sábado, 8 de novembro de 2014

PARANHOS, O AMIGO DO IMPERADOR



"Mas o homem nasce para a tribulação, 
como as faíscas se levantam para voar." (Jó 5:7)


Filho de Agostinho da Silva Paranhos e de Josefa Emereciana Barreiros, José Maria da Silva Paranhos mal conheceria o pai. Agostinho morreu em dezembro de 1822, deixando Josefa Emerenciana com um doloroso encargo. Brigado com o irmão - João José - que nos últimos anos combateu sem trégua, Agostinho legou à mulher a tarefa de continuar "na agitação das demandas pendentes com o capitão João da Silva Paranhos", dura missão. 

Ao cabo de dez anos estava pobre e sem esperança. Vencida pela adversidade, com um filho gastando irresponsavelmente o resto dos haveres da mãe, reduzindo-a à miséria, morreu a triste matriarca dos Paranhos em 1839. 

Deixava três filhos: Agostinho, que acusou no testamento de ter "desfalcado em grande quantidade os seus bens"; Antonio, que destinado às armas, já em 1837 combatia a Sabinada, e seria o herói na grande Guerra do Paraguai e José Maria, que com o tio materno, Eusébio Barreiros, ia aprendendo matemática e história, garoto esperto, consolo e esperança da mãe.

Aos seis anos o menino frequentava a escola pública no adro da Igreja do Bonfim, com o professor Embiruçu Camacã coube arrematar a educação fundamental do menino José Maria. Mas o grande mestre foi o tio Eusébio, que lhe ensinava matemática com a paciência dos sábios. Homem de "raro talento e vastíssima ilustração", o tio afeiçoou-se ao sobrinho vivo, inteligente.


Sentiu sua agitação interior, previu, vaticinou. E enquanto José Maria ia estudando história, filosofia, retórica, e mais a matemática que Eusébio lhe ensinava, ia-se formando o espírito lógico, rigoroso, que mais tarde espantaria o país.


Três anos antes da morte de sua mãe, a 2 de fevereiro de 1836, José Maria embarcou na fragata "Imperatriz". Vinha da corte. A voz do tio, que estivera no Rio dirigindo a construção da Casa Forte do Arsenal de Marinha, acordara no menino, nos longos serões da Bahia, o desejo de vir conhecer o centro intelectual do Brasil que, ano após anos, atraia as melhores vocações da Província.


Pagaria, como todos que se arriscavam à grande travessia, o preço da aventura: pouco dinheiro, muito trabalho, grandes esperanças. Dava aulas particulares para se manter. Na Academia de Marinha, onde logo se inscreveu, foi promovido a guarda-marinha em 1840, aos 21 anos de idade. Em 1841 matriculou-se na Escola Militar, buscando o diploma de engenheiro. O gosto das coisas práticas o atraia, mas seu espírito matemático permaneceu rigorosamente organizado. 


Conheceu nesse ano a menina Teresa Figueiredo Faria. Tinha ela treze anos. O guarda-marinha, com 22, apaixonou-se. Chama-lhe Terezinha. Cortejou-a. Convenceu a família. E casou-se em 28 de janeiro de 1842. No fim do ano, em dezembro, era 2º tenente.


Não pensava na fama, mas em certos setores já o conheciam. Desde 1840 estava na maçonaria, que tinha no Império um grande poder político. É dessa ano a publicação de folheto, publicado por Paula de Brito, "Alguns Discursos, Recitados na Augusta e Respeitável Loja Constituição Maçônica."


No ano de 1844 estreou no jornalismo. Também a cátedra veria inaugurar-se aquela inteligência aguda. Regente da cadeira de artilharia da Academia de Marinha, tornou-se logo popularíssimo entre os alunos, que viam com prazer aquele professor de 25 anos, contrastando singularmente com os velhos mestres tradicionais. Em 1845 terminou enfim seu aprendizado profissional. Formou-se "plenamente" - com distinção - na Escola Militar. 

Era engenheiro. Podia agora enfrentar a vida abertamente, opor-lhe sua inteligência e seus conhecimentos, esforçadamente adquiridos ao longo desses anos em que aprendeu a conviver com a corte. Eusébio Barreiros havia de se orgulhar do sobrinho.

No mesmo ano, a 20 de abril, novo motivo de alegria chegava à casa dos Paranhos, na travessa do Senado, nº 08. Nasceu neste dia José Maria da Silva Paranhos Júnior¹. 

Por esse época foi-se construindo o caminho de ascensão de Paranhos aos primeiros postos do Império. Nomeado presidente da Província do Rio de Janeiro, Aureliano Coutinho chamou o amigo Paranhos para secretário. Assíduo ao trabalho, diligente, José Maria acabou conquistando uma grande autoridade, sem despertar ciúmes nem oposição. "Ilustrado, afável", ninguém lhe disputava o lugar, e ele ia-se impondo a todos pelo raro tino administrativo e capacidade de trabalho. 

Numa conjuntura política conturbada interna e externamente, em setembro de 1850, mandaram-lhe dizer que o visconde do Paraná queria lhe falar. Era o novo plenipotenciário do Brasil em Buenos Aires, líder conservador, Honório Hermeto Carneiro Leão, grande entre os grandes do 2º Reinado. Que lhe quereria dizer? Paranhos foi, entre assustado e expectante, à presença do ministro. Paraná tinha fama de ser homem de poucas palavras, poucos sorrisos. Ia tenso, mal sabia o que o esperava.

Foi grande a surpresa. O visconde tinha uma tarefa difícil: conter diplomaticamente o "blanco" Rosas, violento ditador da Argentina, cuja política em relação ao Brasil ia se tornando cada vez mais agressiva. Na missão, Paraná precisaria de um assistente dinâmico, de largas vistas, conhecedor dos problemas da região. Lera os artigos de Paranhos. Conhecia seus méritos. E, sem rodeios, oferecia-lhe o lugar. A surpresa foi total. A resposta foi pronta, decisiva como o próprio Paranhos.

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¹José Maria da Silva Paranhos Júnior, um notável brasileiro que alcançou a graça, simpatia e a amizade do Imperador, recebendo o título honorífico de "Barão do Rio Branco". Seu pai, havia recebido o título de "Visconde do Rio Branco".

sábado, 18 de outubro de 2014

ZEZIM


Zezim foi um galego, meio loiro, que morava no Bairro do Jeremias, no alto da Rua São Gonçalo em época não muito distante da nossa. Seus pais passavam o dia consumindo cachaça na bodega mais próxima o que ganhavam durante à noite. Eram catadores de lixo. A casa deles era bastante precária, a começar pelo acesso, uma escadaria íngreme, de barro escorregadio. 

Era uma vida dura, cheia de lamúria e de soluços pelos vãos da casa, suspiros das lembranças de outrora no Rio de Janeiro, donde a mãe teria vindo e aqui, juntou-se com o homem que se tornou padastro de Zezim.

Dava para se vê que aquele sujeito não poderia ser o pai de Zezim. Embora pacato, econômico nas palavras até quando estava ébrio, não tinha nada que se pudesse compará a ambos. Zezim tinha de 15 para 16 anos mas era um rapagão, de compleição física avantajada. Não bebia nem fumava. Nunca deu uma tragada de maconha nem roubou. 

Era esse rapaz um analfabeto na absoluta acepção do termo. Não sabendo ler nem escrever, trabalhava desde cedo como engraxate. 

Podia-se concluir que daquela familiar nuclear, era impossível uma convivência harmônica entre os três entes. Não pela pobreza das condições, mas sim pela ambiência conflitante que fazia o rapaz murmurar seu desejo de retornar para o "Ri-de-janeiro", donde nunca deveria ter saído.

Não sucumbia mentalmente por conta do trabalho. De segunda à sábado, engraxante; nos domingos, pelos bares, tanto de Campina quanto de João Pessoa, tocaiante de carros. Nas tardes que se dava ao prazer de ir ao Colégio Estadual da Paraíba, para na última esquina, aguardar uma estudante que se impressionou com seu porte, para tentar convencê-la ao namoro, era um momento sublime.

Se a coisa estivesse difícil e lhe faltasse recursos suficientes para o almoço ou jantar, recorria ao Restaurante Universitário da UEPB, na Av. Getúlio Vargas. O pagamento é claro: tinha que engraxar os sapatos dos cozinheiros, velhos fregueses dessa jovem batalhador.


Vangloriava-se de ter conhecido as belas praias de Natal, João Pessoa, Recife, mas queria mesmo era poder voltar para o Rio.

Zezim é um excelente exemplo de ingenuidade. Aliás, de uma ingenuidade que nunca morreu em determinadas pessoas, não importando o tempo em que elas vivam. 

Voltou, meio que de repente, para o Rio. Poucos meses depois retorna diferente. Lá conhecera uma mulher com quem manteve um breve romance. Ela, portadora do HIV, faleceu. Ele, retornou para seu lar no Jeremias, na sua velha cidade, Campina Grande. Cá, foi de pronto internado no Hospital Universitário. 

Qualquer conhecido que vagasse pelos corredores daquele hospital, naquela ala "específica" e o encontrasse ali, acompanhado de sua mãe, escondendo as lágrimas era dito: Zezim está com pneumonia, coisa passageira. Logo estará de volta ao trabalho! Que nada! Zezim estava entrando na fase terminal, vencido pela AIDS.

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sábado, 4 de outubro de 2014

E DEPOIS?


Amanhã (dia 05 de outubro) será o dia tão esperado por uma gama de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com o pleito eleitoral. Uma disputa acirrada, ânimos tensos, stress, corre-corre, um verdadeiro furdunço. E o povo que diz não gostar de nada disso é o primeiro que toma partido; quem afirma detestar político é o pelotão de frente a se envolver.

Mas, eu particularmente vejo com preocupação o esforço de um sem número de pseudos profissionais metidos nos mais variados meios, especialmente os de comunicação (não todos, evidentemente), utilizando-se de todos os artifícios baixos, sem escrúpulos, fanáticos, extremistas, detratores, sobretudo, oportunistas, que buscam fazer carreira maculando imagens de políticos, numa completa irresponsabilidade.

O dinheiro que ganham pode até ser tentador para esse tipo de gente, mas no fim, não é um bom negócio. E eu vou explicar. 

Primeiro, um profissional ético, vencedor, sabe muito bem que aquele que hoje é oposição, amanhã pode ser situação. Se não ganha com este, pelo menos não perde. Outra razão simples, é que, sem saber, desmiolado que é, desce a lenha na reputação de algum candidato, virando propagandista de uma "verdade" cega, iracunda, atirando para todos os lados, mas que, na vida real, esses "ditos inimigos políticos" são os amigos que se encontram em Brasília nos melhores restaurantes e riem dessas situações bobas com enormes gargalhadas. Claro, protagonizada por acéfalos, bobão e babão que se encarna esse tipo de personagem. 

Naturalmente, os profissionais experientes, vividos, que sempre estarão no mercado e dele extrairá o melhor, sabem que o que digo é a mais pura verdade: não vale a pena denegrir, nem xingar, nem jogar lama no nome de ninguém, porque campanhas políticas não existem somente uma vez.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A VEREADORA DA GENTE


Não posso descer a detalhes, mas uma coisa posso afirmar, não se trata de um personagem, não. É gente de carne e osso, que inclusive está vivinha da silva. 

Trata-se da vereadora do povo! Do povo de outrora, de tempos pretéritos! Mas, mesmo assim, do povo!

Maria é o nome da bendita. Uma autêntica mulher do povo, uma vereadora de verdade. Ainda nem amanheceu direito na casa dela, e o cheiro do café já se faz sentir lá fora. Mas, dormir, dentro ou fora de campanha política não é um benefício a que Maria tinha direito. E, ela gostava. Sentia um prazer estranho de ver aquela gente maltrapilha e de todas as cores pintadas pelas vulnerabilidade social. Aqueles rostos sofridos, fitando-a esbugalhados, cheiro de desodorante vencido, guris catarrentos, êita vida duro de parlamentar era a vida de Maria.

Lá fora, sim, no meio da chuva ou se esgueirando perto de um abrigo estava sempre o povo que lhe era fiel. Vieram apertar a mão de Maria e aproveitar para descarregar sobre a edil uma série de pequenos pedidos como remédios, enxoval, ajuda para pagar água, luz, aluguel de cortiço atrasado e tantos outros reclamos que faziam a vida de Maria um verdeiro inferno. E ela gostava daquela rotina.

Maria era convidada para aniversários, batizados, crismas e tantos outros eventos que a pobreza a convidasse para ter o brilho de sua presença. Agora também tem uma coisa: no evento que não era convidada, mesmo assim, ela fazia questão de aparecer.

Se soubesse que um popular ingressou na UTI de um hospital, lá estava Maria chorando com os familiares! As lágrimas e convulsões da ilustre vereadora acabava envolvendo os presentes e tudo se convertia num verdadeiro chororô. 

Certa feita, Maria, sempre solícita, diligente, antenada, como era, jazia na sala de espera com uns dois ou três membros da família de um velhinho moribundo que faltava pouco para dar o último suspiro. O coitado tava todo entubado. Ela procurou, de pronto, saber onde podia fazer uma ligação. Informaram-lhe que era na enfermaria. 

A ligação tinha uma certa urgência e ares de suspense. "Faça-me já um requerimento para entrar na pauta da próxima sessão! Uma moção  de pesar pelo falecimento do INESQUECÍVEL e herói do desenvolvimento de nossa cidade, o senhor Ermenegildo de Sá Oliveira! 

Na sessão plenária, lá estava Maria, toda perfumada com seu contouré inebriante e com aquele batom vermelho que combinava com o vestido de babado, todo chamativo. Um moleque, pediu para que lhe entregasse um bilhete. O teor de logo foi conhecido pelos argutos olhos de Maria: Ilustríssima Vereadora. Sinto informar a Vossa Excelência que o Senhor Ermenegildo acaba de receber alta médica do Hospital e goza de plena saúde. Sem mais para o momento, seu assessor parlamentar. Maria gostava dessas formalidades até quando era dispensável.

Sem delongas, nem rodeios, nem protelações, Maria exclamou: Questão de ordem, senhor presidente!!! Peço a retirada do requerimento Moção de Pesar inscrito nessa pauta, o homem que pensava estar morrendo, recebeu alta e tá gozando de perfeita saúde!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

TOME NOTA: MEDIAÇÃO DE CONFLITOS, UMA ÁREA DE ATUAÇÃO PROMISSORA


O conflito pode ser definido, de forma simples, como forças opostas que buscam, contrariamente a lei da física, ocupar o mesmo espaço. Parte intrínseca da natureza das coisas, no universo dos viventes o conflito impregna o mundo das relações entre seres. Novas redefinições da vida, paradigmas, visões de mundo são emolduradas pela psicodinâmica do conflito.
Portanto, como afirma Ralf Dahrendorf, "o conflito é um facto social universal e necessário", que se resolve com a mudança social. Karl Marx era da opinião que o conflito tinha a sua origem na dialéctica do materialismo e na luta de classes. E quantos mais teóricos importantes da literatura mundial poderia ser citados tratando desse mesmo importante tema.

A parte que gostaria de destacar sobre esse inesgotável assunto, conduzir-nos-á ao campo de atuação cada vez mais requerida na administração, mormente à pública, em todas as esferas: mediação de conflitos.

A complexidade dos conflitos coletivos envolvendo políticas públicas exige, cada vez mais, do Poder Público, a adoção de ferramentas de prevenção ou tratamento adequado, na esfera dos poderes Executivo e Legislativo, e a implementação de novos caminhos para resolução, em face da crescente judicialização destes conflitos e da insuficiência do processo adversarial tradicional, pensado para dar conta de conflitos atomizados, e com um paradigma voltado para o passado, para resolvê-los.


A inegável repercussão social de tais conflitos torna urgente a utilização de instrumentos capazes de dar conta destes desafios. Se eles não são os mais numerosos no âmbito do Poder Judiciário, são sem dúvida os que apresentam maiores impactos e maior relevância na sociedade civil.

Assim, a mediação de um conflito é a intervenção construtiva de um terceiro imparcial junto às partes envolvidas no conflito, com vistas à busca de uma solução que traga benefícios mútuos, construída pelas próprias partes de acordo com seus interesses essenciais. 

Pode-se compreender o fenômeno do conflito a partir de dois enfoques: 


A) a partir da forma como ele se manifesta; ou
B) a partir de suas causas.

Pela forma como se manifesta, conflitos são situações em que estejam presentes, de forma simultânea (Freitas, 2009). É no plano objetivo, um problema alocativo que incide sobre bens considerados escassos ou sobre encargos considerados necessários. No plano comportamental, contraposição no vetor de conduta entre dois sujeitos, seja de forma consciente ou inconsciente intencionais ou não-adversariais. No plano anímico ou motivacional: sujeitos com percepções diferentes sobre como tratar os problemas alocativos.  

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

TENHA CALMA!!! É APENAS MAIS UMA TENTATIVA DE GOLPE!


Passava das doze horas quando um colega de trabalho em seu apartamento recebe um telefonema. Do outro lado uma voz jovem, demonstrando controle da situação pergunta se Roberto é pai da menina Bianca, de 10 anos.

Pronto. Aqui começa uma das encenações mais frequentes do Brasil que tem vitimado centenas de pessoas num crime de extorsão¹. 

"O negócio é o seguinte, escute com atenção: acabamos de trocar tiro com a polícia aqui no Centro e pegamos sua filha como refém. O assalto não deu certo, mas estamos com sua filha e queremos R$ 20.000,00 para deixá-la viva" - continua a voz no celular. 

O trunfo dessa modalidade de crime é vulnerabilizar a pessoa que atende ao telefone, deixando tão abalado que as chances de racionar e avaliar a situação são mínimas. Um abalo emocional muito forte é sentido e a reação é quase sempre a mesma: ceder ao golpe. 

O bandido interlocutor sabe que assumiu total controle na armação, quando, na conversa, a vítima sobressaltada com "essa terrível notícia" diz: "Não faça mal algum a ela, eu vou providenciar o dinheiro!"

Nessa hora, um turbilhão de pensamentos invadem a mente da vítima ao mesmo tempo em que não a permite pensar em mais nada a não ser vê-se livre dessa situação. Mesmo que tenha alguém ali, ao seu lado, tentando falar algo, é em vão. A pessoa sai desesperada a agência bancária mais próxima para levantar a quantia exigida pelo bandido, e seguir, finalmente, todos os passos da entrega.

Quando enfim o dinheiro é repassado para o bandido que sai num carro ou moto em disparada, em poucos minutos se descobre que tudo aquilo não passou de uma manipulação emocional engendrada para extorquir a vítima e que a filha, mencionada pelo bandido como sequestrada, na verdade, acaba de ser deixada pela Kombi Escolar em sua casa, em paz e segurança, vindo de mais um dia comum de aulas do colégio. 

RECOMENDAÇÕES IMPORTANTES

Nessas horas, tomado pela surpresa de uma ligação sinistra, por mais que seja difícil, respire um pouco, tenha calma, avalie a situação por um instante.

Mantendo-se informado(a) nos noticiários sobre essas modalidades de crimes dá para identificar que as estratégias mudam mas há um padrão comportamental utilizado pelo bandido. Não se deixe dominar ou ser conduzido pelo cara que está do outro lado da linha. 

Não forneça informações sobre os membros de sua família do tipo: quantos são, os nomes, idades etc. para pessoas estranhas seja por telefone, e-mail, web. Não atenda pessoas com supostas "Pesquisas domiciliares" mesmo que apresentem supostas identificações. 

Há informações estritamente pessoais que não devem ser repassadas. É claro que pesquisas do IBGE, por exemplo, o censo, realizado a cada 10 anos, o cidadão e a cidadã tem por direito e dever fornecer as informações requeridas. Afora isso, evite receber em sua casa ou fornecer, por quaisquer meios informações.

NÃO CUSTA NADA SABER...

Fiquei impressionado com os estudos do Dr. Willian Sargant (1981) intitulado "Possessão da Mente", obra na qual fica evidenciada a temática da sugestão mental, experiência ligada a percepção das pessoas, a maneira como podemos ser influenciados em níveis impressionantes. Há indivíduos que são altamente sugestionáveis e em casos de um telefonema de um golpista, são suscetíveis de se submeter aos comandos facilmente, diferente de outros perfis.  

Autor: João Batista Nunes, psicólogo e estudante de direito.

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¹Extorsão: O Código Penal define essa modalidade de crime nos seguintes termos: "Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa", art. 158 do Código Penal.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

PSICOLOGIA DO ESPORTE: UM ESTUDO CIENTÍFICO DO COMPORTAMENTO DESPORTIVO


Psicologia (do grego Ψυχολογία, transl. psykhologuía, de ψυχή, psykhé, "psique", "alma", "mente" e λόγος, lógos, "palavra", "razão" ou "estudo") é ciência relativamente nova, pouco mais de cem anos de existência, e pode ser definida como a ciência do comportamento e dos processos mentais. 

Trata-se de um campo vasto que sofre constantes modificações, especializando-se por áreas. Existe a psicologia geral, a psicologia psicanalítica, comportamentalista, jurídica, social, cognitiva e humanista entre outras possibilidades. Um novíssimo ramo que está se sedimentando de forma efetiva é a psicologia dos esportes.

A psicologia do esporte consiste no estudo científico do comportamento humano em contextos esportivos e de exercício, bem como na aplicação prática desse conhecimento nos ambientes de atividade física (GILL; WILLIAMS, 2008).

Na atualidade, com a evolução da psicologia geral, e da psicologia do esporte em particular, é reconhecido o valor dos métodos e das técnicas de avaliação dos parâmetros psicológicos, consideradas atividades altamente especializadas, com ênfase na avaliação e não na testagem. O objetivo principal dessas atividades é avaliar a uniformidade de indivíduos em aspectos essenciais e, por meio de classificação comparativa, observar um indivíduo quanto aos parâmetros da faixa etária a que pertence.

Para a Federação Europeia de Psicologia do Esporte (European Federation of Sports Psychology – FEPSAC), o foco da investigação da psicologia do exercício e do esporte encontra-se nas diferentes dimensões psicológicas da conduta humana: afetiva, cognitiva, motivadora ou sensório-motora (BECKER JÚNIOR, 2000).

A trajetória histórica da psicologia do exercício e do esporte pode ser sintetizada em seis períodos, conforme Weinberg e Gould (2008):

a) os primeiros anos (1895-1920) – o psicólogo Norman Triplett (1861-1931) foi o precursor da psicologia do esporte na América do Norte. Em 1897, ele investigou em que ocasião os ciclistas pedalavam mais rápido, se acompanhados ou sozinhos;

b) a era Griffith (1921-1938) – Coleman Griffith (1893-1966) é considerado o pai da psicologia do esporte nos Estados Unidos. Ele desenvolveu o primeiro laboratório desse ramo da psicologia e publicou dois livros clássicos: “Psychology of Coaching” (1926), no qual discutiu os problemas levantados pelos métodos de treinamento da época, e “Psychology of Athletics” (1928);

c) preparação para o futuro (1939-1965) – no Brasil, a psicologia do esporte teve início na década de 1950, quando o psicólogo João Carvalhaes implementou uma unidade de seleção de candidatos, de natureza psicotécnica, na Escola de Árbitros da Federação Paulista de Futebol (FPF). Após esse trabalho, Carvalhaes iniciou o acompanhamento psicológico dos jogadores do São Paulo Futebol Clube (COSTA, 2006). No plano mundial, o primeiro Congresso Internacional de Psicologia do Esporte foi realizado em Roma, na Itália, em 1965;

d) o estabelecimento da psicologia do esporte como disciplina acadêmica (1966-1977) – com o estabelecimento do curso superior de educação física, a psicologia do esporte passou a ser considerada uma disciplina desse curso, separando-se da disciplina de aprendizagem motora. Nessa época, surgiram as consultorias de psicólogos direcionadas a atletas e a equipes. Nos Estados Unidos, foram estabelecidas as primeiras sociedades científicas da área;

e) ciência e prática multidisciplinar na psicologia do exercício e do esporte (1978-2000) – a psicologia do exercício ganhou espaço. Nesse período, houve um aumento do número de eventos e de publicações científicas na área, que passou a contar com mais estudantes e profissionais. As pesquisas e as intervenções começaram a apresentar um viés multidisciplinar, à medida que os estudantes realizavam mais trabalhos de curso relacionados a aconselhamento e psicologia;

f ) psicologia do exercício e do esporte contemporânea (2000 até o presente) – no Brasil, psicólogos passaram a integrar equipes olímpicas e paraolímpicas. No nível mundial, observou-se um aumento da importância conferida às pesquisas em psicologia do exercício e do esporte, em virtude dos benefícios que o esporte traz à saúde e à qualidade de vida.

Grande parte dos estudos experimentais em psicologia do exercício e do esporte tem em vista dois objetivos, segundo Weinberg e Gould (2008): primeiro, entender como os fatores psicológicos afetam o desempenho físico de um indivíduo; por exemplo, como a ansiedade afeta a precisão de um jogador de basquetebol em um arremesso de lance livre; e, por conseguinte, compreender como a participação em esportes e exercícios afeta o desenvolvimento psicológico, a saúde e o bem-estar de uma pessoa; por exemplo, se existe uma relação entre o ato de correr e a redução da ansiedade e da depressão.

O profissional de psicologia tem a disposição as seguintes áreas de atuação: 

a) esporte de rendimento – a psicologia do exercício e do esporte é mais atuante no esporte de alto nível ou de alto rendimento. Nessa área, são investigados os fenômenos psicológicos determinantes do rendimento, ou seja, a psicologia é utilizada como uma ferramenta para aperfeiçoar o processo de recuperação e para otimizar o desempenho do atleta;

b) esporte educacional ou escolar – nessa área, a psicologia analisa os processos de ensino e de aprendizagem, bem como os processos de educação e de socialização. Aqui, enfoca a questão socioeducativa do esporte e do exercício;

c) esporte recreativo – tem em vista o bem-estar do indivíduo. Nessa área, a psicologia estuda os motivos, as atitudes e os interesses de grupos recreativos de diferentes faixas etárias, atuações profissionais e classes socioeconômicas;

d) esporte de reabilitação – engloba o trabalho tanto de atletas lesionados quanto de atletas deficientes físicos ou mentais. Nessa área, a psicologia investiga os aspectos preventivos e terapêuticos do esporte e do exercício.

João Batista Nunes, psicólogo e acadêmico do curso de direito.



REFERÊNCIAS 

BECKER JÚNIOR, B. Manual de psicologia do esporte & exercício. Porto Alegre: Nova Prova, 2000. COSTA, H. Resgatando a memória dos pioneiros: João Carvalhaes. Boletim Academia Paulista de Psicologia, v. 26, n. 3, p. 15-22, 2006.

GILL, D.; WILLIAMS, L. Psychological dynamics of sport and exercise. 3 ed. Champaign-IL: Human Kinetics, 2008.

WEINBERG, R.; GOULD, D. Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. 4. ed. Porto 36 Alegre: Artmed, 2008.