Mostrando postagens com marcador Cultura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cultura. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

TEMPOS ALHURES: A BENZEDEIRA E A GARRAFADA DE ERVAS



Pois não é que o netinho de seu Zé Gusmão, vizinho de Dona Severina de compadre Afonso, amanheceu com o bucho inchado e com muita febre?! Só pode ser mal olhado! É a inveja dessa gente que tem parte com o cão! Rumbora levar ele para comadre Luzia! 

A porta, daquelas que é dividida em duas partes: a de baixo, é fechada no ferrolho e a de cima é aberta para entrar um ventinho nessas tardes quentes do Jeremias, um bairro antigo de Campina Grande na Paraíba. No recanto da sala, a imagem de Santo Expedito, em cima de um tamborete, ornado com um pé de "comigo-ninguém-pode e umas flores amarelas. 

A sala modesta, ostentava na velha parede pintada de verde abacate, em tom desgastado, uns cinco ou seis quadros de tamanhos variados, tendo ao centro, o de um casal, pintado com a gravura de dona Luzia e o falecido. Ela de vestido de chita, de babado e laços, e ele de paletó, parecendo um crente. Acima desse, reinava majestoso o quadro de Nosso Senhor Jesus Cristo, aquele que tem um coração ferido e uns raios em volta. 

O sofá pequeno, coberto com uma manta de retalhos variados e mais duas cadeiras juntamente com a cortina branca e fina, de estampa de flores formavam o todo da sala, sem esquecer do rádio Canarinho num cantinho perto dos quadros. 

Lá de dentro vem dona Luzia, sofrida pelo tempo, com aquela dor no espinhaço que responde nos quartos, de semblante marcado pelos nítidos sinais rugosos, um olhar cansado das lidas. Após averiguar a situação e examinar mais acuradamente o barriga inchada do menino, ela pega um galho de pé de arruda, colhido do próprio quintal, e começa sua reza, benzendo a criança. Ao final, prescreve uma garrafada de ervas e diz que a mãe venha buscar em dois dias, que é tempo que ela leva para preparar.

Garrafada para vermes: 1 garrafa de vinho branco + 9 dentes de alho + 1 colher (sopa) da erva de santa maria + 1 colher (sopa) de hortelã + 1 colher (sopa) da flor de mamão macho + 40 sementes de limão, secas e amassadas. Cozinhar por 8 dias, mexendo diariamente, depois coar e tomar em jejum por 3 dias. Pronto.

Um semana depois, o menino está completamente curado e, o que é melhor, imunizado contra o mal olhado e a inveja, graças à reza de dona Luzia. 

_______________________

Leia Mais...

Vitrine Profissional: A MEMÓRIA SOCIAL DAS MARIAS LAVADEIRAS E ENGOMADEIRAS DO JEREMIAS

Vitrine Profissional: A DIFUSORA DE LAURA

Vitrine Profissional: O cego Zé Maurício

quarta-feira, 17 de julho de 2019

A CHEGADA DO CIRCO NO JEREMIAS



O Bairro do Jeremias em Campina Grande possuía, à época, uma população de quase 11 mil habitantes, ruas íngremes, ladeiras esburacadas, paisagens monocromáticas, mães e meninos barrigudos a observar o acontecer de cada dia, a prestanista Dona Severina passando com suas bacias, panelas de pressão, jogos de lenções e penicos de plástico, tudo em suáveis prestações no cartão (literalmente um cartão róseo de papelão onde se notava a quitação das quinzenas), a carvoaria de Seu Pretim dava uma ideia que o tempo tinha se esquecido de passar naquela região da cidade. 

A missa dos domingos, as novenas, os cultos na igreja dos crentes, a difusora de Laura de Chico Venâncio e o jogo no campo do Galícia era o que se tinha como agenda familiar. Se bem, que em certos dias, o arrasta pé do forró da SAB (Sociedade de Amigos do Bairro) era o máximo. 
Mas aqui e acolá uma moça era desencaminhada por algum sujeito sem compromisso, o forró acabava com um corre-corre, o fi de Seu Chico Cangula enfiou a faca no buxo de um cabra que se estrebuchava no chão do salão. No final, não tinha quem dissesse quem foi ou quem não foi o autor do crime.

Para a molecada a coisa mudava de feição sempre que aparecia um parque de diversão com aquelas mesmas opções de sempre sendo que parecia ser uma novidade. Seu Jorge da Palmeira, pai de Miguel tinha um. Com tiro ao alvo, com chumbinhos que ninguém acertava, com o lança argolas com direito a vários brindes, o carrossel com os cavalinhos pintados de cores diferentes e a roda gigante que dava aquele friozão na barriga cada vez que parava no alto. Para quem ia prevenido no bolso, tinha a barraca da maçã do amor (aquelas caramelizadas), a barraca das roletas de cana, a barraca da batatinha frita, feita com aquele óleo reutilizado de tantas e tantas outras frituras, e o homem do carrinho de pipoca. 

Dava para se ver que poucas pessoas com seus filhos realmente usufruíam daquelas opções de lazer e entretenimento. Não importava, assim mesmo o parque se enchia de gente miúda achando o máximo simplesmente em estar transitando por aquele espaço tão colorido e iluminado por aquelas fios intercalando as lâmpadas que ao longe dava a ideia de um lugar aonde a diversão não teria fim. 

Ali era o lugar onde não apenas a gurizada deixava fruir alegrias como os próprios adultos, pais, mães e tios não se continham e a pretexto de acompanharem as crianças esbanjavam emoções há muito represadas.
Quando menos se dava fé, o parque já não estava lá, apenas o espaço vazio dentro daquela imagem que compunha a feirinha do bairro.

O bairro era outra vez sacudido com as trombetas difusoras da velha Chevrolet anunciadas, na voz do palhaço, que o Circo acabara de chegar para alegria de todas as crianças. Confeitos arremessados ao ar para o atropelo alvoraçado de um grupo de crianças que vinham correndo atrás do carro. eram o mote da chamada às atrações “inéditas” prometidas para a “grande estreia!!!”

Enquanto o palhaço no calor intenso da manhã ensolarada descia e subia as ladeiras do bairro, o fumaceiro do cano de escape de um motor já vencido pelo desgaste criava uma espécie de névoa tóxica que se misturava as cabeças da gurizada teimosa em seguir aquele carro.

O Circo era aquela estrutura mediana, coberta com uma lona amarela e azul, com algumas estrelas brancas espalhadas no alto. Rodeado por grades de ferro que davam para duas bilheterias borboletas giratórias, um ônibus onde se alojavam os artistas e demais trabalhadores, dois carros de pequeno porte, um caminhão já sofrido, e o espetacular ônibus da “Monga”, a mulher que se transformava em gorila. 

Tudo aquilo gerava uma atmosfera de mistério. A pintura do ônibus apresentava uma mulher mal desenhada, de biquíni, e perto dela a imagem de um gorila com ares de violenta ameaça. E um letreiro bem destacado: “Monga”, no espaço a baixo, em letras menores, a “Mulher Gorila.” 

Muita gente que não podia pagar o ingresso se assustava somente com os grunhidos emitidos naquele ônibus do medo. As crianças chegavam a ter pesadelos com aquelas imagens que se formavam na mente. No clímax do espetáculo, o Gorila que agora já não tinha mais nenhuma mínima expressão do humano que ainda pouca esboçava um rosto feminino, sacodia a grade que o separava do pequeno público e tentava se sair furioso em direção as pessoas, mais um ou dois sustos uma cortina preta de uma lado e do outro vermelha fechava a parte que separava os dois ambientes dentro do velho ônibus.

Na parte do picadeiro, dentro do circo propriamente, as brincadeiras de palhaços tomava conta. Eram números simplórios e repetitivos que arrancavam sorrisos e aplausos da plateia, geralmente com atuações de situações atrapalhadas, revides, deita e rola, performances de gesticulações e malabarismos davam o tom da parte inicial da noite de estreia. 

Depois vinha o mágico com seus truques mirabolantes, nada de mulher que era cerrada ou que desaparecia, nem coelho na cartola. Era tudo muito simples como retirar das mangas da camisa uma série de lenços coloridos, uma pequena exibição pirotécnica restrita ao espaço de uma pequena bancada, para fazer sumir um objeto e convidar alguém da plateia (já treinado para tal, sem ninguém saber, é claro!) e esse mesmo objeto aparecer em seu bolso.

O trapézio era um dos pontos máximos. Uma mulher de biquíni revestido com lantejoulas brilhantes executava algumas manobras que iam atingindo um grau de dificuldade e prendia os olhares da plateia nas piruetas que dava. Em sequencia, a corda bamba e a perícia de uma artista com seu bastão, indo e vindo encenando ao longo do trajeto algum movimento que desse a ideia de que iria cair naquele momento.

Não havia animais, como poderia ter pelo menos um leão aposentado daqueles que são vendidos dos circos de grande porte. No caso desses circos que vão de bairro a bairro, o custo de manutenção comprometeria a subsistência dos trabalhadores. Afinal, ser artista circense em dias como aqueles não era fácil nem rendia dinheiro. Os que se dão a promover o sorriso de uma plateia geralmente tende a percorrer um caminho de desafios permeado muitas vezes de tristezas e dissabores.

Nos últimos dias do circo no bairro, aquele mesmo carro passava chamando a população para a despedida do “grande circo” e por isso os ingressos custariam a metade do preço normal, ninguém podia faltar! Desta vez nem tinha o lançar dos bombons muito menos o alvoroço das crianças, apenas os gritos do anunciador.

As últimas noites eram lotadas, o que muitos não sabiam era que as apresentações também eram pela metade. Contudo, o prazer de viver um ambiente diferente de entretenimento para tantos expectadores valia a pena.

Por João B Nunes
Formado em psicologia e acadêmico de direito.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

PAULO DA CIDADE DE TARSO


Por volta de 750 do calendário Romano, nasceu Saulus[1]· (Sha’ul), em Tarso da Cicília. Era o primeiro século da era Cristã, pois nessa primeira década Jesus já havia nascido em Belém da Judeia. 
De acordo com Ball (2000), a província de Tarso abrangia 120 quilômetros de norte a sul, alongando-se do ocidente para o oriente da Panfília, “indo até as montanhas de Síria”. “Uma cidade não pouco magnífica” (Atos 21.29), já que na estrada ao sul, para Antioquia, ficava a passagem conhecida como Portão da Síria. Todo o trânsito das linhas comerciais ou se processavam pelo mar ou pelas rotas que convergiam pelas estradas montanhosas da Cicília, tendo Tarso como principal ponto, ou melhor, era a maior cidade do Império Romano na Cicília, numa perspectiva geoestratégica, política, cultural e comercial.
Os pais eram da Tribo de Benjamim (Rm 11.1), da classe dos Fariseus[2] (Fil 3.5) e habitavam em Tarso provavelmente em razão da diáspora[3] que espalhou judeus por todas as regiões do domínio romano. O nome Saulus parece ser uma homenagem ao primeiro rei de Israel dessa mesma tribo, Saul. Paulo do grego pavlos[4].
Percebe-se que, de acordo com os escritos neotestamentários Saulo passou a ser chamado apenas de Paulo a partir do capítulo 13:9 de Atos dos Apóstolos. Por ser da cidade de Tarso, era Judeu com cidadania romana. Houve situação em que ele soube muito bem explorar o direito romano em seu favor.
A educação de Paulo parece ter sido uma das mais notáveis, descrita por ele mesmo como a mais rígida (vivi fariseu como a seita mais severa da nossa religião, At. 26. 5). Além de ter absorvido a melhor fase da influência helenística, o jovem foi “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus”,  At. 22.3.  “[...] E, na minha nação, quanto ao judaísmo, avantajava-me a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais.” (Gl. 1.14). Preparado para conduzir-se “irrepreensível, segundo a justiça da lei” (Fil 3.6).
Gamaliel era o mais conceituado mestre da coletividade judaica, mais de uma linha moderadora (At. 5.33); da escola de Hileu. Esse mestre deve ter preparado Paulo para seguir uma visão de mundo mais aberta em comparação as demais vertentes mais rígidas e ortodoxas. Tão preparado a ponto de encontrarmos Paulo discutindo com os estoicos e epicureus. Além do hebraico, língua nativa, Paulo dominava o aramaico, o latim e o grego. Com essas ferramentas podia transitar em qualquer lugar do mundo de então, entendendo e fazendo-se entender[5].
Talvez Paulo tenha sido educado em Tarso até cumprir o bar-mistivá e na idade dos 12 anos tenha ido morar com familiares em Jerusalém onde passou a estudos mais intensivos da lei e das tradições de moshé (Moisés).
Em Jerusalém, suas aulas certamente intercalavam-se, dentre as notícias mais quentes, os alvoroços de multidões causados por um homem galileu, este, que segundo os crédulos, fazia sinais e milagres extraordinários; levando muitos a acreditar ser ele o Messias.
O notável saber do rapaz Paulo fê-lo se destacar na corte principal dos judeus, o Sinédrio, e, de acordo com os primeiros relatos dos Atos dos Apóstolos, já o vemos como uma espécie de juiz com investidura de autoridade para consentir na morte de Estevão, discípulo exatamente do galileu que, inclusive, já havia sido condenado a morte de cruz pelos Romanos, pela sentença de Poncio Pilatos.
Como um autêntico oficial do sinédrio, Paulo agora é descrito no capítulo 9 dos Atos se dirigindo ao sumo sacerdote para pedir-lhe novas investiduras contra os discípulos do galileu. O texto inicia com expressões fortes “Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos [...]”.
O plano era chegar à cidade da Damasco e empreender uma verdadeira caçada a qualquer que professasse fé nos ensinos do galileu. “Caso achasse alguns que eram do Caminho (assim era designado aquela sedição), assim homens, como mulheres, os levassem presos para Jerusalém”, versículo 2.
“Perseguir este Caminho até a morte, prendendo e metendo em cárcere homens e mulheres” (Atos 22. 4).
Naquele dia tudo parecia ser como antes. Um dia comum para diligências e apreensões de seguidores desse tal Caminho. Já estava tudo acertado entre as autoridades de Jerusalém. Paulo, devidamente guarnecido partiu para mais uma missão, estrada afora, rumo à Damasco.
Ao aproximar-se (At. 9.2-5) da cidade, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, tão forte que o fez cair por terra e nisso ouvir uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Paulo atordoado com toda essa situação, incomum, sobrenatural, sem enxergar absolutamente nada em volta de si, perguntou ante a voz inquiridora: “Quem és Senhor”? E em resposta ouviu a sentença: “Eu sou Jesus, a quem me persegues.”
Referência Bibliográfica
BALL, Charles Fergunson. A Vida e a Obra de Paulo. 3º edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2000.
Bíblia Sagrada. Versão ARC; e, NVI; LH. Sociedade Bíblica do Brasil, 2014.
Ramos, José Augusto. Paulo de Tarso – Grego e Romano, Judeu e Cristão. Centro de Estudos Clássicos. Universidade de Coimbra. Portugal: Humanitas Supplementum, 2010.
STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. São Paulo: Templus, 2008.




[1] Saulus era nome dado em homenagem ao primeiro rei de Israel, Saul.
[2] Fariseus: Pharisaios (grego), proveniente de uma palavra aramaica peras (encontrada em Dn 5.28), significando “separar”, devido a um diferente modo de vida em relação ao público geral.
[3] Diáspora significa ‘dispersão’. É termo que se relaciona à dispersão dos Judeus provocada pela rebelião de um certo Judah ben Hezekiah, em 4 a.C., de acordo com José Augusto Ramos et al in Paulo de Tarso, Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra, 2010.
[4] Pavlos (Grego) de acordo com David H. Stern in: Comentário Judaico do Novo Testamento.
[5] O próprio Flavio Josefo, historiador hebreu afirmava que por volta do século I, circulavam em Jerusalém, tanto quanto na corte de Herodes, homens versado na cultura helenística, que dominavam o grego.

sábado, 4 de julho de 2015

A SINA DO SERTANEJO, CABRA DA PESTE



Seu moço me dê licença pro que eu vou me achengano. 
Sou chamado de Tiquim, desde que vim a este mundo de Deus. Acostumado nas lidas da terra, no cabo da inchada quando tem do quê prantar. Quando não dá, vou caçar calango pra comê com Xique-xique. Nunca peguei no alheio, nem causei dizordi a ninguém. 
Não devo nenhum vintém, disso bato no peito. Se peço é porque não têm, nada pra este arremedo.


Nesse mundo de meu Deus, se arguêm nacêu pra sofrê é quinem eu. 
Vou levando a minha sina ter quando nosso Senhor quisé. Mais enquanto vida eu tiver num vou desistir, não. Vou olhar sempre pro céu, sem perder o encanto, quem sabe a chuva não vem pra inundar o meu pranto.

 (João B Nunes)

terça-feira, 2 de junho de 2015

A CULTURA DA CORRUPÇÃO NO BRASIL


As manchetes de Jornais exploram exaustivamente as notícias de escândalos, geralmente envolvendo desvios de altas verbas públicas.  Meses e meses seguidos na mesma temática e as descobertas ganham novos contornos. É o Mensalão do PT, é Petrolão, é a Máfia das Próteses e por aí em diante.  "A culpa é desses políticos ladrões!!!" Bradou uma mulher dentro de um ônibus apinhado de gente, sob os olhares concordantes. 

Depois de refletir sobre esse tema chego a seguinte conclusão: é muito fácil resumir a sintomática da corrupção no Brasil a classe política. Afinal, o volume de recursos desviados anualmente em todo o Brasil é algo astronômico. 

E se a gente começasse a raciocinar na contramão desse pensamento formado e disseminado no senso comum? De quem seria a culpa pela histórica corrupção brasileira? Se não são os políticos os únicos responsáveis pela roubalheira reinante, quem mais seria?

Ouso afirmar: somos nós mesmos. Não são os políticos! Eu, você, todos nós. Como pode ser isto? Simples, mesmo que sejamos tardios em admitir.

A cultura da corrupção é alimentada por nós mesmos, nas mínimas coisas. Quando demonstramos para nossa família que "somos espertos" em estacionar na vaga destinada a idosos ou deficientes físicos, ou "furamos fila" para ser atendidos mais rápido em detrimento dos que já estão a mais tempo; ou quando mentimos para tentar justificar situações as mais triviais possíveis, estamos não apenas alimentando a corrupção, mas sendo corruptos e corruptores. 

Quando fazemos micro inscrições com as possíveis respostas as questões da prova, somos desleais conosco, com nossos pares em sala de aula, sobretudo, desonestos para com nossos professores. Poderemos vir a ser até alguém na vida, quem sabe um (a) doutor (a), um(a) operador(a) do direito ou outro profissional, mas nossa trajetória já vem maculada pela corrupção. 

Numa relação de pagamento pela compra de algo, quando recebemos uma quantia a mais do devido e, percebendo claramente a situação, omitimo-nos a retornar e devolver o excedente recebido, coitados de nós! Pensando em tirar vantagem sobre aquela quantia, na verdade estamos prostituindo nossa consciência, tentando encarar com naturalidade uma óbvia situação de desonestidade: somos corruptos!

São nas mínimas coisas do cotidiano que transmitimos aos nossos familiares mensagens não verbalizadas de posturas, comportamentos típicos de corrupção. O tirar vantagem de tudo, o velho "jeitinho brasileiro" tão danoso, tão prejudicial, vez que toda vez que estou na vantagem, de forma enganosa, significa que outras pessoas estão sendo injustiçadas, na desvantagem. 

Outra questão se nos impõe: a situação esta irremediavelmente perdida?

Não. Desde que, como fruto de um amadurecimento dessa reflexão, minha postura seja conduzida pelo respeito ao próximo, pelo senso de justiça, de imparcialidade, de íntima disposição para as coisas corretas, pela lisura dos atos. "Seria eu limpo com balanças falsas, e com uma bolsa de pesos enganosos?" (Miquéias 6:11); "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus." (Mateus 22:21).

Mas a cristalização dessa postura deve começar pelo exemplo na vivência do lar, onde os olhares das crianças estão atentos ao que dizemos e fazemos (as palavras conseguem persuadir, porém os exemplos arrastam multidões); depois temos o importante ambiente da escola, um espaço privilegiado de socialização de saberes e posturas. É preciso que a escola desenvolva estratégias para incutir nas mentes, principalmente na primeira infância, os valores da retidão, da anticorrupção. 

Então, estaremos formando gerações que em pouco tempo estarão conduzindo os destinos do País, movidas pelo verdadeiro sentimento de justiça e repúdio, repugnância, repulsa aos comportamentos desonestos.  

quinta-feira, 18 de abril de 2013

CLÃ NINJA



Há muito tempo atrás no Japão, nos lugares isolados, montanhosos e de difícil acesso eles cultivaram a arte secreta de matar, eram os ninjas sempre a serviço de quem pagassem mais pela morte de algum soberano ou membro importante das poderosas dinastias feudais.

A organização social dos ninjas girava em torno de um ancião do clã, o mestre, que havia recebido e aprimorado os conhecimentos de combate preservados e mantidos sob um ciclo rígido de conduta.

Havia uma hierarquia tradicional e rigorosamente seguida por todos os membros do clã. Secretistas, sair ou tentar sair podia representar a morte. 

Disciplina da mente e do corpo, obediência irrestrita, sagacidade, precisão e dominío faziam de cada guerreiro uma verdadeira máquina de matar com armas rudimentares como shariken, a katana, say; armas químicas (substâncias letais variadas que podiam paralisar o oponente por horas ou neutralizá-lo definitivamente em seguntos); ou usar apenas a habilidade de combate corpo-a-corpo sendo peritos em luta com mãos e pés, lutas de solo através das técnicas combinadas de imobilização e estrangulamento. 

Os guerreiros eram diariamente aprimorados através de treinamento que envolvia a arte da camuflagem, as aproximações e retiradas silenciosas sem deixar vestígios. Eles desenvolviam técnicas de disfaces avançadas para a época.

Não tinham a honra dos samurais que entregavam suas vidas a seus senhores para servi-los fielmente acima de qualquer interesse. Mesmo sabendo que injustiças eram cometidas pelos soberanos. 

Não eram guerreiros corpulentos, pelo contrário. Homens simples, tranquilos e extremamente calculistas. Eram capazes de sofrer humilhações públicas se passando por indefesos camponeses para guardar suas verdadeiras identidades. 

Esses peritos simplesmente desapareçam com o tempo, e a maior parte de seus conhecimentos também o foram.

Também é verdade que a indústria cinematográfica, a partir dos antigos filmes de Bruce Lee, encarregou-se de pintar um quadro fantástico do ninjas, conferindo-lhes superpoderes para além das capacidades humanas. 

Uma coisa é certa, se as duas principais escolas ninja foram centros de treinamento secretos, muito do que se sabe hoje representa 90% do que não foi, do contrário, não seriam secretos.




_____________
Vejam também:

CATÁSTROFE NA TERRA DE SHOGUN
KAIZEN - MUDANÇA PARA MELHOR

http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2011/04/kaizen-mudanca-para-melhor.html



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

DÉCADA DE 60: "A CULTURA É DO POVO!"


A explosão de criatividade invadiu as artes, sobretudo a música, o teatro, o cinema, a
produção editorial nacionais. Uma estética radical de raízes tupiniquins garantia
momentos de glória ao cinema nacional. Nélson Pereira dos Santos filmara o clássico
Vidas Secas, em 1963, e Anselmo Duarte conquistara Cannes com o Pagador de
Promessas, de 1962. O quase menino Glauber Rocha dirigira Terra em Transe, em 1967,
e concluiria, em 1969, O dragão da maldade contra o santo guerreiro. Filmaria a grande
mobilização carioca de 1968 para projeto cinematográfico jamais concretizado. Bertolt
Brecht era uma constante nos teatros nacionais com Os fuzis da senhora Carrar, Galileu
Galilei, A ópera dos três vinténs, Mãe coragem e seus filhos. A dramaturgia nacional
plantava raízes próprias com Liberdade, liberdade e Arena conta Zumbi, de 1965;
Arena conta Tiradentes, de 1967; e com encenações explosivas como Roda-viva, de
1968, objeto de ataques de grupos paramilitares direitistas.

Em um país de poucos leitores, com a televisão ainda engatinhando, o combate cultural enfuriava quando se tratava da música popular. Apenas parcialmente inconscientes do papel que cumpriam, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Vanderleia e a turma da Jovem Guarda pregavam a despolitização e só pediam “que você me aqueça nesse inverno e que tudo mais vá para o inferno”. A esquerda dominava totalmente o campo, com uma seleção que só aceitava craques: Caetano, Chico, Elis Regina, Jair Rodrigues, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Vinícius de Morais etc. Quando dos festivais da canção, a disputa politizada transformava-se em uma quase batalha campal.

Através da música, debatiam-se os projetos para o futuro do país. Em uma época sem cerimônias, iconoclasta, o público levantava-se contra os monstros sagrados que construía caso ousassem sair da linha, ou do que se pensava que fosse a linha. Em 28 de março de 1968, três dias antes do quarto aniversário do golpe, as polícias militares do Exército e da Aeronáutica invadem o restaurante do Calabouço, no Rio de Janeiro, e disparam à queima-roupa contra os estudantes, matando Édison Luís de Lima Souto, de 18 anos. 

No dia seguinte, sexta-feira, a antiga capital da República parou para que sessenta mil populares acompanhassem a despedida ao secundarista. A resposta foi violenta. Por diversos dias, a cidade tornou-se campo de acirrada batalha. De um lado, estudantes e populares. Do outro, polícia e exército. Universitários, secundaristas e populares são mortos. Ao deslocarem-se pelas ruas do Centro, os soldados protegem-se debaixo das marquises dos objetos atirados desde os edifícios. Um policial militar, a cavalo, morre ao receber na cabeça um pesado balde, ainda carregando cimento fresco, lançado desde um edifício em construção.


A agitação estudantil alastra-se pelo Brasil, com manifestações nas principais capitais. Na quarta-feira, 26 de junho, o movimento alcança seu ápice. No Rio de Janeiro, cem mil manifestantes concentram-se na Cinelândia e desfilam pelo Centro, em uma demonstração permitida pelo governo. Cinquenta mil pessoas protestam nas ruas de Recife. As grandes manifestações alcançam efeito inesperado. Dias mais tarde, uma comissão da “Passeata dos Cem Mil”, do Rio de Janeiro, é recebida em Brasília pelo ditador Costa e Silva. Entre os membros da delegação, encontra-se um representante da UNE, entidade colocada na ilegalidade imediatamente após o golpe. Entretanto, o encontro não tem consequências.

A mobilização operária levara a oposição sindical a planejar um amplo movimento grevista para o fim do ano, quando da data-base de importantes categorias. A explosão das manifestações de junho aceleraria a greve. Em 16 de julho, José Ibrahim, presidente do sindicato dos metalúrgicos de Osasco, de vinte anos, ligado à organização militarista VPR, põe-se à frente de uma paralisação da COBRASMA, com ocupação da empresa e aprisionamento dos funcionários graduados, à qual aderem dez mil trabalhadores de outras indústrias. O movimento exige reajuste de 35%, reposição salarial cada três meses e outras reivindicações. A ditadura militar responde violentamente. 

Centenas de trabalhadores são presos e despedidos. A COBRASMA é invadida. José Ibrahim mergulho na clandestinidade. Zequinha, dirigente operário da COBRASMA, é preso e torturado. 

Após cinco dias, a greve quebrava-se. Uma segunda paralisação, em Contagem (MG), em outubro, é reprimida com facilidade. A greve geral do fim do ano jamais seria tentada.


No país, decresce a mobilização. Em 12 de outubro, o movimento estudantil, espinha dorsal da oposição, recebe forte golpe. Subestimando a repressão, a direção da UNE reúne, para seu 30º Congresso em um sítio em Ibiúna, cidadezinha do interior de São Paulo, milhares de delegados de todo o país. A prisão dos participantes permite a detenção das direções e o mapeamento das lideranças estudantis do norte ao sul da nação. No mesmo dia em que caía o Congresso de Ibiúna, era varado pelas balas de um comando militar da ALN/VPR, diante de sua residência em São Paulo, o capitão estadunidense Charles Chandler, funcionário da CIA, “estudando” Sociologia no Brasil.


Os dois acontecimentos ilustravam a orientação que viveria a resistência nos anos seguintes. Ações armadas de grupos de corajosos jovens militantes, isolados socialmente, pretendendo substituir o movimento de massas em refluxo. Em 2 de outubro, na capital mexicana, na Praça das Três Culturas, de duzentos a trezentos estudantes e populares foram massacrados pelo exército e policiais durante concentração, dez dias antes do início dos Jogos Olímpicos, que se realizaram sem quaisquer pruridos morais. 

Sobretudo de 1969 a 1973, organizações de esquerda militaristas, inspiradas no foquismo guevarista, lançariam ações espetaculares - assaltos a bancos, sequestros de embaixadores e de aviões, execuções de torturadores, guerrilhas rurais etc. - sem que os trabalhadores urbanos e rurais aderissem à proposta de luta armada imediata, milhões de anos-luz longe de suas consciências, necessidades e capacidade de organização na época. Isoladas, as organizações seriam dizimadas, uma após a outra, pela repressão, que se estenderia igualmente aos militantes voltados para a organização dos trabalhadores e classes populares. Por esses anos, automóveis da nova classe média ascendente invadiam as ruas, portando o autocolante “Brasil: ame-o ou deixe-o”, distribuído pela repressão, simples tradução da consigna direitista estadunidense America love it or leave it.




quarta-feira, 2 de março de 2011

MEU CARIRI


Este vídeo é parte de um projeto piloto intitulado Caminhos da Paraíba, que tem como objetivo desvendar a riqueza cultural, social e histórica do povo paraibano espalhado pelos 223 municípios do Estado. Como pesquisadores sociais e exploradores culturais estamos nos mobilizando a cada último domingo do mês e ao final pretendemos lançar um livro guia com esse mesmo título. Se você quiser fazer parte de nossos andanças é preciso dispor de carro próprio e juntar-se a nós nessa aventura enriquecedora. Contate-nos e informe-se mais.


http://www.youtube.com/watch?v=i3dK-NBvYv8