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terça-feira, 30 de setembro de 2025

UNIVERSO 25: COMO UM EXPERIMENTO CIENTÍFICO PODE RETRATAR O FIM DA SOCIEDADE HUMANA



Em junho de 1972, diante da Royal Society of Medicine em Londres, um senhor franzino de barba grisalha pediu a palavra. Chamava-se John Bumpass Calhoun, e sua primeira frase desarmou a plateia: “Falarei majoritariamente sobre ratos, mas meus pensamentos estão em homens, na vida e sua evolução”¹

Não era exatamente o tipo de abertura que se espera de um cientista em uma das instituições mais respeitadas do mundo, mas todos ficaram atentos.

Calhoun começou a revelar o que ele chamou de Universo 25: uma cidade inteira de ratos que se tornou um dos experimentos mais polêmicos, embora pouco comentados da nossa história.

O trabalho dele passou a ser usado como um modelo animal análogo ao colapso da sociedade humana, e seu estudo tornou-se uma ideia importante na sociologia e psicologia em geral.

O cientista construiu uma cidade de ratos com 16 prédios idênticos, mais de 250 apartamentos, locais específicos de refeição e tudo que os ratos precisavam para “viver bem”.

Tudo começou com 4 casais de ratinhos — ou seja, 8 indivíduos no total. A única limitação era o espaço.

Cada aspecto do Universo 25, como este modelo específico era chamado, foi projetado para atender ao bem-estar de seus roedores residentes, aumentar sua expectativa de vida e permitir que eles se acasalassem.

Calhoun marcou cada animal com uma cor para identificação, sendo que ele e sua equipe ficavam sentados por horas, todos os dias, por mais de três anos, observando o que acontecia.

Há meio século, quando o estudo foi publicado, as descobertas não foram tão chocantes, mas, à medida que o tempo passa, os resultados desse experimento se tornam, de certo modo, assustadores.

Dos quatro casais iniciais, após um curto período de 110 dias de adaptação, os primeiros filhotes nasceram — com a população dobrando a cada 55 dias.

Nesse período inicial, os ratos exploravam o espaço, reconheciam territórios e estabeleciam as hierarquias iniciais — assim como humanos fazem.

Depois disso, com abundância de recursos, a reprodução aumenta e inicia uma explosão populacional, resultando em um número de roedores 10x maior do que inicialmente em 10 meses.

Nessa altura do campeonato, ratos alfas estabelecem a dominância e vão dominando o espaço — lutando e mordendo os ratos mais frágeis.

Normalmente, na natureza, um rato que perde uma luta foge para algum canto distante para recomeçar em outro lugar. Na utopia dos ratos, no entanto, os ratos perdedores não conseguiam escapar.

Calhoun os chamava de "abandonados", até porque eles se escondiam durante boa parte do dia e saíam na madrugada apenas para comer.

Conforme a população crescia, enormes hordas de “fracassados” se reuniam no centro do cercado, cheios de cortes e cicatrizes.

A partir daí, comportamentos anômalos começaram a surgir, tanto nas ratas fêmeas, quanto nos ratos machos:

Ratinhas  

- Isolamento: Fêmas começaram a se isolar em apartamentos, rejeitando e se afastando dos machos.

- Infertilidade: Muitas ratas eram incapazes de levar uma gravidez até o fim ou, quando conseguiam, de sobreviver ao parto da ninhada.

- Instinto materno em baixa: Quando davam à luz com sucesso, as ratas já não eram tão boas em suas funções maternas devido ao estresse pretérito.

Ratinhos 

- Assexuados: Machos deixaram de buscar o sexo com as fêmeas e se tornaram extremamente vaidosos — sendo apelidados de “os belos”.

- Hiperatividade frenética: Movimentos aleatórios e até brigas sem propósito, uma espécie de violência por violência.

Os camundongos passaram a se dividir em grupos, e aqueles que não conseguiam encontrar um lugar nesses grupos se viam sem ter para onde ir.

Agora é que fica ainda mais interessante…

À medida que o tempo passava, os alfas restantes envelheciam e reproduziam-se menos, fazendo com que a taxa de natalidade diminuísse.

O curioso é que muitos dos ratos que ainda podiam conceber, como os "belos" e as fêmeas isoladas, perderam a capacidade social de fazê-lo.

Basicamente, ao invés de interagir com o sexo oposto, os machos se limpavam compulsivamente e as fêmeas não se misturavam.

"Os machos que falharam se retraíram física e psicologicamente; tornaram-se muito inativos e se agregaram em grandes grupos perto do centro do universo. A partir desse ponto, eles não iniciaram mais interações com seus parceiros estabelecidos, nem seu comportamento provocou ataques por machos territoriais"

“Os machos retraídos não respondiam aos ataques, permanecendo imóveis. Mais tarde, atacavam outros no mesmo padrão. As fêmeas desses machos isolados também se retraíam. Alguns camundongos passavam os dias se alisando, evitando o acasalamento e nunca se envolvendo em brigas. Por isso, possuíam excelentes pelagens e eram apelidados, de forma um tanto desconcertante, de "os belos".

Depois de atingir um íco de 2.200 ratos no 19º mês, a população começou a diminuir.

Camundongos nascidos nessa fase de caos já não conseguiam formar laços sociais normais, nem se envolver em comportamentos sociais complexos, como galanteio, acasalamento e criação de filhotes.

Incapazes de encontrar seu lugar na hierarquia, os mais jovens se tornaram desajustados, as fêmeas solteiras se retiravam para os ninhos isolados nos níveis superiores dos apartamentos da cidade.

No extremo oposto, os outros machos tornaram-se completamente apáticos, passando o dia comendo, bebendo, cuidando-se, mas sem interagir com os demais.

Enquanto isso, os machos alfa restantes exibiam agressividade extrema, chegando ao canibalismo e violência sexual.

Porém, o mais perturbador era o comportamento das mães: “Oprimidas pelo estresse da aglomeração, muitas descuidavam de suas crias, ou as abandonavam e atacavam. A mortalidade infantil disparou, alcançando até 96% em algumas áreas”.

Apesar da capacidade de espaço para até 3.840 animais, o número de roedores nunca ultrapassou os 2.200.

O último nascimento foi no dia 920. A partir daí, a queda foi livre até a extinção. Os pobres roedores esqueceram-se de como se cuidar, cuidar de sua prole e até mesmo de interagir normalmente.

Os machos perderam o interesse de procriar, as fêmeas abandonaram os filhotes e a violência, sem motivo, se tornou comum. Houve queda na natalidade, colapso da organização social e, por fim, a extinção.


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1. I shall largely speak of mice but my thoughts are on man, on life and its evolution.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

JOHN BROADUS WATSON




                                                                  João Batista Nunes


Embora sua carreira acadêmica tenha sido breve, John B Watson, o fundador do comportamentalismo, foi fundamental na elaboração de uma psicologia objetiva, livre do mentalismo, e com o mesmo grau de cientificidade da física.

Quando Watson tinha treze anos, seu pai fugiu com outra mulher, para nunca mais voltar, o que magoou Watson pelo resto da sua vida. Muitos anos depois, quando Watson já era rico e famoso, o pai foi a Nova York tentar vê-lo, mas ele se recusou a encontrá-lo.

Na infância e na juventude, Watson foi descrito como um delinquente. Ele mesmo dizia ser preguiçoso e insubordinado, e nunca foi além da média necessária para passar de ano na escola. Seus professores o consideravam indolente, insolente e, às vezes, incontrolável. Ele se envolvia em brigas e foi preso duas vezes, numa delas por dar tiros em área urbana. Mesmo assim, ele se matriculou na Universidade Furman, dos batistas, em Greenville, aos dezesseis anos, decidido a ser ministro religioso.

Ele prometera à mãe, muitos anos antes, que abraçaria a vida clerical. Watson estudou filosofia, matemática, latim e grego, e esperava graduar-se em 1899 e entrar no Seminário Teológico de Princeton no outono seguinte.

Ocorreu uma coisa curiosa no último ano de Watson em Furman. Um dos professores avisou os alunos que quem entregasse o exame final com as páginas trocadas seria reprovado. Watson levou a sério o desafio, pôs a prova invertida e foi reprovado, ao menos foi assim que ele contou a história. Um exame mais recente dos dados pertinentes da história – no caso, as notas que Watson preferiu contar revela algo de sua natureza, isto é, “sua ambivalência diante do sucesso.” Sua constante luta por conquistas e aprovação era sabota com frequência por atos de pura obstinação e impulsividade, mais características de uma evitação da responsabilidade.

Watson ficou em Furman mais um ano e recebeu o grau de mestre em 1900; neese ano, porém, sua mãe faleceu, liberando-o do voto de tornar-se ministro. Em vez do seminário teológico, foi para a Universidade de Chicago. Na época, era “um jovem ambicioso, muito consciente do status social, ávido por deixar sua marca no mundo, mas totalmente confuso quanto à sua escolha de profissão e desesperadamente inseguro com relação à sua falta de meios e de sofisticação social. Ele chegou ao campus com cinquenta dólares no bolso.”  
Escolhera Chicago para pós-graduar-se em filosofia sob a direção de John Dewey, mas, passado algum tempo, considerou Dewey incompreensível. “Eu nunca soube do que ele estava falando na época”, relembrou Watson, [...] “e, infelizmente para mim, continuo não sabendo.” Seu entusiasmo pela filosofia logo diminuiu.

Interessou-se pela psicologia graças à obra de James Rowland Angell, e estudou neurologia, biologia e fisiologia com Jacques Loeb, que lhe deu a conhecer o conceito de mecanismo. Ele trabalhou em várias ocupações – garçom de uma república, tratador de ratos e assistente de zelador (suas tarefas incluíam limpar a escrivaninha de Angell).

Perto do final dos estudos, sofria ataques agudos de ansiedade e não conseguia dormir sem uma lâmpada acesa.

Em 1903, Watson se doutorou, a pessoa mais jovem a obter um doutorado na Universidade de Chicago. Embora fosse aprovado com louvor, ele relata que teve um profundo sentimento de inferioridade quando Angell e Dewey lhe disseram que seu exame doutoral não era tão bom quanto o de Helen Thompson Woolley, que se graduara dois anos antes (Woolley, apesar de sua competência, enfrentou uma considerável discriminação sexual e foi preterida na carreira acadêmica).

Nesse mesmo ano, Watson casou com uma de suas alunas, Mary Ickes, de dezenove anos, filha de uma família social e politicamente importante. Conta-se que a jovem e impressionável Mary escrevera um longo poema de amor para Watson num dos exames, em vez de responder às perguntas.

Não se sabe que nota recebeu, mas Watson ele conseguiu. Sua família se opôs ao casamento; seu irmão chamou Watson, que tivera vários casos com alunas, de “um patife egoísta e presunçoso.”

Watson permaneceu como instrutor na Universidade de Chicago até 1908. Publicou sua dissertação sobre a maturação neurológica e psicológica do rato branco e cedo demonstrou sua preferência por sujeitos animais.

Dizia Ele:

Eu nunca quis usar sujeitos humanos. Detestei servir como sujeito. Eu não gostava das instruções enfadonhas e artificiais que eram dadas aos sujeitos. Sempre me sentia pouco à vontade e agia sem naturalidade. Com os animais, eu me sentia em casa. Tinha a impressão de que. Um determinado pensamento: será que não poderei descobrir, ocorria-me cada vez mais vezes um determinado pensamento: será que não poderei descobrir, observando o seu comportamento, tudo o que os outros alunos estão descobrindo usando [observadores humanos]/?

Alguns dos professores e colegas de Watson se lembram de que ele não era bom em introspecção. Sejam quais forem os talentos especiais ou os temperamentos necessários para isso, ele não os tinha. É possível que isso tenha sido parte do ímpeto que o fez rumar na direção de uma psicologia comportamental objetiva. Afinal de contas, se ele não era bom na prática da técnica essencial do seu campo, suas perspectivas de carreira eram as piores possíveis... a não ser que ele pudesse desenvolver outra abordagem. Além disso, se a psicologia fosse uma ciência dedicada apenas ao estudo do comportamento, que, de fato, podia ser feito tanto com animais como com seres humanos, os interesses profissionais dos psicólogos animais podiam ser promovidos e introduzidos na corrente principal do campo.

Em 1908, quando se tornou elegível para um cargo de professor-assistente em Chicago, Watson recebeu a oferta de um cargo de professor efetivo na Johns Hopkins, de Baltimore.
Embora relutasse em deixar Chicago, Watson não tinha muita escolha, devido à promoção, à oportunidade de dirigir o laboratório e ao substancial aumento de salário oferecidos pela Johns Hopkins. Ali, ele passou doze anos, seu período mais produtivo para a psicologia.

O ousado Watson afirmou certa vez: 


Deem-me uma dúzia de crianças saudáveis e bem formadas e meu mundo específico para criá-las, e eu me comprometo a escolher uma delas ao acaso e treiná-la para que chegue a ser qualquer tipo de especialista que escolher: médico, advogado, artista, comerciante, e inclusive mendigo ou ladrão, sem levar nem um pouco em conta seus talentos, capacidades, tendências, habilidades, vocação ou a raça de seus antepassados (WATSON, 1930, p. 104).

REFERÊNCIAS

WATSON, J. B. Psychology as the behaviorist views it. Psychological Review, 20, pp. 158-177, 1933.

SCHULTZ, D. P. & SCHULTZ, S. E. S. História da Psicologia Moderna. 8ª ed. Revista e Ampliada. São Paulo: Cultrix, 1997.