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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A DIFUSORA DE LAURA



No alto do Jeremias morava Chico Venâncio que era dono e locutor da difusora do bairro. Era o famoso Chico quem dava a notícia (recém trazida num bilhete por um moleque de cara suja e sem chinelo) da chegada de Maria, filha mais velha de Dona Neném e Seu Mané Isidro do Rio de Janeiro.

O estúdio de Chico funcionava na sala da casa, sempre de porta aberta para receber os bilhetes que não paravam de chegar, seja para dedicar músicas, seja para dizer quem estava partindo ou chegando, aniversário, falecimento, documentos perdidos, cachorro perdido e por ai em diante. Era possível ver apinhado no chão, ao lado de uma sanfona velha, uma seleção de discos de vinil dos sucessos mais pedido pelo povo do Jeremias, Araxá e até do Monte Santo.

Tinha disco de Núbia Lafaiete, Nelson Gonçalves, Vicente Celestino, Altemar Dutra, Roberto Carlos, Teixeirinha (bastante utilizado em campanhas para arrecadação de donativos caso morresse alguém cuja família não dispunha de recursos para arcar com o caixão e o enterro. Aliás, uma das faixas que mais se utilizava nessas ocasiões era aquela que dizia assim: 

"O maior golpe do mundo que vivi na minha vida / foi quando aos nove anos perdi minha mãe querida/morreu queimada no fogo, morte triste, dolorida (...)" 

Imagine um som desse, propagado pelas duas cornetas do alto do bairro, uma melodia bizarra, um acorde tétrico. 

Ufa! Fardo pesado para as crianças do bairro! Mas logo vinha as músicas mais alegres e assim a vida ia passado devagar ao som nostálgico da difusora de Chico.


"(...) Desculpe, meu amor, o que eu lhe digo /
Mas meu bem, não é comigo /
Que você deve lamentar /
Você nunca foi um bom marido /
Não cumprindo o prometido /
Que jurou aos pés do altar /
É triste confessar, mas é preciso /
Você não teve juízo /
Em dizer que não me quis /
Perdoa, meu amor, não sou fingida /
Não é só casa e comida /
Que faz a mulher feliz"[1]

Certo dia, para a surpresa de todos, a notícia de falecimento foi, imaginem vocês: a do próprio Chico! O bairro do Jeremias acolheu essa nota com muita consternação, tratava-se de alguém que gozava da simpatia de todos.

A viúva Laura, que também já se fazia ouvir com sua voz melodiosa assumiu o lugar do finado Chico, passando a desempenhar até melhor que este, a função social da difusora. Agora que estava no comando passou a assinar como "Laura de Chico Venâncio!"

Campanhas beneficentes importantes como as que ajudaram na compra de caixões tiveram como beneficiários pós-mortes, o cidadão de alcunha "Rato Molhado" e o outro favorecido foi o popular "Marcolino Pé de Quenga.

Rato Molhado, teve seu nome divulgado na difusora de Laura de Chico Venâncio pela primeira e última vez apenas no ocasião de sua morte. Era um espectro de homem, que não vazia mal a ninguém senão a si próprio. 

Talvez tenha passado a ser chamado assim porque mesmo debaixo daquelas chuvas fortes de inverso, sem ninguém nas ruas, lá estava aquela figura bêbada, caindo na lama dos córregos e tentando se levantar rumo a sua casa, um casebre desses que um homem mediano tem que se curvar para entrar.

Marcolino era um mecânico velho que nasceu com uma deformidade nos pés que o forçava a andar com certa dificuldade. Coisa que somente piorava quando ele saia da mercearia de Seu Gilberto caindo aqui e acolá, pelas ruas íngremes do Jeremias, bêbado e dizendo impropérios ao ajuntamento de moleques que saiam correndo e gritando: "Marcolino Pé de Quenga! Marcolino Pé de Quenga!

O tempo foi passando e as duas cornetas da difusora deixaram de reinar sozinhas naquele poste no alto do bairro. É que os crentes abriram uma igreja da Assembléia de Deus, na Rua São Cosme e puseram no alto da Igreja que já que se situava no alto do bairro, duas cornetas de modo que não era mais possível ouvir apenas a difusora de Laura, já que principalmente nos domingos, os crentes não economizavam vozes, crente chorava, cantava, dizia aquelas palavras que só crente diz e Laura ficava fumegando de raiva dessa concorrência de espaço fonográfico!

Autor: João B Nunes
Formado em Psicologia; Graduando em Direito e Pós-Graduando em Gestão de Projetos Sociais e Terceiro Setor.

[1] Canção de Núbia Lafayette (1972)
Compositores: Cesar Augusto Saud Abdala / Carlos Roberto Piazzoli / Durval Lima


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O GOZO DE PODER E A PRATICIDADE DO ITAÚ


As operações financeiras do UNIBANCO e ITAÚ, são una, como todos já sabem, foram fundidos e aí, o maior conglomerado financeiro do Hemisfério Sul, combinando ativos de mais de R$ 575 bilhões, têm pretensões ousadas de entrar no cenário mundial com poder de fogo altamente competitivo, situando-se no 20º lugar no ranking.
A reflexão que desejo aprofundar não é exatamente sobre valores de mercado, até porque não sou da área. Quero falar apenas como mero espectador de cenas que marcaram o dia em que precisei ir a uma agência do Itaú, outrora Unibanco, no Centro de Campina Grande e - confesso sem nenhum exagero - que ali, naquele espaço ainda em reforma, estava um verdadeiro exército de velhinhos numa espécie de fila indiana sinuosa e monstruosa que tinha uma extensão para além dos limites da própria agência, os que estavam fora do banco disputavam espaço entre os camelôs e as transeuntes, um verdadeiro misto de gente sofrida e de semblante abatido, com a dura certeza de que, ao adentrar na agência, entre empurrões, iriam seguir a fila ao segundo andar para então descer e girar uma, duas, três vezes até, por fim, chegar ao fim do calvário, a boca do caixa.
E isso não é apenas no Itaú, acontece nas demais agências onde frequêntemente o direito é desrespeitado de forma aviltante. Mas, em particular nesse tal de Itaú, nunca obtive tão rico material para análise freudiana sobre o gozo de poder, essa incrível sensação que têm alguns que estão do outro lado do balcão. É fácil para esses "alguns" despachar o velhinho ou a pessoa desinformada dali mesmo. Sem dar a mínima para o tempo desperdiçado na fila da morte antecipada. Em João Pessoa, na agência da Jofesa Taveira, vi uma subgerente, com sua maquiagem que escondia sutilmente a anunciação da velhice dizer para um velhinho que, naquela agência, ela procedia assim mesmo e ponto final. Ela não falou como pessoa jurídica e sim como pessoa física. Juntando um fato com o outro pude perceber que os funcionários do Itaú, não todos é claro, não tiveram aquela importante sacada que deveriam todos tirarem de letra: a funcionalidade, a existência e sucesso de qualquer banco não se deve aos grandes correntistas e acionistas e demais investidores, não! Se deve a esse inesgotável fluxo de operações mínimas decorrentes dos salários, pensões e benefícios, a existência dos velhinhos que eles tanto massacram.
Para solucionar o problema das relações sociais conflitantes e minimizar o desgaste preservando a imagem do banco, eis que entram em cena consultores de São Paulo para oxigenar a atmosfera entre funcionários e funcionários/cliente. A alta gerência nunca acreditou que em nível local existam profissionais de Recursos Humanos gabaritados, inclusive para montar uma estratégia de atendimento eficaz e acabar de vez com esse empurra-empurra que vitimiza os velhinhos todo o final de mês. Não existindo quaisquer possibilidades de diferenciar o atendimento de forma ética e sem arrodeios o bando Itaú e demais nessa mesma situação acaba por incorrer em crimes dolosos contra o idoso, gestantes e portadores de necessidades especiais.
Jugo importante que o Poder Executivo Municipal ou Estadual antes de colocar a folha de pagamento na tutela de uma banco como o Itaú, que opera nessas condições, o faça também, sob a garantia por escrito, de que todos os clientes terão qualidade no atendimento nos dois níveis: operacional e humano. Quem sabe a assim o gozo de poder de "alguns", mesmo que fugaz e infanto-debiloide, se limite apenas ao âmbito mental, sem prejuízos de terceiros.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

VENDEMOS ABSTRAÇÃO, INTERESSADO?


As dificuldades de quem comercializa serviços e as estratégias para diblar a descrença não são poucas. Vender um tijolo, uma calça jeans ou uma cadeira até que é fácil. O cliente entra na loja, avalia o produto, discute o preço e paga. Quando é possível, sai com o embrulho embaixo do braço. Ponto final. Mas o que acontece quando se oferece uma massagem, uma faxina ou uma consulta com o psicólogo?


Embora a prestação de serviços seja responsável por mais 50% do Produto Interno Bruto (PIB), boa parte dos empresários tem dificuldades para vender seu trabalho. Aos olhos do cliente, o que está sendo comprado é impalpável - quase uma promessa. No caso dos profissionais liberais, a situação é ainda pior. Muitas categorias são proibidas de fazer publicidade dos serviços, podendo até mesmo perder o registro em caso de desobediência. Surge então o dilema: como atrair o cliente e convencê-lo a pagar pelo que é oferecido?


Especialistas em gestão costumam dizer que a venda de serviços representa, na verdade, venda de processos. Quando o cliente recorre ao prestador, ele está em busca de solução para o seu problema. Ele prefere contratar alguém de fora porque não sabe fazer o serviço desejado, não tem tempo, não quer ou fica inviável economicamente.


A principal característica de qualquer serviço é que ele não termina na contratação. Como é processo, em qualquer momento poder surgir a necessidade de manutenção ou o pedido de cancelamento por uma das partes.


A oferta de serviços é uma abstração, portanto, exige dos vendedores o sequenciamento de alguns pontos importantes: primeiro, tornar-se conhecido. O cartão de visitas pode começar pelo testemunho de clientes anteriores. A satisfação deles dará ao vendedor credibilidade. Em segundo lugar, converta o abstranto em concreto. Como? A partir de demonstração de trabalhos já desenvolvidos para terceiros. O cliente terá condições de apreciar, avaliar e, por fim, pagar um preço justo pelo serviço. Por isso, exponha-se ao máximo. Terceiro ponto: determine qual é o cliente que você quer prospectar e não perca tempo com aqueles que fogem do seu foco. Você estará economizando tempo, dinheiro e decepções. Por último e não menos importante, invista em relacionamento de longo prazo e acompanhe os processos. A qualidade oferecida é o diferencial para o negócio. O item fundamental desse ponto é: valorize-se. O prestador de serviços, no início, das atividades, pode cobrar preços simbólicos ou até mesmo trabalhar de graça. Mas vencida esta etapa de marking, os serviços devem sim ser valorizados à preços justos. Na relação diretamente proporcional a satisfação do cliente, o prestador de serviços tenderá a crescer no conceito e valorizar-se gradualmente. Sucesso e um forte abraço.