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terça-feira, 30 de setembro de 2025

UNIVERSO 25: COMO UM EXPERIMENTO CIENTÍFICO PODE RETRATAR O FIM DA SOCIEDADE HUMANA



Em junho de 1972, diante da Royal Society of Medicine em Londres, um senhor franzino de barba grisalha pediu a palavra. Chamava-se John Bumpass Calhoun, e sua primeira frase desarmou a plateia: “Falarei majoritariamente sobre ratos, mas meus pensamentos estão em homens, na vida e sua evolução”¹

Não era exatamente o tipo de abertura que se espera de um cientista em uma das instituições mais respeitadas do mundo, mas todos ficaram atentos.

Calhoun começou a revelar o que ele chamou de Universo 25: uma cidade inteira de ratos que se tornou um dos experimentos mais polêmicos, embora pouco comentados da nossa história.

O trabalho dele passou a ser usado como um modelo animal análogo ao colapso da sociedade humana, e seu estudo tornou-se uma ideia importante na sociologia e psicologia em geral.

O cientista construiu uma cidade de ratos com 16 prédios idênticos, mais de 250 apartamentos, locais específicos de refeição e tudo que os ratos precisavam para “viver bem”.

Tudo começou com 4 casais de ratinhos — ou seja, 8 indivíduos no total. A única limitação era o espaço.

Cada aspecto do Universo 25, como este modelo específico era chamado, foi projetado para atender ao bem-estar de seus roedores residentes, aumentar sua expectativa de vida e permitir que eles se acasalassem.

Calhoun marcou cada animal com uma cor para identificação, sendo que ele e sua equipe ficavam sentados por horas, todos os dias, por mais de três anos, observando o que acontecia.

Há meio século, quando o estudo foi publicado, as descobertas não foram tão chocantes, mas, à medida que o tempo passa, os resultados desse experimento se tornam, de certo modo, assustadores.

Dos quatro casais iniciais, após um curto período de 110 dias de adaptação, os primeiros filhotes nasceram — com a população dobrando a cada 55 dias.

Nesse período inicial, os ratos exploravam o espaço, reconheciam territórios e estabeleciam as hierarquias iniciais — assim como humanos fazem.

Depois disso, com abundância de recursos, a reprodução aumenta e inicia uma explosão populacional, resultando em um número de roedores 10x maior do que inicialmente em 10 meses.

Nessa altura do campeonato, ratos alfas estabelecem a dominância e vão dominando o espaço — lutando e mordendo os ratos mais frágeis.

Normalmente, na natureza, um rato que perde uma luta foge para algum canto distante para recomeçar em outro lugar. Na utopia dos ratos, no entanto, os ratos perdedores não conseguiam escapar.

Calhoun os chamava de "abandonados", até porque eles se escondiam durante boa parte do dia e saíam na madrugada apenas para comer.

Conforme a população crescia, enormes hordas de “fracassados” se reuniam no centro do cercado, cheios de cortes e cicatrizes.

A partir daí, comportamentos anômalos começaram a surgir, tanto nas ratas fêmeas, quanto nos ratos machos:

Ratinhas  

- Isolamento: Fêmas começaram a se isolar em apartamentos, rejeitando e se afastando dos machos.

- Infertilidade: Muitas ratas eram incapazes de levar uma gravidez até o fim ou, quando conseguiam, de sobreviver ao parto da ninhada.

- Instinto materno em baixa: Quando davam à luz com sucesso, as ratas já não eram tão boas em suas funções maternas devido ao estresse pretérito.

Ratinhos 

- Assexuados: Machos deixaram de buscar o sexo com as fêmeas e se tornaram extremamente vaidosos — sendo apelidados de “os belos”.

- Hiperatividade frenética: Movimentos aleatórios e até brigas sem propósito, uma espécie de violência por violência.

Os camundongos passaram a se dividir em grupos, e aqueles que não conseguiam encontrar um lugar nesses grupos se viam sem ter para onde ir.

Agora é que fica ainda mais interessante…

À medida que o tempo passava, os alfas restantes envelheciam e reproduziam-se menos, fazendo com que a taxa de natalidade diminuísse.

O curioso é que muitos dos ratos que ainda podiam conceber, como os "belos" e as fêmeas isoladas, perderam a capacidade social de fazê-lo.

Basicamente, ao invés de interagir com o sexo oposto, os machos se limpavam compulsivamente e as fêmeas não se misturavam.

"Os machos que falharam se retraíram física e psicologicamente; tornaram-se muito inativos e se agregaram em grandes grupos perto do centro do universo. A partir desse ponto, eles não iniciaram mais interações com seus parceiros estabelecidos, nem seu comportamento provocou ataques por machos territoriais"

“Os machos retraídos não respondiam aos ataques, permanecendo imóveis. Mais tarde, atacavam outros no mesmo padrão. As fêmeas desses machos isolados também se retraíam. Alguns camundongos passavam os dias se alisando, evitando o acasalamento e nunca se envolvendo em brigas. Por isso, possuíam excelentes pelagens e eram apelidados, de forma um tanto desconcertante, de "os belos".

Depois de atingir um íco de 2.200 ratos no 19º mês, a população começou a diminuir.

Camundongos nascidos nessa fase de caos já não conseguiam formar laços sociais normais, nem se envolver em comportamentos sociais complexos, como galanteio, acasalamento e criação de filhotes.

Incapazes de encontrar seu lugar na hierarquia, os mais jovens se tornaram desajustados, as fêmeas solteiras se retiravam para os ninhos isolados nos níveis superiores dos apartamentos da cidade.

No extremo oposto, os outros machos tornaram-se completamente apáticos, passando o dia comendo, bebendo, cuidando-se, mas sem interagir com os demais.

Enquanto isso, os machos alfa restantes exibiam agressividade extrema, chegando ao canibalismo e violência sexual.

Porém, o mais perturbador era o comportamento das mães: “Oprimidas pelo estresse da aglomeração, muitas descuidavam de suas crias, ou as abandonavam e atacavam. A mortalidade infantil disparou, alcançando até 96% em algumas áreas”.

Apesar da capacidade de espaço para até 3.840 animais, o número de roedores nunca ultrapassou os 2.200.

O último nascimento foi no dia 920. A partir daí, a queda foi livre até a extinção. Os pobres roedores esqueceram-se de como se cuidar, cuidar de sua prole e até mesmo de interagir normalmente.

Os machos perderam o interesse de procriar, as fêmeas abandonaram os filhotes e a violência, sem motivo, se tornou comum. Houve queda na natalidade, colapso da organização social e, por fim, a extinção.


________________

1. I shall largely speak of mice but my thoughts are on man, on life and its evolution.

sábado, 23 de maio de 2020

TEMPOS DE NETIQUETA NAS MÍDIAS SOCIAIS



Todo e qualquer espaço humano tem regras explícitas e implícitas. É para facilitar a boa convivência entre as pessoas que ali se relacionam. Há muito que empresas buscam os melhores profissionais do mercado em espaços como esses que compõem as mídias sociais.

Não basta ser um bom profissional, ser bom no que faz não nos torna exclusivos. Talvez exista um exército de pessoas que também faz o mesmo e até melhor.

Meu singelo conselho (e conselhos foram feitos para se exprimir gratuitamente) aos profissionais e aspirantes: 

1) se for criticar políticos e agentes públicos em evidência, faça-o com elegância, com justeza de palavras, demonstrando fontes seguras de informação, defendendo pontos de vista fundamentados na ética; 

2) Não seja um propagador de fake news, informe-se, leia, pesquise antes; 

3) Se você fosse um gestor de recursos humanos em processo de recrutamento e seleção, analisando um perfil no facebook ou instagran, escolheria um candidato ao emprego que é desenfreado em palavrões? Em discussões ferrenhas e desrespeitosas, cheio de gírias, de demarcações territoriais e bairristas?; 

4) Não seja facilmente levado por ondas e raciocínios facciosos, alimentadores de ira, de emoções carregadas. Perceba que grande parte dos autores que incita as mais variadas manifestações, estão com a vida feita, no aconchego de seus palacetes e com a dispensa abarrotada. Ao bom profissional não compete seguir seus passos; 

5) Abandone o vitimismo, esse desejo mórbido de viver se lastimando de tudo e de todos, colocando-se como a pessoa mais injustiçada, perseguida, abandonada e ultrajada da terra. O vitimismo é próprio de perfis doentios, egos fracos que se nutre das condolências e aplausos de um público igualmente vazio; 

6) Não seja pessoa de primeira informação, nem estabeleça julgamentos ouvindo uma única fonte. Quem escuta apenas a versão do suposto ofendido não pode ser juiz, por desconhecer a outra versão; 

7) Seja um reprodutor de bons conteúdos; cultive o bom senso, a amizade, coisas que edifiquem. Talvez você esteja se deparando com oportunidades que estão à sua procura e o seu perfil diz muito sobre quem você realmente é, e tudo será bem sucedido como uma luva feita especialmente para você.

João Batista Nunes
Psicologia Organizacional

terça-feira, 31 de março de 2020

O PERIGO DO VÍRUS VIRTUAL


O vírus, sendo uma estrutura microscópica de base proteica age com vistas a invadir células dos organismos para se nutrir, fortalecer e com a energia recém-adquirida, executar seu intento, seja modificando alguma informação genética seja causando um dano ao organismo que pode ser letal.

O conceito de vírus e a forma como ele age serviu para designar o mesmo estratagema utilizado pelo universo dos malwares, estruturas digitais que são criadas para invadir redes, sistemas, banco de dados e demais tipos de mídias interconectadas.

Esses mecanismos virtuais são idealizados e criados sempre de modo a atingir algum objetivo maléfico que vai desde a roubar senhas de mídias sociais (whatsapp, facebook, instagran, twitter e outros) ao apoderamento criminoso de informações corporativas e contas bancárias particulares.

A ação desses programadores que habitam os subterrâneos da rede (deep web, internet obscura, o lado negro da força) têm grande penetração nas massas de internautas vacilantes em muitos aspectos perigosos da navegação.

Em tempos de ações governamentais movimentadoras de grandes recursos destinados principalmente à assistência social, esses oportunistas através dos vírus criam esqueletos de portais que imitam perfeitamente os sítios oficiais e captam dados de pessoas que preenchem os cadastros fornecendo informações captadas pelos falsários que se passam, depois, por essas mesmas pessoas e realizam saques indevidos, se passando pelos titulares das contas.

Esse é apenas um dos incontáveis exemplos do que pode acontecer com situações de pressa, de apreensão, de inquietações que levam quase sempre a precipitação. Em mídias como whatsapp, o cuidado deve seguir os mesmos critérios de cautela: não abrir links com chamadas sensacionalistas por meio de imagens e sons, geralmente em forma de notícias e outras expressões que chamam a atenção das pessoas. Segredo: resista a curiosidade, não click.

Ameaças e riscos de segurança cibernética estão sempre presentes em nosso mundo atual. A infraestrutura de redes e a Internet estão cada vez mais vulneráveis a uma ampla variedade de ataques físicos e cibernéticos. Criminosos virtuais sofisticados, bem como países, exploram essas vulnerabilidades para roubar informações e dinheiro.

João Batista Nunes

sábado, 28 de dezembro de 2019

CADÊ O DINHEIRO QUE TAVA AQUI?



Muito já se escreveu sobre qual seria o futuro do dinheiro tal como o conhecemos, feito de papel moeda. Imagine como será pensar num tempo um pouco mais adiante quão estranho era ter que sair de casa para acessar a conta bancária num terminal de autoatendimento instalado numa farmácia ou outro estabelecimento comercial para sacar algumas notas e saldar alguma dívida ou comprar uma pizza.

Com certeza vamos nos lembrar que a ideia trazida pelos bitcoins e outras criptomoedas parecia coisa restrita a investidores acostumados com as novidades do mundo financeiro, e portanto, familiarizados com as transações tecnológicas.

Talvez iremos rir diante da evolução que chegou à velocidade de mil terabytes e nos domesticou a todos, ajustando-nos ao modus do sistema financeiro 100% virtual, como era a representação simbólica contida naquelas notas de papel moeda que utilizávamos e não nos dávamos conta.

Não tendo que utilizar o papel moeda, de pronto, deixará de existir os bancos e casas de cambio espalhadas pelo mundo inteiro. O tilintar de moedas só será possível nos filmes que retratem aquele tempo passado, mas que não tão pretérito assim.

É provável que passemos a lidar com conceitos de crédito aplicável ao ganho financeiro, e assim, o salário seria computado não mais em termos de valores. Mas, acho que nesse estágio, o mundo estaria muito mais avançado, vencendo as barreiras globais de ajustes tecnológicos.

Desaparecendo o dinheiro do mundo os quartéis de drogas terão dificuldades para se manterem ativos, pois a segurança de trâmites de riquezas nacionais e internacionais estarão mais seguros e facilmente detectáveis. As operações de grande volume de riquezas e seus destinatários estarão na mira de órgãos detectores de crimes contra a economia e, nesta tacada, ilícitos fraudulentos tenderão a enfraquecer estruturas de corrupção em todos os países, deixando-as na rota de extinção.

O Estado, nesse aspecto, nunca deixará de ser intervencionista, porque saberá dizer o quanto determinado cidadão enriqueceu/empobreceu e o tempo decorrido dessa ou daquela mudança de status.

Obras faraónicas não terão mais sentido, nem serviços e produtos deixarão de traduzir o nível de satisfação para o qual foram destinados por falta de recursos ou desvios, pois o domínio virtual de valores não permitirá operações que crie desarmonia entre a concepção do projeto, execução e avaliação.

É bobagem pensar que o cidadão precisará portar um smartphone ou tablete, ou ter um computador por perto, já que, a massificação do sistema de créditos virtual exigirá a implantação de terminais em todos os estabelecimentos comerciais, órgãos públicos e privados, logradouros de grande circulação de públicos.

Num sistema integrado globalmente, não importa se o ladrão seja nativo ou de outro país, por mais longínquo que seja, qualquer operação identifica de onde o dinheiro, digo, o crédito, saiu e para onde foi, se pessoa física ou jurídica.

Desta maneira, o mercado negro que comercializa clandestinamente armas, munições, artefatos explosivos, insumos da biopirataria, artigos de artes de primeira grandeza, sofrerá um profundo golpe.

As camadas de segurança desse sistema de crédito virtual será uma chave-mestra criadora de barreiras que se transmutam variavelmente tornando as operações individuais praticamente inexpugnáveis. Por isso, a dica é para os crackers: mudem de profissão.

Se você entendeu bem este texto, pois, estamos diante da ascensão da Nova Ordem Mundial, que durante muitos tempo se esmerou para dizer que qualquer pensamento neste sentido, seria produto de pensamentos próprios dos adeptos de teorias da conspiração ou daqueles que levam a sério demais o capítulo 13 de apocalipse.

Mas, voltando a grande questão: cadê o dinheiro que estava aqui?! O gato comeu!

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

EU E O MEU EGO



Não há ninguém mais íntimo do que o nosso ego. Ele está ali onde ninguém mais além de nós podemos situá-lo. Ele bem que poderia ser nosso melhor amigo. Até certo ponto ele até se esforça para ser, afinal, se quase sempre nos comportamos de modo a supervalorizarmos traços pessoais, conquistas, sucesso etc. e etc. tem seu toque especial.

Ryan Holiday em sua obra O Ego é seu inimigo – como dominar seu pior adversário é uma excelente leitura para quem ainda não se deu conta da existência e atuação desse ente em suas vidas.

Para o autor, em qualquer momento da vida, as pessoas se encontram em um de três estágios. Estamos aspirando a algo, tentando abrir uma brecha no universo. Alcançamos o sucesso, talvez um pouco, talvez muito. Ou fracassamos, recente ou continuamente. A maioria de nós se encontra em fluxo nesses três estados, aspiramos até alcançarmos o sucesso, temos sucesso até fracassarmos ou até aspirarmos a mais, e depois que fracassamos podemos começar a aspirar a ou alcançar o sucesso outra vez.

O ego é o inimigo a cada passo do caminho. De certo modo, ele é o inimigo da construção, da manutenção e da recuperação.

A proposta do autor em relação ao que pode ser feito para estarmos um passo à frente dos ataques de nosso próprio ego é esquematizada numa estrutura que, segundo ele, poderá nos ajudar a ser: humildes em nossas aspirações; generosos em nossos sucessos; e, resilientes em nossos fracassos.

Isso não quer dizer que você não seja único e que não tenha nada de incrível com que contribuir em sua breve passagem por este planeta. Não quer dizer que não haja espaço para ultrapassar limites criativos, inventar, sentir-se inspirado ou ter mudanças e inovações verdadeiramente ambiciosas como meta. Pelo contrário: para fazermos essas coisas da melhor maneira e corrermos tais riscos, precisamos de equilíbrio. Como observou o quaker William Penn: “Construções que se encontram tão expostas às intempéries precisam de uma boa fundação.”

Pense nisso.

João B. Nunes          
joaobnunespb@hotmail.com

terça-feira, 24 de julho de 2018

HÁ UM MUNDO À SUA VOLTA


A vida moderna, ditada pela rotina, tem determinado um ritmo fora do comum principalmente nas cidades de médio e grande porte. 

Cedo nos levantamos e já entramos num ritual quase que automático. Mal nos alimentamos e as crianças igualmente apressadas para a escola reforçam a cadência e o compasso diário que vai nos levar, de uma rua com pouquíssimo movimento de carros, para uma outra com espaço disputado por motos, carros, caminhões, ônibus, pessoas andando pelas calçadas à passos largos.

Ao volante, acompanhando as notícias pelo rádio, relatos dos crimes ocorridos nessa madrugada, a nota de alerta para a BR interdita devido a um acidente envolvendo vários veículos, com um resultado triste de duas mortes no local. 

De repente alguém aparece do nada em sua moto e faz uma manobra arriscada e desaparece com a mesma irresponsabilidade com que surgiu. O som da ambulância lá atrás se aproximando com alguma dificuldade pelo volume de carros que custam a dar passagem. 

No trabalho uma série de demandas, cobranças, atropelos de informações, supervisores, chefes imediatos cobrando mais agilidade, intrigas de colegas, hora do almoço, retomada das atividades. Hora de se preparar para encarar o trânsito louco da volta. Parece que as pessoas nesse horário "escolheram" ir numa mesma direção, carros a perder de vista numa lentidão irritante. Para completar começa a chover... Mas nem tudo está perdido: quando a pessoa entra na rua de sua casa, o trânsito praticamente deu trégua. 

No outro dia, tudo de novo. Os mesmos lugares, as mesmas ocorrências...

Inequivocamente a vida moderna alterou a forma como enxergamos o mundo à nossa volta em graus variados de miopia social, reprodutoras de comportamentos alimentados pelo ego, pela vontade e disposição de tirar vantagem em tudo aquilo que nos possibilite ganhar tempo, pequenas vitórias e pseudos avanços em detrimento das pessoas com as quais mantemos algum tipo de contato, mesmo que esse contato seja o mais breve. 

É um ritmo que vem, ao longo dessas últimas décadas, fragmentando a essência do humano, aumentando vertiginosamente, ou seja, intenso e rápido, casos de ansiedade, estresses, síndrome do pânico, mal súbito e outros acometimentos psíquicos; respondendo também por uma grande parcela de comportamentos agressivos, desrespeitosos e até animalescos (como os mostrados nos vídeos das mídias sociais).

As pessoas circulam pelas vias cada vez mais num estágio mental agitado. Muitas delas, com energias negativas contidas, esperando algum estímulo externo para explodirem.

Nesse desajuste individual e coletivo, tendemos a esquecer o mundo à nossa volta, o mundo do "outro" (que Jesus classificou nos evangelhos como o nosso próximo); o mundo da co-existência.

Cresce o número de comportamentos sociais que demonstram claramente essa minha afirmação. Pessoa que agem ignorando completamente a existência dos demais seres.

Aquele homem que estaciona o carro em local que prejudica o fluxo dos demais, não se preocupando com o transtorno que está causando; ou aquela senhora que sai pedindo a cada pessoa da fila do caixa de supermercado para passar na frente, por estar atrasada para o trabalho, e quando vence essa aparente barreira, permanece no local se distraindo com outras coisas, demonstrando que era uma ansiedade forjada no engodo, na mentira.

Estes e tantos outros comportamentos antissociais sinalizam seriamente que, estamos aos poucos nos fechando em nossas redomas individuais, e tendemos a esboçar aqui e acolá condutas que exprimem a ideia de que ignoramos a existência do mundo à nossa volta.

É o mundo da co-existência formado por pessoas essencialmente iguais a nós, que têm a necessidade, o dever e o direito de perseguir seus objetivos comuns e estão fazendo, ou tentando fazer percursos que se cruzam com o nosso. Ou seja, não estamos sós. 


João Batista Nunes
Formado em Psicologia e acadêmico de Direito, em Campina Grande, Estado da Paraíba.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

JOHN BROADUS WATSON




                                                                  João Batista Nunes


Embora sua carreira acadêmica tenha sido breve, John B Watson, o fundador do comportamentalismo, foi fundamental na elaboração de uma psicologia objetiva, livre do mentalismo, e com o mesmo grau de cientificidade da física.

Quando Watson tinha treze anos, seu pai fugiu com outra mulher, para nunca mais voltar, o que magoou Watson pelo resto da sua vida. Muitos anos depois, quando Watson já era rico e famoso, o pai foi a Nova York tentar vê-lo, mas ele se recusou a encontrá-lo.

Na infância e na juventude, Watson foi descrito como um delinquente. Ele mesmo dizia ser preguiçoso e insubordinado, e nunca foi além da média necessária para passar de ano na escola. Seus professores o consideravam indolente, insolente e, às vezes, incontrolável. Ele se envolvia em brigas e foi preso duas vezes, numa delas por dar tiros em área urbana. Mesmo assim, ele se matriculou na Universidade Furman, dos batistas, em Greenville, aos dezesseis anos, decidido a ser ministro religioso.

Ele prometera à mãe, muitos anos antes, que abraçaria a vida clerical. Watson estudou filosofia, matemática, latim e grego, e esperava graduar-se em 1899 e entrar no Seminário Teológico de Princeton no outono seguinte.

Ocorreu uma coisa curiosa no último ano de Watson em Furman. Um dos professores avisou os alunos que quem entregasse o exame final com as páginas trocadas seria reprovado. Watson levou a sério o desafio, pôs a prova invertida e foi reprovado, ao menos foi assim que ele contou a história. Um exame mais recente dos dados pertinentes da história – no caso, as notas que Watson preferiu contar revela algo de sua natureza, isto é, “sua ambivalência diante do sucesso.” Sua constante luta por conquistas e aprovação era sabota com frequência por atos de pura obstinação e impulsividade, mais características de uma evitação da responsabilidade.

Watson ficou em Furman mais um ano e recebeu o grau de mestre em 1900; neese ano, porém, sua mãe faleceu, liberando-o do voto de tornar-se ministro. Em vez do seminário teológico, foi para a Universidade de Chicago. Na época, era “um jovem ambicioso, muito consciente do status social, ávido por deixar sua marca no mundo, mas totalmente confuso quanto à sua escolha de profissão e desesperadamente inseguro com relação à sua falta de meios e de sofisticação social. Ele chegou ao campus com cinquenta dólares no bolso.”  
Escolhera Chicago para pós-graduar-se em filosofia sob a direção de John Dewey, mas, passado algum tempo, considerou Dewey incompreensível. “Eu nunca soube do que ele estava falando na época”, relembrou Watson, [...] “e, infelizmente para mim, continuo não sabendo.” Seu entusiasmo pela filosofia logo diminuiu.

Interessou-se pela psicologia graças à obra de James Rowland Angell, e estudou neurologia, biologia e fisiologia com Jacques Loeb, que lhe deu a conhecer o conceito de mecanismo. Ele trabalhou em várias ocupações – garçom de uma república, tratador de ratos e assistente de zelador (suas tarefas incluíam limpar a escrivaninha de Angell).

Perto do final dos estudos, sofria ataques agudos de ansiedade e não conseguia dormir sem uma lâmpada acesa.

Em 1903, Watson se doutorou, a pessoa mais jovem a obter um doutorado na Universidade de Chicago. Embora fosse aprovado com louvor, ele relata que teve um profundo sentimento de inferioridade quando Angell e Dewey lhe disseram que seu exame doutoral não era tão bom quanto o de Helen Thompson Woolley, que se graduara dois anos antes (Woolley, apesar de sua competência, enfrentou uma considerável discriminação sexual e foi preterida na carreira acadêmica).

Nesse mesmo ano, Watson casou com uma de suas alunas, Mary Ickes, de dezenove anos, filha de uma família social e politicamente importante. Conta-se que a jovem e impressionável Mary escrevera um longo poema de amor para Watson num dos exames, em vez de responder às perguntas.

Não se sabe que nota recebeu, mas Watson ele conseguiu. Sua família se opôs ao casamento; seu irmão chamou Watson, que tivera vários casos com alunas, de “um patife egoísta e presunçoso.”

Watson permaneceu como instrutor na Universidade de Chicago até 1908. Publicou sua dissertação sobre a maturação neurológica e psicológica do rato branco e cedo demonstrou sua preferência por sujeitos animais.

Dizia Ele:

Eu nunca quis usar sujeitos humanos. Detestei servir como sujeito. Eu não gostava das instruções enfadonhas e artificiais que eram dadas aos sujeitos. Sempre me sentia pouco à vontade e agia sem naturalidade. Com os animais, eu me sentia em casa. Tinha a impressão de que. Um determinado pensamento: será que não poderei descobrir, ocorria-me cada vez mais vezes um determinado pensamento: será que não poderei descobrir, observando o seu comportamento, tudo o que os outros alunos estão descobrindo usando [observadores humanos]/?

Alguns dos professores e colegas de Watson se lembram de que ele não era bom em introspecção. Sejam quais forem os talentos especiais ou os temperamentos necessários para isso, ele não os tinha. É possível que isso tenha sido parte do ímpeto que o fez rumar na direção de uma psicologia comportamental objetiva. Afinal de contas, se ele não era bom na prática da técnica essencial do seu campo, suas perspectivas de carreira eram as piores possíveis... a não ser que ele pudesse desenvolver outra abordagem. Além disso, se a psicologia fosse uma ciência dedicada apenas ao estudo do comportamento, que, de fato, podia ser feito tanto com animais como com seres humanos, os interesses profissionais dos psicólogos animais podiam ser promovidos e introduzidos na corrente principal do campo.

Em 1908, quando se tornou elegível para um cargo de professor-assistente em Chicago, Watson recebeu a oferta de um cargo de professor efetivo na Johns Hopkins, de Baltimore.
Embora relutasse em deixar Chicago, Watson não tinha muita escolha, devido à promoção, à oportunidade de dirigir o laboratório e ao substancial aumento de salário oferecidos pela Johns Hopkins. Ali, ele passou doze anos, seu período mais produtivo para a psicologia.

O ousado Watson afirmou certa vez: 


Deem-me uma dúzia de crianças saudáveis e bem formadas e meu mundo específico para criá-las, e eu me comprometo a escolher uma delas ao acaso e treiná-la para que chegue a ser qualquer tipo de especialista que escolher: médico, advogado, artista, comerciante, e inclusive mendigo ou ladrão, sem levar nem um pouco em conta seus talentos, capacidades, tendências, habilidades, vocação ou a raça de seus antepassados (WATSON, 1930, p. 104).

REFERÊNCIAS

WATSON, J. B. Psychology as the behaviorist views it. Psychological Review, 20, pp. 158-177, 1933.

SCHULTZ, D. P. & SCHULTZ, S. E. S. História da Psicologia Moderna. 8ª ed. Revista e Ampliada. São Paulo: Cultrix, 1997.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

VOCÊ PODE ESTAR SOB A INFLUÊNCIA DE PESSOAS TÓXICAS



Maria Confort, jornalista, cinéfila, fanática por literatura e, por isso, apaixonada pela ideia de entender pessoas, com muita maestria descreve os "10 tipos de pessoas tóxicas que deve você tomar cuidado e sair de perto".  

Ela explica que pessoas tóxicas roubam tudo: nossa paciência, nossa paz, nosso tempo e, aos poucos, nossas conquistas. Elas sugam a nossa energia, disposição e bom humor e conseguem ofuscar nossos objetivos e até mudar nossa forma de ver o mundo.

É verdade que nem sempre podemos "nos livrar" de tais pessoas, outras vezes, o fato desses tipos gravitarem na esfera da família ou do trabalho não podemos simplesmente "deletá-las". Podemos sim estar um passo a frente da previsibilidade desses comportamentos quando conhecemos os perfis, identificando cada tipo e aprendendo a lidar com eles, evitando os efeitos negativos, quando não, bastante destrutivos.  

Assim prossegue Maria Confort descrevendo os sinais de cada tipo:

O ORGULHOSO

O orgulho às vezes é uma virtude. Mas ser arrogante significa que você está cheio de si mesmo e acredita que é melhor ou superior a todos ao seu redor. Estar perto de alguém que não te trata com respeito, mas sim intimida e menospreza você pode ser tóxico para o seu desenvolvimento pessoal.

O INVEJOSO

Esse tipo de pessoa parece curtir muito mais as suas derrotas e ignorar as suas vitórias. Elas acreditam que merecem todo o sucesso no seu lugar. Embora você faça o possível e o impossível para que elas se sintam parte do seu sucesso, elas preferem te fazer se sentir mal.

Conhece alguém assim? Passe a agir naturalmente, com reservas, pense antes de falar, policie seus gestos.

O PRETENSIOSO

Esse tipo só age como amigo quando é confortável, quando lhe convém suprir interesse unilateral. Quando você precisa da sua ajuda, ele foge.

Então, não conte com esse tipo de pessoa. Em vez disso, estabeleça limites e tenha plena consciência do seu comportamento para não sofrer no futuro. Para esse tipo você não passa de uma peça de Xadrez. 


O PESO

Esses tipos têm uma maneira de distorcer o seu progresso e puxar você de volta para velhos hábitos. Eles querem que você seja a mesma pessoa que você era.

Eles podem ser difíceis de identificar e normalmente são pessoas que estão presentes na sua vida constantemente e, por você já ter se acostumado, fica difícil enxergá-las como um problema.

Se você tem alguém assim por perto, é importante reforçar para essa pessoa que você está trilhando um caminho certo e que você mudou para o melhor.

Cuidado: elas podem te fazer acreditar que você está errado e agir de forma bem persuasiva e emotiva, fazendo chantagem emocional e drama. Não caia nessa.

Se você está seguro que está agindo da forma correta e se tornando alguém melhor, não se abale.

O JUIZ

Nada é bom o suficiente para este tipo de pessoa. Elas acreditam que todos devem ser criticados e repreendidos em vez de admirados ou parabenizados. Mesmo quando as intenções são boas e você tenta fazer esse tipo de pessoa entender seus motivos genuínos, eles não querem ouvir. Eles são terríveis comunicadores porque não são bons ouvintes. Nossa dica? Ignore o papo negativo para evitar que o discurso desdenhoso interfira no seu sucesso.

O CONTROLADOR

Pessoas controladoras precisam saber que você está nas mãos delas. Elas podem ser desonestas, maliciosas e manipuladoras – fazem de tudo para distorcer a realidade e afetar seu comportamento para se encaixar nos desejos delas.

Se afastar desse tipo de pessoa pode ser a melhor opção. Afinal, você não vai conseguir fazer com que ela mude de ideia e nem a convencer de que, muitas vezes, você simplesmente não acha que o jeito de agir que ela sugeriu é o melhor a ser feito.

O MENTIROSO

É verdade que mentiras são comuns e algumas mentiras não são prejudiciais; no entanto, as pessoas tóxicas que mentem com frequência podem te destruir porque, se você quiser crescer, tem que se cercar de pessoas que confia.

O FOFOQUEIRO

Esse tipo de pessoa é insegura e usa sua língua para torcer os fatos e distorcer as informações.

Elas querem ser aceitas e reconhecidas e, para elas, a fofoca pode ser a única maneira de conseguir a atenção que desejam. Fuja desse tipo.

O PARASITA

Os parasitas se alimentam de você e, por vezes, podem parecer benéficos – mas não se engane, eles só te apoiam nas situações em que enxergam vantagens para eles mesmos.

A VÍTIMA

As vítimas nunca aceitam responsabilidade. Elas são ótimas em apontar os dedos para os outros, mas nunca aceitam que cometeram um erro.

Esse tipo de comportamento ao seu redor pode ser bem prejudicial para a sua vida e para a sua autoestima, é melhor saber diferenciar as coisas e não se sentir um vilão ou culpado pelos problemas que elas enfrentam.

Vale lembrar: é bom ter o discernimento para não bancar o coitado e achar que todo mundo está contra você e contra o seu sucesso. Muitas vezes, você pode ser uma dessas pessoas tóxicas, só não se deu conta disso.

No mundo moderno onde as relações pessoais estão cada vez mais complexas como previu os teóricos do Darwinismo Social, devemos ter o devido cuidado para não transitarmos em campo minado. Isto me impele a tornar vívidas as palavras de um sábio professor da academia de direito. Excêntrico, mas muito inteligente, ele afirmou: "no campo das relações sociais nunca iremos deixar de nos surpreendermos!"

João Batista Nunes é psicólogo e acadêmico de direito.


sábado, 13 de fevereiro de 2016

NA ERA DO RÁDIO: CAUBY PEIXOTO E ÂNGELA MARIA



"Se o Criador viesse de novo ao mundo, 
não falaria. como Jeová, 
do alto de uma nuvem, 
ou como Júpiter, do corpo medonho
 de um trovão: falaria ao microfone!" 
(Berilo Neves, escritor)


Nos anos de 1940-50 o rádio era a grande janela para o mundo: trazia para quase todos os lares as últimas notícias; moldava a opinião pública; vendia produtos, lançava modas; e alimentava os sonhos dos ouvintes com a voz de atores e atrizes, astros e estrelas. Esse "reino de encanto de sonhos e informação" coroava "reis e rainhas".

Quando a voz tinha um rei como Francisco Alves e tantos outros notáveis: "Meu companheiro dileto/Violão, és meu afeto/És minha consolação/ De tanto roçar meu peito/Tens hoje o timbre perfeito/ Da voz do meu coração".

Tempos de Cauby Peixoto e Ângela Maria, a querida do Sapoti

"Conceição, eu me lembro muito bem,/ Vivia no morro a sonhar/ Com coisas que o morro não tem..." Canção de Jair Amorim e Dunga, vozes inconfundível daquele cantor de bigodinho que a interpretava era a de Cauby Peixoto, que entre 1954 e 1959, foi o cantor mais popular do Brasil. Com qualidades que justificam esse título.

Nascido em 1935, provinha de uma família de músicos. Seu pai era violinista, sua mãe tocava bandolim, e um de seus tios era pianista e homem de rádio. Mas seu parente mais famoso era o sambista Ciro Monteiro. Cauby começou a cantar num programa de calouros da Rádio Tupi, no Rio, por volta de 1951. Três anos depois era celebridade, fazendo sucesso com o fox Blue Gardenia.

Mais tarde vieram Conceição (1956), Nono Mandamento (1957), Prece de Amor (1958) e muitas outras. Segundo alguns, seu rápido êxito se devia não apenas a suas inegáveis qualidades de cantor, mas também ao tipo de publicidade que o cercava. Seu empresário, Di Veras, contratava mocinhas para que desmaiassem "de emoção" à simples passagem do cantor. Seguindo o modelo norte-americano (foi assim que Frank Sinatra virou ídolo), Di Veras fazia confeccionar para Cauby ternos apenas alinhavados, que as fãs "rasgavam com furor", em cenas documentadas por fotógrafos de aluguel. No fim dos anos, 50, Cauby excursionou pelos Estados Unidos, usando o nome de Ron Coby, e gravou Maracangalha, de Caymmi, com o título de I Go.

Quanto a Ângela Maria, era a mais que preferida "Rainha do Rádio" em 1954, tendo começado a carreira em 1947, apresentando-se em programas de calouros como a "Hora do Pato", de Jorge Cúri, na Nacional. Seu verdadeiro nome é Abelim Maria da Cunha, mas a cantora usava então o pseudônimo de Marina da Cunha para que os pais, muito religiosos, não soubessem de sua atividade.

De origem humilde, Abelim trabalhava nessa época numa fábrica de tecidos. Em 1951 já com o nome artístico de Ângela Maria, cantava num clube noturno carioca, o Dancing Avenida, quando foi "descoberta" por Erasmo Silva e Gilberto Martins. Este último levou-a para a Rádio Mayrink Veiga, da qual era diretor. Na Mayrink, Ângela assinou contrato e passou a cantar regularmente, estourando imediatamente em todas as paradas. Foi a cantora mais popular dos anos 50 e recebeu de Getúlio Vargas o apelido de "Sapoti, por sua cor e sua voz, doces como o sapoti". Seus maiores sucessos foram Vida de Bailarina (Américo Seixas e Chocolate) e Lábios de Mel (J. Vilaça e Nage).

A atmosfera do Pós-guerra (1945) influencio o modus de viver do brasileiro. Tudo parecia pairar sobre os ditamos culturais dos americanos e isto é visto nas artes e na produção musical popularizada e retratada através da modelagem. Os ritmos do Tio Sam encontrava espaço do morro as mansões burguesas do Rio e de São Paulo, e por fim, em todo o país.

João B Nunes
Psicologo, teológo e acadêmico de Direito

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O SOFRER PSÍQUICO PROVOCADO PELO ASSÉDIO MORAL




INTRODUÇÃO

O trabalho tem um significado muldimensional para a pessoa do trabalhador. Tem gente que se realiza no desempenho de suas funções. Há pesquisas de desempenho que associam a motivação das pessoas mais ao bem-estar no ambiente do trabalho do que ao que se ganha em dinheiro.

O ambiente do trabalho e as pessoas nele envolvidas exercem uma carga de importância emocional decisiva para o trabalhador ou trabalhadora. Mas quando esse ambiente é minado por condutas depreciativas e tratamentos não condizentes com a ética em flagrante atentado contra a dignidade da pessoa humana, ferindo os princípios morais que deveriam ser o norte das relações interpessoais, então o clima no trabalho passa a ficar turvo e nebuloso, com tensões negativas, gerando mal-estar, criando prisões psíquicas que podem deixar marcas profundas. Em outras palavras, a pessoa pode estar sendo vítima de assédio moral.

Sem rodeios o assédio moral é caracterizado pelo “cerco” em torno de um trabalhador/trabalhadora ou de grupos de trabalhadores de terminada repartição pública ou privada, ou setor de trabalho dos inúmeros segmentos existentes Brasil afora. Esse “cerco” se traduz como formas de tratamento hostilizante que degrada, humilha, sobrecarrega e deprecia a pessoa publicamente, levando-a a desenvolver quadros psíquicos que comprometem a saúde da vítima, e sua vida social, atingindo, por conseguinte, até a família, além, obviamente, de comprometer a produtividade, pelo baixa autoestima provocada.

Porque as pessoas muitas vezes se submetem ao assédio moral? E outras tantas ao assédio sexual? A resposta a essas questões não são simples, elas encerram tantas outras que subjazem no complexo repertório de situações vividas pelo trabalho e trabalhadora brasileiros.

Questões que vão da completa falta de informação e esclarecimento sobre o que é o assédio moral e as garantias constitucionais da dignidade humana; até as de ordem social ligadas a história individual de cada vítima. É um pai de família que é o único provedor e fica-se imaginando o que acontecerá consigo quando sua filhinha lhe pedir comida. É a mãe solteira que depende do emprego para manter seu lar; é a pessoa que tem dependes idosos ou doentes; ou mesmo uma situação de endividamento que prende o trabalhador e tantos outras situações agregadas.

CONCEITO

O assédio moral é toda e qualquer conduta abusiva (gesto, palavra, comportamento, atitude) que atende, por sua repetição ou sistematização, contra a dignidade ou a integridade psíquica ou física de uma pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o clima de trabalho.

O assédio moral está restrito ao poder hierárquico no ambiente de trabalho? Não. A noção de assédio moral é extensiva a qualquer um no ambiente de trabalho, do topo da hierarquia à base do quadro. Podendo ser classificado como: - assédio vertical – é praticado pelo servidor hierarquicamente superior (chefe) para com os seus subordinados; - assédio horizontal – é praticado entre colegas de serviço de mesmo nível hierárquico; - assédio ascendente – é praticado pelo subordinado que possui os conhecimentos práticos inerentes ao processo produtivo sobre o chefe.

O assédio pressupõe intenção? Nem sempre ele é intencional, é possível que os atos causem efeitos no servidor assediado independente de intenção, ainda que o assediador afirme não ter desejado fazê-lo. Nesse caso existirá apenas a ignorância do agente quanto à extensão quanto à extensão dos efeitos provocados pelo seu comportamento.

Assédio moral – atitudes hostis. Deterioração proposital das condições de trabalho: -retirar da vítima a autonomia; -não lhe transmitir mais as informações úteis para a realização de tarefas; -contestar sistematicamente todas as suas decisões; -criticar seu trabalho de forma injusta ou exagerada; -privá-la de acesso aos instrumentos de trabalho: faz, telefone, computador, mesa, cadeira, entre outros; -retirar do trabalho que normalmente lhe compete; dar-lhes permanentemente novas tarefas; atribuir-lhe proposital e sistematicamente tarefas superiores às suas competências; -pressioná-la para que não faça valer seus direitos (férias, horários, prêmios); agir de modo a impedir que obtenha promoção; -atribuir à vítima, contra a vontade dela, trabalhos perigosas; -atribuir á vítima tarefas incompatíveis com sua saúde; -causar danos morais, psicológicos, físicos entre outros, em seu local de trabalho; -induzir a vítima ao erro; -controlar suas idas ao médico; -advertir a vítima em razão de atestados médicos ou de reclamação de direitos; -contar o tempo de permanência ou limitar o número de vezes em que o trabalhador vai ao banheiro.

CONSEQUÊNCIAS DO ASSÉDIO MORAL SOBRE A SAÚDE

Os reflexos em quem sofre assédio moral são extremamente significativos, vão desde a queda da autoestima até a existência de problemas de saúde, entre eles: -depressão, angústia, crises de competência, crises de choro, entre eles; - insônia, pesadelos, alterações no sono; - diminuição da capacidade de concentração e memorização; isolamento, tristeza, redução da capacidade de fazer amizades; -falta de esperança no futuro; -mudança de personalidade, passando a praticar a violência na família; - mudança de personalidade, reproduzindo as condutas de violência moral; aumento de peso ou emagrecimento exagerado; -distúrbios digestivos, aumento da pressão arterial, tremores e palpitações.

O QUE DIZ A LEGISLAÇÃO?

-A Constituição Federal, em seu artigo 1º fixa os fundamentos da República, entre eles: cidadania, dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho (Art. 1º, incisos II, III e IV); em seu art. 3°, CF/88 elenca os objetivos fundamentais da República: a construção de uma sociedade livre, justa e solidária e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (BRASIL, 1988, artigos 1º e 3º, e incisos). Poderia ser acrescentado o art. 5º onde se lê:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança [...], I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição; III – ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante.

Mas, de particular importância nesse somatório de previsões constitucionais se destaca: “São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrentes de sua violação” (BRASIL, 1988, art. 5º e incisos).

Liste-se ainda o previsto no Código Civil: “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”; e mais: “Aquele que por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo” (BRASIL, 2002).

IDENTIFICADO O ASSÉDIO MORAL: O QUE O TRABALHADOR E TRABALHADORA PODEM FAZER?

Em primeiro lugar reunir provas das recorrências do assedio moral de que está sendo vítima; anotar com detalhes todas as humilhações sofridas (dia, mês, ano, hora, local, ou setor, nome do agressor, colegas que testemunharam, conteúdo da conversa e o que mais achar necessário); dar visibilidade, procurando a ajuda dos colegas, principalmente daqueles que presenciaram o fato ou que já sofreram humilhações do agressor; evitar conversar com o agressor, sem testemunhas; procurar seu representante sindical e relatar o fato.

CONCLUSÃO

O sofrer psíquico é, na verdade, um somatório de agravantes internos e externos ao indivíduo, ora acentuado pelas relações sociais no âmbito familiar ora, e principalmente, pelo ambiente do trabalho onde a vida de prolonga por mais tempo. 

Quando se estar diante de situações humilhantes na relação de emprego a pessoa automaticamente é confrontada e desafiada a se posicionar. É como se o cérebro atingisse o limiar do "tudo-ou-nada". Nesse ponto, ou a pessoa reage acionando os meios legais com as devidas provas (as provas podem ser áudio, vídeo, facilmente gravados por celular; e, também testemunhos de colegas de trabalhos) e provoca o devido processo de reparação do dano moral, e o direito assegurado de continuar no emprego, caso queira. Ou simplesmente, se submete a situação degradante. Se optar por essa segunda escolha, terá que conviver com o fato de que a humilhação perpetrada por alguém nunca se limita aos níveis iniciais. O agressor vai ampliando os níveis, visto que a vítima mostrou-se passiva, e, isto, vai comprometer drasticamente a saúde física e psíquica do trabalhador. 

Se pensar um pouco mais, não há razão alguma para se submeter. Outro emprego em outra empresa estará lhe aguardando e novos amigos, novas relações, novos ares com mais dignidade irão returbinar sua vida. Mas, acima de qualquer coisa está a sua saúde! Não se deixe abater, não se entregue. Vá à luta e seja um (a) vencedor (a). 

Autor João Batista Nunes
Psicólogo e Acadêmico de Direito.