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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

"O CÓDIGO DA PERSONALIDADE" SOB SUSPEITA


Comprei, recentemente o livro de Travis Bradberry intitulado "O Código da Personalidade" (Editora Sextante, 2010), que anuncia de forma bastante atraente o seguinte enunciado de capa: Conheça seus talentos e suas dificuldades, compreenda as pessoas com quem convive e aprenda a se relacionar melhor". O livro anuncia também, em destaque, que um teste pode ser feito pela internet, onde o leitor irá descobrir suas principais qualidades.

Até aí tudo bem. Marketing agressivo e eficazmente atraente, como os americanos costumam fazer com aquilo que querem vender. Eles sabem disso porque a Escola Behaviorista de Waltson é da terra do Tio Sam, e a Gestalt que estuda, entre outra coisas, os elementos perceptuais que entram na configuração mental das pessoas, teve grande parte de seus estudos importados da Alemanha, como o foi Freud e a Escola Psicanalítica. A moral da estória, é que americano com ferramentas de persuasão desse naipe, tem capacidade de vender gelo a esquimó.

Não posso negar que, ao folhear o livro de Travis, fiquei impressionado como psicólogo e leitor desse gênero. Impressionado, não com o conteúdo "fantástico" prometido nos enunciados da capa, mas com a pretensa tentativa de enquadrar aquilo que possamos abstrair do estudo da personalidade em apenas quatro tipos, a saber: Dominante, Interpessoal, Sensato e Cauteloso. Uma classificação simplista demais para o complexo e, tantas vezes, obscuro, chamado personalidade.

Ao final do livro, no verso da capa, tem um código para o leitor acessar o site "www.personalitycode.com/idisc.php?lang=portuguese", e então fazer o teste que irá revelar suas qualidades, seus potenciais. Imagine, quem não quer obter um perfil seguro de sua personalidade, sem que para isto tenha de contratar os serviços de um profissional estritamente da área de psicologia?

Acessei o portal. E, li alguns textos que, em síntese, falavam a mesmíssima coisa do livro. Percebi que para não patinar no gelo aleatoriamente, fui em busca do teste. Comecei a marcar questões com as quais me identificava. Depois, achei que poderia concluir no outro dia, já que o próprio livro asseverava que o mesmo teste poderia ser feito quantas vezes a pessoa quisesse.

Decorridos três dias, acessei o site e, ao tentar logar, apareceu a seguinte mensagem: "You received an error. Your email and password cannot be found in our database. Please contact TalentSmart® for assistance at (888)-818-7627 (Toll free, US callers only), (858) 509-0582, or CLICK HERE to send us an online request. We're sorry for the inconvenience".

Então, pensei comigo mesmo: What?!

Depois de tentar, tentar e tentar fazer o login com minha senha já cadastrada no site, e abrir meu e-mail na mesma proporção das tentativas para ver se o portal havia enviado a recuperação de senha como prometera no link. Nada! Foi aí que uma janela do site dava para um formulário extenso cujos campos exigiam informações pessoais restritas das quais não podemos abrir mão, senão para a Receita Federal (do Brasil, hein?!).

Disso tudo me restou mais uma lição importante: nem tudo que brilha é ouro! Além da lição, é claro, alguns hipóteses que merecem ser levadas em consideração: 1) Primeiro, pesquisas sobre a personalidade como essa de Travis, é de se achar estranha, porque não fala de metodologia aplicada, nem público alvo definido, nem outras implicações sérias que dão credibilidade a quaisquer pesquisas; 2) Quando se tem, numa pesquisa, um formulário exaustivo que visa perscrutar informações pessoas restritas, é de se desconfiar até sobre quem e quais motivações estão por trás, e o uso dessas informações. É sério! O site é tão ardiloso que, inevitavelmente leva os leitores do livro a acessarem para cair nesse formulário. Eis o perigo. Algo que de científico nada tem!; 3) E se, tanto o livro, quanto o site, forem a pesquisa sendo levada a efeito sem o conhecimento expresso das pessoas que acessam? Se for assim, estamos diante de um crime federal e aí, com a palavra as autoridades, brasileiras, é lógico.