes.
O corpo não consegue acompanhar o ritmo frenético e vai sedendo por falta de reposição energética dos sais e minerais. Vai-se criando uma condição de enfraquecimento comprometedor das funções vitais fundamentais até a pessoa se tornar um zumbi, uma espécie de morto-vivo que teme a luz do sol. Para acabar de vez com esse estado, o corpo sede ao chamado da morte e pára de funcionar como um desligamento de uma máquina.
Mas quão terrível não seria se a morte deixasse de cumprir seu papel? Essa indagação me leva a refletir sobre o romance escrito pelo dramaturgo Orcar Wilde, intitulado The Picture of Dorian Gray (1890).
Na obra, o autor tematiza de forma filosófica e provocativa o lado terrível da maldição de não-morrer. A personagem, Dorian Gray não podia fitar o próprio retrato, o que provocaria sua velhice acumulada por séculos. Sua juventude duradoura dependia desse distanciamento.
O retrato de corpo inteiro em óleo de Basil Hallward, um artista que está impressionado e encantado com a beleza de Dorian é pintado com perfeição impressionante; acreditando que a beleza de Dorian é responsável pela nova modalidade em sua arte como pintor.
Através de Basil, Dorian conhece Lorde Henry Wotton, e ele logo se encanta com a visão de mundo hedonista do aristocrata: que a beleza e a satisfação sensual são as únicas coisas que valem a pena perseguir na vida.
Imagine um homem, com aspecto jovial e bonito viver tanto tempo que assiste a morte sucessiva de inúmeras mulheres que amou, pelo fato de tudo em seu redor envelhecer, o tempo passando para elas e ele prisioneiro de si mesmo. O repetir dos mesmos estímulos, por mais que se tente a todo custo variar, ou avançar em direção a novos desejos, tudo perde a graça e o remédio mais eficaz que é a morte física, comum a todos os mortais, é-lhe negado.
A suma de tudo é que o melhor da vida pode ser satisfatoriamente experienciado, sendo uma dádiva o real aproveitamento dos momentos prazerosos pelos quais passamos e haveremos de passar; mas tudo com seu devido equilíbrio, pois quem não é senhor de seus impulsos inevitavelmente está fadado a uma prisão sem muros, preso e condenado pelo que lhe impulsiona a sempre buscar na mesma proporção com que se esvazia e se empobrece.




