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quarta-feira, 17 de julho de 2019

A CHEGADA DO CIRCO NO JEREMIAS



O Bairro do Jeremias em Campina Grande possuía, à época, uma população de quase 11 mil habitantes, ruas íngremes, ladeiras esburacadas, paisagens monocromáticas, mães e meninos barrigudos a observar o acontecer de cada dia, a prestanista Dona Severina passando com suas bacias, panelas de pressão, jogos de lenções e penicos de plástico, tudo em suáveis prestações no cartão (literalmente um cartão róseo de papelão onde se notava a quitação das quinzenas), a carvoaria de Seu Pretim dava uma ideia que o tempo tinha se esquecido de passar naquela região da cidade. 

A missa dos domingos, as novenas, os cultos na igreja dos crentes, a difusora de Laura de Chico Venâncio e o jogo no campo do Galícia era o que se tinha como agenda familiar. Se bem, que em certos dias, o arrasta pé do forró da SAB (Sociedade de Amigos do Bairro) era o máximo. 
Mas aqui e acolá uma moça era desencaminhada por algum sujeito sem compromisso, o forró acabava com um corre-corre, o fi de Seu Chico Cangula enfiou a faca no buxo de um cabra que se estrebuchava no chão do salão. No final, não tinha quem dissesse quem foi ou quem não foi o autor do crime.

Para a molecada a coisa mudava de feição sempre que aparecia um parque de diversão com aquelas mesmas opções de sempre sendo que parecia ser uma novidade. Seu Jorge da Palmeira, pai de Miguel tinha um. Com tiro ao alvo, com chumbinhos que ninguém acertava, com o lança argolas com direito a vários brindes, o carrossel com os cavalinhos pintados de cores diferentes e a roda gigante que dava aquele friozão na barriga cada vez que parava no alto. Para quem ia prevenido no bolso, tinha a barraca da maçã do amor (aquelas caramelizadas), a barraca das roletas de cana, a barraca da batatinha frita, feita com aquele óleo reutilizado de tantas e tantas outras frituras, e o homem do carrinho de pipoca. 

Dava para se ver que poucas pessoas com seus filhos realmente usufruíam daquelas opções de lazer e entretenimento. Não importava, assim mesmo o parque se enchia de gente miúda achando o máximo simplesmente em estar transitando por aquele espaço tão colorido e iluminado por aquelas fios intercalando as lâmpadas que ao longe dava a ideia de um lugar aonde a diversão não teria fim. 

Ali era o lugar onde não apenas a gurizada deixava fruir alegrias como os próprios adultos, pais, mães e tios não se continham e a pretexto de acompanharem as crianças esbanjavam emoções há muito represadas.
Quando menos se dava fé, o parque já não estava lá, apenas o espaço vazio dentro daquela imagem que compunha a feirinha do bairro.

O bairro era outra vez sacudido com as trombetas difusoras da velha Chevrolet anunciadas, na voz do palhaço, que o Circo acabara de chegar para alegria de todas as crianças. Confeitos arremessados ao ar para o atropelo alvoraçado de um grupo de crianças que vinham correndo atrás do carro. eram o mote da chamada às atrações “inéditas” prometidas para a “grande estreia!!!”

Enquanto o palhaço no calor intenso da manhã ensolarada descia e subia as ladeiras do bairro, o fumaceiro do cano de escape de um motor já vencido pelo desgaste criava uma espécie de névoa tóxica que se misturava as cabeças da gurizada teimosa em seguir aquele carro.

O Circo era aquela estrutura mediana, coberta com uma lona amarela e azul, com algumas estrelas brancas espalhadas no alto. Rodeado por grades de ferro que davam para duas bilheterias borboletas giratórias, um ônibus onde se alojavam os artistas e demais trabalhadores, dois carros de pequeno porte, um caminhão já sofrido, e o espetacular ônibus da “Monga”, a mulher que se transformava em gorila. 

Tudo aquilo gerava uma atmosfera de mistério. A pintura do ônibus apresentava uma mulher mal desenhada, de biquíni, e perto dela a imagem de um gorila com ares de violenta ameaça. E um letreiro bem destacado: “Monga”, no espaço a baixo, em letras menores, a “Mulher Gorila.” 

Muita gente que não podia pagar o ingresso se assustava somente com os grunhidos emitidos naquele ônibus do medo. As crianças chegavam a ter pesadelos com aquelas imagens que se formavam na mente. No clímax do espetáculo, o Gorila que agora já não tinha mais nenhuma mínima expressão do humano que ainda pouca esboçava um rosto feminino, sacodia a grade que o separava do pequeno público e tentava se sair furioso em direção as pessoas, mais um ou dois sustos uma cortina preta de uma lado e do outro vermelha fechava a parte que separava os dois ambientes dentro do velho ônibus.

Na parte do picadeiro, dentro do circo propriamente, as brincadeiras de palhaços tomava conta. Eram números simplórios e repetitivos que arrancavam sorrisos e aplausos da plateia, geralmente com atuações de situações atrapalhadas, revides, deita e rola, performances de gesticulações e malabarismos davam o tom da parte inicial da noite de estreia. 

Depois vinha o mágico com seus truques mirabolantes, nada de mulher que era cerrada ou que desaparecia, nem coelho na cartola. Era tudo muito simples como retirar das mangas da camisa uma série de lenços coloridos, uma pequena exibição pirotécnica restrita ao espaço de uma pequena bancada, para fazer sumir um objeto e convidar alguém da plateia (já treinado para tal, sem ninguém saber, é claro!) e esse mesmo objeto aparecer em seu bolso.

O trapézio era um dos pontos máximos. Uma mulher de biquíni revestido com lantejoulas brilhantes executava algumas manobras que iam atingindo um grau de dificuldade e prendia os olhares da plateia nas piruetas que dava. Em sequencia, a corda bamba e a perícia de uma artista com seu bastão, indo e vindo encenando ao longo do trajeto algum movimento que desse a ideia de que iria cair naquele momento.

Não havia animais, como poderia ter pelo menos um leão aposentado daqueles que são vendidos dos circos de grande porte. No caso desses circos que vão de bairro a bairro, o custo de manutenção comprometeria a subsistência dos trabalhadores. Afinal, ser artista circense em dias como aqueles não era fácil nem rendia dinheiro. Os que se dão a promover o sorriso de uma plateia geralmente tende a percorrer um caminho de desafios permeado muitas vezes de tristezas e dissabores.

Nos últimos dias do circo no bairro, aquele mesmo carro passava chamando a população para a despedida do “grande circo” e por isso os ingressos custariam a metade do preço normal, ninguém podia faltar! Desta vez nem tinha o lançar dos bombons muito menos o alvoroço das crianças, apenas os gritos do anunciador.

As últimas noites eram lotadas, o que muitos não sabiam era que as apresentações também eram pela metade. Contudo, o prazer de viver um ambiente diferente de entretenimento para tantos expectadores valia a pena.

Por João B Nunes
Formado em psicologia e acadêmico de direito.

sábado, 18 de outubro de 2014

ZEZIM


Zezim foi um galego, meio loiro, que morava no Bairro do Jeremias, no alto da Rua São Gonçalo em época não muito distante da nossa. Seus pais passavam o dia consumindo cachaça na bodega mais próxima o que ganhavam durante à noite. Eram catadores de lixo. A casa deles era bastante precária, a começar pelo acesso, uma escadaria íngreme, de barro escorregadio. 

Era uma vida dura, cheia de lamúria e de soluços pelos vãos da casa, suspiros das lembranças de outrora no Rio de Janeiro, donde a mãe teria vindo e aqui, juntou-se com o homem que se tornou padastro de Zezim.

Dava para se vê que aquele sujeito não poderia ser o pai de Zezim. Embora pacato, econômico nas palavras até quando estava ébrio, não tinha nada que se pudesse compará a ambos. Zezim tinha de 15 para 16 anos mas era um rapagão, de compleição física avantajada. Não bebia nem fumava. Nunca deu uma tragada de maconha nem roubou. 

Era esse rapaz um analfabeto na absoluta acepção do termo. Não sabendo ler nem escrever, trabalhava desde cedo como engraxate. 

Podia-se concluir que daquela familiar nuclear, era impossível uma convivência harmônica entre os três entes. Não pela pobreza das condições, mas sim pela ambiência conflitante que fazia o rapaz murmurar seu desejo de retornar para o "Ri-de-janeiro", donde nunca deveria ter saído.

Não sucumbia mentalmente por conta do trabalho. De segunda à sábado, engraxante; nos domingos, pelos bares, tanto de Campina quanto de João Pessoa, tocaiante de carros. Nas tardes que se dava ao prazer de ir ao Colégio Estadual da Paraíba, para na última esquina, aguardar uma estudante que se impressionou com seu porte, para tentar convencê-la ao namoro, era um momento sublime.

Se a coisa estivesse difícil e lhe faltasse recursos suficientes para o almoço ou jantar, recorria ao Restaurante Universitário da UEPB, na Av. Getúlio Vargas. O pagamento é claro: tinha que engraxar os sapatos dos cozinheiros, velhos fregueses dessa jovem batalhador.


Vangloriava-se de ter conhecido as belas praias de Natal, João Pessoa, Recife, mas queria mesmo era poder voltar para o Rio.

Zezim é um excelente exemplo de ingenuidade. Aliás, de uma ingenuidade que nunca morreu em determinadas pessoas, não importando o tempo em que elas vivam. 

Voltou, meio que de repente, para o Rio. Poucos meses depois retorna diferente. Lá conhecera uma mulher com quem manteve um breve romance. Ela, portadora do HIV, faleceu. Ele, retornou para seu lar no Jeremias, na sua velha cidade, Campina Grande. Cá, foi de pronto internado no Hospital Universitário. 

Qualquer conhecido que vagasse pelos corredores daquele hospital, naquela ala "específica" e o encontrasse ali, acompanhado de sua mãe, escondendo as lágrimas era dito: Zezim está com pneumonia, coisa passageira. Logo estará de volta ao trabalho! Que nada! Zezim estava entrando na fase terminal, vencido pela AIDS.

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RITINHA PARTEIRA

A DIFUSORA DE LAURA

segunda-feira, 3 de março de 2014

RITINHA PARTEIRA


Lá pelos idos de 1980, no alto do Jeremias¹, Rua São Cosme, morava Dona Ritinha, viúva. Mãe de Genaro e Madalena. Ritinha podia ser considerada também, mãe de inúmeros filhos. Ela era parteira, daquelas tradicionais, com apurado olho clínico e vasta experiência em trazer à luz, a qualquer hora que fossem requisitados seus serviços.

Madalena teve dois filhos, De Assis e Edjane. O primeiro deu para ladrão e assaltante, cujas recorrências eram conhecidas pelo Comissário de Polícia do Bairro, Sargento Joca; Já Edjane, desencaminhou-se com um velho enxerido, torneiro mecânico daquelas oficinas perto do Quartel do Exército, que lhe pagava algumas moedas para apalpa-la nas partes íntimas. Depois, passou a ganhar algum dinheiro a mais como rapariga. 

Tanto Madalena, enfermeira, quanto Edjane, sua filha e neta de Dona Ritinha, foram morar definitivamente no Rio de Janeiro, deixando para trás, De Assis, preso da Cadeia de Monte Santo².

Dona Ritinha, já com cabelos brancos, entrou para lei dos crentes. Podia-se encontrá-la na igrejinha da Assembleia de Deus, distante apenas três casas de onde morava.

Sempre que saia de casa era comum transeuntes de todas as cores, aqui e acolá, cumprimentarem-na com a expressão: "Benção, mãe!"

Eram os "filhos e filhas" de Dona Ritinha. 

Quando em altas horas da madrugada um moleque trazia o recado de urgência (não tinha celular, nem telefone público, daqueles azuis da Telpa, com fichinhas cinzas) em relação à Dona Ritinha era sempre caso de mulher prenha³ em vias de parir4. Ao que, de presto, era atendido. 

Ao chegar, com dificuldades pelo péssimo estado das ruas esburacadas e lamacentas do Jeremias (à época), com pouca ou nenhuma iluminação à noite, passava a examinar a barriguda aflita. "-Fique calma, mulher! Esse menino só vai nascer amanhã pela tardinha!" 

Tal como Dona Ritinha previra, acontecia! E logo era trazido ao mundo dos viventes mais um ser inocente para ser moldado pelo meio que o envolvia.

Dona Ritinha morreu já bastante velha e cansada de seus dias, numa casa onde morava com seu filho Genaro, na Rua Isabel Cristina Barbosa Dias, Conjunto Promorar, Bairro do Jeremias. Quanto aos serviços de parteiras, nessa mesma localidade, as gestantes, nas necessidades urgentes da gravidez, apelam logo para o SAMU e Maternidade Dr. Elpídio de Almeida.

Sobre: De acordo com o DATASUS, no Brasil são realizados, em média, 41 mil partos domiciliares por parteiras tradicionais, principalmente nas Regiões Norte e Nordeste. Elas estão desaparecendo aos poucos, sem sucessoras, mas ainda são bastante ativas nas áreas mais remotas e inacessíveis.   


João B Nunes
Psicólogo e Acadêmico do Curso de Direito

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¹ Bairro do Jeremias, Zona Norte da cidade de Campina Grande, Estado da Paraíba. Bairro periférico, com histórico de vulnerabilidade social. O terceiro bairro mais antigo da cidade, originado a partir da ocupação de terrenos (década de 1920, mais ou menos) de um sítio pertencente ao Sr. Jeremias, que morava no principal acesso, à época, Rua XV de Novembro. Todos os domingos, pela manhã, no final de cada mês, a viúva de Seu Jeremias, passava pelas casas cobrando o "foro", um tipo de imposto do tempo Imperial que os herdeiros de terras praticavam em relação aos ocupantes;
² Bairro do Monte Santo, Zona Norte, limite com o Jeremias;
³ Mulher prenhe ou prenha era expressão de uso corrente em muitos dos interiores nordestinos para dizer que tal mulher estava grávida;
4 Parir: Dar à luz/parturiente.