quarta-feira, 27 de agosto de 2014

TENHA CALMA!!! É APENAS MAIS UMA TENTATIVA DE GOLPE!


Passava das doze horas quando um colega de trabalho em seu apartamento recebe um telefonema. Do outro lado uma voz jovem, demonstrando controle da situação pergunta se Roberto é pai da menina Bianca, de 10 anos.

Pronto. Aqui começa uma das encenações mais frequentes do Brasil que tem vitimado centenas de pessoas num crime de extorsão¹. 

"O negócio é o seguinte, escute com atenção: acabamos de trocar tiro com a polícia aqui no Centro e pegamos sua filha como refém. O assalto não deu certo, mas estamos com sua filha e queremos R$ 20.000,00 para deixá-la viva" - continua a voz no celular. 

O trunfo dessa modalidade de crime é vulnerabilizar a pessoa que atende ao telefone, deixando tão abalado que as chances de racionar e avaliar a situação são mínimas. Um abalo emocional muito forte é sentido e a reação é quase sempre a mesma: ceder ao golpe. 

O bandido interlocutor sabe que assumiu total controle na armação, quando, na conversa, a vítima sobressaltada com "essa terrível notícia" diz: "Não faça mal algum a ela, eu vou providenciar o dinheiro!"

Nessa hora, um turbilhão de pensamentos invadem a mente da vítima ao mesmo tempo em que não a permite pensar em mais nada a não ser vê-se livre dessa situação. Mesmo que tenha alguém ali, ao seu lado, tentando falar algo, é em vão. A pessoa sai desesperada a agência bancária mais próxima para levantar a quantia exigida pelo bandido, e seguir, finalmente, todos os passos da entrega.

Quando enfim o dinheiro é repassado para o bandido que sai num carro ou moto em disparada, em poucos minutos se descobre que tudo aquilo não passou de uma manipulação emocional engendrada para extorquir a vítima e que a filha, mencionada pelo bandido como sequestrada, na verdade, acaba de ser deixada pela Kombi Escolar em sua casa, em paz e segurança, vindo de mais um dia comum de aulas do colégio. 

RECOMENDAÇÕES IMPORTANTES

Nessas horas, tomado pela surpresa de uma ligação sinistra, por mais que seja difícil, respire um pouco, tenha calma, avalie a situação por um instante.

Mantendo-se informado(a) nos noticiários sobre essas modalidades de crimes dá para identificar que as estratégias mudam mas há um padrão comportamental utilizado pelo bandido. Não se deixe dominar ou ser conduzido pelo cara que está do outro lado da linha. 

Não forneça informações sobre os membros de sua família do tipo: quantos são, os nomes, idades etc. para pessoas estranhas seja por telefone, e-mail, web. Não atenda pessoas com supostas "Pesquisas domiciliares" mesmo que apresentem supostas identificações. 

Há informações estritamente pessoais que não devem ser repassadas. É claro que pesquisas do IBGE, por exemplo, o censo, realizado a cada 10 anos, o cidadão e a cidadã tem por direito e dever fornecer as informações requeridas. Afora isso, evite receber em sua casa ou fornecer, por quaisquer meios informações.

NÃO CUSTA NADA SABER...

Fiquei impressionado com os estudos do Dr. Willian Sargant (1981) intitulado "Possessão da Mente", obra na qual fica evidenciada a temática da sugestão mental, experiência ligada a percepção das pessoas, a maneira como podemos ser influenciados em níveis impressionantes. Há indivíduos que são altamente sugestionáveis e em casos de um telefonema de um golpista, são suscetíveis de se submeter aos comandos facilmente, diferente de outros perfis.  

Autor: João Batista Nunes, psicólogo e estudante de direito.

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¹Extorsão: O Código Penal define essa modalidade de crime nos seguintes termos: "Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa", art. 158 do Código Penal.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

PSICOLOGIA DO ESPORTE: UM ESTUDO CIENTÍFICO DO COMPORTAMENTO DESPORTIVO


Psicologia (do grego Ψυχολογία, transl. psykhologuía, de ψυχή, psykhé, "psique", "alma", "mente" e λόγος, lógos, "palavra", "razão" ou "estudo") é ciência relativamente nova, pouco mais de cem anos de existência, e pode ser definida como a ciência do comportamento e dos processos mentais. 

Trata-se de um campo vasto que sofre constantes modificações, especializando-se por áreas. Existe a psicologia geral, a psicologia psicanalítica, comportamentalista, jurídica, social, cognitiva e humanista entre outras possibilidades. Um novíssimo ramo que está se sedimentando de forma efetiva é a psicologia dos esportes.

A psicologia do esporte consiste no estudo científico do comportamento humano em contextos esportivos e de exercício, bem como na aplicação prática desse conhecimento nos ambientes de atividade física (GILL; WILLIAMS, 2008).

Na atualidade, com a evolução da psicologia geral, e da psicologia do esporte em particular, é reconhecido o valor dos métodos e das técnicas de avaliação dos parâmetros psicológicos, consideradas atividades altamente especializadas, com ênfase na avaliação e não na testagem. O objetivo principal dessas atividades é avaliar a uniformidade de indivíduos em aspectos essenciais e, por meio de classificação comparativa, observar um indivíduo quanto aos parâmetros da faixa etária a que pertence.

Para a Federação Europeia de Psicologia do Esporte (European Federation of Sports Psychology – FEPSAC), o foco da investigação da psicologia do exercício e do esporte encontra-se nas diferentes dimensões psicológicas da conduta humana: afetiva, cognitiva, motivadora ou sensório-motora (BECKER JÚNIOR, 2000).

A trajetória histórica da psicologia do exercício e do esporte pode ser sintetizada em seis períodos, conforme Weinberg e Gould (2008):

a) os primeiros anos (1895-1920) – o psicólogo Norman Triplett (1861-1931) foi o precursor da psicologia do esporte na América do Norte. Em 1897, ele investigou em que ocasião os ciclistas pedalavam mais rápido, se acompanhados ou sozinhos;

b) a era Griffith (1921-1938) – Coleman Griffith (1893-1966) é considerado o pai da psicologia do esporte nos Estados Unidos. Ele desenvolveu o primeiro laboratório desse ramo da psicologia e publicou dois livros clássicos: “Psychology of Coaching” (1926), no qual discutiu os problemas levantados pelos métodos de treinamento da época, e “Psychology of Athletics” (1928);

c) preparação para o futuro (1939-1965) – no Brasil, a psicologia do esporte teve início na década de 1950, quando o psicólogo João Carvalhaes implementou uma unidade de seleção de candidatos, de natureza psicotécnica, na Escola de Árbitros da Federação Paulista de Futebol (FPF). Após esse trabalho, Carvalhaes iniciou o acompanhamento psicológico dos jogadores do São Paulo Futebol Clube (COSTA, 2006). No plano mundial, o primeiro Congresso Internacional de Psicologia do Esporte foi realizado em Roma, na Itália, em 1965;

d) o estabelecimento da psicologia do esporte como disciplina acadêmica (1966-1977) – com o estabelecimento do curso superior de educação física, a psicologia do esporte passou a ser considerada uma disciplina desse curso, separando-se da disciplina de aprendizagem motora. Nessa época, surgiram as consultorias de psicólogos direcionadas a atletas e a equipes. Nos Estados Unidos, foram estabelecidas as primeiras sociedades científicas da área;

e) ciência e prática multidisciplinar na psicologia do exercício e do esporte (1978-2000) – a psicologia do exercício ganhou espaço. Nesse período, houve um aumento do número de eventos e de publicações científicas na área, que passou a contar com mais estudantes e profissionais. As pesquisas e as intervenções começaram a apresentar um viés multidisciplinar, à medida que os estudantes realizavam mais trabalhos de curso relacionados a aconselhamento e psicologia;

f ) psicologia do exercício e do esporte contemporânea (2000 até o presente) – no Brasil, psicólogos passaram a integrar equipes olímpicas e paraolímpicas. No nível mundial, observou-se um aumento da importância conferida às pesquisas em psicologia do exercício e do esporte, em virtude dos benefícios que o esporte traz à saúde e à qualidade de vida.

Grande parte dos estudos experimentais em psicologia do exercício e do esporte tem em vista dois objetivos, segundo Weinberg e Gould (2008): primeiro, entender como os fatores psicológicos afetam o desempenho físico de um indivíduo; por exemplo, como a ansiedade afeta a precisão de um jogador de basquetebol em um arremesso de lance livre; e, por conseguinte, compreender como a participação em esportes e exercícios afeta o desenvolvimento psicológico, a saúde e o bem-estar de uma pessoa; por exemplo, se existe uma relação entre o ato de correr e a redução da ansiedade e da depressão.

O profissional de psicologia tem a disposição as seguintes áreas de atuação: 

a) esporte de rendimento – a psicologia do exercício e do esporte é mais atuante no esporte de alto nível ou de alto rendimento. Nessa área, são investigados os fenômenos psicológicos determinantes do rendimento, ou seja, a psicologia é utilizada como uma ferramenta para aperfeiçoar o processo de recuperação e para otimizar o desempenho do atleta;

b) esporte educacional ou escolar – nessa área, a psicologia analisa os processos de ensino e de aprendizagem, bem como os processos de educação e de socialização. Aqui, enfoca a questão socioeducativa do esporte e do exercício;

c) esporte recreativo – tem em vista o bem-estar do indivíduo. Nessa área, a psicologia estuda os motivos, as atitudes e os interesses de grupos recreativos de diferentes faixas etárias, atuações profissionais e classes socioeconômicas;

d) esporte de reabilitação – engloba o trabalho tanto de atletas lesionados quanto de atletas deficientes físicos ou mentais. Nessa área, a psicologia investiga os aspectos preventivos e terapêuticos do esporte e do exercício.

João Batista Nunes, psicólogo e acadêmico do curso de direito.



REFERÊNCIAS 

BECKER JÚNIOR, B. Manual de psicologia do esporte & exercício. Porto Alegre: Nova Prova, 2000. COSTA, H. Resgatando a memória dos pioneiros: João Carvalhaes. Boletim Academia Paulista de Psicologia, v. 26, n. 3, p. 15-22, 2006.

GILL, D.; WILLIAMS, L. Psychological dynamics of sport and exercise. 3 ed. Champaign-IL: Human Kinetics, 2008.

WEINBERG, R.; GOULD, D. Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. 4. ed. Porto 36 Alegre: Artmed, 2008.

sábado, 21 de junho de 2014

ENSAIO SOBRE O LESBIANISMO


O neurologista e psiquiatra austríaco Sigmund Freud (1856-1939) escandalizou a Europa, principalmente o meio mais puritano e moralista do século XIX, ao teorizar sobre a sexualidade humana, um assunto que até então as ciências humanas não ousavam tocar.

Devo admitir que, para falar sobre certos assuntos, num rigoroso ambiente intelectual da época, exigiria coragem de qualquer um, mas Freud transpôs todos os limites ao ponto de ser satanizado e ter seus escritos rebaixados, por não poucos, à categoria das obras perversas, ou seja, um louco pervertido a serviço do desmonte da moral, virtude e bons costumes.

Mas, inequivocamente, deveu-se a Freud o crédito de ter provocado o mundo acerca dos vários aspectos que envolvem a sexualidade humana, os quais subjaziam nos porões e demais lugares obscuros de uma sociedade regida pelas conveniências das convenções sociais. Coisa assemelhada ao pai que espanca severamente e expulsa do aconchego familiar a filha que se descobre não mais virgem e, esse mesmo pai tão moralista é o mesmo freguês incorrigível dos bordéis da cidade. 

Ou daquele clérigo que não hesita em excomungar um pobre coitado por desobediência a algum preceito religioso, mas esse mesmo sacerdote se vê enredado pela volúpia e atração irrefreável por alguns sob sua liderança.

Enfim, Freud ousou afirmar, no escopo de sua teoria da sexualidade (Leipzig e Viena, 1905, mais tarde, publicado e traduzido pela editora Standart, 24 volumes, sob a direção geral do Dr. Jaime Salomão) que o desvio da pulsão sexual de seu objeto incorreria, entre outras modalidades de desvios, no comportamento sexual invertido. 

Em relação ao objeto, tem-se que seria o canal de indução do desejo sexual, neste caso, o homem sente desejo sexual pela mulher, e esta por ele. Quando não se dá nesse nível, essa pulsão ou instinto sexual é desviado para outro objeto, o do mesmo sexo, podendo ser uma relação homem a homem ou mulher com mulher, onde indivíduos buscam a plena satisfação e correspondência do prazer sexual.

Numa explicação pouco mais complexa, a situação do comportamento do invertido ou homossexualismo se daria num nível de defesa maníaca. Uma maneira do ego se proteger face a determinadas ansiedades de ordem essencialmente paranóide, mas também depressiva. 

No que se refere às defesas maníacas a psicanálise nos permite supor, tal como abordara Melanie Klein, que elas surgem já na posição esquizo-paranóide e que estão também presentes na posição depressiva; por esta razão, as defesas maníacas podem relacionar-se às ansiedades - e mecanismos - tanto paranóides como depressivas. 

O adensamento dessa discussão freudiana culminará com os "Três ensaios sobre a sexualidade", nos quais o homossexualismo assume o caráter de um "comportamento invertido", como já frisado, e que varia grandemente sob diversos aspectos. 

Pode ser o invertido absoluto, no qual se estabelece a escolha do objeto sexual exclusivamente a partir de seu próprio sexo (essa escolha decorre de uma origem narcísica). 

Podem haver também os invertidos anfigênicos, ou seja, os hermafroditas psicossexuais; nesse caso seus objetos sexuais tanto podem ser do mesmo sexo como do sexo oposto, não possuindo a característica da exclusividade. 

Existem também os invertidos ocasionais, os expostos às influências de certas condições exteriores, como por exemplo, os presidiários, que na falta do objeto sexual normal (termo utilizado por Freud), obtém prazer com o objeto do mesmo sexo.

Em síntese: os invertidos absolutos, em muitos casos, assim que se autodescobrem homossexuais o sentimento predominante chega a ser, em muitos casos, de completa aversão ao sexo oposto; ao passo que os anfigênicos, hermafroditas psicossexuais se identificam com a bissexualidade, tendendo a pender predominantemente para um sexo, mas, não negando a possibilidade de se satisfazer plenamente com o outro. Não se constituindo em regras fixas de comportamento, é claro; e, os invertidos ocasionais, são aqueles ou aquelas que, por carência afetiva, ou alguma outra forma de envolvimento, de maneira fortuita, pouco frequente, são envolvidos em experiências sexuais homoafetivas. Geralmente, nesses casos, há sempre um cenário propício e convidativo. 

Representações iconográficas apontam o lesbianismo, se permitido ou não pelas sociedades, não se há como delimitar com exatidão, como uma prática de tempos imemoriais. 

Phillipe Àries pontuou esse e outros comportamento em "História da Vida Privada", volumes 1,2 e 3, comprovando uma prática, de fato, bastante antiga.

Porquê essas considerações sobre o lesbianismo? Porque não se pode esconder o fascínio existente desde o explicitado pela antropologia cultural, quando das fases nas quais o matriarcalismo era aqui e acolá, dominante. 

O germe dessa dominância produziu um ser que a cultura falocrática fez questão de pintar como "sexo frágil", e tal rótulo tem escondido várias facetas dessa implicação. A mulher consegue de comunicar de múltiplas maneiras, dentre as quais, os olhos se constituem ótimos exemplos. 

No jogo sexual, ela é paciente. Capaz de passar, de forma preliminar, vários minutos de contemplação da parceira, cercando-a de elogios e explorando exatamente as regiões mais prazerosas do corpo. Existe um cultuamento do corpo que se traduz como um componente essencial no longo percurso do clímax, do pico máximo de prazer.

O encontro de olhares, as carícias, a contemplação, o beijo prologado convergem igualmente para a direção do pleno prazer. É nesse item que muitos homens têm perdido a batalha da conquista, muitas vezes para outra mulher. 

Estudo de caso: KMC (21 anos) diz que teve sua primeira experiência sexual com outra mulher, quando na adolescência, na casa da amiga, aonde bebeu e foi convidada a tomar banho juntas. As carícias começaram por parte da amiga e a sensação de prazer logo se tornou maior que a apreensão primeira em relação a tudo que estava acontecendo naquela ocasião. Ela afirmou que namora com um rapaz, mas não dispensa o prazer lésbico.

CRC (26 anos)  Após um beijo na boca dado por uma professora ensino fundamental, "descobriu-se lésbica" e todas as suas experiências sexuais tem sido com mulheres.

ACV (41 anos) Depois de 19 anos de casamento, teve sua experiência sexual com a vizinha lésbica. Desde então, deixou o marido e passou a viver com ela noutra cidade.

As experiências sexuais com outra mulher tendem a ser, de acordo com pesquisa do comportamento sexual feminino, desenvolvida por importante Centro Médico Francês (1979) decisivas para modelagem comportamental. Geralmente tem como componente favorável a carência afetiva sentida por uma das partes, supridas a contento. 

Por fim, hipoteticamente, quando a mulher tem desenvolvida uma compreensão segura do que realmente quer para sua vida, e sobre o assunto é um pouco mais inteirada, tende a ser uma conquista lésbica quase impossível se processar.

No jogo simbólico, ao contrário do homoafetivo masculino, a lésbica sempre terá a necessidade de (esgotadas todas as manobras sexuais que no início da relação dão enormes espasmos de prazer que se desgastam caindo na mesmice) de recorrer a um substituto do pênis, pois a relação termina notando a ausência insubstituível da penetração. Dai as empresas do ramo se especializarem em reproduzir todos os tipos de pênis de látex (do simples ao sofisticado) para atender aos gostos mais exigentes.

No jogo da conquista, como as demonstrações de afeto e carinho entre mulheres são comuns, naturais, espontâneas, o processo de conquista homoafetivo é algo que, em muitos casos, chega  a ser camuflado levando-se o tempo julgado necessário a todo um percurso, ou pelo receio de como a outra - até então alheia a esse sentimento específico e incomum para ela - irá reagir; ou por outras razões mais complicadas envolvendo a pessoa-alvo. 

A camuflagem é tão tênue que, comportamentos afetivos vão-se evoluindo do convencional ao estritamente prazer-erótico. Nesse estágio, a outra - por mais "bobinha" que tentou demonstrar ser, já percebe que se trata, na verdade de uma conquista lésbica. 

Do contrário, a reação é de nojo, repugnância e total desacordo, gerando-se um clima extremamente desagradável tanto para uma como para outra, quando a relação era de amizade duradoura.

Mas uma tática infalível para se vencer as barreiras do senso moral estruturadas através das regras de convivência familiar, social e religiosa é a de se conquistar através dos encontros entre amigas regado à bebidas. Busca-se vencer resistências quando se atinge a embriaguez. As experiências sexuais lésbicas, neste caso, podem produzir dois efeitos: a pessoa se envolve e "curte" e passa a dar largueza a esse tipo de relação, de forma plena ou parcial, no caso da relação bissexual, ou a pessoa "curtiu" a experiência, mas a pulsão sexual hetero predominou.


O Autor: João Batista Nunes é psicólogo, pós-graduando em GRH e acadêmico do curso de Direito.

Fontes Bibliográficas 

Buhler C. A Psicologia na Vida do Nosso Tempo. Lisboa: Fundação Caloust Gulbenkian, 1962;

Schultz, D. & Schultz, S. História da Psicologia Moderna. São Paulo: Editora Cultrix, 1981.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

A GEOPOLÍTICA EM TORNO DA ÁGUA


"Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos... 
A caatinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de 
manchas brancas que eram ossadas. 
Miudinhas, perdidas no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, 
somaram as suas desgraças e os seus pavores."¹ 



A história das guerras tem sido, via de regra, produzida em torno da geopolítica e geoestratégia, embora, esses termos sejam modernos, mas sua essência remonta períodos imemoriais. A luta por espaços privilegiados, riquezas e recursos naturais levaram cidades-estados a invadir outros domínios. Nações que, sob pretextos pré-fabricados, declararam guerras visando estruturar a hegemonia não o faziam sem que, intimamente, tivessem reais motivações não declaradas.

Disputa por mercados, ampliação de territórios, domínio do petróleo parecem questões que se apequenam diante do cenário mundial que se projeta e se confirma: a escassez de água em nível global.

A ÁGUA doce, por ser um bem cada vez mais escasso - somente 0,07% é acessível ao consumo humano - , vem se transformando em preciosa e cobiçada commodity mundial. Atualmente, o preço médio da água encanada no mundo é US$ 1,80 por m3.

Hoje, 1,6 bilhão de pessoas grave insuficiência de água e 2,6 bilhões não dispõem de saneamento básico. Dados do international Water Management Institute (IWMI) mostram que no ano 2025 mais de 30% da população mundial, 1,8 bilhão de pessoas de diversos países, deverá viver com absoluta falta de água.

Há em curso uma disputa pelo controle e acesso à água potável, movida pela lógica de que aquele que detiver este controle terá um poder de vida ou de morte sobre milhões e milhões de pessoas.

Isto porque quanto mais a água for escassa e rara, mas frequentes e numerosos serão os conflitos e as guerras intra-nação e internações por ela. Neste contexto, água não mais será uma fonte de paz e cooperação, mas de guerra e rivalidade. O futuro corre o risco de ter uma economia da água baseada em competição pela sobrevivência. É a petrolização da água.
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¹Graciliano Ramos in Vidas Secas, 1938.

João Batista Nunes formado em psicologia, estudante de direito e pós-graduando em GRH.

domingo, 27 de abril de 2014

A PARTICIPAÇÃO DA MULHER NO PROCESSO POLÍTICO BRASILEIRO-UM OLHAR GENDRADO


Na discussão de gênero e do papel ativo feminista que busca avançar rumo a cristalização de uma consciência harmonizada com os reais valores sociais de igualdade entre homens e mulheres, eis que surge o vocábulo 'gendrado', identificador dessa significativa militância.

Diz-se que uma pessoa gendrada é aquela inserida na dinâmica social e cultural relacionada à experiência sexuada, aos valores, regras, normas e demais vinculações ligadas a essa experiência. Logo, "olhar gendrado é um olhar voltado para o gênero e não para o sexo homem e mulher, ou seja, um olhar em torno de um conjunto de ideias sobre o que É SER UMA MULHER e o que É SER UM HOMEM nos padrões que definem o que é socialmente considerado feminino e masculino"¹.

No olhar gendrado se baseia o movimento feminista, que pode ser conceituado como "uma doutrina ou movimento social que professa a ideia de liberdade e igualdade, tendo a frente mulheres e volta-se, em especial, à crítica das desigualdades entre os sexos e as formas desiguais de relacionamentos sociais"².

No Brasil, a lula pela educação e o direito ao voto caracterizou o feminismo na segundo metade do século XIX. Nesse contexto foram criados vários jornais feministas: em 1852, o Jornal das Senhoras; em 1873, o Sexo Feminino; e, em 1880, a Revista Família. Todos tratavam de questões ligadas à emancipação feminina.

Nísia Floresta Brasileira Augusta era o pseudônimo da potiguar Dionísia Gonçalves Pinto, nascida em 12 de outubro de 1810 e já em 1831 estreava no jornal Espelho das Brasileiras escrevendo artigos sobre a condição feminina. Em 1832 publica em Recife seu primeiro livro: Direitos das mulheres e injustiça dos homens, reeditado posteriormente em Porto Alegre em 1833 e em 1839 sai a terceira edição, dessa vez publicada no Rio de Janeiro. Em 1838 cria um colégio feminino no Rio de Janeiro e em 1842 sai a primeira edição do livro Conselhos à minha filha. Nísia faleceu em 1885 em Bonsecours, interior da França onde residia, após publicar muitos livros e artigos em vários idiomas, em sua maioria tratando da condição feminina.

O MOVIMENTO SUFRAGISTA

Em 1880, ainda sob o Império, a dentista baiana Isabel de Mattos Dillon, requereu da justiça seu alistamento como eleitora e conseguiu ganhar a demanda em segunda instancia. Mais tarde, Isabel Dillon tentou candidatar-se à primeira Constituinte Republicana. Sua pretensão foi rechaçada pelo Ministro do Interior do Governo Provisório, Cesário Alvim, através do decreto Nº 511 de junho de 1890, que apesar de não restringir explicitamente o voto feminino, na prática, esse regulamento excluiu as mulheres do conceito de “cidadão”.

O sufragismo brasileiro - alimentou as aspirações femininas pela conquista de direitos jurídicos/políticos. Para conquistar o voto feminino, as sufragistas realizaram várias manifestações, em especial, no âmbito do Parlamento. Por meio da atuação de alguns deputados, muitos projetos foram apresentados visando garantir o direito de voto às mulheres, todos eles rechaçados.

Mas foi apenas com a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, criada em 1922, sob a liderança de Bertha Lutz que a luta sufragista ganhou um maior impulso, chegando à conquista do voto feminino.

O direito de voto para as mulheres foi estabelecido, por fim, em 1932, como o Decreto nº 21.176de 24 de fevereiro, que regulava em todo o país o alistamento eleitoral e as eleições federais, estaduais e municipais. O direito de voto foi incorporado a Constituição de março de 1934, no art. 108, com o seguinte texto: “São eleitores os brasileiros de um ou outro sexo, maiores de 18 anos, que se alistarem na forma da lei”.

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¹CEFOR-Câmara dos Deputados, 2014.
² BARSTED; ALVES, 1987, P. 206.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O PENSAMENTO ESTRATÉGICO

O pensamento ou pensar é um processo cognitivo primário e complexo, objeto de estudo de vários filósofos, fisiologistas e psicólogos ganhando força no século XIX, mas sempre mantendo um olhar no passado histórico. Ao longo da história, filósofos, matemáticos, biólogos e outros pesquisadores se interessaram pelas capacidades mentais que os seres humanos possuem. Platão e Aristóteles, por exemplo, já teorizavam sobre o pensamento e a memória, partindo de sua base empírica. Portanto, um longo caminho se processou para que hoje tivéssemos, dentro ainda de grandes limitações, uma compreensão razoável sobre o pensamento, esse processo mental tão importante para nossas vidas, em todos os sentidos e aplicações.

  


sábado, 19 de abril de 2014

SOMOS HI:TECH, MAS DEPENDENTES DA ECONOMIA FÓSSIL


Lendo uma das sumidades na área de energias renováveis, o Dr. Hermann Scheer, autor de "Economia Solar Global - Estratégias para a modernidade ecológica" (2011), editado pelo Centro de Referências para Energia Solar e Eólica Sérgio de Salvo Brito - CRESESB/Cepel, vim a compreender um pouco mais de perto acerca de um assunto tão premente para o alargamento de nossa visão crítica. De fato, podemos até ser uma sociedade hi:tech em vários setores do engenho humano, mas, sem dúvida, somos predominantemente dependentes da economia fóssil, aquela que se alimenta dos insumos que a indústria transforma em combustíveis altamente, comprometedores para a construção de uma sociedade sustentável.

A economia mundial baseia-se em recursos energéticos não renováveis como o carvão, o petróleo, o gás e o urânio, cuja utilização tem consequências catastróficas para o homem e para o ambiente, provocando a já acelerada extinção dos recursos do planeta.

Como destacado pelo autor, "qualificar a economia mundial como fóssil justifica-se pelo fato que o abastecimento em escala planetária realiza-se em sua maioria, com energias  fósseis, das quais dependem quase todas as atividades da humanidade[...]", op. cit. , p. 191). 

O que somos e até onde podemos ir está relacionada a opção de uma determinada base de recursos que traduzem a importância fundamental para o desenvolvimento econômico e, consequentemente, para a evolução da sociedade. 

Para se ter uma ideia do panorama do consumo energético, de acordo com estatísticas, o consumo mundial de energia se baseia em cerca de 32% na combustão de petróleo, cerca de 25% na combustão de carvão, cerca de 17% na combustão de gás natural, cerca de 5% no uso de combustível nuclear e cerca de 14% na queima de biomassa - com a particularidade de que esta queima tem sido acompanhada por um processo de regeneração em pequena proporção. Somente 6% do consumo total está coberto pela força hidráulica. 

Uma das principais teses defendidas pelo Dr. Scheer é a de que a civilização mundial somente poderá escapar da armadilha dos recursos fósseis se fizer todo o possível para começar, sem demora, a substituí-los por recursos renováveis e compatíveis com a natureza a fim de tornar-se independente daqueles.

Assim, por que não a energia solar? Uma economia planetária permite satisfazer o conjunto das necessidades de energia e matérias-primas graças ao uso de fontes energéticas e materiais de tipo solar. "O potencial inesgotável das energias solares ou renováveis engloba a luz e o calor do Sol, as ondas e os ventos, a força hidráulica, a energia procedente das plantas e outras substâncias."

Os materiais de origem vegetal também têm caráter solar, pois são produzidos pelo Sol através da fotossíntese. Os termos usuais para designá-los são: biomassa, materiais recicláveis, materiais ou biógenos. 

Para o autor, num entanto, o nome coletivo de matérias-primas solares, que não apenas ressalta sua procedência direta, mas também faz alusão à alternativa que pode e deve conduzir de energias e materiais fósseis àqueles que o Sol produz continuamente e em sintonia com a natureza.