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quinta-feira, 25 de setembro de 2025

BURNOUT: Saiba identificar as causas


Não é só excesso de trabalho: falta de reconhecimento, criatividade tolhida e mau relacionamento com os colegas também podem engatilhar uma síndrome de estresse crônico. Entenda de uma vez o que é o burnout – e saiba identificar suas causas.

Herbert J. Freudenberger nasceu em 1926, em Frankfurt, Alemanha. Quando os nazistas ascenderam ao poder, em 1933, sua família conseguiu enviá-lo aos Estados Unidos com um passaporte falso. Por um tempo, o garoto teve que se virar sozinho, nas ruas de Nova York, até encontrar abrigo na casa de um primo mais velho. Suas ótimas notas na escola lhe garantiram uma vaga na Faculdade do Brooklyn, onde cursou psicologia.

A ascensão de Freudenberger foi rápida; depois de graduado, emendou um doutorado na Universidade de Nova York e logo começou a trabalhar na área. No final dos anos 1960, o psicólogo visitou a primeira free clinic (“clínica grátis”) dos Estados Unidos, fundada em São Francisco, do outro lado do país. Esse tipo de consultório atende, gratuitamente, pessoas em situação de vulnerabilidade social, como moradores de rua e usuários de drogas pesadas.

Fascinado pelo conceito, e relembrando a época em que ele mesmo dormia na rua, o psicólogo abriu sua própria free clinic em Nova York, com foco em atender dependentes químicos. Freudenberger conciliava o trabalho voluntário com os atendimentos em seu consultório, que lhe tomavam 10 horas por dia. Mesmo assim, fazia a dupla jornada todas as noites, de segunda a sexta. 

Não demorou para ficar claro que essa rotina não era nada saudável. “Você se esforça muito no trabalho, você sente um total senso de compromisso… até que você finalmente se encontra, como eu, em um estado de completa exaustão”, escreveu o psicólogo. Os outros voluntários da clínica apresentavam os mesmos problemas. Os próprios funcionários procuravam Freudenberger com quadros de “depressão, apatia e agitação”. 

Quem era cuidador acabava virando paciente. Nos anos seguintes, Freudenberger se dedicou a estudar o fenômeno. Mas, antes de tudo, precisava de um nome para esse padrão de sintomas. A solução foi emprestar uma gíria que era usada por seus próprios pacientes para descrever a sensação devastadora que o abuso de drogas deixa: “burnout”, do verbo to burn, 
“queimar”. Em português, significa “esgotamento”. 

Assim como um fósforo que queimou até o final, os dependentes químicos se sentiam exauridos, sem energia alguma, na ressaca dos narcóticos. Como era mais ou menos assim que os profissionais exaustos se descreviam, o psicólogo importou a gíria de rua para o meio acadêmico. Freudenberger então começou a procurar pelo que chamava de “burnout ocupacional”. E onde olhava, encontrava. Médicos, enfermeiros, policiais, professores, bibliotecários – o burnout parecia absoluta￾mente generalizado. “Por que é que nós, como nação, parecemos, tanto coletiva quanto individualmente, estar no meio de um fenômeno que se espalha rapidamente – o burnout?”, escreveu ele em 1980.

Só tem um detalhe. Há 40 anos, o termo ainda era acadêmico. E permaneceu assim por décadas. Falava-se o tempo todo em “estresse”, mas não em algo tão específico quanto o burnout, o esgotamento causado exclusivamente pelo trabalho. Hoje não. O termo cunhado por ele está na ponta da língua de todo mundo. Uma pesquisa da Deloitte descobriu que 77% dos trabalhadores americanos afirmam já ter passado por um quadro de burnout, considerando apenas o emprego atual. 

No começo do ano de 2022, a Organização Mundial da Saúde incluiu oficialmente a Síndrome de Burnout na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), chamando atenção global para o tema.

Se em 1980 o incêndio parecia “estar se espalhando”, hoje, pelo jeito, já tomou a floresta inteira. Mesmo assim, a pergunta que Freudenberger fez sobre o porquê do fenômeno segue sem respostas claras. Nas próximas páginas, vamos examinar as melhores hipóteses.

Conhecendo o inimigo

A ideia de que trabalhar demais causa esgotamento  não tem nada de nova. Muito antes de Freudenberger teorizar o burnout, a medicina já tinha o termo “neurastenia” para descrever quadros de exaustão emocional, muitas vezes ligados a jornadas de trabalho excessivas. 

Acontece que a neurastenia era um termo guarda-chuva, usado para diagnosticar qualquer quadro de cansaço ou tristeza, independentemente da origem do problema. Com Freudenberger, o fenômeno do esgotamento laboral começou a ser esquematizado de forma mais lógica. 

Mas o que sabemos hoje sobre o assunto é em grande parte fruto do trabalho de outra profissional, a psicóloga Christina Maslach, da Universidade da Califórnia. Ela produziu diversos estudos sobre a síndrome, da década de 1970 em diante. E até hoje é a maior autoridade no assunto, uma espécie de Buda do burnout. Sua definição foi usada pela OMS 
nas novas diretrizes que entraram em vigor neste ano. Vamos entendê-la.

“Burnout é uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso”, define a CID-11. A descrição é curta e grossa, mas só dela já dá para tirar conclusões importantes.

A primeira: burnout não é uma doença ou condição médica. É diferente, por exemplo, de um quadro de depressão, que pode ser tratado via medicação e terapia. Trata-se de uma “síndrome”, ou seja, de um conjunto de sintomas. 

A segunda: o burnout é um “fenômeno ocupacional”. Significa que o termo só se aplica a cenários ligados ao trabalho. Não existe burnout, ao menos com essa denominação, em outras áreas da vida. Ele está sempre ligado ao ambiente de trabalho. 
É uma condição ambiental. Para solucioná-la, não basta terapia e medicação, como veremos mais para frente. 

A terceira: o burnout nada mais é do que um quadro de estresse, que, sem resolução por um longo período de tempo, tornou-se crônico. Para entender o que é burnout, então, é preciso compreender primeiro o que é estresse. “O estresse é qualquer situação que requer uma adaptação, seja ela positiva ou negativa. 

Uma promoção no trabalho ou o nascimento de um filho são situações que causam estresse, mas, em geral, são positivas. Uma demissão requer adaptação, e é negativa”, explica Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR). Ou seja: o estresse requer esforço para nos adaptarmos a novas condições do ambiente, sejam elas boas ou ruins. Por isso o burnout não pode ser considerado uma doença. Trata-se de um quadro de estresse permanente. Se o ambiente sempre exige que tenhamos que abrir mão de algo ou gastar energia para resolver algum impasse, ficamos inevitavelmente esgotados. 

Repita isso diariamente por seis meses, mais ou menos, e você terá um quadro crônico – o burnout. A confusão sobre burnout ser ou não uma doença acontece porque sabemos que há toda uma sorte de  problemas de saúde causados pelo estresse: fadiga, dores no corpo, doenças cardiovasculares, depressão. Por isso, o burnout não costuma vir sozinho. E a confusão continua quando os tratamentos para o estresse crônico focam em mitigar os sintomas, não as causas (mais sobre isso já já).

As três faces do burnout “Estresse crônico”, cá entre nós, é um termo amplo demais. Felizmente, a definição não para por aí. O burnout, segundo a professora Maslach e a OMS, sempre apresenta três dimensões: a exaustão, o cinismo e a redução da eficácia profissional. Vamos entender cada uma delas.

A exaustão é, sem dúvida, a característica mais marcante do burnout, a ponto de os dois terem virado quase sinônimos na linguagem coloquial. Aqui, é importante frisar que o cansaço não é necessariamente físico, mas também pode ser mental (ou ambos, o que é mais comum). 

O cinismo é a segunda dimensão do burnout, menos lembrada. A expressão descreve a indiferença, o descaso, que o estressado crônico passa a sentir pelo trabalho. Com o tempo, o problema pode evoluir para um quadro de desprezo completo, até de ódio. O trabalho perde o sentido. E pode gerar repulsa.

Dentro dessa categoria também entra a característica da despersonalização – o trabalhador passa a tratar os colegas e clientes como objetos, não como pessoas. Essa faceta foi observada por Freudenberger nas primeiras descrições de burnout em sua equipe da clínica. 

Os profissionais de saúde começavam a tratar seus pacientes com desdém. Não à toa, as primeiras pesquisas sobre o fenômeno focaram em pessoas que têm ocupações “relacionais” (enfermeiros, professores). É mais simples, afinal, detectar a “despersonalização” nesses casos, em que a essência do dia a dia é lidar com gente.

A terceira e última face do burnout é a redução da eficácia no trabalho. Isso significa que necessariamente um trabalhador com burnout tem sua produtividade afetada. É diferente de um profissional que trabalha até a exaustão, mas é capaz de cumprir tudo de forma satisfatória. E deixa claro que as empresas não têm como fechar os olhos: o burnout é, por definição, ruim para elas também.

Na definição científica, um diagnóstico de Síndrome de Burnout só vai existir se forem detectadas as três características. Dados que se baseiam na autoi￾dentificação do problema – como os 77% citados no começo desta reportagem – provavelmente estão inflados. O próprio termo “burnout”, no sentido de “esgotamento”, remete a cansaço puro. Mas, como a gente viu, é bem pior do que isso. 

As pesquisas mais recentes estimam que cerca de 15% da força de trabalho se encaixa na definição de burnout atualmente. Mas tem um porém. As mesmas pesquisas apontam que apenas 30% das pessoas estão na categoria “engajado” – o perfil ideal de trabalho, que não apresenta nem exaustão, nem cinismo e nem eficácia reduzida.

Isso deixa 55% num limbo. São os profissionais que não estão passando por um burnout, porque não cumprem os três quesitos. Mas tampouco estão bem: apresentam pelo menos uma das facetas da síndrome.

Mais recentemente, a ciência propôs uma nova classificação para incluir toda essa gente. Quem apresenta uma alta exaustão, mas não cinismo ou ineficácia, se encaixa na categoria “sobrecarregado”. 

Alto cinismo caracteriza um perfil “desengajado”, enquanto o sujeito “ineficaz”, como o nome deixa claro, é o de baixa produtividade (seja pela razão que for).

A psicologia ainda não tem um nome para quem apresenta duas das três facetas do fenômeno ao mesmo tempo, embora dê para chamar um quadro assim de “pré-burnout”. Afinal, é difícil permanecer exausto e desprezando o trabalho, por exemplo, sem que isso eventualmente não se traduza numa eficácia diminuída. 

Inimigo à vista

Identificou-se com as três características do burnout? Calma: nada de sair se autodiagnosticando. Para identificar se há mesmo um caso de burnout, é preciso medir a intensidade dos sintomas. E não é simples quantificar algo abstrato, como a parte do cinismo. Mesmo o grau de exaustão não é algo facilmente calculável. 

Christina Maslach pensou nisso quando descreveu a síndrome. Ela criou um protocolo para a mensuração do burnout, o Maslach Burnout Inventory (MBI). Trata-se de um questionário cujo objetivo é identificar as três dimensões da síndrome. Você responde a cada pergunta indicando a intensidade deste ou daquele sentimento. No final, calcula-se uma pontuação. Se ela passar de um certo limite, indica um quadro de burnout.

O primeiro MBI foi desenvol￾vido no fim da década de 1970. Desde então ele vem sendo atualizado e adaptado para profissões específicas. Mas vale lembrar que ele não é uma ferramenta diagnóstica; o MBI foi desenvolvido mais para ser uma ferramenta de pesquisa de psicologia do que para uso em consultório. 

O protocolo pode até indicar que algo está errado, mas, do ponto de vista do indivíduo, a análise mesmo só pode ser feita por um profissional de saúde mental. Isso porque só dá para bater o martelo quando se identifica a fonte do problema - nosso próximo assunto.

Os seis vilões

Até agora, só vimos o que é o estresse crônico de trabalho – e não o que causa a síndrome. É verdade que isso varia de caso a caso. Mas a ciência já encontrou alguns padrões entre casos de burnout. A própria Maslach elencou o que chama de “seis fatores de risco” que elevam a chance de um quadro do tipo. Vamos a eles.

A primeira grande causa do burnout é a mais óbvia: o excesso de trabalho. Não é mimimi. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) calcula que jornadas exaustivas de trabalho contribuem para a morte de 2,8 milhões de pessoas por ano no mundo.

Exatamente por ser a vilã mais clássica, a carga de trabalho excessiva acaba levando a culpa
quase sempre. Nisso, as soluções que empresas procuram contra o burnout costumam se concentrar nessa seara: dias de folga após um período de muita demanda, pausas para mindfulness no meio do expediente, flexibilidade no horário.

Nenhuma dessas medidas é ruim – pelo contrário. Mas não vão resolver todos os problemas. O trabalho em demasia é só uma das possíveis causas de um quadro de burnout; há outras, menos triviais. 

O burnout também pode estar ligado à falta de conexão entre o profissional e o ambiente de trabalho. Se as relações no escritório são quase inexistentes – ou pior, tóxicas –, a síndrome pode aparecer mesmo sem longas horas de trabalho. 

Nesse quesito, entram questões como assédio, bullying e exclusão, que elevam o estresse e tornam a permanência no trabalho insustentável.

O sintoma que dá as caras primeiro nesses casos é o cinismo. O trabalho em si pode até não ser negativo, mas a distância social estraga a experiência. Logo a despersonalização começa a dar as caras – os colegas deixam de ser indivíduos, e se tornam “o chefe tirânico”, “o puxa-saco”, “a chata do RH”.

O terceiro fator de risco para engatilhar o burnout é a chamada “falta de recompensa”. Nesse caso, não é preciso ter horas e horas de trabalho acumuladas; basta a sensação de que o seu trabalho não vale nada para a empresa.

Quando falamos de recompensa, não falamos só em incentivos financeiros, mas também de formas mais subjetivas de reconhecimento, como elogios por parte de um gestor. Estudos sugerem que meros feedbacks positivos aumentam a eficiência de profissionais por dar um empurrãozinho na autoconfiança.¹

A quarta causa do burnout é parecida: o senso de injustiça. Aqui, um trabalhador pode ser prejudicado caso sinta não só que não está sendo reconhecido, mas que os incentivos estão indo para as pessoas erradas por conta do favoritismo dos gestores. É aquela história: ver um incompetente sendo promovido dói mais do que não ganhar uma promoção.

O quinto fator de risco para o burnout é a falta de controle sobre o próprio trabalho. Isto é: você não ter liberdade para fazer suas escolhas ou exercer sua criatividade. Sua função, nesses casos, é meramente reproduzir ordens de cima, sem chance de questioná-las. O gestor, em geral, mantém uma mão de ferro sobre os trabalhadores – algo às vezes 
chamado de microgerenciamento. Nesses casos, o trabalho se torna algo mecânico, repetitivo.

A sexta e última causa é o que Maslach chama de “incompatibilidade de valores” entre o colaborador e a empresa. Em outras palavras, é como se a pessoa sentisse que o trabalho não combina com ela. Pode ser por questões éticas quanto ao modelo de negócios da empresa, por exemplo, que causa um mal-estar na prática de trabalho. Ou porque o trabalhador se considera qualificado demais para a função que exerce. De uma forma ou de outra, você não sente prazer algum no que faz. Um convite para o burnout se instalar.

Nos detalhes

Desde que Maslach publicou sobre as causas do burnout, outros estudos vêm desvendando o fenômeno. Análises feitas em equipes de enfermeiros e professores sugerem que o burnout é contagioso. Isso significa que o problema pode começar isoladamente, em um setor da empresa ou um grupo específico de pessoas, e ele próprio ser o gatilho de um cenário de estresse para outras pessoas. Afinal, se a eficácia de alguém cai, outra pessoa provavelmente vai ficar sobrecarregada para a conta fechar, gerando uma espécie de efeito dominó do estresse.²

Outras pesquisas indicam que até o fator da exaustão pode ser mais complexo. Mesmo trabalhadores com uma jornada padrão e com uma carga considerada ok estão sob risco de desenvolver a síndrome caso não consigam se desconectar do trabalho. Não dá para realmente descansar se é preciso ficar atento ao WhatsApp às dez da noite ou se, nos 
fins de semana, você pode receber uma ligação do chefe a qualquer momento. Seu motor não desliga - aí uma hora a gasolina acaba.

A ciência também começa a desvendar se alguns perfis psicológicos são mais suscetíveis a ceder às pressões ambientais e desenvolver um quadro de burnout. Até agora, a introversão se mostrou um fator de risco.³ Uma hipótese é que introvertidos tendem a esconder mais as críticas e reclamações e acabam internalizando o estresse, até ele se tornar crônico.

Condições precárias também podem transformar uma rotina de trabalho equilibrada em um inferno interminável. Não precisa de muito: um computador que trava a toda hora, um escritório sem ventilação ou uma internet lenta bastam.

Esse problema ficou evidente na pandemia, quando, de repente, quase todo mundo foi forçado a se adaptar para um home office improvisado. Nem todas empresas se empenharam em fornecer as condições necessárias para a transição – computadores, internet, cadeira etc. 

A pandemia, aliás, foi um ponto de virada sem precedentes para a saúde mental. Especialistas já consideram que as consequências da pandemia no bem-estar serão “a próxima pandemia”. Motivo: todo mundo começou a trabalhar mais. Dados da NordVPN, que fornece redes privadas para home office para empresas de diversos países, mostram que o tempo de conexão com o trabalho aumentou em duas horas por dia. Mas a verdade é que mesmo antes da pandemia parecia que todo mundo estava queimando aos poucos. Será que estamos vivendo uma “era do burnout”?

A geração do burnout

Em 2021, uma média de quatro milhões de americanos pediu demissão voluntariamente todos os meses nos EUA. O fenômeno foi tão atípico que ganhou nome: Great Resignation, ou A Grande Resignação. Está acontecendo no Brasil também. Meio milhão de brasileiros pedem demissão a cada mês – um ritmo nunca antes visto.

Numa pesquisa feita nos EUA com gente que pediu demissão recentemente, o burnout aparece como o principal motivo para a decisão, citado por 40%. Sim, autodiagnósticos não servem para grande coisa. Mas, se quase metade citou a síndrome, feliz é 
que não estava. 

Também não significa que pedir as contas seja um passaporte para a alegria, claro. Ao trocar um trabalho fixo por uma vida de autônomo você deixa de ter um chefe, e passa a ter vários, os seus clientes. Problemas que antes dava para dividir com a equipe passam a ser exclusivamente seus. Férias? Esquece. Ou seja: em muitos casos, troca-se uma situação estressante por outra ainda pior. Seis por uma dúzia, não por meia. 

Tem um detalhe. O fenômeno do burnout parece ter um componente geracional. Segundo uma pesquisa da Gallup, que ouviu quase 7,5 mil trabalhadores americanos, 28% dos Millennials (nascidos entre 1981 e 1996) relatam sentir burnout frequentemente, contra 21% das gerações mais velhas. Um outro estudo, da empresa americana de seguros Metlife, descobriu que 42% dos Millennials que ocupam o cargo de gerência relatam cansaço e estresse ligados ao trabalho, enquanto o mesmo só acontece com 27% dos gerentes da Geração X (1965-1980) e 21% dos gerentes Baby Boomers 
(1946- 1964). 

A ideia de que os Millennials são a “geração do burnout” não é um consenso. Afinal, os fatores estressantes sempre existiriam. Talvez o que explique a diferença é o fato de que os jovens falem mais sobre o assunto e busquem ajuda com mais frequência, em vez de enterrar os problemas do dia sob um six pack de cerveja no final do expediente. Isso não é uma ilação vazia. O Instituto Nacional de Abuso de Drogas, dos EUA, detectou o seguinte: em 1980, a taxa de jovens de 18 anos sujeitos a expedientes ainda mais exaustivos, já que muitas vezes contam com mais de um “emprego” para fechar as contas. 

No Google, em 2019, o número de funcionários terceirizados ou com contrato temporário (121 mil) superava o de colaboradores efetivos (102 mil). 

Outra tese no livro de Petersen, mais abstrata, discorre sobre uma mudança no próprio conceito de “trabalho” entre uma geração e outra. Os pais dos Millennials chegavam ao mercado de trabalho com a missão de construir uma vida financeira estável e progredir na carreira. Já os mais jovens foram catequizados a “seguir seus sonhos” até o fim, a buscar no trabalho um significado maior para suas vidas. “A única maneira de fazer um grande trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou o que é isso, continue procurando. Não aceite nada menos”, resumiu Steve Jobs, um desses catequizadores, num célebre discurso na Universidade Stanford, em 2005.

Lindo. O problema é que isso pode ser uma armadilha. Um trabalho ideal, como vimos, exige uma rotina suportável, recompensas constantes e justas, relações saudáveis com os colegas… 

Quando a linha entre o que é trabalho e o que é paixão se cruzam, o Millennial pode começar a aceitar condições questionáveis para seguir fazendo aquilo. E há empresas que fazem uso desse artífice para prender profissionais enquanto fecha os olhos para os problemas. 

Afinal, como você ousa questionar a carga de trabalho ou o salário se é isso que você ama fazer? Cadê sua devoção?

Por outro lado, a posição oficial da OMS deixou claro para o mundo que o burnout é um problema agudo. E a Grande Resignação veio para mostrar: as empresas que quiserem contar com os melhores talentos vão ter de oferecer condições melhores. Mas, se de fato estamos vivendo uma pandemia de burnout, livrar-se dela será uma tarefa complexa. Pandemias sanitárias duram alguns anos. Pandemias culturais atravessam gerações.

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1. Estudo “Well Done! Effects of Positive Feedback on Perceived Self-Efficacy, Flow and Performance 
in a Mental Arithmetic Task”, de 2020;
2. Estudos “Perceived collective burnout: a multilevel explanation of burnout” e “Burnout contagion among intensive care nurses”;
3. Estudo “General self-efficacy modifies the effect of stress on burnout in 
nurses with different personality types”, de 2018.

Contribuíram: Edwiges Parra, psicóloga organizacional especialista em recursos humanos; Juliana Nunes Moreira, doutora em psicologia da saúde pela Universidade de Lausanne (Suíça) e especialista em Síndrome de Burnout; Carol Milters, autora de “Minhas Páginas Matinais: Crônicas da Síndrome de Burnout” e idealizadora da Semana Mundial da conscientização da Síndrome de  Burnout.
 

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

TEMPOS ALHURES: A BENZEDEIRA E A GARRAFADA DE ERVAS



Pois não é que o netinho de seu Zé Gusmão, vizinho de Dona Severina de compadre Afonso, amanheceu com o bucho inchado e com muita febre?! Só pode ser mal olhado! É a inveja dessa gente que tem parte com o cão! Rumbora levar ele para comadre Luzia! 

A porta, daquelas que é dividida em duas partes: a de baixo, é fechada no ferrolho e a de cima é aberta para entrar um ventinho nessas tardes quentes do Jeremias, um bairro antigo de Campina Grande na Paraíba. No recanto da sala, a imagem de Santo Expedito, em cima de um tamborete, ornado com um pé de "comigo-ninguém-pode e umas flores amarelas. 

A sala modesta, ostentava na velha parede pintada de verde abacate, em tom desgastado, uns cinco ou seis quadros de tamanhos variados, tendo ao centro, o de um casal, pintado com a gravura de dona Luzia e o falecido. Ela de vestido de chita, de babado e laços, e ele de paletó, parecendo um crente. Acima desse, reinava majestoso o quadro de Nosso Senhor Jesus Cristo, aquele que tem um coração ferido e uns raios em volta. 

O sofá pequeno, coberto com uma manta de retalhos variados e mais duas cadeiras juntamente com a cortina branca e fina, de estampa de flores formavam o todo da sala, sem esquecer do rádio Canarinho num cantinho perto dos quadros. 

Lá de dentro vem dona Luzia, sofrida pelo tempo, com aquela dor no espinhaço que responde nos quartos, de semblante marcado pelos nítidos sinais rugosos, um olhar cansado das lidas. Após averiguar a situação e examinar mais acuradamente o barriga inchada do menino, ela pega um galho de pé de arruda, colhido do próprio quintal, e começa sua reza, benzendo a criança. Ao final, prescreve uma garrafada de ervas e diz que a mãe venha buscar em dois dias, que é tempo que ela leva para preparar.

Garrafada para vermes: 1 garrafa de vinho branco + 9 dentes de alho + 1 colher (sopa) da erva de santa maria + 1 colher (sopa) de hortelã + 1 colher (sopa) da flor de mamão macho + 40 sementes de limão, secas e amassadas. Cozinhar por 8 dias, mexendo diariamente, depois coar e tomar em jejum por 3 dias. Pronto.

Um semana depois, o menino está completamente curado e, o que é melhor, imunizado contra o mal olhado e a inveja, graças à reza de dona Luzia. 

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segunda-feira, 7 de outubro de 2024

FOI ASSIM A ESCALADA DO 1º TURNO DA CAMPANHA ELEITORAL DE CAMPINA GRANDE-PB

Campina Grande, Paraíba, uma das mais expressivas cidades do interior do Nordeste, tem no período eleitoral um motivo a mais para movimentar o espírito popular fazendo do momento político uma verdadeira efervescência que contagia até mesmo quem jurou de pés juntos, durante o tempo anterior, que odiava políticos, esse sim, é aquele que vai dançando embriagado na frente da passeata puxada pelo paredão.

Esse fenômeno não é recente. Desde os tempos mais longínquos, Campina é assim, provocativa, atrevida, debochada, desafiadora, sobretudo, vencedora nos embates mais renhidos de sua história. Dos velhos comícios de Elpídio de Almeida, Severino Cabral, Enivaldo Ribeiro, Ronaldo Cunha Lima, até os nossos tempos, tempos de Bruno Cunha Lima, neto do doutor Ivandro Cunha Lima, tem sido assim.

Nesse pleito de 2024, ficou evidenciado por parte do arco das oposições um atraso na definição de um nome e das estratégias de conquista do eleitorado em razão da relutância do ex-prefeito, atual deputado federal, Romero Rodrigues em definir seu apoio. As vertentes oposicionistas em suspense, levaram alguns mais próximos como o ex-deputado estadual de pífia expressão política, irmão de Romero, Moacir Rodrigues, assim como o primo, ex-vereador Márcio Melo Rodrigues, ambos beneficiados pelo governo do estado, a afirmarem a certa altura do clímax das expectativas que Romero Rodrigues já havia se posicionado, iria ficar com a oposição à Bruno. Chegou-se até mesmo a delimitar o dia em que Romero faria uma declaração pública. 

O tempo passou e as expectativas naufragaram deixando os principais líderes da oposição em polvorosa. Governador João, que dantes já havia dada a questão como resolvida, voltou atrás ao ponto de dizer que não esperava mais por Romero. O presidente da Assembleia Legislativa, Adriano Galdino, tendo o irmão deputado federal Murilo Galdino como principal articulador, tendo como certa a vinda de Romero e depois caindo numa profunda desilusão, afirmou em entrevista à impressão paraibana que Romero não teve um comportamento político coerente, e que sua indecisão não era coisa de homem público.

Enquanto  os oposicionistas vendo os prazos das deliberações partidárias sendo finalizados, e até seguidores de Romero, uns eloquentes "anti Bruno" que puxavam o coro para uma possível candidatura de Romero contra Bruno, ficaram boquiabertos ao se depararem com a resolução definitiva de Romero em apoiar e se engajar na reeleição de Bruno Cunha Lima. 

A campanha começou e os apoiadores foram às ruas, às casas, e as diversas manifestações acompanhando o candidato atual prefeito. As equipes de mostraram aguerridas e os ajuntamentos foram ganhando corpo, multidões eram vistas pelos bairros e distritos de Campina e a onda amarela mostrou força vibrante no semblante de cada apoiador. 

O candidato Bruno tem alguns pontos que vão de encontro à lógica da prática política que ainda está bastante forte na maioria dos estados do Brasil, principalmente no Nordeste. A disputa política desleal, a compra de votos desenfreada que dribla em todos os pleitos as autoridades, com caminhões carregados de cestas básicas transitando nas madrugadas, envelopes de santinhos com quantias de dinheiros, essa prática Bruno além de não aprovar não consente seus apoiadores que o faça. 

Mas do outro lado, da turma que quer ganhar custe o que custar, vem com tudo, e os resultados estão aí. A apresentação de um forasteiro que já chegou mentindo, com o nome citado em processos judiciais envolvendo atos ilícitos com o dinheiro público aplicado na saúde, diferente daqueles "leais forasteiros" que fizeram o nome de Campina Grande crescer. Esse foi o nome que João Azevedo viu-se forçado a apresentar como candidato a prefeito de Campina. 

Chegou enfim o dia da eleição, e ao contabilizar os votos para prefeito e vereadores formou-se o o quadro abaixo. Bruno venceu o primeiro turno, e o candidato do governo projetou-se em segundo lugar. Bruno saiu vitorioso também na composição da maioria na Câmara Municipal de Campina Grande, restando reiniciar a campanha rumo ao segundo turno destas eleições. 








E COMO FOI O SEGUNDO TURNO?



Foi assim, sabe... Pelo que ficou muito bem evidenciado nas ruas, não foi uma campanha contra "o candidato Johny e a federação das oposições de Campina", foi precisamente a campanha de João Azevedo e o poder do estado em peso contra Bruno Cunha Lima. O abuso do poder econômico só não foi visualizado pela Justiça Eleitoral que nunca adentrou pelas madrugadas em bairros como o Pedregal, Catingueira, Jeremias e outros mais distantes para assistir o congestionamento de carros de todos os tipos carregados até o limite com cestas básicas com material eleitoral distribuindo a gente que já esperava (conforme a tradição do período) pelas esquinas das ruas.

Era possível identificar gente de João Pessoa e outros municípios convocados para engrossar a "presença" nas carreatas e mobilizações do candidato de João. O agravante era que, quanto mais se aproximava a reta final da campanha, tanto mais se registravam atos de violências contra as pessoas. Gente ensandecida da campanha de João Azevedo interceptavam carros e qualquer um que estivesse pelo caminho e agrediam verbalmente e fisicamente. 


Nos debates pela TV, o candidato de João, assim como os demais, estavam cada vez mais emudecidos, e sem argumentos chaves. Orientado por marqueteiros como o radialista Fabiano Gomes, que já esteve preso por implicações com a justiça envolvendo atos de corrupção em Cabedelo-PB, e que antes mesmo das eleições já ovacionava (mentindo descaradamente!) o candidato de João afirmando em seu programa pela manhã que "andou de Uber em Campina e pelos diversos lugares que visitou, ouviu a uma só foz que Johny era conhecido e capaz o suficiente para derrotar Bruno nas urnas", demonstrou ter gasto todos os seus cartuchos. Esgotado e sem ter como alimentar seu representado de ideias concretas e projetos viáveis, esbarrou no subterrâneo das estratégias baixas.

Sozinho na alma, desprovido de quaisquer condições postulatórias, o pobre Johny ficou pequeno, aliás, para ser mais exato, pequeníssimo, nos debates, errando número de ônibus circular em Campina, errando até a porta de saída dos estúdios, uma vergonha para o seu mestre, João, que, certamente, fingia não ver, de longe onde preferia ficar acompanhando, mas com aquela tara insaciável de ter Campina a todo custo.

E não é que o governador quase que acertava, que Campina ia ter virada! Quase, por pouco, não deu 40! Quarenta Mil Votos de Diferença para Bruno!


A federação do 40 realmente conseguiu produzir ares de temor na véspera do pleito eleitoral. De tanto oferecer benesses, arregimentando um verdadeiro exército de gente que vendia o espaço de veículos e casas para adesivar, que recebiam cestas básicas, ordem de gasolina etc., fazendo a cidade, de repente, aumentar em visualização da cor do 40, parecia que a profecia de João iria se cumprir. Só que não. 

O povo, em sua maioria, recebeu prazeroso as cestas, o dinheiro da boca de urna, a chapa de dentes, óculos, material de construção e tudo mais, mas no dia da votação, converteram todas as manifestações para o amarelo de Bruno, e a contagem de votos atingiu uma proporção a tal modo que, rancorosos mercenários da imprensa paraibana, nódoas personificadas que envergonham os verdadeiros e honrados profissionais da comunicação, tiveram que a contragosto balbuciar que a causa estava perdida, e que Bruno já estava matematicamente reeleito, não importando a abertura das urnas que faltavam. 







terça-feira, 29 de março de 2022

RATINHO GUNÇO DO JEREMIAS



Uma geração inteira cresceu convivendo com as rotinas de um personagem caricato do Bairro do Jeremias*, era Ratinho, conhecido também como Gunço. 

Ele cresceu alí desde cedo, andarilho. Pegava a lotação da Viação Cabral e ficava para cima e para baixo sem sossegar o facho em casa. Mas se tinha alguma coisa que conseguia prender a atenção daquele rapazinho que nasceu com síndrome de Down, com acentuada feição do mongolismo, era uma campanha política. 

Conhecido dos principais atores políticos de Campina Grande, ele tinha acesso livre em todo comício que se fizesse no Jeremias ou redondeza. Furava qualquer ajuntamento onde a organização tentasse impedir o acesso.

O dom da elocução estava nele. Era comum vê-lo transitar nas ruas do bairro fazendo longos discursos à sua maneira. Segurando um microfone invisível e com impostação de voz, saia gritando frases de efeitos próprias dos políticos. 

E os próprios políticos davam cabimento, e assim, um, dois ou três minutos que lhe passavam o microfone, diante da multidão que acompanhava o comício em palanques montados em caminhão, eram suficientes para acalentar, mesmo que pouco tempo, aquele sonho tão ensaiado por Gunço.

A imagem que utilizamos nessa postagem foi, na verdade, um "santinho" que circulou nas eleições de 1988: "Ruim por ruim - Vote em mim. Ratinho 88." Iniciativa de Marconi da gráfica. 

Essa provocação foi suficiente para Ratinho se trajar com um paletó que precisava de alguns ajustes pelo tamanho exagerado, e a gravata distonante com o arranjo todo, e sair por quase Campina inteira, fazendo longos discursos e incorporar a figura de um político em plena campanha eleitoral.

Muita gente ficava se perguntando se aquilo era verdade, se ele realmente estava registrado como um candidato. A brincadeira durou apenas o tempo da Justiça Eleitoral chamar o feito à ordem, e acabar com aquela brincadeira.

Com o passar do tempo, Ratinho, o Gunço do Jeremias, ficou íntimo dos principais personagens políticos da cidade. Transitava livremente pela casa de Ronaldo Cunha Lima, com outros políticos ia para veraneios e assim por diante. 

Almas caridosas ligadas a essas famílias de políticos cuidaram de outros males de Ratinho, gastando com tratamentos clínicos que tornaram a vida de Gunço menos sofrida. 

Apesar disso, era possível vê-lo sempre fumando, às vezes, bêbado, e houve tempo também que ele até entrou para a lei do crentes, andando arrumado, com gravata e bíblia na mão, depois saiu da igreja e, num compasso menos agitado, talvez pela idade, segue sua vida pelas ruas do Bairro do Jeremias. 

João Batista Nunes

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Um dos mais antigos bairros populares de Campina Grande, Estado da Paraíba, Nordeste do Brasil.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A MENTE EM TERMOS DE ID, EGO E SUPEREGO




Imagine um terreno que seja preciso dimensionar seu espaço para ter um detalhamento, a partir do qual o conhecimento mais pormenorizado seja possível. Topografia, delimitação dos espaços é uma das principais tarefas do agrimensor, o profissional habilitado para medir e estabelecer limites das terras.

Os estudos do médico austríaco Sigmund Freud (1856-1959), fundador da psicanálise, análise profunda da psique, apresentaram uma estrutura topográfica da mente.

Topograficamente, a psicanálise considera o aparelho mental como um instrumento composto, esforçando-se por determinar em quais pontos dele ocorrem os vários processos mentais.

De acordo com os pontos de vista psicanalíticos mais recentes, o aparelho mental compõe-se de um ‘id‘, que é o repositório dos impulsos instintuais, de um ‘ego‘, que é a parte mais superficial do id e aquela que foi modificada pela influência do mundo externo, e de um ‘superego‘, que se desenvolve do id, domina-o e representa as inibições do instinto que são características do homem.

As três polaridades da mente estão ligadas umas às outras de várias maneiras altamente significativas. Existe uma situação psíquica primordial na qual duas delas coincidem. Originalmente, no próprio começo da vida mental, o ego é catexizado com os instintos, sendo, até certo ponto, capaz de satisfazê-los em si mesmo. Denominamos essa condição de ‘narcisismo’, e essa forma de obter satisfação, de ‘auto-erótica’.

Nessa ocasião, o mundo externo não é catexizado com interesse (num sentido geral), sendo indiferente aos propósitos de satisfação. Durante esse período, portanto, o sujeito do ego coincide com o que é agradável, e o mundo externo, com o que é indiferente (ou possivelmente desagradável, como sendo uma fonte de estimulação).

Em comparação, proposta por Freud, o cavaleiro, o ego, não está apenas (pode-se dizer) furiosamente empenhado em manter as rédeas de seu cavalo teimoso, o id, como ainda é forçado, ao mesmo tempo, a lutar com uma nuvem de abelhas bravas, o superego, enxameando sobre ele. 

Mas, essa é uma discussão que vem rendendo desde Freud, muitos aprofundamentos que demonstram o universo de estímulos, impulsos, instintos que fazem parte do funcionamento mental de cada um de nós, negados ou aceitos, reconhecidos ou ignorados, eles estão lá num conflito constante por espaços que molda a nossa realidade psicossocial. 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O SEBO DE TOINHO NA PRAÇA CLEMENTINO PROCÓPIO



Eu costumava atravessar, geralmente aos sábados pela manhã, a Praça Clementino Procópio em Campina Grande-PB, em direção ao Sebo (cata-livros) do Toinho. Dificilmente encontrava o recinto sem pessoas a procura de algum título. Trata-se de um espaço pequeno, repleto de livros, revistas, gibis, módulos didáticos de Português, Matemática, Ciência, Biologia, Literaturas, Livretos de Cordéis, Revistas científicas e de circulação nacional como a Veja, IstoÉ, Você S.A, Placar enfim.... Tem até antigos exemplares da Manchete e Tititi e das antigas novelas em fotografia preto e branco, Fitas K7, Disco de Vinil, escondidos debaixo das prateleiras alguns CD's, DVDs de artistas diversos e filmes antigos.

Toinho, o proprietário do Sebo, era um homem esguio, estatura mediana, de cor parda, e aparentava ter uns 51 a 55 anos. Seu veículo era uma já desgastada bicicleta Caloy que ninguém sabia mais qual teria sido a cor de tanta ferrugem. Ouvi seu funcionário, Lira, dizer certa vez que Toinho era Testemunha de Jeová. 

Foi ali que eu aprendi a apreciar as melhores leituras. Nem sempre com dinheiro suficiente para comprar todo o exemplar que meus olhos identificavam entre tantos e tantos títulos. Dos módulos da editora Globo de Espanhol e Francês a enciclopédia de psicologia e psicanálise (semi-nova) quando nem imaginava que o futuro iria me reservar cursar no Centro de Ciência Biológicas e da Saúde - CCBS/UEPB, o curso de Psicologia.

É claro que eu, ao presenciar várias negociações de Toinho com os clientes, percebendo a variação de preços sem muito critério, optava por ser atendido por Lira, o rapaz que era jogador do Galícia do Bairro do Monte Santo. A estratégia era a seguinte: passava o olhar nos títulos, e quando me deparava com novidades, com o que me interessava, reservava num lugar a parte e perguntava a Lira qual o preço de obras que não me interessava. 

Depois de um tempo, perguntava qual era o preço das obras que de fato me interessavam, isto sem demonstrar que por aqueles exemplares estaria disposto a pagar um pouco mais. Lira quase sempre avaliava por um preço que me deixava satisfeito. 

O sebo é um lugar de se informar coisas além. Além das obras ali expostas, um bom e seletivo ouvinte podia se inteirar sobre os assuntos que se processavam nos bastidores da política de subterrâneo, as coisas miúdas do cotidiano, o homem traído e o fato pormenorizado sobre uma gama variada de assuntos, o time do peito e tantos outros temas.

Quando trabalhava em Brasília, vim incumbido de fazer uma pesquisa minuciosa em jornais que circulavam na cidade (Diário da Borborema, Jornal da Paraíba e Correio da Paraíba) para juntar em Campina, conteúdos a partir de registros jornalísticos; e em João Pessoa, registros de mídias, qualquer coisa que se constituísse prova para ser juntada ao processo que tramitava no Tribunal Superior  Eleitoral (TSE) e depois no Supremo Tribunal Federal (STF).

Tratava-se do processo que culminou com a cassação - única da história política do Brasil - por infidelidade partidária de um deputado federal de Campina Grande, que assumiu o mandato na condição de suplente (PFL)* na vaga deixada pelo deputado Ronaldo Cunha Lima (PSDB) que abdicou do cargo. 

Pois bem, quando desembarquei em Campina naquela madrugada nebulosa, que o avião teve que arremeter para dar uma enorme volta no céu chuvoso da Rainha da Borborema, mal dormir, tendo que cedo esperar Toinho vir abrir o estabelecimento para começar a extensa pesquisa ali no interior da Praça Clementino Procópio.

Esgotadas as buscas por algum material pertinente... Toinho disse que em sua casa poderia encontra algum subsídio. Marquei com ele, e ao chegar me deparei com pilhas e pilhas de livros e jornais. Retomei a pesquisa e identifiquei algumas matérias e recortes jornalísticos que estava procurando.

Paguei o que lhe era devido e fui por João Pessoa seguindo a missão. 

Tempos se passaram. Já morando na Capital paraibana, volta e meia estava em Campina, mas dificilmente deixava de comparecer ao Sebo do Toinho para ver se me deparava com alguma obra importante, não sabendo, a princípio, qual exatamente. Uma gramática de latim da época gynasial, quem sabe. 

A vida corrida, no entanto, fez-me afastar por uns 90 dias desse espaço tão rico e ao mesmo tempo singelo. 

Quando resolvo aparecer por lá, recebo a triste notícia por boca de Lira que Toinho infelizmente havia sofrido um trágico acidente em sua casa vindo a falecer. Imaginem só, como dizia mamãe: "para morrer, basta estar vivo!" 

"Uma enorme viga de madeira do telhado da casa de Toinho se desprendeu" - disse Lira, muito triste com o ocorrido - , e atingiu fatalmente a cabeça do homem. Não resistindo a perda de sangue, foi a óbito no local. 

Novamente, depois de um lapso de tempo, tempo curto obviamente, cheguei no cata-livros do Toinho mais um colega e sentada num tamborete havia uma senhora aparentando uns 50,60 anos, cabisbaixa folheando uma revista. Ela ergueu os olhos para os dois estranhos a sua frente, quando lhe perguntei sobre Lira, o rapaz que ficou responsável pelo estabelecimento do finado Toinho.

Uma voz fraca, meio incompreensível balbuciou: "m-o-rreu!"

"-Sim, eu sei que Toinho morreu, refiro-me a Lira, o rapaz que toma conta daqui!" - Tentei clarear a situação.

"Morreu, também." Explicou-nos as circunstancias de sua morte. Estava retornando para casa no bairro do Monte Santo, conduzindo uma carroça de mão carregada de livros e revistas, rua ingrime, enladeirada, conseguiu subir até seu quarto adentrando já com dificuldades respiratórias e dores no peito. No momento de intensa aflição chamou agonizante por sua irmã e caiu perto da janela já sem vida. Foi uma parada cardiorrespiratória. Foi-se o jovem que era, inclusive, jogador de futebol de pelada. Seu enterro deu-se sob a bandeira do Time do Galícia, do qual fazia parte.

O Sebo (cata-livro) permanece lá em funcionamento, conduzido por quem não sei. Nunca mais retornei para conferir.  


João Batista Nunes é formado em psicologia, pós-graduando em GRH e acadêmico de Direito. joaobnunespb@hotmail.com

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*PFL - Partido da Frente Liberal que passou a ser DEM-Democratas, que na Paraíba é presidido pelo ex senador Efraim Morais.

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