Mostrando postagens com marcador Campina Grande. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Campina Grande. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

CAMPINA GRANDE DE LEAIS FORASTEIROS

 Parte da história de Campina Grande tem como protagonistas portugueses, árabes, dinamarqueses, que chegaram aqui e marcaram época, a exemplo do seu fundador, Theodósio de Oliveira Ledo,
de nacionalidade portuguesa


Campina Grande sempre deteve o título de cidade aco­lhedora para os que nela desem­barcam em busca de trabalho, estudos, turismo ou para quem a escolhe como recomeço de vida. Essa característica deu-se ain­da nos tempos de sua fundação, permanecendo até os dias atuais, quando se observa a chegada não só de brasileiros de várias regiões do país, mas de estran­geiros. A propósito, parte da his­tória da Rainha da Borborema tem como protagonistas portu­gueses, árabes, dinamarqueses, que nela chegaram e marcaram época, a exemplo do seu funda­dor Theodósio de Oliveira Ledo, de nacionalidade portuguesa.

Campina de Lauritzen

A cidade também tem como um dos seus primeiros prefei­tos um dinamarquês. Cristiano Lauritzen chegou ao país aos 21 anos e morou em algumas cida­des nordestinas até ir parar em Campina Grande em 1880, após residir por doze anos em Recife, capital pernambucana. Comer­ciante e fazendeiro influente, ele logo se interessou por problemas comuns que abalavam o fran­co desenvolvimento local. 

Em uma de suas viagens ao Rio de Janeiro, ele, por intermédio de amigos ricos e políticos eminen­tes, conseguiu negociar com o Governo Federal a construção da ferrovia para o escoamento do algodão da região de Cam­pina Grande. Essa obra foi um marco para a cidade, e por esse ato e engajamento em outros pleitos, em 1904, conseguiu se eleger prefeito.

Em virtude justamente desse período áureo da comercializa­ção do algodão, inúmeras outras famílias estrangeiras foram se estabelecer na Rainha da Bor­borema, que por muitos anos foi considerada a “Canaã do Nordeste”.

De acordo com os registros do século 19 do Instituto Históri­co de Campina Grande (IHCG), há referências de estrangeiros instalados na cidade, como os Agra, que são de ascendência árabe e de família numerosa que ainda reside no município até os dias atuais.

Todavia, a atividade de es­trangeiros na cidade deu-se ain­da no início de sua formação. “Desde seus primeiros tempos, Campina Grande era uma loca­lidade acolhedora para forastei­ros, que vinham atraídos pelos negócios que faziam em torno do mercado e acabavam se ins­talando na povoação em vista da demanda de ofícios para a fabricação de utensílios de uso corrente e serviços diversos da práxis social, como padeiros, açougueiros, curtidores, ouri­ves, barbeiros, alfaiates, sapatei­ros, oleiros, ferreiros ou funilei­ros”, diz o professor Vanderley de Brito, presidente do Instituto Histórico de Campina Grande. Conforme explica, por meio do português Theodósio, seus des­cendentes formaram a casta de brasões sociais que dominava o cenário político da região, “sobre­tudo os agregados vindos de Por­tugal para desposar suas filhas, que trouxeram outros sobreno­mes lusos que até hoje perduram na região”, informa.

Ele recorda que Campina Grande nasceu em fins do sé­culo 17 de uma aldeia indígena, de nativos da tribo dos bultrins, etnia cariri, e que a primeira refe­rência histórica dessa aldeia é de 1697, tratando-se de uma aldeia de vocação mercantil, ligada a colonizadores e ponto de pouso para mercadores e viajantes.

Além disso, era localizada num setor de entroncamento de estradas reais, logo se tornando “um ponto de confluência de culturas, fazendo-se uma aldeia muito movimentada e atrativa para boiadeiros, almocreves, tangerinos, trovadores, poetas, ciganos, agricultores, mascates e aventureiros”, ressalta.

Uma dessas famílias estrangei­ras instalada em Campina Grande e que ainda nela permanece é a Steinmüller. A prole pisou em terras brasileiras em 1953, perí­odo da Segunda Guerra Mundial, quando a Áustria vivia momentos de terror, com o país em escom­bros, com incertezas, desemprego em alta e fome. 

Diante do cenário, muitos de seus habitantes decidi­ram sair em busca de um lugar melhor para viver com a famí­lia. Um deles foi Wilhelm Gustav Steinmüller. “Ele deixou a mulher e três filhos pequenos na Áustria e veio somente com a cara e a co­ragem, sem nem mesmo saber falar português. Willy, como era mais conhecido, desembarcou em Recife em 12 de setembro de 1953 e logo arranjou emprego em um frigorífico. Dessa forma, teve a documentação de permanência no país regularizada e mandou buscar a família.

Com a estabilidade, a sua esposa e os três filhos, Renate, Helga e Viktor, embarcaram para uma viagem de doze dias rumo ao Brasil. “Foi um recomeço difí­cil para os Steinmüller na capital pernambucana, sobretudo por­que sua esposa não se adaptava ao calor dos trópicos, até que ele ouviu falar de Campina Grande, cidade em desenvolvimento, de clima mais ameno, que oferecia oportunidades para negócios. 

Então, com a indenização do frigorífico onde trabalhava, ele resolveu ousar e mudou-se para Campina Grande com os filhos e a esposa”, relata a professora e também membro do IHCG Ida Steinmüller, a quarta filha dessa família, já com seu nascimento registrado em Campina Grande após a mudança de endereço.

Perspicácia para manter o negócio e atrair os clientes

Os Steinmüller se estabelece­ram na cidade paraibana em 1954 e Wilhelm decidiu continuar atuan­do na mesma área em que traba­lhava na capital pernambucana, começando um negócio de con­servas e frios. Com seu jeito caris­mático, logo fez amizades e conse­guiu empréstimo junto ao Banco do Nordeste para adquirir os pri­meiros maquinários e gerir o em­preendimento. “Em um prédio no Centro da cidade, ele iniciou sua fabricação de salsicha, lingui­ça, mortadela, salame e presunto, que produzia por meio quase ar­tesanal e, em memória à sua terra, deu ao estabelecimento o nome de Salsicharia Vienense. Mas o negó­cio não prosperava porque os pro­dutos embutidos não faziam parte dos hábitos alimentares dos cam­pinenses”, conta Ida.

Ela explica que uma das carac­terísticas do pai era a perspicácia e não aceitou o fato de ter apostado todas suas esperanças em um ne­gócio para não prosperar. Confor­me suas lembranças, a professora ressalta que ele passou a obser­var os costu­mes do povo campinense, conversou com alguns, recebeu conselhos, e percebeu que as pes­soas gosta­vam mesmo era de beber. “Ele foi en­tão a Reci­fe, comprou um barril de chopp, reor­ganizou o ambiente com mesas e cadeiras e no dia 12 de novembro de 1955 inaugurou a primeira cho­peria da cidade, o Chopp do Ale­mão”, destaca.

A choperia recebeu esse nome porque Willy era tido na cidade como um alemão, visto que os campinenses não sabiam bem di­ferenciar um austríaco de um ale­mão. Assim, a família se estabele­ceu em definitivo na cidade onde nasceram mais seis filhos: a pro­fessora Ida e seus irmãos Otto, Ro­berto, Rudolf, Elisabeth e Franz.

“Willy foi genial, pois seu ob­jetivo de transformar a salsicha­ria em lugar também de encontros alegres para consumo de chopp ti­nha a estratagema de habituar os campinenses a saborear seus em­butidos, que entravam a pretexto de aperitivo. De chapéu de feltro com uma peninha verde, típico de tirolês, ele mesmo servia o chopp com espuma e em canecas de vi­dro e seu negócio era semelhante as tabernas, com arcos e tijolinhos à mostra, gerando um ambiente da tradicional cultura dos povos germânicos em Campina Gran­de”, ressalta.

A novidade logo cativou os boêmios e a choperia virou point da cidade. Ele morreu em 1966, mas o negócio ficou na família e até hoje o Chopp do Alemão per­manece em funcionamento no Centro de Campina Grande.


*Matéria publicada originalmente com o título "Terra de Forasteiros", na edição impressa do Jornal A União, de 03 de setembro de 2023.

sábado, 8 de julho de 2023

A MEMÓRIA SOCIAL DAS MARIAS LAVADEIRAS E ENGOMADEIRAS DO JEREMIAS

 


Sim, era comum serem vistas lavadeiras e engomadeiras de roupas até nas calçadas das frentes das casas nos idos de 1980 no bairro do Jeremias em Campina Grande, Paraíba. Nessa época, o governador era Tarcísio de Miranda Burity e Ronaldo Cunha Lima vencia as eleições de 1982 como o prefeito mais bem votado daquele pleito.

O bairro, situado na zona norte da cidade, limite entre os bairros da Palmeira, Monte Santo e Araxá, era formado em sua maioria por famílias de baixa renda, gente muito simples e pobre, prevalecendo o analfabetismo e a desqualificação profissional. 

Em tempos de chuvas, era possível ver verdadeiras cachoeiras que deslizavam ladeiras abaixo com acúmulos de lamas que desaguavam no bueiro na parte de baixo do Jeremias, herança dos governos anteriores. Enivaldo Ribeiro, prefeito anterior, ainda fez uma enorme escadaria de cima a baixo, mas a estrutura foi levada por completo no início do inverno.

Naquele instante de tempo, o Jeremias acumulava homens e mulheres trabalhadoras envolvendo todas as ocupações tradicionais que podiam render algum dinheiro para a feira do mês. Nesse ponto, o ônibus da Cabral era lotado aos sábados de gente dividindo espaço com suas cestas vindas da Feira Central. 

As ocupações eram diversas. Pedreiros, ajudantes, pintores, oficineiros, chapeados (homens que descarregavam cargas de caminhões nos armazéns), mecânicos, costureiras, cozinheiras, empregadas domésticas (hoje, designadas como cuidadoras, secretárias do lar), vigias, parteiras, vendedores, prestanistas, padeiros, carvoeiros, comerciantes e assim por diante. 

Mas dentre todas essas, destacavam-se a de lavadeira e engomadeira de roupas. Mulheres que ajudavam a renda da família trabalhando em casas de gente grã-fina, geralmente em distâncias que davam para ser percorridas diariamente a pé como o bairro do Monte Santo e o Alto Branco.

Essas mulheres costumavam ajustar o ganho por semana ou quinzenal. Elas pegavam um lençol e faziam uma grande trouxa de roupas que traziam com a ajuda de uma rodilha de cabeça para equilibrar o fardo. Uma vez em casa, esbaforida, descansava para preparar o almoço, e depois, começar no tanque improvisado no quintal, onde a roupa trazida já aguardava.

Era utilizado um aditivo para embranquecer determinadas peças, chamado de anil. Um quadradinho azul que servia também para tornar mais coloridas as roupas de estampa e cores específicas.

Depois de lavadas, as roupas eram colocadas, umas para quarar e outras para enxugar nos varais que davam voltas no quintal e na frente das casas. Tudo bem feito, com modéstia e zelo. 

Depois que todas as roupas estavam enxutas. Eram colocadas num cesto. Dai, começava outro processo: o de engomar. Uma bacia pequena com água e um pouco de goma era esperada ao canto da mesa. Lá fora, no quintal, no fogareiro de cimento, o fogo já com uma quantidade de carvão em brasas, pronto para abastecer o reservatório do ferro de engomar. Tratava-se de uma peça rudimentar, que se abria para acomodar as brasas de carvão. 

Com um pequeno lenço, com a delicadeza de gestos, a mulher ia trabalhando peça por peça, dando a devida atenção a cada detalhe e organizando uma após outra, bem dispostas, engomadas e cheirosas o que iria formar envolto no lençol o todo completo de seu trabalho.

Havia, inescapavelmente, os dramas de histórias tristes envolvendo mulheres que viviam com homens alcoólatras e violentos. Desses que sempre estavam recebendo a visita punitiva do comissário de polícia do bairro. Eram vidas amarguradas que trabalhavam muitas vezes para garantir o sustento da família. Mulheres sofridas, de semblantes decaídos, marcados pelos pesares da vida, mas sempre determinadas em suas ocupações.

E assim a lida se firmava ao longo dos anos com elas trazendo seus fardos, rua a cima, rua abaixo, em passos firmes e feições silentes. 

João B Nunes

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

UM CONVITE À REFLEXÃO


Muito horando em contribuir mais uma vez como compartilhador de saberes tão oportunos como a temática abordada. Grato a equipe gestora e todos os professores participantes!

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

TREINAMENTO DE PESSOAL DE CAMPO - ELEIÇÕES 2020


O trabalho na majoritária me colocou em contato com candidatos a vereador de Campina Grande-PB, e dentro de cronograma apertado tive a oportunidade de ministrar treinamento de pessoal de campo seguindo o seguinte plano de curso breve: 1) Medidas Sanitárias frente aos protocolos de prevenção a convid-19; 2) Limites prudenciais legais (ilícitos eleitorais, fundamentos legais da propaganda eleitoral e Lei das Inelegibilidades - Condutas vedadas). 

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Memorias do Jeremias



Eu devia ter seis para sete anos e morava na segunda casa emparelhada que vazia esquina na rua São Cosme com a a Santo Agostinho, era a parte alta do bairro. Éramos sete. Papai, trabalhava numa oficina que ficava às margens do Açude Velho como lanterneiro. Ele era bom no que fazia: recuperava lataria de carro amaçado e soldava no maçarico com cilindro alimentado por pedras de carboreto. 

Mamãe trabalhava como merendeira no bairro do Alto Branco num grupo escolar. Depois passou a trabalhar no Grupo Padre Emídio Viana Correia no próprio, a escola ficava na parte baixa. Meu irmão Paulo era o mais velho. Ele sofria do que só muito depois viemos a saber: autista num grau bastante acentuado. Minha irmã Eliane nasceu com Síndrome de Down com retardo mental expressivo. E meus dois irmãos gêmeos Isaías e Isaac, em grau decrescente de idades, formavam a família. 

Não tínhamos televisão, apenas um rádio tão antigo que funcionava com válvulas que acendiam por dentro e o programa policial 'Dramas da Cidade' com o apresentador Clóvis de Melo sempre fazia menção de fatos que envolvia alguém do bairro. A gente sempre ouvia na hora do almoço.

Frequentávamos a igreja da Assembleia de Deus que era em frente da casa onde morávamos. 

A rua tinha uma feição irregular marcada por acúmulos de matos esparsos seguindo a linha de esgotos enegrecidos que corriam a céu aberto. A situação ficava mais agravada quando começava o período das chuvas. 

Com a lama barrenta escorregadia era frequente ver um pobre bêbado que tinha uma deformação nos pés e por isso andava com dificuldades, Marcolino - Pé de Quenga, vivia caindo aqui e acolá, quando saia da mercearia de Seu Gilberto e Dona Marizete (Estes, tinham um casal de filhos, brancos meio agalegados, que se casaram com gente da Igreja Universal e foram ser obreiros), com uma garrafa de cachaça na mão, gritando e dizendo impropérios e amaldiçoando as pessoas que de suas casas ficavam se escondendo e chamando-o pelo seu apelido. 

Outra criatura que dava dó era Salambaia. Ela tinha problemas mentais e era alcoólatra. Magra, cabelo do tipo power black, às vezes com roupas rasgadas e com as partes íntimas a mostra, ela vagava rua acima rua abaixo, deixando as crianças amedrontadas. 

A casa que formava um conjunto com a outra, de propriedade de Seu Meireles, um velho rico que morava numa casa bonita na rua Quintino Bocaiuva, no sentido quartel do Exército/Presídio do Monte Santo, tinha um portão de acesso comum, uma escadaria de três degraus que dava para a rua São Cosme. Portas frente com frente. Um pequeno espaço que separava as duas formando uma área onde tinha plantas ornamentais bem cuidadas por mamãe e pela vizinha, cada qual em seus limites.

Do lado esquerdo havia um terreno com algumas bananeiras, parecendo ser o quintal de um senhor que conhecíamos apenas de vista. Ele tinha um filho que sempre o acompanhava para o trabalho, uma loja de revestimento de bancos de automóveis. Parecia ser um homem respeitável do tipo de casa-para-o-trabalho. O filho desde cedo era envolvido com o movimento satanista do bairro. 

Ele era meio estranho e com tendências ao isolamento. Descobri seu envolvimento mais tarde ao receber uma carta de São Paulo dirigida à ele com um teor doutrinador e umas fitas de evocação ao demônio.

Esse rapaz tinha três irmãs. Cabelos pretos e longos, brancas. Lembro-me que certa vez, estávamos numa espécie de janelinha que dava para o quintal deles, interagindo com elas, e a mais velha pediu para que mostrássemos as genitálias e logo após elas mostrariam a delas. 

Movido pela curiosidade não necessariamente ligada à libido, após a demonstração de nossa parte, a mais velha mostrou rapidamente a dela. Deu risadas pela descoberta pueril e foi-se embora com as outras. 

Tudo que visualizei com um olhar investigador de criança foi por entre a saia jeans com o fleche semiaberto, um amontoado coberto com cabelos pretos escuros, e elas se foram para nunca mais trocar esse tipo de informação visual.

Vivemos nessa casa alugada por dez anos, por dentro tinha uma sala pouco espaçosa, ao lado do quarto do casal, e mais dois quartos, um corredor que dava para a cozinha e no final um banheiro. O quintal era pequeno com uma pequena porta que saia para a parte externa do espaço comum  que dava para o portão.

Quem morava na outra casa que ficava de esquina, emparelhada com a nossa era Seu Antonio e Dona Celina. Era um senhor calmo, de bigode barbeado fino, calvo, estatura de 1,65 mais ou menos. Eles pardos e filhos negros. Um filho mais velho e casado que sempre almoça por lá, era representante comercial do Café Aurora e dirigia uma caminhoneta baú com os produtos Aurora. A moça, de idade intermediária era Corrinha, ou Côla. Uma negra de cabelo encaracolado, sem namorado e com andar um pouco estranho, sisuda, observadora. O rapaz, negro de cabelo liso, também, com essas mesmas feições. 

Era uma família aparentemente normal. Se diziam religiosos, mas nós não identificamos traço algum de que eles fossem praticantes de algum credo. 

Eles gostavam de churrascos, cervejas, não demonstravam ter dificuldades financeiras como meus pais. Tinham televisão preto e branco com uma tela de plástico que acoplava ao aparelho e a imagem ficava parecendo colorida.

Talvez eles não se sentissem muito a vontade com a gente porque eramos crianças barulhentas e costumavam subir no tanque de água acima do banheiro e tomávamos banho como se estive numa piscina. Claro, sem o conhecimento nem consentimento de nossos pais.

Ao cabo dos dez anos, Seu Meireles, dono das duas casas, pôs fim ao aluguel pedindo que meus pais procurassem outra casa para alugar.

Nossos vizinhos permaneceram na mesma casa de esquina. Depois de uns três ou quatro anos, estávamos saindo da mesma igreja defronte as casas, quando vimos uma viatura da polícia cumprindo um mandada de prisão naquela casa. 

Não sabemos o que aconteceu, mas um soldado saiu do interior da casa conduzindo algemado o pacato Seu Antônio. E Dona Celina com os demais membros da família em polvorosa diante daquela situação.

João Batista Nunes
Acadêmico de Direito/Formado em Psicologia.


____________
Leia Mais...
Ritinha Parteira
https://jbnunes-vitrine.blogspot.com/2014/03/ritinha-parteira.html

A Difusora de Laura
https://jbnunes-vitrine.blogspot.com/2011/11/difusora-de-laura.html

quarta-feira, 17 de julho de 2019

A CHEGADA DO CIRCO NO JEREMIAS



O Bairro do Jeremias em Campina Grande possuía, à época, uma população de quase 11 mil habitantes, ruas íngremes, ladeiras esburacadas, paisagens monocromáticas, mães e meninos barrigudos a observar o acontecer de cada dia, a prestanista Dona Severina passando com suas bacias, panelas de pressão, jogos de lenções e penicos de plástico, tudo em suáveis prestações no cartão (literalmente um cartão róseo de papelão onde se notava a quitação das quinzenas), a carvoaria de Seu Pretim dava uma ideia que o tempo tinha se esquecido de passar naquela região da cidade. 

A missa dos domingos, as novenas, os cultos na igreja dos crentes, a difusora de Laura de Chico Venâncio e o jogo no campo do Galícia era o que se tinha como agenda familiar. Se bem, que em certos dias, o arrasta pé do forró da SAB (Sociedade de Amigos do Bairro) era o máximo. 
Mas aqui e acolá uma moça era desencaminhada por algum sujeito sem compromisso, o forró acabava com um corre-corre, o fi de Seu Chico Cangula enfiou a faca no buxo de um cabra que se estrebuchava no chão do salão. No final, não tinha quem dissesse quem foi ou quem não foi o autor do crime.

Para a molecada a coisa mudava de feição sempre que aparecia um parque de diversão com aquelas mesmas opções de sempre sendo que parecia ser uma novidade. Seu Jorge da Palmeira, pai de Miguel tinha um. Com tiro ao alvo, com chumbinhos que ninguém acertava, com o lança argolas com direito a vários brindes, o carrossel com os cavalinhos pintados de cores diferentes e a roda gigante que dava aquele friozão na barriga cada vez que parava no alto. Para quem ia prevenido no bolso, tinha a barraca da maçã do amor (aquelas caramelizadas), a barraca das roletas de cana, a barraca da batatinha frita, feita com aquele óleo reutilizado de tantas e tantas outras frituras, e o homem do carrinho de pipoca. 

Dava para se ver que poucas pessoas com seus filhos realmente usufruíam daquelas opções de lazer e entretenimento. Não importava, assim mesmo o parque se enchia de gente miúda achando o máximo simplesmente em estar transitando por aquele espaço tão colorido e iluminado por aquelas fios intercalando as lâmpadas que ao longe dava a ideia de um lugar aonde a diversão não teria fim. 

Ali era o lugar onde não apenas a gurizada deixava fruir alegrias como os próprios adultos, pais, mães e tios não se continham e a pretexto de acompanharem as crianças esbanjavam emoções há muito represadas.
Quando menos se dava fé, o parque já não estava lá, apenas o espaço vazio dentro daquela imagem que compunha a feirinha do bairro.

O bairro era outra vez sacudido com as trombetas difusoras da velha Chevrolet anunciadas, na voz do palhaço, que o Circo acabara de chegar para alegria de todas as crianças. Confeitos arremessados ao ar para o atropelo alvoraçado de um grupo de crianças que vinham correndo atrás do carro. eram o mote da chamada às atrações “inéditas” prometidas para a “grande estreia!!!”

Enquanto o palhaço no calor intenso da manhã ensolarada descia e subia as ladeiras do bairro, o fumaceiro do cano de escape de um motor já vencido pelo desgaste criava uma espécie de névoa tóxica que se misturava as cabeças da gurizada teimosa em seguir aquele carro.

O Circo era aquela estrutura mediana, coberta com uma lona amarela e azul, com algumas estrelas brancas espalhadas no alto. Rodeado por grades de ferro que davam para duas bilheterias borboletas giratórias, um ônibus onde se alojavam os artistas e demais trabalhadores, dois carros de pequeno porte, um caminhão já sofrido, e o espetacular ônibus da “Monga”, a mulher que se transformava em gorila. 

Tudo aquilo gerava uma atmosfera de mistério. A pintura do ônibus apresentava uma mulher mal desenhada, de biquíni, e perto dela a imagem de um gorila com ares de violenta ameaça. E um letreiro bem destacado: “Monga”, no espaço a baixo, em letras menores, a “Mulher Gorila.” 

Muita gente que não podia pagar o ingresso se assustava somente com os grunhidos emitidos naquele ônibus do medo. As crianças chegavam a ter pesadelos com aquelas imagens que se formavam na mente. No clímax do espetáculo, o Gorila que agora já não tinha mais nenhuma mínima expressão do humano que ainda pouca esboçava um rosto feminino, sacodia a grade que o separava do pequeno público e tentava se sair furioso em direção as pessoas, mais um ou dois sustos uma cortina preta de uma lado e do outro vermelha fechava a parte que separava os dois ambientes dentro do velho ônibus.

Na parte do picadeiro, dentro do circo propriamente, as brincadeiras de palhaços tomava conta. Eram números simplórios e repetitivos que arrancavam sorrisos e aplausos da plateia, geralmente com atuações de situações atrapalhadas, revides, deita e rola, performances de gesticulações e malabarismos davam o tom da parte inicial da noite de estreia. 

Depois vinha o mágico com seus truques mirabolantes, nada de mulher que era cerrada ou que desaparecia, nem coelho na cartola. Era tudo muito simples como retirar das mangas da camisa uma série de lenços coloridos, uma pequena exibição pirotécnica restrita ao espaço de uma pequena bancada, para fazer sumir um objeto e convidar alguém da plateia (já treinado para tal, sem ninguém saber, é claro!) e esse mesmo objeto aparecer em seu bolso.

O trapézio era um dos pontos máximos. Uma mulher de biquíni revestido com lantejoulas brilhantes executava algumas manobras que iam atingindo um grau de dificuldade e prendia os olhares da plateia nas piruetas que dava. Em sequencia, a corda bamba e a perícia de uma artista com seu bastão, indo e vindo encenando ao longo do trajeto algum movimento que desse a ideia de que iria cair naquele momento.

Não havia animais, como poderia ter pelo menos um leão aposentado daqueles que são vendidos dos circos de grande porte. No caso desses circos que vão de bairro a bairro, o custo de manutenção comprometeria a subsistência dos trabalhadores. Afinal, ser artista circense em dias como aqueles não era fácil nem rendia dinheiro. Os que se dão a promover o sorriso de uma plateia geralmente tende a percorrer um caminho de desafios permeado muitas vezes de tristezas e dissabores.

Nos últimos dias do circo no bairro, aquele mesmo carro passava chamando a população para a despedida do “grande circo” e por isso os ingressos custariam a metade do preço normal, ninguém podia faltar! Desta vez nem tinha o lançar dos bombons muito menos o alvoroço das crianças, apenas os gritos do anunciador.

As últimas noites eram lotadas, o que muitos não sabiam era que as apresentações também eram pela metade. Contudo, o prazer de viver um ambiente diferente de entretenimento para tantos expectadores valia a pena.

Por João B Nunes
Formado em psicologia e acadêmico de direito.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

DONA JARINA


Os idos eram os longínquos anos 1980. O Bairro do Jeremias nasceu já no estigma da dependência. Há muito tempo, passava o velho Jeremias cobrando uma espécie de taxa pelo uso do terreno no qual estavam construídas as casas de um misto de gente, maioria trabalhadora, metidas nas múltiplas formas de subemprego. Essas visitas que ocorriam aos domingos pela manhã ao final de cada mês foram levadas adiante pela viúva muito depois da morte do velho.

Ali na XV de Novembro, uma ladeira acentuada, a Rua Conde de Monte Cristo (chamada pelos populares simplesmente de "A Conde Monte Cristo) representava um dos acessos ao bairro. E no pé da ladeira morava Dona Jarina.

Um negra com cabelos que já apontavam o avançar da idade. Sem qualquer escolaridade dedicou sua vida a trabalhar como babá, lavadeira, arrumadora das casas das madames do Alto Branco, um bairro onde morava a classe mais representativa das boas posses de Campina Grande.  

Jarina inventou de entrar na lei dos crentes e passou a frequentar uma igreja da Assembleia de Deus, mais acima, na Rua São Cosme. 

A nega Jarina era uma criatura de coração largo. Obesa, pés inchados, sempre reclamando de dores nos quartos. Morava em casa própria. Uma casinha  no sopé da ladeira, dessas de cuminheira baixa. Um portão pequeno  e apenas um  passo adentro separava a rua  da porta. Na sala,  hábitos simples. Um tamborete de madeira com tinta desgastada. Uma cortina de chita com aquelas rosas estampadas. Um retrato antigo de um  casal que já se foi. 

Um  rádio ABC de revestimento plástico,  e com o seletor quebrado, mas a nega asseverava que era nele que ela não perdia o programa Dramas da Cidade com Clóvis de Melo. Muito do que se ouvia, tinha haver com  fatos aqui e ali envolvendo a pobre gente do Jeremias.

Das quenturas próprias das mulheres sem ômi e a desoladora solidão, Dona Jarina não teve outra alternativa senão arranjar um tal de João, vigia de Grupo Escolar, que tinha um filho meio abestado. 

No início tudo foi uma maravilha só. João se mudou para a casa de Dona Jarina. Ele andava com um revolver calibre 22 e um cacetete, desses com um cordão que envolvia o pulso. 

Para falar de um tipo étnico, João era a perfeita mistura de negro mais índio, mais sertanejo, mais caririzeiro, uma evolução de guenzo com o coice da jumenta. Era feio, em síntese. Mas isso não define o caráter de ninguém! Poderia ser um exemplar trabalhador, cumpridor de seus deveres e um excelente companheiro para sua nega, nesse amor recém arranjado.

Quando a energia da libido caiu na rotina do fogo morto, João logo passou de mal educado para ríspido, gritalhão. Passou a se comunicar através de bofetadas e ponta-pés. Pobre Jarina! Recebia coronhadas na cabeça. Aparecia na igreja aos prantos, narrando as grosserias de João.

A vida relativamente tranquila de Dona Jarina foi se tornando um verdadeiro inferno até que um dia a vizinhança trouxe a notícia: acararam de matar João na base do tiro e da facada, ali mesmo, numa distância de uns 200 metros.

Ninguém sabe se aquele choro da viúva era de tristeza pela cena trágica (de longe, o corpo de um miserável estendido no chão) ou se lá no fundo era a carta de alforria que acenava novos ares de liberdade de um jugo opressor.

O tempo passou, Dona Jarina já velha e dorida dos quartos e aquele lenço que sempre trazia na cabeça e a solidão se somaram para lhe afrouxar alguns parafusos do juízo. A última cena era Jarina indo em direção onde morava galego Vavá, cantarolando em gesto de marcha, no meio da chuva: "marcha soldado cabeça de papel quem não marchar direito vai preso no quartel..."

Autor
João Batista Nunes 



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

BAIRRO DO JEREMIAS: UM COMÍCIO NO PÉ DA LADEIRA


O Bairro do Jeremias em Campina Grande, interior do Estado da Paraíba, por volta do ano de 1980, era ao lado dos bairros de José Pinheiro, Centenário e Liberdade palcos tradicionais dos comícios políticos. Dois locais eram estratégicos. Tinha candidato que preferia fazer seu comício no alto do Jeremias. No começo da Rua Santo Agostinho, ou Simão Bolivar, esquina com a XV de Novembro (principal acesso Centro/Bairro, vindo pelo Bairro da Palmeira), ou no baixo Jeremias. Neste caso, o caminhão ficava na esquina da Rua Francisco Borges da Costa (Rua do Homem Mocego) com a Simão Bolivar, mirando a expansão da Feirinha do Jeremias. O som podia ecoar até à Vila dos Teimosos, de modo que,  quem estivesse hospitalizado no Hospital da FAP, poderia ouvir perfeitamente toda a programação. 

Nessa última opção de local, o caminhão ficava num declive, ligeiramente inclinado, no pé da ladeira.

A gente sofrida composta de trabalhadores assalariados na sua maioria, estudantes, idosos, mulheres e crianças se concentravam na Feirinha esperando a chegada dos candidatos. Não importava se, de repente, a noite fosse tomada por uma leve neblina, e o chuvisco reforçasse aquele friozinho de batida de dentes. Mesmo assim o povo não arredava o pé, do pé da ladeira onde geralmente ficava o caminhão dos candidatos.

Cada candidato tinha seu representante no bairro. Ivan Cabral, um antigo líder comunitário durante muito tempo apoiou Zé Maranhão. Depois, passou a apoiar Ronaldo Cunha Lima. Depois passou a representar Walter Brito. Celinha assume posição de líder e passa a apoiar Ronaldo Cunha Lima. 

Enivaldo Ribeiro, apoiado por Laura de Chico Venâncio. Doutor Damião, por outro comunitário com seu potencial mobilizador  e assim por diante.

O grande atrativo eram os shows com artistas do momento ou da nostalgia romântica. Cantores como João Gonçalves com suas músicas de duplo sentido, Marinêz e os Três do Nordeste com o autêntico forró representavam verdadeiras festas ao ar livre. De início, cantores e bandas de pequena monta, depois, lá por volta das 22h começavam os discursos dos candidatos. Depois, começava o arrasta pé que se estendia das 23h às 0 horas. E o povo lá, firme na diversão. No meio desse fuá, as crianças faziam a festa na disputa por quem juntava mais santinho de candidatos. Eles diziam as mocinhas que distribuiam entre o povo, "tem santinho, aí?"  

O povão gostava também de ouvir os discursos inflamados dos candidatos. Tinha sempre um bêbado ou uma bêbada, ou os dois abraçados dançando juntos e fazendo prezepadas lá na frente do caminhão ou do trio elétrico de Walter Brito. 

Eles gostavam de ouvir Enivaldo Ribeiro, Dr. Damião, Zé Maranhão com aquela tranquilidade que é a sua marca, garantindo que iria lutar pelo "ricurso" necessário para mais saúde, moradia, segurança e tudo mais. 

Entretanto, a emoção era generalizada quando Ronaldo começava a discursar, intercalando aqui e ali com a prosa e a rima. Tinha gente que gritava e aplaudia, as mais atiradas esbravejavam: "Ronaldo, coisa linda!!!"

O resultado desses comícios quase sempre surtia seus efeitos. Dos prosélitos que acorriam para essas agromerações muitos se tornaram grandes defensores das figuras mais emblemáticas da política. Com tais não tinha negociação. O voto era certo em cada pleito, por décadas.


João B Nunes
Formado em Psicologia e Acadêmico de Direito

Memoria Social

1) A Difusora de Laura 
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2011/11/difusora-de-laura.html

2) Ritinha Parteira
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2014/03/ritinha-parteira.html

3) O Cego Zé Maurício
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2013/02/o-cego-ze-mauricio.html

4) A Bodega de Seu Garrincha
http://jbnunes-vitrine.blogspot.com.br/2012/01/bodega-de-seu-garrincha.html

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

SOLILÓQUIO

Essa é minha sala. O oitavo ano do primeiro grau no Colégio Anésio Leão, o Estadual da Palmeira (Campina Grande, Paraíba). Próximo à mezinha da professora é aonde me assento todos os dias. Ao meu lado Valéria (filha de um dono de mercearia no bairro do Monte Santo). Uma menina mais alta que eu, magra, esguia... Estudiosa. Ela costumava falar com uma força de expressão que exigia olhos nos olhos. Para mim era tarefa penosa já que fitando seu rosto vez por outra sua saliva expelida dos lábios vinha direto para os meus olhos.

Lá no fundão tá a galera bagunceira. Eu não os condeno. Já fui um deles por algum tempo, do tipo engraçadinho. Eles gostavam de mim. Admiravam meu talento de desenhista. Uns rabiscos que fazia e, vez por outra, deixava na redação do Diário da Borborema para ser publicado. Às vezes ficavam me perguntando o que havia de errado comigo. Por que eu não conseguia namorar uma daquelas moças como os carinhas do fundão as conquistavam tão facilmente. Mas vamos deixar a conversa para depois da aula, porque já vem a professora Neuzinha, “de Geografia Geral”.

Neuzinha aparentava ter seus 42 anos, magra, aproximadamente 1,70m de altura. Voz rouca, agravada pelo vício do cigarro (mas no perímetro do colégio, nunca a vi fumar. Ética). Severa. Fazia a exposição da aula com uma precisão própria dos mestres. Exigente. “Um aluno meu só passa de ano de mostrar competência.” Essa palavra ainda não tinha ouvido com essa facilidade sonora. Agora já familiarizado, concluo que Neuzinha era a própria competência. Morava só, num apartamento na Rua Barão do Abiauí, no Centro, onde também era sindica, com todos os rigores que o cargo impõe. Sua roupa, eu e a maioria da classe sempre achávamos extravagantes. Cores fortes, uso e abuso de babados, completando o manequim, uma maquiagem pesada numa tentativa inútil de esconder os traços bem acentuados de seu rosto.

 Neuzinha era um misto de dureza e ternura. Interrompia a aula muitas vezes para falar sobre sua vida sofrida no Sertão. Falava do pai, reticenciosa. Demonstrava orgulho da bravura do sertanejo do naipe de “meu pai” – dizia ele, com uma lágrima rebrilhando nos olhos.

Dentre os livros que a gente recebia do Governo do Estado (Excelentes livros), estava o de Geografia Geral. Sistemática, Neuzinha sabia dividi-lo bem certinho para o ano letivo.

Eu ficava em casa folheando apenas para ver as imagens ilustrativas. Quando menos me dava conta, já havia lido os primeiros capítulos. Os dias foram passando, os prazos se cumprindo, e a primeira e segunda prova revelou que a turma não estava em sintonia com Neuzinha. A maioria da classe estava com o rendimento abaixo das expectativas da professora. “Bruxa! Pavão! Magrela!” Murmuravam os colegas pelos corredores, sem nunca ousar se dirigir à professora.

Qualquer apelo dos colegas era em vão. Neuzinha ministrava uma aula com toda a maestria e experiência de seus anos de sala de aula e não aceitava flexibilizar o nível do ensino.
O resultado foi que a classe inteira foi para recuperação! E Neuzinha tratou de desenganar quem já estivesse perdido: não adianta chorar! Eu só passo quem estuda e mostra o que aprendeu na prova, e pronto!!!
O assunto da prova final era todo o Continente Africano, com seus aspectos políticos, sociais, culturais, e, claro, geográficos. Coincidentemente eu e a colega Valéria fomos para a final por conta de cinco décimos!  E tínhamos apenas três dias para estudar todo o assunto. Saímos do Colégio indignados. Uma atmosfera pesada atingiu em cheio o pessoal do fundão. Tinha gente que nem atingindo a nota máxima poderia passar de ano. A maior parte daquelas moças e rapazes tão festeiros parou com a algazarra e pesaram a encarar essa nova realidade.

No caminho de casa, pude notar que Valéria não conseguia conter as lágrimas e, em soluços dizia para mim (desta vez quase que cuspindo nos meus olhos) que iria mostrar a “essa professora” o quanto ela estava enganada e que não éramos cachorros para ser tratado de forma tão ríspida!

-João! Eu vou... Eu provar pra essa professora... Vou começar a estudar assim que chegar em casa!
-Eu também vou estudar seriamente, você vai ver! Respondi tentando comungar com aquele sentimento de “perda” que parecia irreparável para os brios da colega.

Separamos-nos como de costume na rua que dava para casa e ela se foi atordoada com seus pensamentos em brasa.

Sexta, sábado, domingo, segunda à tarde, já estávamos de volta à cena da prova. Minhas mãos suadas de nervoso. Dedos tamborilando sobre a carteira. A professora Neuzinha, com um lenço multicolorido amarrado naqueles cabelos cacheados passou por mim distribuindo a prova. A hora da verdade – pensei.

Os colegas foram saindo um por um e depositando suas provas sob o olhar severo da professora que observava atentamente a turma do fundão. Valéria também saiu. O aspecto de seu semblante era como um êxtase. Parecia envolvida numa alegria que não dava para esconder um sorriso de satisfação.

Quando eu terminei a prova, entreguei a professora e ao sai no corredor já não havia mais nenhum colega. Retornei para casa já sentindo a falta do corre-corre diário das aulas, da presença de cada um de minha turma.

Na quinta-feira à tarde, vim ao colégio para ver o resultado final. Percebi que meus colegas começavam a chegar e se juntar com os que já por lá estavam. Dirigi-me para o pátio da escola onde estavam afixadas as folhas com as respectivas turmas. Fui procurando nome por nome e quando me deparai com o meu, suspirei aliviado, escondendo um sorriso de felicidade. Minha vontade era de sair pulando de alegria! Passei de ano!

O tempo também passou, e hoje me vieram essas lembranças. Puxa vida, Valéria se casou, foi ser mãe, abandonou os estudos para nunca mais voltar, pelo menos este pareceu ser o intento do esposo.

A professora Neuzinha nunca mais a vi. Gostaria de poder me encontrar com ela para lhe dar um abraço forte e agradecer-lhe imensamente por tudo! A turma do fundão se fragmentou. Aquelas meninas lindas e atraentes que desejei namorar se envolveram com drogas e  prostituição. Um colega foi morto pela polícia, numa dessas madrugadas tensas de tiroteio no bairro do Jeremias. Outro que ficava admirando meus desenhos, enlouqueceu completamente devido ao uso de variadas drogas. Não chegaram a terminar os estudos do primeiro grau.


Quanto a mim, sou um milagre de Deus.


João Batista Nunes 
Psicólogo, Teólogo e Acadêmico de Direito.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

CRISTIANO LAURITZEN E A CAMPINA DE OUTRORA


























Senhor Ministro[1], Vossa Excelência não se envergonha, como paulista brasileiro, que um estrangeiro, conquanto brasileiro naturalizado, venha de tão longe, do fundo de um lugarejo perdido nos sertões do Brasil, advogar perante o governo do país, a realização de um benefício de suas economias de pequeno comerciante, e ainda tenha o desprazer de arrostar com o desdém manifesto de um órgão do poder público?

A história rica, fértil e interminável de Campina Grande é a saga dos heróis de legendas, dos forasteiros leais que em tempos de outrora defenderam bravamente as melhores causas, lutando nas grandes batalhas em diversos campos e áreas por esta terra que os acolheu. Aqui eu destaco apenas alguns lampejos da vida e trajetória de um forasteiro ilustre, um homem que deixou sua longínqua cidade Jurlândia  na Dinamarca e depois de percorrer todo o Nordeste brasileiro escolhe Campina Grande para ser seu lar pelo resto da vida.

Quais os verdadeiros motivos que o fizeram deixar sua terra natal ainda hoje é uma incógnita. 
O fato é que, em chegando à Campina, Cristiano vindo do Recife onde se dedicava à venda de joias e compra de ouro, instruído, demonstrou que tinha sangue nas veias para lutar pelas melhores causas da Rainha da Borborema, e que mais tarde, o tempo provou, que ele tinha altivez e honra para se sobrepor a política local que, à época, já se mostrava reificada na mediocridade coronelista.

Com efeito, como muito bem destacado por Evaldo Gonçalves de Queiroz, Campina sempre teve o dom de ser uma cidade cosmopolita. Por aqui desfizeram as malas alemães, árabes, libaneses, dinamarqueses, portugueses, franceses, chineses, holandeses, sírios, japoneses, entre tantos outros, e se destacaram no comércio, na educação, saúde, religião e política. Contribuíram, juntamente com as famílias mais tradicionais da terra, para que se tornasse uma cidade destacada dentre as demais do Estado, pela inventividade e visão progressista.

Quem viveu os tempos de outrora em Campina sabia muito bem que este lugar evoluído a partir do ponto de encontro de tropeiros, tinha todos os indicadores para jamais vir a ser uma cidade, de fato. Não tinha o essencial elemento em torno do qual se enraíza as gentes: a água. Nem sequer fontes alternativas que pudesse sinalizar vantagem de se morar. Não existia expectativa senão a transitoriedade do local, nada mais. Porém, Campina nunca se rendeu a limitações por mais sérias que se mostrassem.

Sinval Odorico de Moura, Bacharel Formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Academia de Olinda, Oficial da Imperial Rosa, e Presidente da Província da Paraíba do Norte: Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembleia Legislativa Provincial resolveu, e eu sanciono a Lei seguinte:
Art. Único – A Vila de Campina Grande fica elevada a categoria de cidade, conservando a mesma denominação, e revogadas as disposições em contrário.
Mando, portanto a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da presente Resolução pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém. O Secretário desta Província a faça imprimir, publicar e correr.
Palácio do Governo da Paraíba, em 11 de outubro de 1864. 


Lauritzen, aqui, instalado, constitui família, desenvolveu seu comércio. Competência profissional, inclinação para a vida pública, um gentleman devotado às causas da cidade. Um exemplo de disponibilidade, espírito público, probo em suas ações. É descrito como um abnegado servidor de Campina. Elpídio de Almeida ao dar valiosa contribuição sobre a História de Campina dedicou espaço ao registro do desempenho de Cristiano Lauritzen, fazendo-lhe justiça, assim como tantos outros historiadores fiéis aos fatos mais destacados de sua evolução.
Aos 36 anos, o mancebo se casou com uma das filhas dos homens mais influentes de Campina Grande.  O sogro além de grande comerciante era também importante político, Presidente da Câmara Municipal. 

Conforme exposto por Evaldo Gonçalves, em 1885 recebia das mãos do Juiz Antônio da Trindade Meira Henriques a presidência do Partido Conservador.

Ainda de acordo com Gonçalves, com o advento da República, mereceu do primeiro Presidente, Venâncio Neiva, a confiança da escolha para membro e Presidente do Conselho de Intendência, novo órgão republicano que substituía as antigas Câmaras Municipais e que acumulavam as funções executiva e legislativa, na pessoa de seu Presidente e de dois outros membros.

Esse seu primeiro mandato durou apenas dois anos, ou seja, até 1892, tendo sido destituído pelos liberais campinenses, em face da renúncia do Marechal Deodoro da Fonseca e sua substituição pelo Marechal Floriano Peixoto. O Presidente Venâncio Neiva ficou solidário com o Proclamador da República e, por essa razão, perdeu a Presidência do Estado, levando consigo todos os seus amigos, inclusive Cristiano Lauritzen.

Nesse curto período de dois anos de administração, o campinense Cristiano Lauritzen realizou muito pela cidade. Conseguiu economizar recursos para a construção do prédio, onde iria funcionar o Ginásio Alfredo Dantas; assegurou a compra do relógio da Matriz, hoje Catedral de Campina Grande e fez uma viagem ao Rio de Janeiro para cuidar, junto aos poderes da República, da extensão da linha de ferro até à cidade que governava, como Presidente do Conselho de Intendência. Foi eleito Deputado Estadual constituinte para a elaboração da nossa primeira Constituição Paraibana, ocupando todos os espaços na vida político-administrativa campinense.

Em 1903, com seus próprios recursos pessoais e sem ser detentor de mandatos, viajou ao Rio de Janeiro, em busca de solução para a ferrovia, que deveria ligar Itabaiana à Campina Grande. Conseguiu uma audiência com o então Ministro da Viação da República; surpreendendo a todos com sua sinceridade diante da aparente insensibilidade do Ministro.
Perdão, o Sr. não me compreendeu. O Governo não se descura dos problemas que afetam a economia do país, dentro das possibilidades orçamentárias, mormente se tratando de intercomunicação ferroviária nos Estados, cujas vantagens não teríamos a inépcia de obscurecer. Posso assegurar-lhe que a secretaria, que eu tenho a honra de dirigir é a primeira a reconhecer a utilidade do que o Sr. pleiteia e, como lhe cumpre tomará as iniciativas que preliminarmente se impõem. Da sinceridade dos seus sentimentos e propósitos o Sr. pode voltar seguro à sua terra.

A cena terminou com o forte aperto de mão e palavras de aplausos do General Almeida Barreto, que disse a Cristiano Lauritzen, logo após terem deixado o Gabinete do Ministro: Você falou “rosado” ao General, só assim aquele “penedo” se mexia.”
O Jornal do Comércio, pela mão do jornalista Artur Aquiles, destacou a dedicação de Cristiano à Campina:

Inteligente, arguto, tenaz e abnegado ás próprias ideias, o distinto homem não olha a sacrifícios nem se poupa a incômodos, sempre que é preciso agir em prol do engrandecimento, não diremos de toda a Paraíba, mas da próspera comarca de Campina Grande e, sobreuto, da respectiva cidade onde, há longos anos, firmou residência, constituiu família e radicou-se definitivamente pela aquisição de invejável abastança.
[...] a sua preocupação, porém, nada tinha de comum com a dos políticos que, do partidarismo, só visam aos proventos pessoais; ao contrário, esquecia por vezes, a própria individualidade, para só saber querer e propugnar pelo engrandecimento material e moral de sua nova e pequena pátria, objetivo que o empolgou e empolga-o ainda como uma obsessão irremovível.


Do Dr. Luiz Nunes, Conselheiro, Escritor e Poeta ilustre, tomamos emprestado este depoimento, em versos:

“Fosse a Quinze de Novembro”,
Os ilustres visitantes,
Como amigos de Lauritzen,
Sentiam-se gratificantes
Com a musical visita,
E não passavam por pedantes.

Irineu Jóffily, se sabe,
Um grande historiador,
Jornalista festejado,
Registrou o seu louvor
A Cristiano Lauritzen,
De quem era opositor.

-Nossas felicitações
Vão, sim, para o cidadão
Porque ninguém, como ele,
Compreende a dimensão
E importância dessa obra
Para a nossa região.

-As grandes dificuldades
Por Lauritzen encontradas,
Esforços desenvolvidos,
Esperanças não frustradas
Traduzem o amor à terra,
Canseiras amenizadas.


João Batista Nunes é psicólogo e acadêmico de Direito.



[1] Registro das palavras de Cristiano Lauritzen (in verbis) ao General Glicério, Ministro da Viação. In: Vultos e Fatos da História, de Hortêncio Ribeiro (s/d). A ocasião tratava-se de uma audiência conseguida não facilmente pelo senador Álvaro Machado e os generais José de Almeida Barreto e João Neiva. A certa altura da conversa, Cristiano havia notado que o Ministro pouco lhe dava atenção, e quando teve que participar do diálogo, o fez de forma desinteressada, desaprovando a ideia da extensão do melhoramento da malha ferroviária de Campina (1880), objeto da reunião, como bem destacado pelo emérito historiador Evaldo Gonçalves de Queiroz em Paraíba: Nomes do Século, vol. 12, União, 2000).


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A OFICINA


TEMÍSTOCLES era Temí, dono da oficina de carro que funcionava às margens do Açude Velho na década de 1980. O terreno murado, com duas portas de madeiras recobertas com retalhos de zinco; uma pintura indicando a atividade daquele espaço. Ao lado esquerdo a industria de bebidas Caranguejo. Indo em direção ao Catolé pela Vigário Calixto, tinha-se, vizinho à oficina, uma borracharia. Depois, na esquina, a Mercearia do Galego aonde os trabalhadores daquela redondeza tomavam café e almoçavam. Descendo pela Mercearia, a igreja de Seu Geraldo e Dona Irene, que tinham virado Adventistas do 7º Dia (e que para se distinguir das demais, tinha a designação de "Renovada").  Nos fundos da oficina dava para ver a sede do Jornal Gazeta do Sertão.

Mais para frente, o DTO-Departamento de Transportes e Obras e a Gráfica Municipal. A entrada para o Catolé ficava a Igreja Deus é Amor, do Missionário David Miranda. Mão  e contramão, era preciso muito cuidado com os carros. 

A oficina de Temi era composta pela seguinte equipe: como chefe, o próprio dono, que também era o pintor. Seus filhos, três rapazes entre 15 e 19 anos, dentre os quais Torim, o mais feio. O mecânico Carioca. Figura de pequena estatura, roliço e barbudo; e o lanterneiro Mestre Lula, um velho que já trabalha com Temi na Capital e mudara-se com a família para Campina e se reencontrara com o amigo. 

O velho Lula, que durante muito tempo fumava e bebia, tinha entrado para a lei dos crentes e agora, nas batidas de seu martelo se alternava a pregar e a cantar. 

Na oficina não parava de chegar carros de todo modelo. Fusca, Variante, Kombi, enfim. Logo que se adentrava ao recinto, a pessoa se deparava com dois cilindros de oxigênio e uma mangueira do maçarico acoplada. Uma banca com várias ferramentas espalhadas, alicates, chaves 9/16, talhadeiras, martelos e tantas outras com suas devidas especificidades. 

Um álbum de cores da Coral pendurado por um barbante num prego da parede disputava o espaço com um poster de uma mulher nua afixado já há algum tempo. A pistola de tinta perto da lata de dissolvente indicava que mais um carro estava pronto para ser pintado. Na quina da parede, perto do banheiro velho, ficava os tornos onde se pendurava ou as roupas comuns ou os macacões rotos e embotados de graxa preta próprio do ambiente. Bem na entrada ficava o macaco hidráulico, e mas para trás, o torno de ferro e a marreta.

Temi era um sujeito branco, de compleição forte, cara sisuda, de poucas palavras, mas competente. Logo que acertava com o cliente, o trabalho começava. Lixava-se as partes enferrujadas; desparafusava-se as portas dianteira e traseira. Ele vinha inspecionava. Preparava a massa de Blacksouda e dava para Torim espalhar sobre a superfície que havia de ser pintada. No outro dia, outro já preparava-se com a lixa para lixá-la e deixar harmonicamente fina e pronta para receber a pintura.

Era raro não ter serviços. Muitas vezes era preciso fazer serão. Assim o bate-bate do martelo na lataria de uma carro, o vai e vem da lixa noutro, e o maçarico fumegante em uma peça fazia a noite se prolongar, sob o reflexo de uma lâmpada de mercúrio das grandes iluminando o lugar.

No almoço cada um que se arranjasse com sua marmita. Aquele tradicional feijão com cuscuz, arroz branquinho, verdura e ovos estrelados e um ponche de ki-suco. Era assim o canto de trabalho que já não existe mais.


sábado, 18 de outubro de 2014

ZEZIM


Zezim foi um galego, meio loiro, que morava no Bairro do Jeremias, no alto da Rua São Gonçalo em época não muito distante da nossa. Seus pais passavam o dia consumindo cachaça na bodega mais próxima o que ganhavam durante à noite. Eram catadores de lixo. A casa deles era bastante precária, a começar pelo acesso, uma escadaria íngreme, de barro escorregadio. 

Era uma vida dura, cheia de lamúria e de soluços pelos vãos da casa, suspiros das lembranças de outrora no Rio de Janeiro, donde a mãe teria vindo e aqui, juntou-se com o homem que se tornou padastro de Zezim.

Dava para se vê que aquele sujeito não poderia ser o pai de Zezim. Embora pacato, econômico nas palavras até quando estava ébrio, não tinha nada que se pudesse compará a ambos. Zezim tinha de 15 para 16 anos mas era um rapagão, de compleição física avantajada. Não bebia nem fumava. Nunca deu uma tragada de maconha nem roubou. 

Era esse rapaz um analfabeto na absoluta acepção do termo. Não sabendo ler nem escrever, trabalhava desde cedo como engraxate. 

Podia-se concluir que daquela familiar nuclear, era impossível uma convivência harmônica entre os três entes. Não pela pobreza das condições, mas sim pela ambiência conflitante que fazia o rapaz murmurar seu desejo de retornar para o "Ri-de-janeiro", donde nunca deveria ter saído.

Não sucumbia mentalmente por conta do trabalho. De segunda à sábado, engraxante; nos domingos, pelos bares, tanto de Campina quanto de João Pessoa, tocaiante de carros. Nas tardes que se dava ao prazer de ir ao Colégio Estadual da Paraíba, para na última esquina, aguardar uma estudante que se impressionou com seu porte, para tentar convencê-la ao namoro, era um momento sublime.

Se a coisa estivesse difícil e lhe faltasse recursos suficientes para o almoço ou jantar, recorria ao Restaurante Universitário da UEPB, na Av. Getúlio Vargas. O pagamento é claro: tinha que engraxar os sapatos dos cozinheiros, velhos fregueses dessa jovem batalhador.


Vangloriava-se de ter conhecido as belas praias de Natal, João Pessoa, Recife, mas queria mesmo era poder voltar para o Rio.

Zezim é um excelente exemplo de ingenuidade. Aliás, de uma ingenuidade que nunca morreu em determinadas pessoas, não importando o tempo em que elas vivam. 

Voltou, meio que de repente, para o Rio. Poucos meses depois retorna diferente. Lá conhecera uma mulher com quem manteve um breve romance. Ela, portadora do HIV, faleceu. Ele, retornou para seu lar no Jeremias, na sua velha cidade, Campina Grande. Cá, foi de pronto internado no Hospital Universitário. 

Qualquer conhecido que vagasse pelos corredores daquele hospital, naquela ala "específica" e o encontrasse ali, acompanhado de sua mãe, escondendo as lágrimas era dito: Zezim está com pneumonia, coisa passageira. Logo estará de volta ao trabalho! Que nada! Zezim estava entrando na fase terminal, vencido pela AIDS.

_____________________
Leia também:

RITINHA PARTEIRA

A DIFUSORA DE LAURA