Senhor Ministro,
Vossa Excelência não se envergonha, como paulista brasileiro, que um
estrangeiro, conquanto brasileiro naturalizado, venha de tão longe, do fundo de
um lugarejo perdido nos sertões do Brasil, advogar perante o governo do país, a
realização de um benefício de suas economias de pequeno comerciante, e ainda
tenha o desprazer de arrostar com o desdém manifesto de um órgão do poder
público?
A história rica, fértil e interminável de
Campina Grande é a saga dos heróis de legendas, dos forasteiros leais que em
tempos de outrora defenderam bravamente as melhores causas, lutando nas grandes
batalhas em diversos campos e áreas por esta terra que os acolheu. Aqui eu
destaco apenas alguns lampejos da vida e trajetória de um forasteiro ilustre,
um homem que deixou sua longínqua cidade Jurlândia na Dinamarca e depois de percorrer todo o
Nordeste brasileiro escolhe Campina Grande para ser seu lar pelo resto da vida.
Quais os verdadeiros motivos que o fizeram deixar
sua terra natal ainda hoje é uma incógnita.
O fato é que, em chegando à Campina,
Cristiano vindo do Recife onde se dedicava à venda de joias e compra de ouro,
instruído, demonstrou que tinha sangue nas veias para lutar pelas melhores
causas da Rainha da Borborema, e que mais tarde, o tempo provou, que ele tinha
altivez e honra para se sobrepor a política local que, à época, já se mostrava
reificada na mediocridade coronelista.
Com efeito, como muito bem destacado por
Evaldo Gonçalves de Queiroz, Campina sempre teve o dom de ser uma cidade
cosmopolita. Por aqui desfizeram as malas alemães, árabes, libaneses,
dinamarqueses, portugueses, franceses, chineses, holandeses, sírios, japoneses,
entre tantos outros, e se destacaram no comércio, na educação, saúde, religião
e política. Contribuíram, juntamente com as famílias mais tradicionais da
terra, para que se tornasse uma cidade destacada dentre as demais do Estado,
pela inventividade e visão progressista.
Quem viveu os tempos de outrora em Campina
sabia muito bem que este lugar evoluído a partir do ponto de encontro de
tropeiros, tinha todos os indicadores para jamais vir a ser uma cidade, de
fato. Não tinha o essencial elemento em torno do qual se enraíza as gentes: a
água. Nem sequer fontes alternativas que pudesse sinalizar vantagem de se
morar. Não existia expectativa senão a transitoriedade do local, nada mais.
Porém, Campina nunca se rendeu a limitações por mais sérias que se mostrassem.
Sinval Odorico de Moura, Bacharel Formado em Ciências Jurídicas e
Sociais pela Academia de Olinda, Oficial da Imperial Rosa, e Presidente da
Província da Paraíba do Norte: Faço saber a todos os seus habitantes que a
Assembleia Legislativa Provincial resolveu, e eu sanciono a Lei seguinte:
Art. Único – A Vila de Campina Grande fica elevada a categoria de cidade,
conservando a mesma denominação, e revogadas as disposições em contrário.
Mando, portanto a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da
presente Resolução pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão
inteiramente como nela se contém. O Secretário desta Província a faça imprimir,
publicar e correr.
Palácio do Governo da Paraíba, em 11 de outubro de 1864.
Lauritzen, aqui, instalado, constitui
família, desenvolveu seu comércio. Competência profissional, inclinação para a
vida pública, um gentleman devotado às causas da cidade. Um exemplo de
disponibilidade, espírito público, probo em suas ações. É descrito como um
abnegado servidor de Campina. Elpídio de Almeida ao dar valiosa contribuição
sobre a História de Campina dedicou espaço ao registro do desempenho de
Cristiano Lauritzen, fazendo-lhe justiça, assim como tantos outros
historiadores fiéis aos fatos mais destacados de sua evolução.
Aos 36 anos, o mancebo se casou com uma das
filhas dos homens mais influentes de Campina Grande. O sogro além de grande comerciante era também
importante político, Presidente da Câmara Municipal.
Conforme exposto por Evaldo Gonçalves, em
1885 recebia das mãos do Juiz Antônio da Trindade Meira Henriques a presidência
do Partido Conservador.
Ainda de acordo com Gonçalves, com o advento
da República, mereceu do primeiro Presidente, Venâncio Neiva, a confiança da
escolha para membro e Presidente do Conselho de Intendência, novo órgão republicano
que substituía as antigas Câmaras Municipais e que acumulavam as funções
executiva e legislativa, na pessoa de seu Presidente e de dois outros membros.
Esse seu primeiro mandato durou apenas dois
anos, ou seja, até 1892, tendo sido destituído pelos liberais campinenses, em
face da renúncia do Marechal Deodoro da Fonseca e sua substituição pelo
Marechal Floriano Peixoto. O Presidente Venâncio Neiva ficou solidário com o
Proclamador da República e, por essa razão, perdeu a Presidência do Estado, levando
consigo todos os seus amigos, inclusive Cristiano Lauritzen.
Nesse curto período de dois anos de
administração, o campinense Cristiano Lauritzen realizou muito pela cidade.
Conseguiu economizar recursos para a construção do prédio, onde iria funcionar o
Ginásio Alfredo Dantas; assegurou a compra do relógio da Matriz, hoje Catedral
de Campina Grande e fez uma viagem ao Rio de Janeiro para cuidar, junto aos
poderes da República, da extensão da linha de ferro até à cidade que governava,
como Presidente do Conselho de Intendência. Foi eleito Deputado Estadual
constituinte para a elaboração da nossa primeira Constituição Paraibana,
ocupando todos os espaços na vida político-administrativa campinense.
Em 1903, com seus próprios recursos pessoais
e sem ser detentor de mandatos, viajou ao Rio de Janeiro, em busca de solução
para a ferrovia, que deveria ligar Itabaiana à Campina Grande. Conseguiu uma
audiência com o então Ministro da Viação da República; surpreendendo a todos
com sua sinceridade diante da aparente insensibilidade do Ministro.
Perdão, o Sr. não me compreendeu. O Governo
não se descura dos problemas que afetam a economia do país, dentro das
possibilidades orçamentárias, mormente se tratando de intercomunicação
ferroviária nos Estados, cujas vantagens não teríamos a inépcia de obscurecer.
Posso assegurar-lhe que a secretaria, que eu tenho a honra de dirigir é a
primeira a reconhecer a utilidade do que o Sr. pleiteia e, como lhe cumpre
tomará as iniciativas que preliminarmente se impõem. Da sinceridade dos seus
sentimentos e propósitos o Sr. pode voltar seguro à sua terra.
A cena terminou com o forte aperto de mão e
palavras de aplausos do General Almeida Barreto, que disse a Cristiano
Lauritzen, logo após terem deixado o Gabinete do Ministro: Você falou “rosado”
ao General, só assim aquele “penedo” se mexia.”
O Jornal do Comércio, pela mão do jornalista
Artur Aquiles, destacou a dedicação de Cristiano à Campina:
Inteligente, arguto, tenaz e abnegado ás próprias ideias, o
distinto homem não olha a sacrifícios nem se poupa a incômodos, sempre que é
preciso agir em prol do engrandecimento, não diremos de toda a Paraíba, mas da
próspera comarca de Campina Grande e, sobreuto, da respectiva cidade onde, há
longos anos, firmou residência, constituiu família e radicou-se definitivamente
pela aquisição de invejável abastança.
[...] a sua preocupação, porém, nada tinha de comum com a dos
políticos que, do partidarismo, só visam aos proventos pessoais; ao contrário,
esquecia por vezes, a própria individualidade, para só saber querer e propugnar
pelo engrandecimento material e moral de sua nova e pequena pátria, objetivo
que o empolgou e empolga-o ainda como uma obsessão irremovível.
Do Dr. Luiz Nunes, Conselheiro, Escritor e
Poeta ilustre, tomamos emprestado este depoimento, em versos:
“Fosse
a Quinze de Novembro”,
Os ilustres visitantes,
Como amigos de Lauritzen,
Sentiam-se gratificantes
Com a musical visita,
E não passavam por pedantes.
Irineu
Jóffily, se sabe,
Um grande historiador,
Jornalista festejado,
Registrou o seu louvor
A Cristiano Lauritzen,
De quem era opositor.
-Nossas
felicitações
Vão, sim, para o cidadão
Porque ninguém, como ele,
Compreende a dimensão
E importância dessa obra
Para a nossa região.
-As
grandes dificuldades
Por Lauritzen encontradas,
Esforços desenvolvidos,
Esperanças não frustradas
Traduzem o amor à terra,
Canseiras amenizadas.
João Batista Nunes é psicólogo e acadêmico de Direito.