sábado, 24 de janeiro de 2015

MUNDO DO TRABALHO: VALORIZANDO AS PESSOAS



O mundo do trabalho presentificado em nossos dias caminha cada vez mais rápido para a compreensão de que a micro e a macroeconomia é processada pelo indivíduo num contexto da coletividade. Ou seja, o entendimento de que os seres humanos são distintos em termos de necessidades, expectativas e capacidades, "que se alteram ao longo do tempo em virtude de múltiplas variáveis" (Zanelli, 2004) refinam a visão da importância da valorização das pessoas. Um ponto relevante para a gestão de pessoas nas organizações.

Nesse prisma, permitam-me aprensertar-lhes dois grandes autores Willis Harman e John Hormann que, na obra O Trabalho Criativo (1997) aborda a temática de maneira atualizada e, sem dúvida, indispensável às nossas considerações. 

Harman cobriu duas guerras mundiais e uma guerra fria; com três carreiras distintas e ampla experiência junto ao Instituto de Pesquisas Stanford que lidera com a investigação de futuros e planejamento estratégico. Hormann, por sua vez, da Fundação Shweisfurth, de Munique, após uma trajetória de sucesso na IBM, dedica-se com os estudos na abordagem do "pensamento causalista", conceito criado por ele para analisar as estruturas da realidade global, assim como os processos dinâmicos das mudanças sociais.

Esses autores apontam como características imprescindíveis da nova sociedade organizacional emergente a valorização das pessoas. Paul Hawken, empresário bem sucedido, citado como um dos inúmeros exemplos dessa linha de pensamento afirma que "a qualidade que mais lhe interesse é o 'coração da pessoa'. É uma boa pessoa? Gosta dos outros? Está pronto a ajudá-los e trabalhar com eles harmônica, solidária e cooperativamente? Seu trabalho expressa essa qualidade?"

A nova configuração do mundo do trabalho tem focado a busca por competências multifacetada com vistas a excelência. É o que discorre Moller (1992) em O Lado Humano da Qualidade para quem a qualidade pessoal é a base de todas as outras qualidades. Ele chega a afirmar que "o futuro de uma empresa ou organização depende desse item fundamental para satisfazer os requisitos de qualidade do mundo exterior."

A qualidade pessoa, é claro, depende de uma série de fatores inerentes à pessoa onde a inteligência não é suficiente. 

O psicólogo Robert Sternberg, da Yale, citado por Caproni (2003), concorda que nem sempre as pessoas bem sucedidas são as mais inteligentes, tecnicamente proficientes ou as que têm melhor nível de escolaridade. Ele argumenta que a "inteligência bem-sucedida" vai além da inteligência cognitiva (o quantum de conhecimentos teóricos e técnicos) para incluir a que denomina de "inteligência criativa e prática. 

De acordo com Sternberg (op. cit.) "pessoas com inteligência prática sabem como alavancar sua inteligência cognitiva aplicando o que aprendem de maneiras novas e criativas." O resultado: outras pessoas consideram útil e fascinante.

A pesquisa de Daniel Goleman sobre inteligência emocional no trabalho corrobora para a conclusão de Sternberg, de que apenas a inteligência cognitiva é insuficiente para prognosticar o sucesso de pessoa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


HARMAN, Willis; Hormann, John. O Trabalho Criativo. O Papel Construtivo dos Negócios numa Sociedade em Transformações. São Paulo: Cultrix, 1997.

MOLLER, Claus. O Lado Humano da Qualidade. Maximizando a Qualidade de Produtos e Serviços Através do Desenvolvimento das Pessoas. São Paulo: Pioneira, 1992.

ZANELLI, Carlos José (Org). Psicologia, Organizações e Trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2004.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

RUI, A ÁGUIA DE HAIA


Eis ai um grande brasileiro que a História Nacional não irá esquecer, dentre tantos filhos ilustres desta terra. Cultíssimo, jurista de larga nomeada, advogado corajoso, gozava de uma imensa popularidade. Seu nome havia sido indicado pelo Barão do Rio Branco para representar o Brasil na 2º grande Conferência Internacional de Paz em Haia, Holanda em 1907.

Intelectual, um erudito. Rui após mobilizar a opinião pública brasileira quanto a questão do Acre, submetida a arbitragem internacional, defendida pelo amigo Rio Branco, demonstrara espírito indomável, posições pétreas, como de quem não volta jamais atrás acerca de suas palavras.

Seu ego robustecido pela erudição, sofrera uma das mais antigas (e ao mesmo tempo atual) de todas as lições a que os grandes homens deveriam trazê-las inscritas em seus corações: a da humildade de espírito.

A história mostrou que o Rio Branco estava certo em todas as suas postulações e venceu do modo surpreendente a questão para o Brasil recebendo o louvor de todos os brasileiros e nesse episódio, além de Rui não ter outra saída senão admitir que estava completamente equivocado, demonstrou que a voz da maioria sem sempre é a correta e justa.

O próprio Rio Branco, enfim, com grande demonstração de espírito público e ser humano, sem resquício algum de ressentimento, indicou o nome de Rui para essa tão grande e honrosa missão.

Rui relutou muito. Já com seus 58 anos e a saúde precária desde a mocidade, ainda sentindo os reflexos de seus esforços junto ao Ministério da Fazenda, das campanhas pela legalidade e pelo Estado de Direito na era florianista, do trabalho, na réplica às observações de Carneiro Ribeiro ao seu Parecer sobre o Código Civil. Mas quanto a essa nova missão não tinha dúvida. Sabia que era capaz.

Naturalmente tinha consciência de que em Haia iria lidar com grande nomes internacionais, diplomatas experientes, tendo por trás de si Estados poderosos.

Mesmo em épocas tão pretéritas da política das Relações Exteriores e do direito internacional brasileiro, já se podia sentir o peso do marketing pessoal. Rio Branco habilmente preparava o caminho de seu embaixador. Mandou Joaquim Nabuco à Europa, espalhar a fama do representante brasileiro. Vários perfis de Rui, meses antes de sua ida eram publicados em jornais europeus. 

No navio, rumo à Europa, Rui fez amizade com o representante argentino, Luis Maria Drago, que contribuiu para colocá-lo a par das tendências fundamentais da Conferência. Ao chegar em Haia, o embaixador brasileiro, conselheiro Rui Barbosa, estava pronto para a luta.

E ela seria tremenda. Ignorado de início pelos representantes das grandes potências, Rui parecia falar em vão. Os presentes pareciam indiferentes aquela figura, discursando ao vento. Uma sensação de frustração invadiu seu ser. Mas ele buscava se fortalecer a partir das correspondências trocadas com o Barão, animando-o: não desista!

Ele soube se impor, apesar de o acharem meio arrogante, um homem franzino tentando dar lições à velha Europa. 

No dado momento das discussões, chamaram-lhe a atenção pelo que consideravam sua opinião política incompatível com a conferência de Paz, pelo que Rui se levantou e, todos perceberam sua imensa palidez, ia falar. 

Aos borbotões saiu-lhe o discurso, em francês, defendendo a opinião antes emitida. Em nome dos povos fracos e da própria noção de paz internacional, justificava a intromissão da política na Conferência. Não seria política, afinal, a absoluta ausência de debate político a que as grandes potências pretendiam sujeitar o conclave? Exaltou-se, falou como nunca antes falara, cercado do silêncio pasmo e admirativo de todos, Ao fim, não bateram palmas, mas Mr. Barbosa mudara de dimensão. Era agora, pessoalmente, um dos grandes.

Daí em diante, foi sucesso. Colocaram-no na Comissão dos Sete Sábios. Ouviam com atenção suas palavras. Contra a discriminação militarista ergueu-se a voz de Rui Barbosa defendendo a igualdade jurídica dos Estados. "Todos os países eram iguais perante a ordem internacional."

Rui defendeu com maestria o princípio básico: "todos são iguais perante a lei". E com isto inovava radicalmente na teoria política internacional. Como não podai deixar de ser, essa revolução não foi bem aceita de início. Mais, relutantes, as grandes potências tiveram que ceder, constrangidas pelos rumos das discussões que, levadas a efeito por Rui, chamaram atraíram a atenção da opinião pública internacional.

Aquela 2º Conferência Internacional pela Paz, de Haia, não resultou em grandes avanços, mas Rui se notabilizou perante os grandes debatedores, tidos inicialmente como baluartes do encontro. Ao chegar no Brasil, em grande festa, chamaram-no de "A Águia de Haia."

João Batista Nunes
Psicólogo Organizacional, Acadêmico do Curso de Direito e Pós-graduando em Gestão de Recursos Humanos. João Pessoa, Estado da Paraíba, Brasil.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

PARA COMEÇAR DIGA A QUE VEIO


Falar em público não é fácil. Há pessoas que falam para públicos variados de forma envolvente e descomplicado, levando-nos quase sempre a pensar que toda aquela desenvoltura é um dom. Mas não é. Tal pessoa percorreu um longo e metódico caminho para atingir determinado grau de satisfação. 

O primeiro grande obstáculo no caminho de quem quer ou precisa inevitavelmente falar em público é o medo. Se servir de estímulo, todos os que enfrentam auditórios repletos de olhares esperando ouvir algo concreto da pessoa, têm medo. Anormal seria se não sentisse aquele friozinho na barriga diante de certos desafios como o de falar para tantos espectadores. 

Mas, sem dúvida alguma, falar ao público é uma, sobretudo, uma arte. E por isso precisa ser desenvolvida, aperfeiçoada tendo sempre em mente que não podemos nos deixar se pegos pelo improviso. 

Houve tempo em que falar em público utilizando-se de todos os recursos da boa oratória para atingir determinado fim era fator de grande importância. E isso nos remete às origens greco-romana.

A arte da oratória, fundamentada em princípios disciplinadores de conduta, teve origem na Sicília, no século V a.C., através do siracusano Corax e seu discípulo Tísias. De acordo com o emérito professor Reinado Polito (1995) existia uma anedota sobre o aprendizado de Tísias. Quando Corax lhe cobrou as aulas ministradas, Tísias recusou-se a pagar, alegando que, se fora bem instruído pelo mestre, estava apto a convencê-lo de não cobrar, e, se este não ficasse convencido, era porque o discípulo ainda não estava devidamente preparado, fato que o desobrigava de qualquer pagamento.

Eles publicaram um tratado, ou technê, que não chegou aos nossos dias, mas sobre o qual vários autores se referiram. O próprio Aristóteles atribuiu-lhes o mérito de iniciar a retórica. 

Corax escreveu esta obra para orientar os advogados que se propunham a defender as causas das pessoas que desejavam reaver seus bens e propriedades tomados pelos tiranos. Era um tratado prático, cujos ensinamentos se restringiam à aplicação nos tribunais. Segundo Corax, o discurso deveria ser dividido em cindo partes: o exórdio, a narração, a argumentação, a digressão e o epílogo.

Mas, foi em Atenas que a arte oratória encontrou campo fértil para o seu desenvolvimento. Os sofistas foram os primeiros a dominar com facilidade a palavra; entre os objetivos que possuíam visando a uma completa formação, três eram procurados com maior intensidade: adestrarem-se para julgar, falar, agir. Os sofistas desenvolviam seu aprendizado na arte de falar, praticando leituras em público, fazendo comentários sobre os poetas, treinando improvisações e promovendo debates públicos.

Górgias, importante retor grego, transmitiu seus conhecimentos a muitos oradores, e um de seus discípulos, Isócrates, que viveu de 436 a 338 a. C., implantou a disciplina da retórica no currículo escolar dos estudantes atenienses. Isócrates ampliou o campo de estudo da oratória, não se limitando apenas à retórica, pois associou a ela boa parte da filosofia socrática, assimilada na época em que foi discípulo de Sócrates.

Com todo esse método que a História lhe creditou, Isócrates apresenta uma interessante singularidade: nunca proferiu um só discurso, apenas estudou sua técnica e os escreveu. Isto porque sua voz era deficiente para a oratória e alimentava pavor incontrolado pela tribuna.

Nesta mesma época, século IV a.C., encontramos outro estudioso da retórica, Anaxímenes de Lâmpsaco, que apresentou grandes contribuições para a compreensão desta arte, principalmente quanto a sua divisão. Suas observações levaram-no a classificar a retórica em três gêneros: demonstrativo e judiciário. Esta classificação foi aproveitada e estruturada objetivamente por Aristóteles. 

QUESTÕES PRÁTICAS

Para começar, pratique a leitura buscando familiarizar-se melhor com sua voz. Pratique a entonação correta, a impostação, o controle da respiração durante a leitura.

Pratique ensaios no espelho buscando corrigir erros na gesticulação. Utilize as divisões básicas do discurso. Em apresentações pré-agendadas, treine todos os passos. Familiarize-se com o local, com os recursos eletrônicos disponíveis, incluindo o manuseio correto e sua funcionalidade.

João Batista Nunes
Psicólogo Organizacional
Acadêmico do Curso de Direito

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

DEPUTADO PE. ARISTIDES FERREIRA DA CRUZ



Os idos de 1926 no interior do sertão da Paraíba foram marcantes pelos acontecimentos sociais, políticos e religiosos que se desenrolaram de forma pulsante culminando com um final trágico tendo como protagonista a Coluna Prestes e o assassinato de um grupo de cidadãos da conturbada cidade de Piancó, entre as vítimas do massacre seu principal personagem: o Pe. Aristides.

O cenário era tipicamente cristalizado por flagelos históricos reprodutores de uma dura realidade. O interior do Estado era dominado pelas famílias tradicionais, muitas delas com poderes originados no Brasil Império, com ramificações em vários estrados de influencia política. A seca inclemente castigava de forma assoladora com a estiagem prolongada fazendo a vegetação, a estrada empoeirada e as ondas de calor tremulando sobre as pedras, o conjunto desesperançoso. Por todos os lugares o banditismo imperava, com ameaças constantes entre cangaceiros e cabras sob o comando de coronéis das inúmeras seismarias. Era tempo do Presidente da República Epitácio Pessoa, Presidente da Parahyba João Suassuna, Senador Venâncio Neiva e tantos outros expoentes da cena política.

Na Assembleia Legislativa, não poderia passar despercebido o Deputado Padre Aristides, defensor de Piancó. Muito desse personagem foi narrado por Manoel Otaviano no livro "Os Mártires de Piancó" (editora Teone S.A., 1955).

Padre Aristides Ferreira da Cruz, à época dos grandes conflitos sociais, não era de frequentar a imprensa, porque escrevia mal a lingua vernácula; não era de se preocupar com a prosódia de certos vocábulos e muito menos com a correção de frases. Em Piancó, foi pároco por longos anos de intenso trabalho de restruturação da sede da igreja e reformas nas paróquias locais. Foi amigo da família mais tradicional da região e grande força política do sertão, a família Leite, tendo como chefe o Dr. Felizardo Leite.

Depois de algum tempo, rompeu com os Leites prometendo lutar enquanto houvesse força para destroná-los do poder e apagar-lhes os nomes da história política de Piancó. Travaram-se intensos debates e campanhas políticas as mais baixas e infamantes possíveis de ambos os lados. Ora acusado de manter em sua casa grupos de jovens com os quais fazia verdadeiras orgias, ora acusado de desencaminhar uma moça que mantinha em casa e com a qual tivera uma filha, acabou por fim sendo afastado pela Diocese da Paraíba de seus atividades como pároco.

Sentindo-se injustiçado pelas acusações, revolveu oficializar sua relação com a mulher com quem teve quatro filhos. Ocupou seu primeiro mandato como deputado estadual com grande prestígio e apoio de seus correligionários. Mandava empregar seus seguidores na região de Piancó, perseguia tenazmente seus opositores, afastava delegado, prendia, mandava soltar, intervinha nos despachos e decisões do juiz da cidade formulando as próprias sentenças de acordo com as suas próprias conveniências. Não perdia oportunidades, incutia nas mentes dos que eram alvos de sua propaganda que era preciso e urgente acabar de vez com a "velha política do 'eu posso, eu quero e eu mando', a velha oligarquia dos Leites!" Era precisa tornar Piancó livre!

Em Plenário, todos os dias ocupava a tribuna e, mesmo em mal português, muitas vezes arrancava palmas das galerias, por sua verve ferina e respostas oportunas aos adversários, em apartes queimantes. Atingia-os com a força de argumentos convincentes e de sutilezas lógicas, preciso e incisivo como um perito esgrimista. 

Seu slogan era: "amigo meu não peca", seu princípio: "Para inimigos políticos, justiça; para amigos, favores." Linguagem chã, ao sabor do povo menos entendido, criava por vezes, engraçados neologismos. A sua lógica é que não bambeava. Argumentava com firmeza, convicção e destemor, com o indicador em riste, voz limpa e atroante, com todos os dotes de grande orador. Certa vez, rebatendo apartes de seus opositores, no mais aceso dos debates, afirmou: "Em Piancó há somente dois chefes: eu que superintendo os destinos do velho Município sertanejo e Felizardo Leite, oposicionista, que me combate. Não nego e nunca neguei o seu valor político. Já disse a meus amigos que, si eu morrer primeiro, aceitem a sua orientação e não procurem outro alí, porque não existe. Tudo mais é figura de papelão, como este pobre diabo (e apontava para José Parente, um oposicionista representante dos Leites) que é como prego: tem cabeça, mas não tem juízo!"

Depois dessa, um misto de gargalhadas e protestos tumultuaram a sessão, obrigando o presidente a suspendê-la até o restabelecimento da ordem.

A Coluna Prestes era subdividida em vários destacamentos, duramente combatidos pela campanha propagandista do governo central que reunia forças ao longo das marchas pelos sertões para resistir. As cidades eram esvaziadas e ao mesmo tempo, guarnecidas por misto de defensores o que incluía soldados da Política Militar, jagunços de coronéis, pistoleiros de aluguel, cangaceiros e homens comuns que se armavam para a peleja.

Nesse particular da segurança no "Velho Oeste" do interior da Paraíba, vale destacar os esforços do governo de Solon de Lucena e posteriormente o do Dr. João Suassuna, nos idos da década de 1920.

Registra-se que os revolucionários, talvez, não visavam atacar vila, nem cidade sertaneja, nem o itinerário fazia parte daquele perímetro. Porém, imprevistos circunstanciais os levaram a esse rumo. Descendo de São João do Rio do Peixe, acamparam-se como flanco-guarda-esquerda nas proximidades das duas cidades que pretendiam atacar: Patos e Pombal. 

Enquanto isso, o flanco-guarda-direita descia pelo rio Piancó, atravessaram as serras de Boa Vista, Pedra Ferrada e Pitombeira, alimentando-se de carne de cabras.

A 1º de outubro de 1926, sob o comando do Pe. Aristides, guarneciam a vila de Piancó apenas doze soldados e trinta e dois paizanos, todos relativamente municiados.

domingo, 21 de dezembro de 2014

O ESPAÇO DE CADA UM


Fila do caixa do supermercado na sexta-feira à noite. Eis que aparece uma criatura avantajada se dirigindo diretamente a pessoa que já estava sendo atendida, dando a impressão de que estavam juntas. Do contrário, o normal era que obedecesse à fila.

De repente a criatura saca de sua bolsa um celular quadradão desses de múltiplas funções e passa a "conversar", ignorando todos à sua volta. Depois se percebe que a pessoa que estava sendo atendida no caixa não tem qualquer ligação com a intrusa. Ela vai ganhando tempo numa conversa interminável até que olha para trás e sinaliza para uma moça (possivelmente a filha) para que esta traga o carrinho de compras abarrotado de produtos e toma o lugar à frente dos demais.

A menina vai se aproximando timidamente, com um olhar meio que envergonhado, demonstrando claramente que por si jamais faria uma coisa dessa. Com a ajuda da figura que persiste em esfregar o celular na orelha, com total desprezo pelo que estão na fila, enfia o carro e vai passando os produtos, tudo isso sem largar o maldito celular.

Diante dessa cena, não há como deixar de refletir no como o mundo seria infinitamente melhor se cada pessoa respeitasse o espaço do outro em todos os sentidos, não apenas na fila de um supermercado, mas em cada detalhe que costumamos nos esquecer em nosso cotidiano.

Nas relações de tralhado, as implicações quase que desapareceriam, o colega do escritório tem seu espaço que lhe é devido e merece ser respeitado; a esposa, o marido, o filho, o colega da escola, todos têm seus espaços.

O espaço da convivialidade se divide em aquilo que representa o meu espaço e o espaço do outro. Ambos os espaços são delimitados explicitamente por normas de convivência, escritas ou convencionadas; como também implicitamente o que exigirá de uma pessoa sensata apenas acessar os recursos da lógica e obviamente, do bom senso, do bom siso para se portar de forma harmoniosa e edificante.

Vale dizer que o espaço social sendo dinâmico e marcado profundamente pelo interacionismo, ganhará mais espaço aquele ou aquela que cultivar a discrição, o respeito ao próximo, sobretudo na leitura inteligente dos limites impostos, demarcadores que indicam até onde podemos ir e quando podemos fazer ou deixar de fazer alguma intervenção pessoal. 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

PROBLEMA OU SOLUÇÃO?




Toda vez que percebemos uma necessidade de mudança ou de uma ação motivada por um desconforto, nos vemos diante do impulso de achar um caminho para essa mudança.

A mudança implica em desconforto imediato, saída da zona de conforto de indivíduos e organizações. A mudança é o problema, o caminho é a solução. Achar esse caminho, essa solução é, certamente, um processo puro de aprendizado.

Esse processo, quando sistematizado, traz a certeza do aprimoramento dos passos para a solução de possíveis problemas futuros. O significado coloquial da palavra cria conotações problemáticas. Entendemos o termo problema como a identificação de uma oportunidade para o aprendizado e para o aprimoramento. Nesse enfoque, problema deve ser visto como algo positivo. Quem tem muitos problemas está cheio de oportunidades de aprender e de melhorar. Isso é que é otimismo, já que problema é o resultado indesejável de um processo.

O problema é uma ponte para inovar, criar novas oportunidades e expandir novos negócios. Quem cria oportunidades é criador de problemas? Esse é um ponto interessante para a reflexão dos gestores que veem certas oportunidades de aprimoramento como ameaças a seu status quo.

Todos os processos devem realimentar-se de informações, tendo como objetivo sempre seu próprio aprimoramento. Cada processo possui uma fase de controle, na qual é verificada a conformidade entre o planejado e o executado. Nessa fase, a variabilidade de um processo é mantida dentro de limites predeterminados e diz-se que o processo está sob controle.

Em muitas obras voltadas para a qualidade, são feitas referências às sete ferramentas da qualidade e também às sete ferramentas gerenciais para a qualidade – sete novas. Esses dois conjuntos de técnicas são muito importantes para a sistematização e para o aprimoramento dos processos de aprendizado.

Esses dois conjuntos de técnicas, com todas as suas variações têm sido responsáveis pelo real aumento da capacidade das pessoas em transformar seus achismos em fatos e dados, suas incertezas em confiança provendo a base para a tomada de decisão adequada em cada processo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

FILHOS DESTE SOLO



Pobre Lindoval. Pode-se dizer um homem desaventurado. Um tipo de mistura de negro com índio. Não sabe ler nem escrever. Para ele pouco interessa se o presidente Collor sofrerá um impeachment ou se o sumiço do constituinte Ulysses Guimarães foi ou não acidente fortuito.

Na verdade, o que interessava a Lindoval era vender os papelotes de maconha, tirar o seu que é sagrado e consumir o tempo sentado num elevado que existe numa rua de esquina com o alto do  bairro periférico onde nasceu e sempre viveu. 

A mãe era lavadeira de roupa conceituada em casa de patrões ricos. Frenquentava mais a irmã o The Salvation Army, instituição religiosa e filantrópica, criada em 1865 pelo reverendo Willian Booth em East And, Londres, Inglaterra. A pobreza sempre achou guarida nessa denominação. Periodicamente as fábricas de laticínios da Suíssa enviavam latas de cinco quilos de leite em pó e queijo da melhor qualidade em barras de 500 gramas para ser distribuída pelos membros mais pobres e inscritos que viviam na extrema pobreza.

Lindoval gozava dessa "salvação", pois a mãe sempre dava partes generosas de leite e queijo para alegria dos netos que em pouco tempo passaram de desnutridos esmilinguidos para cabeçudos e barrigudos. Nesse sentido, a vida era um sossego. A mulher ficava fielmente as tardes se inteirando de todos os assuntos corriqueiros da vizinhança (quem traiu quem, quem foi preso, quem morreu, quem foi para São Paulo etc.) mais um grupilho de mulheres igualmente desocupadas com seus filhos ora amamentando ora batendo neles para pararem de berrar.

Quando uma descuidava do marido, já era! A outra, geralmente a amiga mais próxima virava tema da tarde posterior. Mas Lindoval, sempre estava ritualisticamente no mesmo lugar, atento e operante, junto a uns amigos seus, uns caras com feições sombrias e desconfiadas.

A Polícia que não era nada besta, aqui e acolá surpreendia a turma (sob a alegação de atitudes suspeitas). A viatura apontava lá em baixo, parando de vagarinho... Mas os soldados já estavam com arma um punho enquadrando-os contra a parede. Não encontrando nada que valesse uma "carona" para a Central, para não perder o esforço tático, dava pelo menos uns tapas, gritando ao pé d'ouvido: "Vão trabalhar vagabundos! Ladrões safados, tamo ligado em vocês!"

Era sabido que vez por outra um ladrão caia nas mãos do inspetor do bairro. Um agente da lei que descia o cacete nos espinhaços do infeliz, deixando-o dias na salmora para se recuperar e nunca mais roubar qualquer morador da comunidade. Ele tinha como instrumento de trabalho um revolver calibre 38, mais o preferido era o velho e conhecido cipó de boi.

Para manter a ordem social, ao arruaceiro, descuidista, bêbado, tarado, ladrão, rapariga, bastava mencionar o ditoso "cipó de boi" para todos os astutos intentos perderem a força motivacional. Tinha ladrão que levava uma televisão daquelas grandes e pesadas de uma casa pela madrugada. Quando o relógio batia 10 horas, ele mesmo vinha devolver e se desculpar com o legítimo dono.

Continuando, Lindoval, aos domingos tinha agenda certa e determinada: o campo de pelada do bairro, bastante concorrido. Tinha os moleques vendedores de Dim-dim, pastel, um fiteiro volante de caroça de mão, onde se vendia refresco e geladinho (gelo ralado na hora com corantes diversos) e, uma cachaça braba daquelas que o cabra toma de um gole só, sem fazer careta. E, umas "doninhas do ramo" que, não sei porque vendiam mais que os outros.

A turma que frequentava o jogo era eclética. Tinha gente de bem, pai de família, trabalhador, honesto. Mas não se pode esconder o fato de que a turma da pesada era fiel. As brigas eram constantes nas decisões "mal interpretadas pelo juiz". Nessa hora, a bala cobria e a poeira levantava sem se saber exatamente quem atirou. Nos dias mais fracos, a coisa se resolvia na faca mesmo. Bastava um jogador chamar o outro do tradicional "Filho de..." que o risca faca cantava no bucho de alguém.

Num desses jogos, debaixo de um sol quente de rachar cuca, decididamente era o dia em que Lindoval deveria estar em todo o lugar, menos no campo. 

Não se sabe se foi o escorão ou o bafejar de um palavrão, o oponente abandonou o jogo de imediato em direção à sua mochila de pano com a estampa do Flamengo e arrancou-se de lá com a fúria de um touro descontrolado daqueles que vez por outra atravessa com os chifres o corpo de um besta nas ruelas da Espanha! 

À sua mão ele trazia reluzente pela força do sol uma faca peixeira com endereço certo: o bucho de Lindoval. Nessa hora todos ficam parados vendo o desenrolar do fato. Quem vai se meter num assunto desses? O cara com os olhos vermelhos como o Príncipe das Trevas, rosnando palavras de ira incontida, voou direto na "boca do estômago" do desaventurado Lindoval! 

Foi uma rasgada tão metódica, retilínea, um trabalho preciso de deixar esses estudantezinhos de medicina com nota baixa nesse item. A coisa foi feia. Feia mesmo. As tripas saltaram do bucho!

Lá vem os companheiros de Lindoval descendo a ladeira, trazendo-o numa carroça de mão às pressas para parar algum carro ou chamar um taxi para tentar salvar sua vida.

Lindoval estava firme. Queria viver a todo custo! Ele mesmo colocou as tripas de volta ao intestino e fazia pressão com as mãos para conter a abertura. Depois de um mês no hospital, lá vem o homem com uma tatuagem pegando toda a extensão do bucho, num formato de dragão Chinês.

Ele utilizou o tempo de repouso para se interiorizar. Foi a passos contidos para a Igreja Assembleia de Deus, cumprimentava os irmãos com a paz do Senhor, cantava os hinos da harpa cristã e por isso sua mãe chorava de alegria. 

Quando se recuperou de todo, deixou de jogar por motivos óbvios, nunca mais foi à igreja e a maconhazinha de lei voltou a fazer parte de seu vida. 

Mas de tanto a pessoa ficar ociosa, e as conversas perderem a novidade, Lindoval revolveu enfiar-se com outra mulher, a vizinha. Umazinha de 17 anos, mãe de três filhos que estava meio que intrigada com o marido, um branquelo lavador de carro.

Nas conversas trocadas entre as próprias mulheres, o caso amoroso de Lindoval  entrou na pauta, acidentalmente, já que a principal interessada no assunto estava presente. Ela simplesmente retirou-se sem dar uma palavra para as pareceiras. Riram-se dela, é claro. Aquela gente que também tinham histórias semelhantes, mas sempre se esquecem e gozam das novas vítimas. 

A noite caiu. O bairro foi aos poucos adormecendo. Lindoval ainda saboreando a volúpia daquela outra mulher, também foi-se entregando a um sono gostoso e tranquilo. De madrugada sentiu umas mãos despindo-o. Era a criatura de sempre, sua mulher. Resolveu se manter como que dormindo, para ver até que ponto aquela ação iria e que reações produziriam.

De repente aquelas mãos pararam. E ele na expectativa... A mulher tomada de grande cólera, despeja sobre o corpo nu de Lindoval uma panela de água fervente. Foi uma dor que arrancou um berro dos mais altos, jamais vistos no bairro. Mais uma vez, lá vai Lindoval para o hospital com parte do corpo seriamente comprometida pelo dano.

Retornando para sua casa, já quase curado de todo, não sente mais nenhum desejo de olhar para a outra, nem dirigir um "bom dia ou boa tarde", e se acontecer mais uma tragédia em sua vida será capaz de abandonar a maconha e virar crente, em definitivo. 

João Batista Nunes
Psicólogo Organizacional,
Pós-graduando em Gestão de Recursos Humanos
e acadêmico de Direito.